18 de jun de 2017

Paranoia?

Por duas semanas estive em São Gonçalo colaborando em obra de construção já referida em crônica anterior. Ficamos, eu e o Zé, meu pedreiro favorito, alojados em quartinho-suíte no terraço da casa vizinha à obra, residência da sogra da mãe de Yasmin.
Vou dormir cedo, que o corpo pede. Consequentemente acordo pela madrugada e fico aguardando sinais do alvorecer: o cantar dos muitos galos que há por lá, os primeiros trinados dos pássaros, inclusive de um casal de sabiás que vive nas proximidades, o roncar de carros na rua, a passagem do primeiro ônibus, o latir de cães, os passos apressados e duros de algum trabalhador descendo as escadas, a eventual fala entre  vizinhos que se encontram. 
Passam o segundo e o terceiro ônibus. É hora. Levanto-me, preparo-me e desço. A nascente claridade do dia, ainda muito tímida, se anuncia. Faço hora na rua se ainda não abriu a padaria. Aberta, peço dois cafés, tomo um, calmamente observando a paisagem humana de trabalhadores rumo ao ponto de ônibus ou esperando nas esquinas, levo o outro para o Zé , me troco e desço à obra, iniciando o trabalho, antes mesmo do café da manhã.
Tem sido assim todos os dias. Melhor, quase todos...
Terça ou quarta-feira passada, ao descer encontrei o portão trancado; abri o ferrolho interno, mas alguém passara a chave na fechadura, que antes ficava só no trinco. Olhei em volta à procura de alguma chave, ainda não acreditando que me trancaram. Mas trancaram!
No terraço, esperei, irritado e ansioso, que D. Norma (a sogra) abrisse o portão, libertando-me.
E foi assim no dia seguinte e no outro.
Comentando com o Zé, disse-me ele que D. Norma andava muito preocupada com roubos, assaltos e tal... Eu mesmo já comentei um desses eventos que preocupam D. Norma, o assalto no ponto de ônibus. Mas que diabo! Um ferrolho com meia polegada de diâmetro é mais seguro que qualquer fechadura! Com tal parceria, uma fechadura não acrescenta nada, é inútil! Isso é paranoia! Se alguém mal intencionado quiser entrar, escala o muro, que é bastante alto, mas nada de impossível a um malfeitor.
Na sexta-feira comentei com o filho de D. Norma, dono da obra na qual colaboro:
--- Que nada, seu Antonio! Minha mãe tranca o portão para o senhor não sair muito cedo, para lhe proteger, preocupada com a sua segurança...
Ora vejam só! D. Norma me tranca para me proteger! Uma espécie de prisão preventiva domiciliar de curta duração e a favor do réu. E nem sou réu de nada. A não ser de me cansar, dormir cedo e acordar pela madrugada.
Mas sosseguei e não penso em reclamar de nada. Submeto-me às normas de D. Norma. Espero pacientemente o portão ser aberto. Na próxima semana levarei uma revista para ler, ou um livro. D. Norma nos trata muito bem e faz um pãozinho caseiro recheado com presunto, uma delícia! Faz lembrar-me, mal comparando, do bolo salgado que minha mãe fazia a cada fornada, com cobertura de sardinhas. Pão de milho e sardinhas. Ah! que regalo! E que saudade!   

30 de mai de 2017

Vô Tônico minimalista - 3

Dentre muitas outras coisas, uma Constituição serve para balizar os momentos de crise. Eleições diretas já não são garantia de solução: Color foi eleito pelo povo e Dilma/Temer e todo o Congresso também. E podem constituir-se em casuismo acobertador de ambições e interesses vários. Cumpra-se a Constituição! E aguardemos 2018...

14 de mai de 2017

Dia de mãe

Dia desses, estando em São Gonçalo, acordei cedo e fui à padaria tomar um café. Mais ou menos 6 horas da manhã.
Ninguém no ponto de ônibus, apenas o fiscal da empresa. Estranhei, haja vista ser o horário mais concorrido.
Ao passar pelo fiscal, cumprimentei-o e notei um grupo de pessoas afastadas sob um telheiro em frente ao ponto. Na esquina próxima, duas pessoas. E mais além, na esquina da padaria, mais três ou quatro que pareciam não estar esperando a padaria abrir. Que por sinal abria naquele momento.
Peguei o meu café e sentei-me em cadeira na calçada, apreciando aquela paisagem humana. Na esquina em frente uma senhora acompanhava um adolescente, provavelmente filho. Não conversavam. A mãe olhava o ponto de ônibus e o rapaz, homenzinho que era, parecia insatisfeito com a escolta materna.
Vem o ônibus. Imediatamente aquelas pessoas, e outras que surgiram das casas, movimentam-se apressadamente em direção ao ponto como formigas dispersas repentinamente atraídas pelo cheiro estimulante de um grão de açúcar.
Lembrei-me então  do que me contaram: Há dias, dois bandidos motorizados e armados chegaram naquele horário e assaltaram todo o grupo que aguardava a condução; fizeram uma "limpa": dinheiro, relógios, celulares, tudo.
A mãe permanece na esquina até que seu filho e todos embarquem, e se afasta lentamente. Ainda se volta para ver a passagem do coletivo, E segue. Leva apenas uma certeza: seu filho partiu bem...    

20 de fev de 2017

Vô Tônico minimalista - 2

Tolerância só não basta: é preciso respeito.

14 de jan de 2017

Vô Tônico maximalista

Recentemente a minha Rita submeteu-se a uma cirurgia de hérnia umbilical. O procedimento estava agendado para 28/11/2016. Ainda em outubro, fui a São Gonçalo, onde a mãe de Yasmin e o marido estão construindo uma casa. Levei o meu pedreiro favorito (meu cunhado) para construir uma escada, pois julgava que os pedreiros da obra não o fariam a contento. Escada concretada, voltei no domingo, 30 de outubro, dia de votação em segundo turno, e soube que a cirurgia havia sido antecipada para o dia seguinte, segunda-feira. Ótimo!
Após cumprir meu dever de eleitor, ficamos, eu e Rita, assistindo televisão pela tarde afora. O telefone tocou: "Dona Rita, por que a senhora ainda não se internou?"
Resumindo o equívoco, a cirurgia era na segunda-feira, mas a internação no domingo.
Imediatamente partimos para o hospital. Cristina, amiga de Rita, foi como acompanhante, pois no dia seguinte, dia da cirurgia, eu precisava retornar a São Gonçalo para orientar os pedreiros na construção do 2º andar.
Problema: a paciente internada teria a alimentação prevista, mas a acompanhante não, porquanto, pelo adiantado da hora, o refeitório já fechara. E a cantina nem abre aos domingos.
Fui à rua em busca de alimentação para Cristina.
Na Rua do Matoso, um restaurante aberto. Duas pessoas, sentadas ao fundo do salão, conversavam e bebiam. Entrei com o intuito de perguntar se ainda havia comida àquela hora (21 horas, mais ou menos).
Do mezanino descia um chinês, com toalha e bandeja à mão, já de idade avançada, quase esquelético e com cara de poucos amigos. Comecei então a contar a minha história, estava com a mulher internada, precisava de alimentação para a acompanhante, etc e tal...
E o chinês, de fisionomia ainda mais dura e gestos rudes:
--- No tem! No tem!
Tentei explicar mais claramente.
--- No tem! No tem! E apontava-me rispidamente a porta de saída!
--- Calma, calma, se não tem, tudo bem. E saí, calmo e humilde, para o olho da rua, com a sensação de que o chinês nada entendera. Também eu nada entendi.
Fui então a um botequim do outro lado da rua, cujo botequineiro me indicou uma lanchonete próxima.
Levei o lanche a Cristina.
E voltei a casa tentando entender o chinês, já agora com uma pontinha de indignação. "Raios de Ching-ling! Como pode prosperar tratando assim os clientes! Além de tudo é um quadrúpede! Asno!".
No dia seguinte, preparando-me para ir a São Gonçalo, ainda pensava no chinês. Fazendo a barba, desvendei-lhe a atitude aparentemente despropositada.
Saímos de casa para o hospital apressadamente; eu, sem grandes cuidados quanto à aparência. Estava trajado adequadamente, roupas limpas e cabelo penteado. Mas com uma barba de semana! Em São Gonçalo, na obra, não perdi tempo com tais cuidados.
Isso, e o meu jeito de explicar tudo direitinho, a minha tendência de contar histórias, confundiu o chinês, que me tomou por pedinte, um mendigo pedindo comida.
Eu deveria ter sido mais objetivo: "ainda tem comida?", talvez acrescentando um gestual que ajudasse o entendimento. Notem que os pedintes, pelo menos os mais espertos, sempre contam uma história, em geral triste e longa, que até precisa ter paciência para ouvir.
É isso. Falei demais para alguém que provavelmente já andava estressado com o assédio de pedintes e outros desafortunados da vida.