27 de mar de 2013


A realidade do reality


Autora: Luciana Pitanga
Assistente de faturamento. Ensino Médio Completo. Publicações no site Recanto das Letras (até o momento): Espelho, Vendaval e É tempo!   

Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos do projeto ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.  


Estava voltando para casa após um exame admissional, tranquila por saber que em breve inicio em um novo emprego, e com isso, terei a oportunidade de garantir o meu sustento e o de minha família com o meu digno dinheirinho suado. Dentro do ônibus eu cultivava minha nova mania: ouvir música no celular. Enquanto me deixava embalar pelas melodias da minha rádio favorita, refletia a respeito da fama repentina e principalmente do enriquecimento repentino de algumas, digamos, novas "celebridades". Imediatamente me veio a lembrança de um comentário que escutei na porta da escola do meu filho, a respeito da grande final de um "reality show". Duas mães comentavam  empolgadas que foram dormir mais tarde para ver quem seria o grande vencedor. Eu só escutei, afinal, não gosto desse tipo de programa e na noite anterior tinha algo muito mais importante para fazer: dormir e não escutar o festival de baboseiras que são ditas nessas ocasiões. É claro que não conseguimos, e não podemos, ficar alheios a essas informações. Vencedores de realitys são novos milionários que ocuparão os (outros) programas de TV, as páginas dos jornais, as revistas, a internet, nosso tempo, nossos ouvidos, nossas cabeças, enfim, "deuses" que estarão em todas as partes, em todos os lugares. Estarão famosos e endinheirados. Até mesmo os míseros participantes, que não foram contemplados com o grande prêmio, aumentam o grupo dessa nova "elite". Realmente é muito triste todo esse espetáculo, mas infelizmente as pessoas assistem por diversos motivos, que na minha opinião, não são capazes de explicar o estranho gosto por contemplar exibições febris e absurdamente ridículas dos participantes. Fico imaginando a que as pessoas se submetem para aparecer, alcançar status e ganhar muito dinheiro tão rapidamente. Há quem tenha pena quando os vê em provas que testam o limite de suas forças físicas e psicológicas. Pensando bem, até entendo (um pouquinho só) o porquê de tamanho sucesso dessas atrações. Talvez seja o desejo lá do subconsciente humano de dormir pobre e acordar rico. De chegar na cara do patrão e dizer uma dúzia de nomes feios, que até então paravam na garganta e voltavam em forma de sapo. De curtir o não fazer nada e ainda assim ser bem visto. É...talvez por esse ângulo...
O grande problema é que as pessoas dão atenção demais para esses novos “gente fina” e não enxergam que os realitys estão bem distantes da nossa realidade. Será que alguém consegue imaginar um reality bem real? Que tal colocarmos uma câmera na roupa surrada do pai ou da mãe de família que sai de casa ainda de madrugada e tem de enfrentar vários desafios até chegar ao seu trabalho, como o trem, ou o ônibus, ou o metrô lotados. Tomar muito cuidado para não ser assaltado. Superar o nervosismo do engarrafamento. Legal, né! Cheio de emoções. O grande vencedor é aquele que consegue superar esses transtornos e muito mais. O grande vencedor leva o salário, a comida na mesa e garante mais um mês de emprego. Show! Isso sim é um Reality Show, assim mesmo com as iniciais em maiúsculo. Mas tenho a impressão de que não faria muito sucesso. A cara da pobreza não fotografa bem. Pode até ser que saia um discurso inflamado seguido da mudança do canal de TV indigesto que veio nos esbofetear com imagens tão duras. É...bom, voltando ao ônibus que me trouxe para casa, pois bem, entrou um homem vendendo aquelas gominhas de menta que aliviam a garganta e combatem a rouquidão. Apesar dos fones em meus ouvidos pude apreciar a propaganda do produto simples e atrativo, mas o que sempre me chama a atenção é o apelo desses vendedores. Pedem para aqueles que sentirem no coração que devem ajudá-lo que o ajudem. Eu devo ser mesmo coração de manteiga, pois sempre compro, mesmo que o produto não tenha serventia para mim. Gente, é o apelo de um trabalhador querendo levar o pão de cada dia para sua família! Ele está certo, poderia estar matando, roubando, ou participando de um reality qualquer...
Vocês devem estar se perguntando por que não termino os benditos parágrafos com um ponto final, mas sim com três pontos como se tivesse algo mais a dizer? Porque não tem fim mesmo. Enquanto o homem vendia suas balas no ônibus, passava o rapaz descalço na calçada, alguém morria na fila do hospital público, outro perdia o emprego, lá longe ou talvez bem perto, ou quem sabe as duas coisas ao mesmo tempo possam ter um ser humano morrendo de fome, e este morrendo no sentido literal da palavra. Mas deixemos esta conversa melancólica  de lado, afinal, temos gente bonita e rica para ver na TV, nos jornais... ah, sim! E por falar em jornais, quem disse que essa gente poderosa não tem utilidade e valor? Os jornais nos quais desfilam sua ascensão podem estar servindo neste momento de cama e cobertor para alguém que vive nas ruas, ou então, podem estar desempenhando a nobre tarefa de limpar a humilde bunda das nossas mazelas sociais.

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13 de mar de 2013

Maria, Maria


- Ó Maria... anda mulher, se não nos atrasamos.
- Já vou, já vou...
Margarida esperou um bocadito, Maria saiu com o cesto à mão, fechou por dentro o ferrolho da portaria e desceram a estrada a conversar. Iam à feira de Albergaria-a-Velha, sede do concelho. Fizeram o sinal da cruz ao passarem por São Pedro em nicho na parede da casa dos Carriços e entraram na ponte sobre o Caima.
- Acreditas, Maria, que esta ponte foi mesmo construída pelos mouros?
- Sei lá... Se vós que sois de cá tendes dúvidas, que sei eu, que sou de outras bandas? 
- E dizem que já tiravam minérios...
- Pode ser... Essas minas abandonadas, tão antigas...
- E os tesouros, acreditas? Aqui mesmo, embaixo desta ponte, há uma grade de ouro encantada pelos mouros, dizem...
- Tesouros... Mouros... Nem sei bem quem foram esses... Mas não deviam ser grande coisa, sempre metidos em bruxedos, encantamentos, essas coisas... E tesouros são a minha casa que me abriga, minhas terras que me dão o sustento, meu gado, minha família, os filhos...
Maria estremeceu ao dizer a palavra "filhos" e por instantes perdeu-se em pensamentos de aflições íntimas pressentidas. Acordou-a a mulher do Rambóia, a cumprimentá-las da janela do sobrado:
- Passou bem, Maria? Passou bem, Margarida?
Responderam e seguiram. Havia uma pequena trilha entre a quinta do Rambóia e a casa da Grila, num barranco íngreme e pedregoso que dava na estrada do Carvalhal; em geral todos subiam por ali; Maria preferiu ir um pouco além e acessar a estrada com menos desconforto. Margarida prosseguiu na conversa.
- Não sabia que te davas bem com os Rambóia. O teu marido e ele não se dão...
- Isso são coisas lá do Agostinho e do irmão. Eu sou de Vila Nova, não tenho por que me meter nessas desavenças de família. E além do mais, não estando cá o Agostinho...
- Muito acertado – concordou Margarida.
As duas passavam em frente ao velho e imenso carvalho, que da beira da estrada vigiava a parte baixa da aldeia por sobre a quinta do Rambóia. Da estrada enegrecida pela sombra emanava um frescor que envolvia os pés das caminhantes e lhes subia entre as saias. Maria olhou o tronco da árvore: bem que lhe apetecia sentar-se recostada nele e descansar protegida por aquele imenso e generoso guarda-sol! 
- Não vais hoje à feira, Rosa? – perguntou Margarida à esposa do Grandela.
- Não. Tenho umas costuras a fazer. Vão com Deus.
Depois passaram a levada (1) da Central Elétrica e alcançaram a fábrica do Carvalhal. Um cheiro forte de carvão de pedra empestava o ar. Maria incomodava-se, urgia afastar-se dali... Seguiram em silêncio e um pouco mais além deixaram a estrada para enveredar por caminho entre as matas. O frescor do arvoredo e o ar puro afastaram de Maria o mal-estar. Passaram o casal (2) de moradia dos administradores e funcionários graduados da fábrica. Maria, que até ali só respondia, perguntou:
- E o Joaquim, já conseguiu arranjar-se na fábrica?
- Está por conseguir – respondeu Margarida num tom esperançoso. Mas não é fácil, há muita procura e a fábrica é uma só... Se tivéssemos por cá umas três ou quatro fábricas dessas, aí sim, estes lugares seriam uma festa só...
Festa. A festa da Senhora do Socorro, ali bem perto de onde passavam e cujo arraial se transformava anualmente no centro da fé e do divertimento daqueles povos ao redor. Maria pensou na santinha. Bem que precisaria de sua ajuda, e da Senhora do Bom Parto, e de todas as Senhoras. Estava pelos últimos dias, bem que precisaria de ajuda...
- E tu, quando vais parir? – indagou Margarida.
- Só Deus sabe a minha hora, mas sei que não tarda... Pode ser daqui a pouco...
- Cruz, credo, Maria! Nestes ermos, longe de casa?! Nem penses...
- Vamos... Vamos logo fazer o que de casa saímos a fazer...
Na feira, Maria nem comprara tudo que desejava; sentia dores na bacia e a sua hora por chegar. Voltou-se para a Margarida:
- Olhe, eu já comprei tudo, sinto-me cansada e é melhor que me vá. Fica com Deus...
Nem parou na pensão onde costumavam merendar uma tigela de caldo ou pão-trigo com queijo: não havia tempo a perder nem fome sentia – só dor. Ajeitou o cesto à cabeça e enlaçou as mãos por baixo da barriga como a querer sustentá-la ou retardar sua função. Esticou o passo. Rezou em silêncio. E já nos termos de Albergaria o líquido viscoso e quente desceu-lhe pernas abaixo, ensopando as alpercatas! O suor tomou-lhe as frontes e o corpo todo afogueou-se! Mas talvez ainda houvesse tempo: apertou mais o passo e apegou-se às suas santinhas.
- Ai, minha mãe, valei-me nesta hora! Vós, que estais aqui tão pertinho, socorrei-me! Ave, Maria, cheia de graça, o senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre...
A reza já não era meramente pensada ou murmurada, mas saía de sua boca quase aos gritos! Dir-se-ia iminente o desenlace daquele drama entre os dois seres: um teimando alcançar o conforto do lar; o outro negando-lhe o tempo necessário, na ânsia de vir à luz.
No ventre de Maria a vida convulsionava-se, metendo-se a caminho.
Uma touceira de mato à sombra de um carvalho: chegara a hora e aquele era o lugar. Maria arriou o cesto e estendeu o xale sobre a relva; acocorou-se nele e deixou fluir de si a vida. Aos primeiros vagidos da cria, serenada a carne, uma paz grande invadiu a alma da mãe!
Só então as lágrimas desceram...
Segurando o cordão umbilical, cortou-o com uma lasca de pedra contra um calhau, livrando-se da placenta. Depois deu um nó no cordão, limpou-se como pode e embrulhou no xale o bebê. Agachou-se, pôs na cabeça o cesto e a criança no avental, segurando-lhe as pontas, como alças de uma bolsa. E seguiu. Marcava-lhe a boca um discreto sorriso de contentamento agradecido.
Na fábrica do Carvalhal, um rapazola lidava num monturo de carvão.
- Boas tardes, ti' Maria!
Maria não respondeu, porque não ouviu. Nem cheirou o ar fétido de sempre; seu olfato só captava os aromas do embrulhinho que levava ao regaço. Mais dois sentidos guiavam Maria: o olhar na estrada, em cada curva, em cada reta, avaliando as distâncias a percorrer; e o tato, sentindo o ritmo do caminhar sereno e firme e ligando-a ao que tinha no avental, junto ao ventre esvaziado.



Margarida voltava da feira.
- Ó Micas, viste a Maria?
- Qual Maria?
- A do Agostinho, pois que Maria havia de ser? Foi comigo à feira e voltou mais cedo.
- Vi-a passar agorinha mesmo com um cântaro de água à cabeça.
Margarida subiu a estrada, desaferrolhou a portaria, entrou, arriou a canastra no quinteiro. As crianças brincavam ali.
- Onde está vossa mãe? – perguntou-lhes.
- No quarto – disseram.
Margarida subiu as escadas. A porta da cozinha aberta, entrou, o lume aceso na lareira. Atravessou a sala e espiou pela porta entreaberta do quarto.
- Maria...
E Maria, sem interromper o que fazia:
- Vem, vem ver...
E continuou a lavar em água morna o seu bebê.



PS: Não pude apurar com certeza, mas tudo indica que esta foi a última gravidez de vovó Maria. O bebê veio a falecer seis meses após de causa não relacionada com as circunstâncias do parto.

  1. levada – canal de água captada num rio, geralmente para irrigação. Neste caso era para produção de energia elétrica.
  2. casal – grupo de casas.

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