16 de nov de 2011

Por mares nunca de antes navegados


Consequente ao tema da página anterior e para dar-lhe ilustração adequada, transcrevo nesta algumas estrofes de Os Lusíadas, de Camões, precisamente aquelas em que Vasco da Gama descreve a visão do Gigante Adamastor, em sua crônica ao rei de Melinde.

XXIX
Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.
XL
Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.
XLI
E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho;
XLII
Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou imortal merecimento,
............................................................


















Indagado por Gama de sua identidade, o monstro responde:

Eu sou aquele oculto e grande cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Polo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende!

Fernando Pessoa, em seu poema épico Mensagem, também cria um monstro, não para personificar um acidente geográfico, mas o próprio mar tenebroso, o longe desconhecido...

O mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo,
"El-rei dom João segundo!"

"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?"
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
"Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e disse,
"El-rei dom João Segundo!"

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De el-rei dom João Segundo!"

E Mensagem termina com estes versos:


Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

13 de nov de 2011

O gigante do mar tenebroso


Fiz recentemente um curso de extensão sobre a poesia de Fernando Pessoa no Real Gabinete Português de Leitura: "FERNANDO PESSOA RELIDO NO REAL". Não lhes falarei da simplicidade complexa do poeta, de sua multiplicidade una, de sua angústia existencial ou de seus versos... Até porque me faltaria capacidade para tal. Falarei de outra história, relembrada durante o curso, quando uma das conferencistas mencionou um fato banal, mas intrigante, e que também lhes contarei, por ser correlato à história que vou contar.
Um dia, faz muito tempo, as minhas sobrinhas Glória e Rosa ainda eram Glorinha e Rosinha, estava eu conversando com o pai delas, o José (que Deus o tenha), no bairro de São Francisco.
Dizia o José das coisas da Terrinha, das glórias passadas e dos perigos; da saga das navegações e do vencer o Cabo das Tormentas, no extremo sul da África. Relembrando, se para tanto não me falha a memória, o cabo foi descoberto e dobrado por Bartolomeu Dias, que ao explorar a costa ocidental da África foi surpreendido por violenta tempestade e levado ao largo no mar tenebroso, perdido. Ao reencontrar a costa, já estava do outro lado da África e, retornando, por imposição de marujos revoltosos, descobriu e nomeou o perigoso acidente geográfico, depois renomeado por D. João II para Cabo da Boa Esperança. Este feito foi essencial à saga do Gama.
Mas voltemos ao que dizia o meu cunhado.
Naquele tempo havia monstros no mar, e ao fim da África um gigante horrendo revoltava as águas e engolia as caravelas, impedindo-as de ir além: era o Gigante Adamastor. Os portugueses de Vasco da Gama passaram, à revelia do monstro, e completaram a gloriosa aventura. Não posso garantir que estas foram as palavras exatas do meu cunhado, mas esta foi a essência do seu discurso. Ele acreditava, sim, nos monstros e no Gigante Adamastor!
Percebi a sinceridade, a convicção de verdade na fala do meu cunhado e não tive coragem para contrapor-me ao que dizia. Não questionei, não argumentei; ouvi apenas.
Durante algum tempo pensei no caso. Como um português, do interior embora, pôde ter crescido com uma concepção tão fantasiosa da história e da geografia? Tomar por real uma fantasia poética criada por Camões para representar o Cabo Tormentório, a essa altura já da Boa Esperança, no seu poema épico "Os Lusíadas". Uma deficiência da escola básica, mormente as do interior? Leitura errônea, sem assistência, do épico camoniano? A força da tradição, que reconta as histórias de boca a boca, talvez já do princípio equivocadas, e sujeita a truncamentos, omissões e acréscimos, sem a menor possibilidade de corrigir-se? A magia de um passado glorioso? Não sei... Talvez um pouco de tudo isso...
Quaisquer que tenham sido as causas, porém, sempre pensei tratar-se de um caso pontual, não generalizado, nada mais...
Agora vamos à história ouvida no Real Gabinete.
Numa de suas viagens a Portugal, a conferencista ficou a ver televisão no hotel, por não ter o que fazer no fim de semana. Era um programa de auditório, um desses concursos de perguntas e respostas com prêmios aos vencedores, comandado pelo "Sílvio Santos de lá". Além dos candidatos a responder, havia um grupo de crianças que tentariam responder quando o candidato falhasse. O tema era geografia. O animador perguntou: Qual o nome do acidente geográfico localizado no extremo sul da África? O candidato não soube responder e uma criança imediatamente levantou o braço e disse: Gigante Adamastor!
E agora, José?... E agora, leitor?... Não é, como eu pensava, um fato isolado em algures do interior; mais de três quartos de século depois da educação equivocada do meu cunhado José, o fenômeno ainda persiste. Em Lisboa! Pelo visto a questão é muito mais séria e nem Camões suspeitaria que sua obra penetrasse tão fundo na alma portuguesa.
Mas se recordar é viver, não seria melhor recordar as glórias passadas, intensificadas poeticamente por Camões com figuras míticas, a encarar a realidade baça da terra, que é Portugal a entristecer, como nos diz Fernando Pessoa?


12 de nov de 2011

POEMINHA SEM MÉTRICA, SEM RIMA E SEM VERGONHA



PRIMEIRO LEVARAM A CAPITAL
(ESTAVA NA CONSTITUIÇÃO)
DEPOIS LEVARAM O ICMS DO PETRÓLEO
(NÃO ESTAVA, MAS FOI ACORDADO NA CONSTITUIÇÃO DE 1988)
AGORA QUEREM LEVAR OS ROYALTIES DO PETRÓLEO
(A CONSTITUIÇÃO DIZ QUE SÃO DA REGIÃO PRODUTORA)
PAREM DE SACANEAR O RIO DE JANEIRO!
É COVARDIA!
(24 ESTADOS CONTRA 2)
É INCOERÊNCIA REGULATÓRIA
(E O FERRO, O MANGANÊS, O ALUMÍNIO, O COBRE, ETC , NÃO ENTRAM NA DANÇA?)
É INJUSTIÇA!
(NÃO SERIA SE TODOS OS MINERAIS ENTRASSEM NA REGRA; NESTE CASO NÃO SERIAM 24 CONTRA 2, NÃO SERIA INCOERENTE NEM COVARDE)
É ROUBO!
(FACE AO EXPOSTO, O QUE PODE SER, SENÃO ROUBO?)
POR QUE FAZEM ISTO COM O RIO DE JANEIRO?
SERÁ QUE É PORQUE NÃO PODEM ROUBAR A SUA BELEZA SEM PAR?

(Quem quiser relembrar toda esta questão pode fazê-lo nas 4 crônicas de março de 2010: "Vô Tônico indignado - 2", "Da Candelária à Cinelândia", "Chupa essa manga, candidato" e "Chupa essa manga, companheiro".)

9 de nov de 2011

No que dá frequentar sebos


Faz poucos dias comprei um livro (que novidade!) numa feira de sebos na Rua da Alfândega: Estilística da Língua Portuguesa, de M. Rodrigues Lapa, Livraria Acadêmica, 4ª edição, 1965. Paguei R$ 1,00!
O autor, creio ser português e não sei se ainda vive. O conteúdo, como o título indica, trata do estilo ao escrever, dos processos da linguagem, dos arranjos das palavras e da expressividade maior ou menor dos vocábulos, dependendo do arranjo que se faça. Tenho certeza que o livro será bem mais valioso, para mim, que agora vivo metido a escrever, do que o preço pago.
Mas não quero falar-lhes de estilo, cada um tem o seu, embora seja sempre possível e desejável melhorá-lo. Quero falar-lhes de outra coisa, ao final estilo também, senão literário, estilo político. Quero falar-lhes do estilo do politicamente correto, quando envolve o uso de palavras.
De uns tempos para cá tenho ouvido pessoas dizerem comunidade em substituição ao antigo e expressivo favela. O que é comunidade? Numa de suas acepções, conjunto de habitações e seus habitantes num determinado espaço geográfico. Neste sentido Marechal Hermes é uma comunidade, assim como Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, São Gonçalo, Icaraí, Rocinha, Mangueira, Vila Kenedy, Cidade de Deus... Tudo é comunidade! O termo é por demais amplo, geral, abstrato e intelectual. E por dizer tudo, nada diz, ou quase nada! É um substantivo pouco ou nada expressivo.
favela é quase um adjetivo. Quando penso ou falo o substantivo favela, embutidos no termo vêm vários qualificativos: favela é um lugar de habitações precárias, carente de saneamento básico, de serviços e equipamentos públicos, de segurança...; reduto de bandos criminosos e, por conseguinte lugar de violência e medo; e traz em si, até, um pouco da história do nosso Nordeste, que meus esclarecidos leitores conhecem bem, e que só vou aqui mencionar em favor dos meus leitores de além-mar.
Favela é uma leguminosa silvestre, abundante outrora no Morro da Favela, lugar onde o beato Antonio Conselheiro ergueu o seu Arraial de Canudos, no sertão baiano, e contra o qual foram três expedições militares a combatê-lo, no final do século XIX. A saga é narrada por Euclides da Cunha em "Os Sertões". Após o conflito, os soldados retornados não tinham onde morar e para tal subiram o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, e construíram lá os seus barracos. O morro passou a ser conhecido por Morro da Favela, uma referência a Canudos, e daí por diante todo aglomerado de construções precárias nos morros cariocas designou-se por favela.
Quando digo favela, digo tudo isto sem precisar dizer! É, como disse, um substantivo-adjetivo, prenhe de significados e estourando de expressividade, por tudo quanto evoca à nossa imaginação.
Outra palavra em voga nos últimos tempos: afro-descendente. Trata-se de um adjetivo gentílico para designar negros, mulatos, etc, no lugar dos adjetivos negros, mulatos, etc. Outra invenção dos ideólogos do politicamente correto que desaconselham o uso de tais adjetivos por serem pejorativos ou até mesmo ofensivos. E o que diz o gentílico afro-descendente? Apenas indica a origem remota da pessoa. Só. Não tem nenhum outro qualificativo para o objeto a que se refere. E se ampliarmos para trás a perspectiva do tempo, veremos que o homo-sapiens surgiu na África e se espalhou pelo mundo; portanto é afro-descendente o japonês e o chinês, tanto quanto o europeu e o africano. Somos todos afro-descendentes: África é a Grande Mãe de todos nós!
E o adjetivo negro, o que nos diz? Não obstante ser também abstrato, nos traz de imediato um qualificativo absolutamente concreto – porque visível – a cor da pessoa. E ainda evoca, neste nosso Brasil, aspectos culturais, tais como a música popular, a culinária, danças e ritos religiosos, entre outros. Mas espera aí, senhor; a palavra afro-descendente também evoca esses aspectos culturais, não acha? Não! Não acho. O negro e a palavra negro é que sempre estiveram ligados à formação da nossa cultura. O uso de afro-descendente é recente e, apesar disso, a palavra já nasceu fraca e descorada. Não tem expressividade.
Não sou ingênuo, porém; sei que palavras como favela e negro/negra são usadas (mais no passado que agora) para desqualificar, discriminar, xingar e ofender. Sei disto muito bem. Justamente por serem palavras expressivas trazem também o preconceito como qualificativo. Mas as palavras não têm culpa; de nada adianta trocá-las. O que discrimina e ofende são os sentimentos que pegam carona nas palavras e se manifestam por outras linguagens, pela entoação da voz, pela expressão facial e trejeitos de corpo do ofensor. As pessoas que ofendem continuarão ofendendo e amanhã as novas palavras (comunidade e afro-descendente) estarão já estigmatizadas pelo preconceito.
Aos ofensores: denúncia e punição! Às palavras: liberdade!
E por já me ter alongado bastante, peço licença aos meus compatriotas, favelados ou não, dentre eles os ideólogos do politicamente correto, para dizer as derradeiras palavras desta crônica, que faz tempo estão a me coçar a garganta:
Afro-descendente é o c*!!! Somos todos negros, brancos, mulatos, mamelucos e cafuzos; somos mestiços de todas as cores e tons; somos BRASILEIROS, com todo respeito!

*Isso mesmo que o leitor pensou.


27 de set de 2011

Estórias da Carochinha


Sábado (24) levei a minha netinha ao teatro (tenho o privilégio de morar num bairro que tem teatro) para ver João e Maria, que todos vocês conhecem. Se não conhecem, deveriam. Há o que aprender sim, nessas estórias recheadas do que se convencionou chamar de senso comum – a sabedoria popular traduzida em tramas simples e de fácil compreensão.
Digo isto porque ontem (domingo) folheava uma revista quando li a seguinte notícia-crime:
Uma mulher contratou um ex-presidiário para matar outra mulher, sua desafeta. Ao intentar o crime, o homem reconheceu na vítima uma ex-amiga de infância e resolveu poupá-la. Amordaçou-a, encheu-lhe o corpo de ketchup e enfiou-lhe um facão entre o peito e um dos braços, simulando (muito mal) o crime. Tirou foto e levou-a à contratante, que se deu por satisfeita, pagando-lhe 1.000 reais, conforme o combinado. Dias depois a contratante viu-se lograda ao encontrar "algoz" e "vítima" aos abraços e beijos na pracinha do bairro. Não deixou por menos: foi à polícia e deu queixa de roubo! O delegado intimou o "ladrão" e soube de toda a história. Conclusão: os três acabaram indiciados; uma por ameaça de morte, os dois outros por extorsão.
Não pude deixar de relembrar de outra estória: Branca de Neve e os Sete Anões.
Para quem já esqueceu, eu lhes conto um pedaçinho, justo aquele por quase tudo igual ao fato descrito acima. A bruxa-madrasta de Branca de Neve, por inveja de sua beleza, mandou que um serviçal a levasse à floresta e a matasse, trazendo-lhe como prova o coração da princesa. O homem apiedou-se, libertou a princesa e matou um cervo, levando à bruxa o coração do animal.
Descobrindo-se lograda, o que fez a bruxa-madrasta? Foi dar queixa à polícia, ao rei, ao chefe da guarda ou lá a quem quer que fosse? Não. Engoliu o sapo, consultou o espelho mágico para descobrir o paradeiro de Branca e foi pessoalmente tentar dar cabo dela, oferecendo-lhe a maçã envenenada.
Ahhh, já não se fazem mais vilãs como antigamente!
Todo bom vilão ou vilã tem de ter um mínimo de inteligência! Se não tem, dá no que deu.
Para encerrar, um conselho para as três personagens da notícia supra: aproveitem o tempo em que ficarão trancafiadas para ler as estórias de D. Carochinha. E aprendam, panacas, que até no mundo do crime é preciso ter, senão inteligência, um mínimo de ética.

14 de set de 2011

SONHOS


Falo daqueles que sonhamos dormindo e sobre os quais não temos o menor controle. Eu, por exemplo, já sonhei que namorava a Angélica, aquela loirinha global com pinta na coxa. Já pensou?! Mas acordei ainda nas preliminares...!!! Foi um tempo em que eu sonhava belos sonhos. Digo isto porque ultimamente tenho sonhado coisas ruins, às vezes até pesadelos. O último sonhei-o na madrugada de domingo para segunda (12/09). Foi assim o sonho:
Estava eu ajeitando alguma coisa na casa para onde ia mudar, a mesma para a qual já mudei há uns quatro anos, quando, terminado o serviço, entrei na sala e deparei com um homem trepado numa escada e furando uma parede. Era um profissional, velho conhecido, que chamara para fazer um reparo, mas nem eu sabia da sua presença ali, nem ele da minha. Surpreso, gritei: - Pedro Paulo! O homem assustou-se, desequilibrou-se e estatelou-se no chão, desacordado e sangrando. Apavorei-me. Pedro Paulo! Pedro Paulo! Acorda homem. Vou chamar uma ambulância pra te levar no hospital. Acorda, Pedro Paulo!
O homem acordou meio abobalhado, abraçou-se a mim e nos erguemos abraçados. Em seguida, acordei. Que alívio! Ufa!
O interessante é que esse homem não era Pedro Paulo, mas Zé Roberto, como disse um velho conhecido que não vejo há mais de vinte anos. Por que o chamei várias vezes de Pedro Paulo?
Pela manhã, no café, tentei decifrar o sonho, se é que é possível interpretar sonhos. José do Egito fez isso muito bem, prevendo a seca prolongada, mas contou com a ajuda prestimosa de Deus. Eu só tinha a ajuda de minha mulher.
Bem, Pedro Paulo é o corretor que está vendendo um apartamentinho meu, o que ainda não conseguiu, não por falta de comprador, mas porque o imóvel está ocupado por um inquilino que se demora em desocupá-lo. Roberto é titular da imobiliária que fez a locação e que agora está tentando desocupar o imóvel a meu pedido. Havia uma promessa do locatário em mudar do apartamento no dia 10, mas eu não estava certo, pois outras tantas promessas haviam sido descumpridas. Não pude me comunicar com o Roberto, portanto não sabia o que de fato acontecera. E a tensão foi aumentando...
Para nós, eu e minha mulher, estava claro: a mudança não era senão a do inquilino, desocupando o nosso imóvel, já que o sonho envolvia o Pedro Paulo – corretor – e o Roberto, da imobiliária. E mais: a circunstância onírica de eu me levantar abraçado a Zé Roberto/Pedro Paulo, indicava um final feliz para a estória. Pois.
E afinal, perguntarão vocês, o inquilino mudou-se?
Ainda não. Não pude conversar com o Roberto na segunda-feira, falei com ele na terça. Na quarta (hoje/14) o inquilino tem agenda na Caixa para assinar escritura de compra de um apartamento por ela financiado, negócio que vinha perseguindo há meses. Mais um final de semana para pintura e se muda dia 24, entregando as chaves a 26. Aleluia!
Creio que o meu sonho foi uma espécie de pressentimento ou premonição de fatos vindouros, a confirmar dia 26. Ou não. Mas agora estou confiante.
E por que nos conta tudo isso, Senhor Vô Tônico, estarão intimamente perguntando os caríssimos leitores. Simples, porque não tinha nada melhor para lhes contar. E não me venham pedir que interprete seus sonhos. Estou fora dessa! Cada um é o melhor intérprete para seus sonhos, quer os que se sonham dormindo, quer os que se sonham acordado.
Nessa questão de sonhos que se sonham dormindo, só quero uma coisa: voltar a sonhar com a Angélica pra terminar o que apenas começara quando acordei, se é que vocês me entendem, há! há! há! há!
Perdão, leitores, perdão.

9 de set de 2011

NÓS NA TV VILA IMPERIAL, DE PETRÓPOLIS

Olá, caríssimos leitores!

Este que vos escreve, Adriana Kairos e outros companheiros diletantes da literatura e da poesia fomos entrevistados por Catarina Maul em seu programa Bem Cultural na TV Vila Imperial, de Petrópolis. Essa TV pode ser acessada aqui por meio da internet no endereço HTTP://www.tvvilaimperial.com.br

O programa será reprisado hoje (09/09) ás 23h30min, amanhã às 12h00min e domingo às 10h00min. Também poderá ser visto em PROGRAMAS GRAVADOS (clicar em Bem Cultural de 08/09/2011), no mesmo endereço. O programa começa com outras entrevistas: a nossa é na segunda parte. Faça esse carinho ao meu ego, que ninguém é de ferro!

Para quem ainda não sabe, saiu outra antologia da qual eu participo: Singular: O país dos invisíveis. Quem se interessar me comunique. Até mais, caríssimos.

4 de set de 2011

Calopsita, meu amor


Não tenho animais de estimação em casa. A não ser uma ou outra barata e de vez em quando um rato do qual logo dou um jeito de livrar-me, nada de animais. Os últimos que tive resultaram em tragédia e motivação para escrever uma das crônicas mais lidas deste blog: "Crônica de um amor impossível".
Mas não tenho animais de estimação, dizia eu... Não tinha...
Minha mulher (sempre ela) achou uma calopsita perdida na rua, caminhando na calçada, e compadecidamente recolheu-a. É uma calopsita "cara branca", segundo verifiquei na internet. Uma graça, a bichinha. Toda branca com discretas infiltrações sépia-claro no peito, nas costas e por baixo das asas.
Minha primeira preocupação: se estava caminhando na calçada e deixou-se apanhar facilmente, é porque está doente. Mas não parecia que estava. São assim mesmo, extremamente dóceis, as calopsitas, ainda segundo a internet. Colocamo-la numa gaiola que trouxe do Maranhão, não para prender pássaros, mas como peça de artesanato local. Gaiola pequena. As calopsitas são irrequietas, necessitam de espaço para se movimentarem, mas é o que tínhamos de imediato.
Outra preocupação: a ave não comia – eu não a via comer -, apesar de ser adequada a ração que comprei. Desta preocupação me livrei, simplesmente montando um raciocínio digno de um Sherlock Holmes; o papel que forrava a bandeja da gaiola amanheceu sujo de excrementos; logo, se a ave faz um cocozinho é porque está comendo. Elementar, meu caro Watson, elementar... Acho que a caturra (outro nome, mas prefiro calopsita) ainda estava inibida em seu novo lar e por isso comia escondido.
Outra preocupação, esta comigo mesmo, não com a calopsita: resolvi responder aos gritos e assobios da ave, no intuito de animá-la e deixá-la à vontade e sem temor; não consegui assobiar, meus lábios parece que perderam a flexibilidade para fazer o biquinho necessário ao assobio. Que vexame! Mas nada que um treino não resolva.
O pior é que agora ficamos assim, assobiando, eu de cá, ela de lá. Que bobeira! O que a idade não faz, heim?

14 de ago de 2011

Orgulho, orgulho, orgulho...


Apesar de não ler jornal diariamente como fiz outrora, nem acompanhar religiosamente a mídia televisiva, que nos traz todos os dias notícias de crimes e violências e toda sorte de roubalheiras, quer na esfera privada, quer na pública: apesar disso, li numa revista que a Câmara Municipal de São Paulo aprovou projeto instituindo o Dia do Orgulho Heterossexual – evidentemente um contraponto ao Dia do Orgulho Gay. Ora pois...
Para que tanto orgulho, gente? Devíamos era ter vergonha do que está ocorrendo neste país, mas deixa isso pra lá, que não quero afligir meu coração. Mas ainda assim o aflijo...
Orgulho. Orgulho gay, orgulho hétero, orgulho de origem, de classe, orgulho político, ideológico, religioso, orgulho de ser flamenguista, de ser branco, de ser preto, orgulho disso e daquilo... É muito orgulho, gente! Somos uma raça de orgulhosos!
Nada contra o brio pessoal, o amor-próprio e a auto-estima, que são normais e sadios, e que fazem as pessoas sentirem-se bem e conformes ao que são. Porém o orgulho exagerado é soberbia, é arrogância! E não será a arrogância a fonte de onde brotam os preconceitos e, por consequência, a discriminação? E a discriminação não levará ao desentendimento e à violência?
Creio que devemos focar na igualdade e não exacerbar as diferenças por meio de todos esses orgulhos. Mesmo que acentuar as diferenças pareça "politicamente correto". As diferenças devem ser tratadas, não com orgulho, mas com respeito. O bom e velho respeito. Só.

15 de jun de 2011

DUAS HISTÓRIAS E UM ENREDO


Eram duas mulheres: uma de idade avançada, a outra novinha. Apresentaram-se como representantes de empresa conhecidíssima na praça e desejavam fazer pesquisa de mercado.
- Tem alguma coisa contra pesquisas? – perguntou-me a moça, com airoso sorriso.
Não tinha.
- Podemos entrar? Assim falamos mais à vontade, e não vai demorar, é ligeirinho.
Eu estava sozinho na manhã daquele sábado, sem nada a fazer senão ler o jornal, hábito que me acompanhava desde há muito. Alguns minutos perdidos com a pesquisa não me fariam falta. Considerei ainda não haver perigo algum, eram mulheres aparentemente inofensivas, e uma delas idosa. Além do mais, não tinha em meu modesto apartamento nada que chamasse a atenção ou despertasse a cobiça alheia, só trecos comuns e baratos, nada que qualquer vizinho não tivesse igual ou melhor. E aqueles eram outros tempos, de mais sossego e menos desconfiança. Mas que não tentassem vender-me qualquer coisa, contra isso estava alerta e prevenido. Convidei-as, pois, a entrar, e indiquei-lhes que sentassem.
- O Senhor já conhece o nosso produto? – indagou a senhora idosa.
Conhecia. E nem podia deixar de conhecer, já que o dito invadia os nossos lares pela tela da televisão, patrocinando entretenimento e prometendo mil vantagens, fazendo sorteios e distribuindo prêmios, enfim, trazendo a felicidade aos tele-espectadores. Tratava-se de um carnê de prestações mensais, cujo valor total, ao final, era trocado por mercadoria nas lojas da empresa emissora, geralmente eletrodomésticos e outras utilidades do lar. Compras a prazo ao contrário - com pagamento antecipado! Minha mãe tinha dois ou três deles e nem de longe eu pensava em comprar mais, se a pesquisa das senhoras enveredasse para esse fim, como já suspeitava. Se confirmado, usaria esses carnês como justificativa para desvencilhar-me das pesquisadoras, já então vendedoras.
A senhora idosa iniciou a venda do seu peixe, enquanto a moça apenas ouvia, mas de olhar atento e simpático.
O tal Carnê da Felicidade era muito popular e vendia bem – dizia-me a senhora – mas ocorria que, em alguns bairros, sem razão aparente, as vendas andavam mal. No intuito de transformar esse malogro comercial localizado em sucesso de vendas, a empresa titular do produto teria elaborado um plano de vendas, uma promoção especial para os tais bairros, e só para esses. E por isso estavam ali as pesquisadoras, em Irajá, um dos bairros visados, dando início ao plano.
Temi que o discurso da senhora descambasse pura e simplesmente para a venda de carnês, e questionei:
- E a pesquisa?
É o que faziam naquele momento. Sondavam possíveis clientes com perfil adequado que pudessem participar da promoção da empresa. O plano consistia em premiar alguns poucos clientes nesses bairros e fazer publicidade intensiva do sorteio, aumentando as vendas, portanto. Qualquer pessoa que visse premiado alguém do seu bairro, talvez o seu vizinho, haveria de querer comprar também. Era simples.
- O Senhor já viu os programas na televisão, os sorteios...
- Sim...
- Gostaria de participar?
- E como seria isso? – indaguei, curioso.
- Veja bem, como o objetivo da empresa é aumentar as vendas...
Claro, eu teria de comprar alguns carnês. Mas – assegurou a mulher – os meus carnês seriam cartas marcadas no sorteio. Prêmio garantido. Fazia parte do plano. Dez mil cruzeiros novos! Nada mau, convenhamos. Se não chegava a ser uma quantia exorbitante, não era também uma ninharia: dava para comprar um Fusca zerinho! E tudo ficaria "só entre nós", no mais absoluto sigilo.
Evidentemente era uma desonestidade – pensei –, mas naquele momento julguei não ser de todo inverossímil que a empresa admitisse fraudar um sorteio, privilegiando uns poucos clientes em detrimento de milhares de outros. Tudo pela promoção de vendas! Até porque tais produtos, sendo novidade, achavam-se livres de maior regulação estatal e carentes de fiscalização mais acurada. E, de mais a mais, a desonestidade partira de outrem, apenas transitava por mim, e a minha culpa, já de si tão pequena, como que ficava diluída por milhares de prestamistas enganados. Diferente de quando se trapaceia diretamente com uma única pessoa, cuja imagem concentra e relembra toda a imoralidade do ato e a culpa do trapaceiro. E, claro, tudo incógnito, eu não teria vergonha do meu vizinho, de ninguém.
- Mas tem um porém – continuou a senhora que vendia o peixe, a esta altura já palatável e também eu mais inclinado a degustá-lo.
- Sempre há um porém. Diga lá...
- É que esta promoção é só para clientes especiais, uma meia dúzia se tanto, nos bairros com problemas, não para clientes miúdos. O Senhor compreende, é uma operação melindrosa, se abrirmos a muitos periga entrar na boca do povo – Deus nos livre! Quantos carnês o Senhor acha que poderia adquirir?
A mulher dizia isto e me olhava nos olhos, observando minhas reações e tentando perceber-me o ânimo e adivinhar o meu poder de fogo. E ainda mexia com os meus brios: cliente miúdo, né? – pois vamos ver!
- Uns quatro ou cinco – arrisquei.
Era pouco. Só a partir de oito, informou a senhora, que a esta altura já não era pesquisadora, mas vendedora, o que me era também já indiferente. E havia mais um porém, este felizmente fácil de cumprir: a empresa exigia uma fotografia, após o sorteio, para ilustrar a propaganda na televisão e impressionar a vizinhança do cliente felizardo. Além de tudo eu ainda teria alguns segundos de fama na telinha, sem quaisquer transtornos adicionais, sem precisar viajar, sem participar do programa na televisão, apenas cedendo uma foto. Tudo muito conveniente.
- O Senhor... posso tratá-lo de você, posso? – interferiu a jovem, enquanto ajeitava a saia sobre as pernas cruzadas ao descuido e abrindo um discreto sorriso, a principio um tanto atrapalhado e depois franco e algo malicioso, a ponto de me deixar desconcertado.
- Você... assim fica melhor... você já imaginou o que poderia fazer com dez mil? Sim, porque um de seus carnês será premiado, na certa. E só o que você tem a fazer é um pequeno esforço agora... E regalar-se depois...
Regalar-se... O verbo não era comum na boca do povo e, talvez por isso mesmo, entrou-me pelos ouvidos e foi direto à imaginação, campo fértil a todo e qualquer devaneio, do mais simples e infantil, como o regalar-se com os quindins e queijadinhas da vitrine da padaria, aos mais complexos e secretos regalos de homem adulto. Regalar-me depois?... Ah, como gostaria! Não só com os dez mil...
- Dez. Dez carnês é o que posso – disse, cortando as fantasias que me invadiam a mente.
- Parabéns! O Senhor acaba de ganhar dez mil. Lindinha, minha filha, vá preenchendo os carnês, vá.
Fui ao quarto buscar a quantia referente à comissão das vendedoras, enquanto estas preparavam a burocracia final.
Os meus queridos leitores já perceberam que eu acabara de cair no conto do carnê premiado, uma variante do famoso conto do vigário. Não tive maiores prejuízos, a não ser o brio ferido, já que os carnês quitados foram trocados por mercadoria. Mas o fato me lembra outro, este bem mais antigo, na minha adolescência.
Fui ao Banco sacar um dinheirinho na Poupança de mamãe para me matricular num curso preparatório à Escola de Especialistas de Aeronáutica. Saído da agência, topei com um matuto muito atrapalhado, que me indagou de um endereço no bairro. Não lhe soube informar. Nisto chegou um senhor bem apessoado, trajando terno e chapéu-coco e com a Bíblia debaixo do braço. Interessou-se pelo caso do caipira. Este procurava um mascate que tempos atrás passara no seu arrabalde e lhe vendera um bilhete da loteria; tempos mais tarde retornou desejando comprar o bilhete que lhe vendera, fornecendo-lhe aquele endereço para que o procurasse, caso quisesse fechar o negócio. Perspicaz, o senhor da Bíblia percebeu o enredo por trás da história do matuto: "- Se o mascate quer o bilhete de volta, com certeza está premiado". E propondo-se a resolver a questão:
- Naquele botequim tem um prospecto da Loteria Federal, vamos lá conferir o bilhete.
O matuto não quis ir, rogou que fôssemos nós, tinha medo até de atravessar a rua. Eu já estava um tanto impaciente com o prolongar daquela história, ia meio constrangido, inquieto, e no trajeto até o botequim disparou-me um alarme na mente: se estiver premiado é golpe, só pode ser golpe! E não deu outra: o bilhete (adulterado, evidentemente) fora premiado! Primeiro prêmio! Uma grana assombrosa!
Fiquei aflito, confuso, o coração batendo forte, e o senhor da Bíblia iniciou a etapa seguinte de sua vigarice:
- O matuto é um palerma, nós podíamos...
Deixei-o a falar sozinho. O mais da conversa que não aconteceu o leitor pode bem imaginar... Passava um ônibus, peguei-o sem olhar pra onde ia, não era a minha condução, desci mais à frente e peguei outra. Livrei-me dos vigaristas!
Nestas duas histórias que acabo de contar, a mesma psicologia de usar a ambição e a desonestidade da própria vítima. Isso é que é malandragem! Há uma diferença, porém, a qual determinou finais diversos: naquele tempo da minha adolescência eu ainda era idealista... e possivelmente honesto.

9 de jun de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 5)

Afinal, o bicho costureiro


Um piscar de olhos e Tonico já estava no bosque em que encontrara a moça da melancia: viagem mais impressionante que o mais impressionante dos sonhos! À sua frente, pairando no ar, a bola de fogo, que não era de fogo, mas resplandecia como o vestido de Morgana.

- Então, querias conhecer-me?

- O bicho costureiro, uma bola de luz?

- Sim, mas na verdade sou invisível. A luz que vês é por causa do vestido que fiz para a princesa Morgana, costurando milhares e milhares de vaga-lumes. Impregnei-me com a fosforescência deles. Cavacos do ofício...

- Mas disseram-me que foi uma velha...

- Pois foi...

E dizendo isto, a bola encolheu-se ao tamanho de um vaga-lume de luz intensíssima; depois cresceu, transformando-se numa árvore fosforescente; em seguida alongou-se como corda e evoluiu no ar em graciosos volteios, para finalmente descer em forma de balão.

- Entendes agora? Posso transformar-me no que quiser, não tenho forma definida. Virei-me numa velha e apresentei-me como costureira às princesas...

- E os vestidos, por que se desmancharam?

- Ah, que terríveis são aquelas meninas, que gênio! Os vestidos, costurei-os com uma linha mágica muito delicada, porém eficiente e apropriada a costuras igualmente delicadas, mas que não resiste a estados emocionais intensos: sentimentos negativos como ciúme, inveja, raiva, destroem a linha, desfazendo as costuras. Foi isso... Eu quis fazer os dois vestidos com pétalas, apenas variando a cor, mas a princesa Morgana insistiu em querer algo mais deslumbrante...

- E a masmorra?

- Ora, é impossível prender um espírito. Deixei-me trancafiar para não chamar a atenção, mas posso fugir até pelo buraco de uma fechadura.

- E como soube que eu queria conhecê-lo?

- Uma pombinha me contou...

- O Senhor...

- Você, se me faz o favor.

- Você também não gosta de meninos curiosos?

- Não há por quê! A curiosidade é mãe da ciência. Viva a curiosidade!

- E agora, ainda pretende correr mundo?

- Não, prefiro o sossego da minha máquina de costura. O mundo dos homens é muito complicado! Mas antes de voltar preciso livrar-me deste brilho, não vá tia Rosinha assustar-se, pensando que sua máquina pega fogo por dentro.

E dizendo isto, o bicho costureiro começou a sacudir-se no ar, fazendo movimentos rápidos de vai-e-vem para livrar-se da fosforescência. Propôs-lhe então o menino:

- Por que não se esfrega em minhas roupas, passando-me o brilho?

E assim fez o bicho, até ficar novamente invisível.

- Até mais ver. Cuida-te.

Tonico olhou a noite: breu puro, mas suas roupas iluminavam a mata ao redor. E das bandas do Reino das Princesas Vaidosas chegava ao bosque uma nuvem de alegres vaga-lumes


Epílogo


- Tonico! Tonico! Responde, meu filho!

Tiana procurava o filho na mata, aflita, pois de há muito o sol se apagara. Não era a primeira vez que o filho lhe aprontava uma dessas: vivia espionando as formigas, os grilos, as lagartas, os vaga-lumes e tudo o mais, e às vezes adormecia na mata. Como achá-lo naquela escuridão, pensou Tiana, que nem uma lanterna levava, tão apressada saíra de casa.

Um clarão entre as moitas conduziu Tiana ao filho adormecido na relva.

Ora, essa! As roupas a brilhar! Com certeza estava brincando com os vaga-lumes, pois nunca se viu tantos na mata, deduziu a mãe ao recolher o filho nos braços.

No dia seguinte Tonico dormiu até mais tarde e ao levantar-se, antes mesmo de tomar café, correu ao ateliê de costura da tia Rosinha. Estava lá o Elias mecânico.

- Ó tia Rosinha, a sua máquina está boa, não lhe encontrei nada de errado.

- Mas, como, se ontem não funcionava?

- Mas está ótima, experimente.

A costureira sentou-se com os pés na pedaleira, ajeitou um retalho sob a agulha e tic tic, tic tic, tic tic, a costura fez-se perfeita como nunca!

- Não entendo... não entendo... – balbuciou tia Rosinha. E quanto lhe devo seu Elias?

- Ora, não é nada. O que fiz foi só aplicar um tiquinho de óleo para lubrificar os mecanismos.

O tio Jaime observava tudo com expressão preocupada. Disse ao mecânico:

- Aceite ao menos merendar...

- Ah, pois claro, com muito gosto.

A costureira foi preparar a merenda enquanto seu marido chegava-se ao Elias e confidenciava:

- Não sei não, Elias, mas acho que a Rosa está caducando...

Tonico, que tudo observava, olhou a máquina de costura e sorriu. Depois saiu, sem pressa, chutando as pedrinhas do chão. Um bando de pombas passou voando e o menino acenou-lhes com as duas mãos: quem sabe não estaria entre elas a pombinha falante... ou a moça da melancia.

FIM


Perguntas que o leitor está fazendo agora

E a pombinha, encontrou o seu amor?

Encontrou. E o seu amo já era rei e a Moura Torta sua rainha!

A pombinha apareceu nos jardins do palácio dizendo: "Onde andará meu amo e a sua Moura Torta?". O jardineiro ficou intrigado com a fala e contou ao rei, que mais intrigado ficou. O rei mandou então que o jardineiro prendesse a pombinha e a levasse até ele. Logo se afeiçoaram. Mas a rainha, percebendo de quem se tratava, caiu de desejos por uma sopa de pombinha e nada a fez desistir de seu intento, até que o rei cedeu. Antes de dar a ave para a cozinheira real, porém, o rei acariciou-lhe a cabecinha e descobriu o alfinete que lhe cravara a Moura Torta. Então retirou o alfinete e o encantamento se desfez, virando pombinha em moça da melancia. A Moura Torta foi duramente castigada e expulsa do palácio. E o rei viveu feliz para sempre com sua nova rainha.

Cabe ainda outra pergunta: como um moço pobrezinho, que no início da história só tinha uma melancia, no final vira rei de um reino?

Não sei. Minha mãe não me contou. Nem contaram pra ela. Ao que tudo indica, a história da Moura Torta – da tradição oral – chegou truncada até nós, faltando um pedaço. Ninguém sabe, ninguém saberá...


PS: Li recentemente em "Contos Tradicionais do Brasil", de Câmara Cascudo, uma versão recolhida no Nordeste brasileiro na qual o moço não é pobrezinho, mas filho de rei, príncipe portanto, e filho único. Ao sair pelo mundo, encontra uma velhinha carregando um feixe de lenha e oferece-lhe ajuda; em agradecimento a velha lhe dá três laranjas (encantadas, claro). No mais a história segue como acima. A variante que contei foi-me passada por minha mãe e coincide com a de Monteiro Lobato em "Histórias de Tia Nastácia".

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5 de jun de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 4)


As princesas vaidosas
Em torno do rei, cortesãos e convidados divertiam-se com as piadas e pantominas de Sete Palmos, o maior anão do mundo ou anão gigante, como ele próprio gostava de se definir. Aguardavam as gêmeas aniversariantes. Em geral, como autoridade mor, o rei é sempre o último a chegar, mas não no Reino das Princesas Vaidosas; estas sim, chegavam quando queriam, faziam e desfaziam na corte como verdadeiras rainhas, mimadas e vaidosas ao extremo, mandonas e cheias de vontades, sob o olhar amoroso do velho monarca.
Nas paredes, entre janelas estreitas, tapetes coloridos davam um tom festivo e tochas acesas cediam luz e calor ao ambiente. Serviçais abasteciam de iguarias a grande mesa no salão enorme.
Tonico encostou-se à parede, semi-encoberto por um dos tapetes decorativos; a pombinha esvoaçou no salão.
Em dado momento, Sete Palmos deu uma cambalhota e rodopiou tilintando os guizos de seu uniforme, parando ao pé da escada para anunciar:
- Sua Alteza, a princesa Ramona...
Todos os olhares voltaram-se para a princesa, que desceu devagar e circulou no salão, deliciando-se com as caras de espanto e admiração dos cortesãos e convidados: para além de sua beleza natural, trajava um belíssimo vestido nunca dantes visto igual em parte alguma, todo confeccionado com pétalas de rosa em variados tons de vermelho, dos rosas mais suaves ao vinho mais profundo. Sucesso! Ramona não cabia em si de feliz!
- Sua Alteza, a princesa Morgana - anunciou o bobo.
Os olhares desviaram-se de Ramona para fixarem-se – deslumbrados! – em Morgana. Um "oh!" de surpresa e encantamento ecoou no salão: a princesa resplandecia num vestido composto por um sem número de pequeninas luzes piscantes, de tons amarelo-esverdeados, que formavam à sua volta um halo luminoso contrastante com a luz mortiça das tochas! A corte aplaudiu entusiasticamente a princesa! O rei embobeceu de orgulho!
Que prodigiosa costureira teria criado aquelas jóias sem par?
Retornada de suas avoanças, a pombinha arrulhou aos ouvidos de Tonico:
- Fiquei sabendo por aí que uma velha costureira, chegada há pouco, trabalhou em segredo para as princesas, pois elas queriam fazer surpresa e sensação na festa de 15 anos. E fizeram, pois não? E como estão lindas! Ai, ai, quem me dera estar dentro de um vestido como esses... Ah, sabes o que são aquelas luzinhas no vestido da Morgana, sabes? São vaga-lumes, todos costuradinhos uns nos outros...
- E soubeste alguma coisa do bicho costureiro? Cheguei a pensar que era coisa dele, mas se foi uma velha...
- Não, nada de bicho costureiro...
- E o teu amo, anda por cá?
- Também não, infelizmente.
O menino pensou em ir-se dali, mas quis apreciar um pouco mais da festa. A pombinha foi assuntar mais novidades.
Um final infeliz
Morgana passeou por todo o salão recebendo cumprimentos e elogios, sorridente e feliz, e parou em frente a Ramona, envolvendo a irmã em seu halo de luz.
Ramona já não sorria, suas faces avermelhavam e seus olhos pareciam disparar dardos contra a irmã.
- Falsa! – acusou Ramona, cerrando os punhos.
- Invejosa! – retrucou Morgana, retesando-se toda.
A corte emudeceu; o rei, escorando-se no ombro de Sete Palmos, empalideceu: sabia o soberano de muitas outras situações em que as princesas enfrentaram-se a unhas e dentes. Sempre perdoava e esquecia tudo, mas ali, em público, perante a corte e convidados e talvez até pretendentes – era demais!
- Que gênio! Que falta de modos! – comentou uma cortesã, discretamente.
- Mas também, criadas sem mãe, é nisso que dá! – cochichou a outra.
- E o rei nunca teve pulso sobre essas meninas, isso é que é – rematou uma terceira.
As princesas já levantavam as mãos para se engalfinharem, mas retiveram o gesto: o vestido de Ramona despetalava-se todo enquanto as luzinhas de Morgana desprendiam-se e voavam pisca-piscando no salão. Em instantes as duas estavam em roupas de baixo, de corpetes e calçolas!
A corte desabou em risos e galhofas! O rei, enfurecido, ordenou:
- Guardas! Prendam a costureira, à masmorra com ela!
As princesas, envergonhadas e aos prantos, correram escadas acima seguidas por suas damas de companhia, e Sete Palmos, tentando restabelecer a ordem, subiu numa cadeira e convidou os presentes a tomarem seus lugares à mesa.
E a nobreza, animadamente, caiu de queixo nas iguarias!
Um pouco depois, no intuito de alegrar o rei e divertir os presentes, Sete Palmos mandou que os jograis atacassem com suas cantigas. Ninguém entendeu por que um dos jograis deixou de lado o seu repertório e iniciou um improviso:
Vim de longe a este Reino
Pra jograr numa festança
E afinal o mais que fiz
Foi rir muito e encher a pança...
Pra quê?!!! Ao som da gargalhada geral, o rei desequilibrou de vez e ordenou, aos berros:
- Guardas! Prendam o jogral, prendam o bobo, prendam todo mundo! Na masmorra! Baixem a grade e prendam todos na masmorra!
Seguiu-se tamanha confusão, tamanha correria, que Tonico só foi dar por si já no pátio do castelo, com a grade do portal interno baixada e sem a menor possibilidade de fugir dali - pior que nos piores pesadelos! Um guarda reconheceu o menino.
- Olha o pirralho mentiroso! Anda cá, pirralho, vais para a masmorra com os outros!
Tonico só desejava acordar, se é que era pesadelo! Pensava já em beliscar-se quando da masmorra veio uma bola de fogo que o envolveu e elevou-o no ar e riscou o céu sobre as muralhas do castelo. O menino ainda viu, por instantes, voando a seu lado a pombinha.
- Adeus, menino da fonte. Vou em busca do meu amor. Adeus.
(continua no próximo post)

2 de jun de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 3)


O marrão e a pombinha falante

Tonico caminhava entre campos de trigo; em sentido contrário um pastor conduzia suas ovelhas, que tomavam toda a largura do tosco e estreito caminho. O menino colocou-se à margem e esperou que passassem os animais. Dos últimos do rebanho, um carneiro parou a olhar fixamente para ele. Conhecendo o significado desse olhar, Tonico disparou pelo caminho o mais rápido que pôde, enquanto o carneiro seguia na sua cola, focinho baixo e cornos à frente, em posição de ataque. Tonico corria e corria! Viu passar os trigais, a ponte, casas e pessoas, muitas pessoas rindo a não poder mais, nenhuma que tentasse barrar o marrão, e algumas até incentivando aquela doidice, como se fora uma competição: "Eia! marrão! Coragem, garoto, e prepara o traseiro!".
Quanta crueldade dessas pessoas, pensou Tonico. Mas o menino não tinha tempo a perder nem com pensamentos: a marrada era questão de instantes! Dirigiu-se então a uma grande árvore à beira do caminho e rodopiou ligeiro para detrás dela. O carneiro marrão não teve tempo nem tino para corrigir a rota e esborrachou-se no tronco da árvore, afastando-se meio estropiado e zonzo, sem entender nada do que acontecera.
Com o choque a árvore estremeceu e afugentou os pássaros que nela se abrigavam. E Tonico, ainda ofegante, ouviu, entre arrulhos, uma vós meiga e suave:
- Ora, se não é o menino da fonte!
E uma pombinha branca veio pousar-lhe no ombro. Tonico pegou-a e passou o dedo em sua cabecinha, sentindo sob as penas o alfinete que lhe havia cravado a Moura Torta.
- Olá! Que prazer revê-la! E o que faz a moça da melancia por estas bandas?
- Ainda não sei bem. Estou desnorteada... Saiba o menino que a velha, depois de fazer isto comigo, escondeu-se entre as folhagens – no meu lugar! – e quando meu amo chegou disse-lhe que, por ter demorado muito, o sol havia-lhe queimado a pele, deixando-a feia daquele jeito... E o bobinho acreditou!
- E como é homem correto, prometeu-lhe casamento – completou o menino.
- Pois é, pois é... Tenho vontade até de chorar!
- Deves é procurar por teu amo; ao fim, tudo dará certo.
- Achas?
- Tenho certeza.
- Assim até fico mais animada. E por onde devo começar?
A conversa foi interrompida pelo tropel de três cavaleiros bem trajados e portando alaúdes a tiracolo. Tratava-se de um grupo de jograis – trovadores do povo – e um deles dizia:
- Vamos, vamos, não podemos chegar atrasados à festa. Nem o rei tolera retardatários. Além do mais, eu não vejo a hora de rever o meu amigo Sete Palmos. Vosmicês vão gostar dele, é muito divertido.
- Agora já sabes por onde começar – respondeu Tonico à pombinha. Vamos.

Um convidado do rei

Elevando-se no topo de um outeiro, as torres e muralhas ameiadas do castelo. Só então, após livrar-se do marrão e refazer-se da estafa conversando com a meiga pombinha, Tonico percebeu que havia chegado ao Reino das Princesas Vaidosas. A pombinha perguntou ao menino:
- Como hás de entrar no castelo, se há guardas no portal da muralha? Para mim, que vôo, é fácil, mas tu?!
- Tenho uma idéia. Vamos...
Depois de atravessar a ponte levadiça sobre o fosso que contornava as muralhas, Tonico apresentou-se à guarda do portal.
- Que queres, pirralho? – perguntou-lhe um guarda.
- Alto lá, senhor guarda, e veja como fala! Sou D. Antonio Fernando e vim a convite de Sua Majestade por indicação do meu amigo Sete Palmos, para abrilhantar a festa na corte.
O guarda riu e tomou ares de zombeteiro.
- E como D. Antonio pensa em abrilhantar a festa?
- Apresentando a minha pombinha falante, uma raridade – respondeu o menino.
- Pomba falante? Essa é boa! Conta outra, garoto! – caçoou o guarda.
A pombinha, que até ali não entendera o plano do menino, interferiu com seu jeito manso.
- Pois saiba o senhor guarda que falo sim e falarei diretamente a Sua Majestade se insistir em não nos dar passagem...
O guarda encheu-se de espanto.
- Pombinha falando... Vê-se cada coisa neste mundo de Deus!
- E preciso que me faça um favor, senhor guarda – disse o menino. A minha mula empacou na subida do outeiro, à custa do peso que carrega. Que alguém vá aliviá-la. E me tragam o baú com as minhas roupas. Tenho de aprontar-me ligeiro para o espetáculo.
- Sim, sim, sim... - concordou o guarda, indicando a entrada e fazendo mesura, meio abobalhado, enquanto considerava poder tratar-se de outro anão gigante, já que era amigo de Sete Palmos, embora tivesse cara de menino.
Tonico, com a pombinha no ombro, seguiu entre dois muros altos até o portal da muralha interna. Á sua frente, afinal, o castelo.

(continua no próximo post)

29 de mai de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 2)

O vestido de folhas


Foi ter a um bosque denso e sombreado. Havia ali uma fonte a minar do chão e formando uma poça de água fresca e cristalina. Pôs-se de cócoras, para beber dela pelas mãos em concha. Antes de estar saciado completamente, viu no espelho d'água um rosto refletido. E não era o seu, pois nem tinha cabelos loiros nem feições femininas! Ergueu-se, olhando para cima: uma belíssima jovem escondia-se entre as folhas de um galho!

- Ora, se não é a moça da melancia! – exclamou Tonico, lembrando-se da história que tantas vezes ouvira de sua mãe.

Era assim a história:

Um pai pobrezinho deu a cada um de seus três filhos uma melancia quando estes resolveram correr mundo, recomendando-lhes que só as abrissem onde houvesse água. O filho mais velho esqueceu a recomendação do pai e abriu a melancia longe da água; de dentro da melancia saiu uma linda jovem que lhe pediu leite ou água e como não houvesse nem uma coisa nem outra, a jovem morreu. Com o filho do meio aconteceu o mesmo.

O filho caçula, porém, lembrando-se das palavras do pai, abriu a melancia junto a uma fonte; a jovem bebeu água à farta e salvou-se. Mas como estivesse nua, o rapaz escondeu-a nas folhagens de um galho acima da fonte, dizendo-lhe que dali não saísse até que voltasse com roupas.

Mais uma vez a história ia repetir-se, agora sob o olhar do menino.

A jovem fez menção de sair de entre as folhas e Tonico, cavalheirescamente, virou-se de costas, para que não ficasse constrangida em sua nudez. A moça riu-se e disse:

- Não precisa dar-me as costas, estou vestida, olha...

De fato, a jovem trajava um vestido de folhas, todas costuradinhas por finíssimo fio.

- Mas, como foi isto?!

- Passou por cá um costureiro e fez-me este vestido. Não é grande coisa, mas evita-me a vergonha, já que o meu senhor demora-se tanto.

O menino já sabia de qual costureiro a jovem falava, mas perguntou:

- E como é esse costureiro?

- Não sei – respondeu-lhe a jovem. É invisível, mas costura muito bem, e rápido.

- E para onde foi?

- Disse que ia correr mundo em busca de fama e fortuna.

- Ah... E quanto a ti, é melhor que te escondas muito bem. Pode vir alguém...

- Eu sei. Já esteve cá uma velha muito feia e torta, a buscar água. Viu o meu rosto refletido na fonte e pensou que era o dela. Então disse: "Sendo tão bonita assim, por que trabalho eu para os outros?". Em seguida quebrou o cântaro e foi embora. Foi tão engraçado! Contive-me a muito custo, para não estourar de rir!

- A velha vai retornar, não te descuides...

- Que pode uma velha daquelas contra mim? De mais a mais, o meu amo não tarda a chegar.

Tonico teve vontade de contar-lhe tudo o que estava por acontecer, mas achou melhor deixar a história cumprir-se. Despediu-se e afastou-se. Ainda queria encontrar o bicho costureiro.


A Moura Torta


A velha muito feia e torta, a Moura Torta, como era conhecida, retornava à fonte com outro cântaro, depois de ter sido espinafrada por sua patroa. Vinha cantando, ou melhor, resmungando uns versos, tortamente – sem ritmo e sem melodia – com sua voz rouca e expressão enfezada, como a lamentar-se por toda uma vida de trabalhos sem proveito:


Ai, minha mãe dos trabalhos

Para quê trabalho eu?

Trabalho, mato o meu corpo

Não tenho nada que é meu (1)


A velha metia medo a qualquer criança, mas Tonico criou coragem e saltou-lhe na frente.

- Raios! Só me faltava esta: um fedelho no meu caminho! Arreda, fedelho, não vês que estou a trabalho?

- Desculpe, Senhora D. Moura, mas queria saber se tem notícias do bicho costureiro

A moura gostou da maneira educada do menino e desfez a carranca.

- Não sei de que bicho estás falando...

- Do bicho costureiro que fugiu da máquina de costura da tia Rosinha. Soube que foi correr mundo e desejava muito avistar-me com ele.

- Já sei... Tu és um desses meninos curiosos que querem saber tudo, conhecer, mexer... Não gosto de gente assim, vivem aprontando. Sei de um que desmontou um relógio "só pra ver como era" e nunca mais conseguiu montá-lo. Ah, curiosos!!!... Quanto ao bicho de que falas, se é costureiro e costura bem...

- Costura muito bem, eu garanto.

- Nesse caso pode estar no Reino das Princesas Vaidosas. Elas são muito exigentes e não se satisfazem com qualquer costureirazinha...

- E onde fica esse reino, Senhora?

- É perto daqui. Segue sempre em frente e chegas lá: depois dos campos de trigo.

- Agradecido, Senhora.

- Não tem de quê. Agora me deixa ir, tenho muito a fazer. Ai, minha mãe dos trabalhos!

O menino afastou-se em direção ao Reino das Princesas Vaidosas. E foi pensando na história que se desenrolava no bosque.

Retornada à fonte, a moura viu-se novamente refletida na água e novamente julgou-se belíssima e novamente quebrou o cântaro. Então a jovem não resistiu e deu uma gargalhada. Descoberta, contou à velha a sua história. E a moura, antevendo vantagens, ofereceu-se para pentear-lhe os lindos cabelos doirados. Por ingênua ou vaidosa, ou por ambas as coisas, a jovem deixou-se pentear e a velha, enquanto o fazia, espetou-lhe um alfinete na cabeça, virando-a em pombinha! A Moura Torta era uma bruxa...

Já Tonico marchava rumo ao Reino das Princesas Vaidosas quando uma pombinha branca, voando do bosque, alçou no azul do céu sobre o ouro dos trigais.

  1. versos recolhidos da tradição oral portuguesa.

    (continua no próximo post)

27 de mai de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 1)

O menino curioso



No tempo em que as mães contavam histórias a seus filhos ao redor da lareira, havia um menino muito curioso que vivia espiando a vida dos bichos e observando tudo o que de interessante tem a natureza. Todos o tratavam por Tonico da Tiana, e Tiana era sua mãe.

Um dia Tiana foi à costureira encomendar uma peça de roupa. Tonico foi junto e ficou encantado com a máquina de costura, com aqueles mecanismos que tão bem sabiam costurar! E quis logo abrir a janelinha redonda da máquina para ver por dentro como funcionava aquela maravilha. Tia Rosinha, a costureira, advertiu-o:

- Não mexas aí, Tonico, podes machucar-te!

E como o menino continuasse mexendo, a costureira insistiu:

- Já te disse, não mexas! Tem aí dentro um bicho que gosta de morder menino curioso. E ele já está indo para a janelinha, não tarda a morder-te o dedinho mexelhão!

O menino olhou para sua mãe como a indagar se era verdade o que tia Rosinha dizia. Sua mãe confirmou, balançando a cabeça e dizendo:

- Pois é, tem sim. Não mexas...

E por muitas outras vezes que lá foi e tentou abrir a janelinha, o menino ouviu a mesma lengalenga: "Não mexas, olha o bicho!". E por sua mãe confirmar, não tinha mais dúvidas: havia mesmo um bicho ali dentro, talvez um bicho costureiro – a alma da máquina de costura. Como seria interessante ver o tal bicho, conhecer sua aparência, saber que poderes tinha! Mesmo com o risco de levar uma mordida no dedo.

A curiosidade de Tonico não o deixou desistir e, sempre que se desgarrava de sua mãe, ia espiar a máquina de costura, na esperança de ver o bicho costureiro. Um dia, estando a vigiar, viu a costureira arreliar-se com a máquina: parara de funcionar, enguiçara sem mais nem por que, de repente! Os mecanismos giravam, faziam tudo que costumavam fazer, mas as linhas não se entendiam e a costura não se realizava! A mulher já fizera de tudo na vã tentativa de trazê-la de volta ao trabalho; não sabia mais o que pudesse fazer e lamentava-se ao marido:

- E essa agora... Como pode, se até ontem funcionava tão bem? Que diabos lhe aconteceu, para escangalhar desse jeito?

Tio Jaime limitava-se a rodear e olhar a máquina sem dizer palavra, pois de máquinas nada entendia, nem de costura nem de outras.

- E logo agora que tenho tantas encomendas por fazer! Ai de mim!... Não há outro jeito senão chamar o Elias mecânico, e sem mais tardança... Diacho!

Tonico saiu dali pensando que talvez a máquina de costura houvesse perdido a sua alma; o bicho costureiro, ao que tudo indicava, evadira-se...


Vendo e ouvindo na mata


Nada mais interessante que um passeio na mata. Há muitas coisinhas bonitas de se ver, plantas, flores e bichos, muitos bichinhos. Há cores e perfumes. E variados sons, desde os mais delicados, como o da brisa correndo entre as folhas do arvoredo ou o sussurrar das águas no córrego; até os mais estridentes, como o cantar-de-uma-nota-só da cigarra ou o cri cri cri dos grilos do campo. Ah, que graça estes bichinhos! Acordam aos primeiros raios de sol e saem dos buraquinhos onde moram para comer e cantar. E como cantam (ou falam?)! Como são cricrizeiros, esses grilos do campo!

Tonico passeava na mata pleno de encanto, e cheirava os cheiros, e ouvia os sons, e tudo observava: formigas cortadeiras derrubando folhas de um arbusto, enquanto outras as levavam, em carreira, ao formigueiro; lagartas descendo um tronco, em fila, uma exatamente atrás da outra, arrumadinhas e disciplinadas – uma procissão lagartal.

Agora era um barulhinho de come-come: uma lagarta verde empanturrava-se em cima de uma folha.

Mais além, estranhas folhas duplas formando algo como casulos. Tonico examinou-as: pareciam estar costuradas, duas a duas, por finíssimo fio de seda. O menino espiou pela abertura na extremidade das folhas: os casulos estavam vazios. Quem teria feito aquilo? Tonico imediatamente pensou no bicho costureiro fugido da máquina de costura. Estaria escondido na mata? Pensando nisso, prosseguiu o passeio, agora mais interessado nos casulos de folhas costuradas.

Bem perto dali, entre os galhos de um arbusto, uma aranha tecelã construía sua teia. Uma voz miudinha, quase inaudível, chamava:

- Comadre, ó comadre!

Tonico espantou-se! Seria possível? Aproximou-se um pouco mais e apurou os ouvidos. Sim, outra aranha falava à tecelã:

- Já soube da novidade, comadre?

- ???

- Temos vizinho novo; um tal de bicho costureiro que anda a costurar pela mata. Não se fala noutra coisa...

- Não me importo... desde que não me venha fazer concorrência.

- Não. Ele só costura, não tece.

- Pois então... não me importo. Só quero saber de moscas, mosquitos e outros petiscos semelhantes. Outros bichos não me interessam.

- Desculpe. Pensei...

- Pois pensou mal, comadre, pensou muito mal. Não perco tempo com a vida alheia nem gosto de gente curiosa, como esse menino que está com o nariz em cima da minha teia: se der um espirro, lá se vai todo o meu trabalho. Arreda menino, arreda!

Tonico afastou-se da teia, ouvindo ainda uma última fala da aranha tecelã:

- Vá, comadre, vá cuidar da sua vidinha, vá, vá!

A mata nunca estivera tão interessante quanto naquele dia. Pois se até os bichos falavam! E não havia dúvida: o bicho costureiro estava ali. O menino saiu à sua procura, seguindo a pista das folhas costuradas.

(continua no próximo post)


20 de mai de 2011

Uma historinha infantil para adultos - epílogo

(leia primeiro as partes 1e2, abaixo)

Quando acordou, uma luz intensa varava suas pálpebras e atingia suas retinas cansadas. Abriu os olhos devagarinho, protegendo-os com a palma da mão. Brotando do chão à sua frente, quase aos seus pés, o tão procurado arco-íris, do vermelho ao violeta matizado, resplandecente e lindo! Eufórico, o velho levantou-se de um salto. Mas não havia panela de ouro ou qualquer coisa que semelhasse um tesouro. Decepcionado e triste, o velho lamentou-se por toda uma vida perdida.

- Que fiz eu da minha vida? Loucura, só loucura! E aquele contador de histórias, que grande trapaceiro! Não há panela de ouro, nem uma pepita sequer... Era tudo mentira!... Mais valera cultivar flores e aprender a dançar com aquela mocinha... e ter filhos com ela...

Raivoso e fora de si, o velho lançou-se aos socos e pontapés na base do arco-íris. Então percebeu que podia agarrá-lo, subir nele, montá-lo. E assim fez e foi caminhando nele com se fora uma estrada – a mais linda estrada de sua vida! E, quem sabe, o tesouro não estaria na outra ponta do arco-íris...

Passou as nuvens e alcançou as estrelas. Uma música antiga, que parecia conhecer, soou nos seus ouvidos e uma figura, ainda distante, rodopiou no espaço: era a mocinha da festa de casamento, dançando nas estrelas! Ah! que vontade de dançar com ela! Mas a bailarina das estrelas aproximou-se, dançou ao seu redor, sorriu e desapareceu no infinito.

O velho caminhou um pouco mais e viu outra figura entre as estrelas: era o floricultor cuidando de suas flores. E como eram lindas, as flores! Ou seriam estrelas?

Ainda admirado com o que via, o velho prosseguiu na sua caminhada sobre a estrada de luz. Uma estrela cadente riscou o céu. E mais outra. E outra mais. Uma chuva de estrelas cadentes! E todas vinham do mesmo lugar no espaço, como se algo ou alguém as impelisse. O velho continuou a caminhar, tentando entender o que acontecia, até finalmente reconhecer: era a menina de tranças arremessando estrelas no espaço, como se fossem pedrinhas sobre as águas de um regato!

- Brinca comigo... – disse a menina ao velho.

O velho sorriu, pegou-a pela mão e saiu, saltitando com ela nas estrelas. E era menino outra vez...


FIM

19 de mai de 2011

Uma historinha infantil para adultos – parte 2


(leia primeiro a parte 1, abaixo)
E assim, em sua busca, o rapaz viu muitas coisas e conheceu muita gente. Nunca se interessou por alguém ou por coisa alguma. Nunca aprendeu um ofício nem se ocupou em qualquer atividade prolongada. Durante a estação seca executava alguns trabalhos, curtos, para prover o pão de cada dia e o farnel necessário à estação chuvosa, quando ia atrás do arco-íris. Às vezes acontecia uma chuva imprevista, mesmo na estação seca, e lá ia o rapazola, abandonando tudo em que estivesse empenhado. Nunca criou raízes. Sua vida resumia-se ao grande sonho: encontrar o tesouro do arco-íris. E não era mais um rapazola, mas um homem maduro, já grisalhando cabelos e barba.
Mas o arco-íris parecia brincar com ele! De esconde-esconde. Tinha essa sensação principalmente na estação das chuvas, quando fica muito nítida a localização do arco-íris. Escalada a montanha por trás da qual se escondia, já o arco-íres fugia para a montanha seguinte. E quando esta era vencida, já não estava lá, mas na outra, mais além... E podia acontecer também que, ao chegar ao pico de uma montanha, o homem constatasse que o arco-íris fugira em sentido oposto ao seu, acarretando perda de tempo e redobrado esforço. Mas o homem perseverava como ninguém. Nunca desistia. E escalou montanhas e atravessou vales sem conta. E nessa vida de procura se perdeu...
E já não era um homem maduro, mas um velho cuja branca barba ia além da cintura. Cansado e doente, abrigando-se em tapera que encontrara à beira do caminho, não tinha mais forças nem ânimo para prosseguir naquela loucura...
Então caiu uma chuva finíssima e o arco-íris despontou por trás do morro, nítido como nunca, brilhante! E a mente do velho iluminou-se! E o antigo sonho percorreu-lhe as veias e incendiou-lhe o corpo! E lá se foi o velho, morro acima.
Nunca fora tão fácil! Nem montanha era, apenas um morrinho de nada... Mas chegado ao topo, o velho constatou mais uma vez o que já conhecia de sobra: o arco-íris brilhava por trás do morro seguinte. O fogo que o animava arrefeceu, a canseira dominou-o de vez. Deitou-se na relva. Adormeceu.

(epílogo no próximo post)

15 de mai de 2011

Uma historinha infantil para adultos – parte 1

Há muito e muito tempo, num lugar que ninguém sabe, um menino ouviu de um velho contador de histórias que havia uma panela cheia de ouro, lá bem onde o arco-íris toca a terra. Um dia, durante a estação das chuvas, saiu de casa e caiu no mundo, disposto a encontrar esse tesouro.

Já andara muito quando encontrou uma menina de tranças pulando de pedra em pedra sobre as águas de um regato. Disse-lhe a menina:

- Brinca comigo...

- De quê? – perguntou o menino.

- De pular, ou de jogar pedrinhas na água e ver os círculos que elas formam.

O menino considerou não valer a pena atrasar-se por brincadeira tão boba. E seguiu.

Muito além daquele sítio encontrou um camponês plantando flores. Disse-lhe o floricultor:

- Vem ajudar-me. As flores te darão o sustento e alegrarão a tua vida.

- Flores dão muito trabalho e demoram a crescer. E eu tenho pressa: busco uma riqueza maior...

Caminhando de sol a sol e descansando à noite, foi ter a uma fazenda onde se realizava uma festa de casamento. Apresentou-se e felicitou os recém-casados e seus pais, que o deixaram à vontade, apesar de ser forasteiro. Havia comida e bebida à farta e músicos animando os convidados. Comeu e bebeu – apressadamente! – e já ia embora quando uma mocinha lhe disse:

- Dança comigo...

Surpreso com o convite da mocinha, o menino passou a mão no rosto e só então percebeu que já não era menino, mas um rapazola, com os primeiros fios de barba a crescer.

- Desculpe, mas tenho um sonho a realizar. Talvez na volta... – respondeu o rapazola à mocinha, antes de se pôr a caminho.


(continua no próximo post)

6 de mai de 2011

O Sol no Ipê Amarelo


Corria o ano de 1972. Eu estava escalado para um plantão de 24 horas no quartel. Comprei na banca o jornal de hábito, atravessei a rua e parei na calçada, aguardando o ônibus que me levaria ao trabalho.
Enquanto esperava abri o jornal, como de costume naquela época, pelo caderno de Economia. Não que tivesse urgência em saber notícias do mercado; assistira ao noticiário no dia anterior e estava informado: a Bolsa continuava despencando. Eu procurava a opinião abalizada dos economistas, análises de empresas, de tendências, algo que me desse uma pista, um sinal, uma esperança de ver revertido aquele quadro desolador do mercado de capitais, Bolsa recuando inabalável.
Tempos atrás eu entrara num fundo de investimento em ações, quando a Bolsa arrebentava todos os limites de alta, aplicações mensais fixas, muita gente investindo, eu acreditava, uma beleza durante alguns meses, o meu dinheirinho aumentando. Até que a Bolsa deu de recuar, sabe-se lá por quê, investidores neófitos em debandada, assim como entraram, do mesmo modo saíam, com espírito de boiada. Mas eu não era boi dessa boiada, sabia que debandar só piorava, era neófito, mas não quadrúpede. Bolsa é investimento de longo prazo, um dia subirá, não há mal que sempre dure, já dizia minha mãe.
Mas a Bolsa nem ligava para as minhas expectativas, só fazia descer, quando não, andava de lado, fazendo crer que chegara ao fundo; então vai subir, pensava eu, mas caía de novo e no dia seguinte também e a semana toda. E o gráfico no jornal já não semelhava como outrora o perfil de cordilheira, mas de uma encosta íngreme sem vale que se perceba. E os meus cem cruzeiros aplicados num dia, no seguinte já minguavam, não valiam nem cinquenta. Ai, meu dinheirinho!
E o ônibus demorava, era assim nos fins de semana, pior aos domingos, em cidade do interior, onde uma única concessionária prestava o serviço. Não era de estranhar.
Dei uma olhada no primeiro caderno. A política era outra pedra no meu sapato. Já me decepcionara no passado, em plena adolescência, com a queda de Jango, na mão grande, à força, sem resistência. Foi um golpe na minha incipiente formação política. Então desliguei, não queria saber, tratei da vida, que um homem precisa fazer algo por si e pelos seus.
Entretanto o interesse voltou, o país se modernizava, a economia crescia a taxas incríveis, exportações em alta, grandes obras, a Bolsa dando saltos, os resultados surgindo aqui e ali, este é um país que vai pra frente, talvez deixe de ser do futuro para ser do presente, tem comando e administração, ordem ainda falta, mas terá, a subversão está por um fio, e de progresso ninguém duvida. Pra frente Brasil, quem não o ama que o deixe, e somos tricampeões do mundo, pois então!
No entanto o meu entusiasmo arrefecera. Os jornais publicavam, na primeira página, poemas e receitas culinárias. Que notícias nos estavam sonegando, não os jornais, mas os censores do governo? Eu tentava orientar-me lendo o que deixavam, recorria a publicações alternativas e atinava que algo de podre acontecia nos desvãos do regime.
Até parecia que os senhores no poder detinham o monopólio do patriotismo, sendo os contrários abjetos traidores, mas eu me perguntava se não seriam também patriotas ao seu modo, uns e outros em luta por ideários díspares, porém sinceros e todos brasileiros.
Estas aflições eu as guardava, confidências só aos amigos mais íntimos e olhe lá; no trabalho nem pensar, seria intrigar felinos na toca do leão, e besta eu não era.
E o milagre brasileiro deixara de funcionar na Bolsa, e o ônibus não vinha, e o que pretendia aquele maluco que avançava contra mim?
Era um menino portador da síndrome de Down, como se diria hoje na cartilha do politicamente correto, naquele tempo um menino mongolóide. Avançou contra mim, gesticulando e a falar, articulava com dificuldade, eu não entendia, me assustei, recuei dois passos, não que o temesse fisicamente, era um menino, apesar de pré-adolescente e avolumado, mas temia o ridículo, o constrangimento público, que se podia esperar de criaturas assim, para o vulgo era tudo doido, melhor evitar. Estatelou à minha frente, braço direito e dedo indicador em riste para o outro lado da rua, desejava comunicar algo, esperava o meu entendimento e eu não entendia, meus olhos fixos no menino espantado com o meu espanto.
Uma senhora que esperava a condução interferiu:
- Ele está querendo lhe mostrar o ipê.


Do outro lado da rua num baldio, um ipê levantado contra os cinzas difusos da manhã, os primeiros raios de sol, rasantes, filtrando por suas pequeninas flores amarelas, realçando-lhes a cor e o brilho. O ipê resplandecia, grande candelabro insólito e belo!
Sorri, levantei o polegar em sinal de compreensão e concordância, sim, é belo, o menino sorriu e assim ficou, braços cruzados, admirando contente o ipê, e eu no íntimo envergonhado por ter desentendido quando o menino só queria partilhar comigo a beleza que os seus olhos viam e os meus não.
Vemos o que queremos ver, o que está dentro de nós. Eu passei ao lado e não vi o ipê, via os gráficos e a Bolsa, o progresso e a repressão, coisas importantes de fato, mas distantes. De maior apreço é a vida, se descuidamos ela passa, e a vida está ao lado, até nas coisas mais simples, se temos olhos e coração atentos; está na mocinha que passa ou no olhar puro da criança; estava no ipê ensolarado em manhã de primavera e no menino que se encantava com ele.
O ônibus vinha afinal, do atraso eu não escapava. Acenei ao menino em despedida, eu e a senhora embarcamos. Sentei-me à janela, domingo tem isso de bom, poltrona vaga sobrando no coletivo, tem outros regalos ainda, mas eu estava de serviço.
Dobrei o jornal. A paisagem corria ao lado, deixando para trás o menino e o ipê banhado de sol; o sol que amornava o meu rosto e aquecia a terra, cobrindo-a de vida e de cores. E ainda que nuvens passageiras lhe toldem a face, ressurgirá na primeira janela aberta ou no dia seguinte, e assim por todos os dias... Tudo o mais passará.

 
FIM

 
OBS: Este conto participou da 11ª edição do Concurso Talentos da Maturidade, do grupo Santander – 2009.