15 de ago de 2010

Pesquisa escolar - 2


Proposta da professora: "Pesquise, recorte e cole 5 figuras de animais úteis e 5 de animais nocivos. Faça uma frase para cada animal.".
Muito bem, eu estava novamente envolvido num trabalho escolar de Yasmin, com ela ao meu lado no sofá, folheando revistas e jornais. As revistas disponíveis eram a Domingo, do JB: moda, culinária e por aí. Nada do que precisávamos. Outras revistas eu não tinha. A muito custo conseguimos as figuras de um cachorrinho de madame, um cavalo gaiato e dois camarões petistas (acho). Tive de descartar a figura de uma galinha por ser muito grande, incompatível com o espaço de colagem (outra dificuldade nessas horas: a escala).
E eu já estava irritado com tanto papel espalhado pelo chão e a impossibilidade de um final feliz na pesquisa. E maldizendo a professora.
Resolvi:
- Se não temos figuras para recortar e colar, vamos desenhá-las.
E Yasmin desenhou.

Foi divertidíssimo, para ela e para mim, inclusive na elaboração das frases correspondentes a cada animal. Ei-las:


"O cão é o melhor amigo do homem". (o pitbul também?)
"O cavalo ajuda o homem" (o gaiato da figura acima, duvido!)
"O camarão é bonito". (então por que alguns homens dizem: camarão é a mãe!?)
"A galinha dá ovo e pintinho". (e uma boa canja!)
"A abelha dá mel e é peluda". (e apesar de trabalhadeira, faz muita cera!)
"O mosquito faz zzzzzzzzzzzz e pica". (eu só não pico)
"A cobra é venenosa". (como certas pessoas)
"O rato traz doença". (alguns levam os nossos pertences!)
"A barata é porca". (mas a porca não é barata)
"A mosca também". (já pensou, uma porca cair na sua sopa?)

Me senti redimido em relação a outra pesquisa da qual participei de modo não adequado e cujo relato pode ser lido neste espaço. Mas continuo de pé atrás com pesquisas para crianças tão pequenas.

Obs: Os comentários entre parênteses não são de autoria de Yasmin e, obviamente, não fizeram parte do trabalho escolar.


Agosto de 2010
(Revisado em 23/04/2011)

1 de ago de 2010

Trabalho e dignidade


Dizem que o trabalho dignifica o homem; eu sempre acreditei nisso e continuo acreditando.
Vou contar-lhes uma história, em resumidas linhas, uma história de trabalho e dignidade. Li-a em alguma publicação que não lembro mais e recentemente relembrei-a assistindo na TV por assinatura ao filme de Geraldo Sarno, de 1978, estrelado por Rubens de Falco: Coronel Delmiro Gouveia.
Não era um "coronel" daqueles da oligarquia nordestina, vinha de baixo e trabalhou muito. Enriqueceu. Pode-se dizer que foi um representante do que se costuma designar por self made man. E pensava grande. Elaborou um plano para construir uma hidrelétrica no rio São Francisco, na altura das cachoeiras de Paulo Afonso, com a qual pretendia eletrificar Pernambuco. Os políticos, que já tinham um pé atrás, desconfiaram de tão ambicioso plano e não lhe deram apoio. Delmiro construiu então uma pequena hidrelétrica, a qual abastecia a fábrica de linhas e a vila operária correspondente, obras suas também. O produto, de ótima qualidade e mais barato que o importado da Inglaterra (linhas Corrente), conquistou o mercado brasileiro e parte da América Latina. Após a guerra, os ingleses mandaram emissários propor sociedade ou a compra da fábrica. Delmiro não cedeu. Morreu a tiros – um assassinato cuja autoria jamais foi esclarecida! Anos mais tarde, seus herdeiros venderam a fábrica aos ingleses, que mandaram destruí-la a marretadas e jogar seus destroços no São Francisco.
A biografia de Delmiro é uma saga de trabalho e realizações e também de responsabilidade social. E por isso mesmo, de perseguições políticas. Ele viveu fora de sua época. Não tenho, porém, a pretensão de contar aqui a sua história. Quem se interessar, procure o filme de Geraldo Sarno.
Quero sim, contar uma história singela, mas emblemática, a ele atribuída e com certeza verdadeira.
Um sertanejo pediu ajuda a Delmiro: queria um emprego. O coronel não tinha vaga para lhe oferecer, mas não o desamparou. Deu-lhe um emprego. O trabalho consistia em juntar todas as pedras encontradas em suas terras, em pequenos montes, para uso posterior; em suma, limpar a fazenda. Delmiro inventara esse "trabalho" para ajudar o sertanejo. Não lhe deu esmola, que avilta, mas trabalho, que dignifica!
O exemplo de Delmiro anda esquecido, mas bem que poderia ser reabilitado. O que fazer neste Brasil é que não falta. E nem precisa recorrer ao expediente extremo de Delmiro. Mas dar esmola é mais fácil e proveitoso!

 
Agosto de 2010