2 de dez. de 2009

A lagarta que não virou borboleta




Havia no quintal dos fundos da casa um pé de abacate que, apesar de jovem, projetava uma nesga de sombra suficiente para mitigar o calor a quem nela se refugiasse. Era aí que eu costumava ler o jornal de domingo. Lia recostado em confortável poltrona, enquanto uma brisa suave, vez por outra, vinha farfalhar nas folhas do jornal e nas do abacateiro, aumentando o meu refrigério e trazendo aromas do almoço em preparo. Só as notícias do jornal incomodavam.
Mas a concentração na leitura se desfez quando um barulhinho de mastigação, persistente e guloso, fez-se ouvir acima de mim. Examinei a copa do abacateiro: uma lagarta verde devorava uma folha, depois outra e outra... Como são ligeiras pra comer!
Voltei ao jornal sob o ritmo contínuo e tedioso das mandíbulas da lagarta, porém concentrar-me na leitura já não podia: aquele ruído penetrava-me os ouvidos e me dispersava o pensamento.
Até que o ruído cessou: a lagarta estava no chão.
O que teria acontecido? Que evento ou circunstância interrompera a comilança da lagarta? Um ataque ineficaz de um predador? Uma lufada mais forte da brisa, sacudindo o restaurante da bichinha? Ou a lagarta simplesmente escorregou da folha, com todos aqueles pezinhos? Nesse caso foi uma escorregadela múltipla! Puro azar.
Mas que importa a causa, se a lagarta estava no chão?
Desviei do jornal e fiquei observando o infortúnio da lagarta, em suas tentativas de retornar ao abacateiro.
Havia um pedaço de muro dividindo o quintal, mas aberto onde eu me encontrava; deste modo acessava-se a outra parte do terreno. O abacateiro crescia ali, a cerca de meio metro e mais ou menos parelho ao pilar de concreto que rematava o término do muro. A lagarta caiu perto desse pilar.
Mas não se achou perdida: o instinto lhe dizia que as deliciosas folhinhas estavam acima; era necessário subir, portanto. Rodou a esmo até dar de cara com o pilar de concreto. Se era para subir, subiu. Terminada a vertical, emendou pela horizontal do muro – talvez fosse um galho do abacateiro. Não achou as folhinhas e ao chegar à parte do muro batida pelo sol, retornou. Desceu ao chão. Nova procura pela verticalidade redentora e de novo o pilar à sua frente. Subir, subir, lhe dizia o instinto. Subia, andava pela horizontal do muro, voltava.
Evidentemente que suas vistas não eram grande coisa, o abacateiro estava a meio metro, mas a pobre não o enxergava, só topando com o pilar de concreto. Nem a textura, nem o aroma, nem a temperatura da superfície de concreto combinavam com o que sabia de árvores, galhos e folhas, mas o pilar era a única verticalidade que encontrava, e sabia que tinha de subir...
De visão curta e prisioneira do instinto, a lagarta ficou no sobe-e-desce, no vai-e-volta, indefinidamente, incapaz de variar em suas tentativas.
Adeus lagarta, adeus crisálida, adeus borboleta!
Assim é a vida: nem todas as lagartas viram borboletas, talvez só a minoria o consiga. E a maioria de nós não somos também lagartas, com um sonho lindo de virar borboletas?
Há de haver muito esforço, muito trabalho (e como se esforçam as lagartas!); há de haver talento e oportunidade, e muita sorte, claro. Não há fada madrinha nem varinha de condão para fazer virar.
Virar borboleta é apenas uma possibilidade imponderável. Vivamos pois nossa vidinha de lagartas, honestamente comendo folhas e desejando a beleza das borboletas.
Mas, se cairmos da folha?
Se cairmos da folha temos vantagem sobre as lagartas: temos liberdade e discernimento para variar os rumos, escolher caminhos, perseverar...
Outubro de 2009


1 de nov. de 2009

Arroz, feijão, macarrão



Sentado num banco do Passeio Público, eu acabava de ler o que de interessante achara no jornal, sem mais o que fazer além de aproveitar a sombra do arvoredo e olhar o entorno. Fazia hora para assistir à matinê do cine Palácio.
Um mendigo aproximou-se e pediu um cigarro. Dei. Mas considerei de bom alvitre afastar-me dali, movimentar-me, evitando assédios semelhantes ou piores. A matinê ainda demorava.
Transitei pelas ruelas tortuosas do jardim, observando as árvores, as plantas, o lago e as esculturas, e lamentando o péssimo estado de conservação de tudo aquilo. Parei na Fonte dos Amores, obra do Mestre Valentim. A conservação não era melhor (isto foi antes da restauração de 2004).
Perto da fonte, duas meninas pré-adolescentes, magras e andrajosas; uma de pé, a outra agachada lavando trapos nas águas verdes do lago. Mais velhos, mas pouco mais que meninos, dois rapazes conversavam e fumavam. Outro menino, o menor do grupo, mas talvez de idade superior à que permitiria supor o seu corpo miúdo, destacou-se dos parceiros de infortúnio e caminhou para mim.
Tive vontade de sai dali, de fugir ao assédio cujo resultado eu adivinhava.
- Tio, me paga uma quentinha?
- Filho, você não quer um saco de pipoca, uns doces? – tergiversei, na tentativa mesquinha de aliviar o bolso. Que criança não gosta de guloseimas?
- Não, tio. Eu quero comida, uma quentinha bem cheia.
- Está bem, eu pago a quentinha. Vamos.
- Tio, dá pra você pagar uma quentinha pra minha irmã?
Olhei as duas meninas. A que lavava trapos parou de lavar, ergueu a cabeça e olhou-me longamente sem dizer palavra. Nem precisava, seus olhos diziam tudo.
- OK, mais uma quentinha – conformei-me. Vamos buscá-las.
Alguns passos além e gritaram-me pelas costas:
- Tio, trás uma quentinha pra mim também?
Era a outra menina. Concordei - quem paga duas, paga três -, mas que ficassem ali, eu traria as quentinhas. Apressei-me, temendo que os outros pedissem também; nesse caso o meu orçamento ficaria seriamente comprometido, talvez nem desse para ver o filme. Disse-me o menino:
- Tio, a minha eu quero com bastante arroz, feijão e macarrão, tá?
Perguntei-lhe se sabia onde forneciam quentinhas; sabia, claro, e levou-me a um restaurante na Rua das Marrecas. Self Service, a peso. Não era chique, mas também não era popular: a despesa iria além do previsto. Entramos e o funcionário encrencou com o garoto, não o queria ali. Sosseguei o funcionário e orientei o menino para que ficasse junto ao caixa, enquanto eu fazia as quentinhas. Ele ainda advertiu:
- Tio, muito arroz, feijão e macarrão.
Enchi as quentinhas, pesei, paguei e saímos. Já no Passeio, segurando a sua quentinha, o menino falou:
- Tio, a minha eu não vou dividir com ninguém. A minha é só minha, tá?
- Claro. Se houver divisão é com estas duas, das meninas.
Entreguei as quentinhas às meninas, que agradeceram – também os rapazes o fizeram -, enquanto o menino sentava-se na grama para o seu almoço. Afastei-me, deixando-os à vontade na partilha.
Não lembro a que filme assisti no Palácio. Mas até hoje não esqueço daquelas crianças do Passeio Público, especialmente do menino. Não esqueço de sua esperteza recusando os doces e pedindo comida – com muito arroz, feijão e macarrão. Esperteza que lhe ensinou a vida, desde cedo.
Não esqueço aquele menino que há muito deixara de ser menino.

Outubro de 2009

Desassossego


A pequena olhava pela janela do ônibus, o nariz quase colado ao vidro. Descolou-se, parecendo confusa.
- Vô, as coisas lá fora, as casas... assim, é... não sei explicar...
Júlia não sabia explicar ao avô o que os seus olhos viam, ou pareciam ver, e a sua cabecinha não entendia e achava esquisito: o movimento aparente da paisagem, contrário ao deslocamento do ônibus.
- Parece que as coisas estão correndo lá fora, é?
- É...
- As coisas não estão correndo, estão paradas, disse-lhe o avô, mas o ônibus, eu e você, que estamos dentro do ônibus, é que estamos correndo para a frente, e aí as coisas lá fora vão ficando para trás, parece que fogem de nós. É ilusão: parece, mas não é. Entendeu?
- ...
- Olha agora, que o ônibus vai parar; as coisas param também...
- É... Engraçado, né, vô?
A menina voltou a observar através da janela. A viagem chegava ao fim. Vinham da Ilha do Governador, onde residia a menina com sua mãe e a bisavó, para mais um fim de semana na casa do avô, em Marechal Hermes. O ônibus arrastara-se por quase uma hora, sujo e mal cuidado, uma charanga velha chacoalhando metais, parafusos e rebites, num ritmo marcado pelas irregularidades do asfalto, não só desagradável, mas irritante. A menina já reclamara da viagem demorada. O avô explicou-lhe que era necessário aquele itinerário para que ela pudesse viajar de trem. O outro percurso, mais direto e rápido, pela Av. Brasil, não lhe daria chance. Júlia adorava viajar de trem e o avô sempre lhe dava esse gosto, por mais desconfortável que fosse.
- Vô, isto aqui já é Madureira!
- É sim, ali é o Mercadão. Estamos chegando.
Pouco depois saltaram no terminal rodoviário e dirigiram-se à estação ferroviária. Na rampa de acesso, o avô largou a mão da menina, por já não haver perigo.
- Me dá a mão, vô... Minha mãe disse que é pra eu andar sempre na mão dos adultos, porque tem gente má que rouba criança... E tem o Velho do Saco, sabia vô? A minha bisa disse que o Velho do Saco leva criança que não obedece... E criança malcriada... Bota no saco e leva, de noite... Eu morro de medo, cruz, credo!... Mas eu não acredito é em bruxa e lobisome. Isso é fantasia, a minha tia disse. Mas no Velho do Saco eu acredito, ele existe mesmo. Aí eu rezo pra mamãe do céu, que é pra não deixar ele me levar. E quando faço merda, peço desculpa...
O avô ia concordando com a neta, fazendo hum, hum, e lembrando-se de como era falador quando criança; falava pelos cotovelos, mormente se com pessoas de seu íntimo afeto. Agora nem tanto, ouvia mais e observava; mas quando algo o preocupava ou uma ideia o perseguia, e na falta de um interlocutor ou na inconveniência de ocupar o que havia, danava a falar em silêncio, consigo mesmo ou com os seus botões, como se diz; e gesticulava e mexia os lábios, em casa ou na rua, vez por outra causando espanto aos passantes. Em casa já ninguém se espantava.
Chegaram à bilheteria; o avô comprou a passagem.
- Julinha, você quer alguma coisa, um refresco, água?
- Não, vô. Vamo logo.
Foram. O avô introduziu o bilhete na catraca eletrônica, que respondeu com a luz verde. Sendo uma só passagem, teriam de passar juntos no mesmo setor da roleta. A menina pediu:
- Vô, deixa eu passar sozinha?
Diferentemente das do Metrô, modernas e civilizadas, as catracas de acesso às plataformas da ferrovia têm roletas altas e pesadonas, verdadeiros brinquedos para crianças pequenas, que adoram passar empoleirando-se nelas. O velho entendeu o desejo lúdico da neta e, sempre disposto a proporcionar-lhe novas experiências, ou "a fazer-lhe as vontades", como dizem as pessoas que não entendem a alma de um avô, assentiu ao pedido, sem atentar na consequência imediata: ficou bloqueado do lado de fora, separado de sua menina.
Raios! Como pude deixar acontecer? Veterano em catracas e roletas, e deixar-me surpreender assim, como uma criança inocente!
Mas para tudo se dará jeito, e o jeito era comprar rapidinho outra passagem: era sábado, pouco movimento, bilheterias desimpedidas. Trinta segundos, se tanto. E a menina ficaria ali, paradinha, esperando o avô. Disso o velho tinha certeza. E havia o funcionário da ferrovia olhando as catracas, ciente do ocorrido e com a menina em suas vistas; nenhum perigo, portanto.
Mas na catraca ao lado passava uma senhora, que tudo viu e ouviu e, sem que fosse solicitada, ofereceu-se:
- Moço, pode ir comprar a passagem tranquilo, eu tomo conta da menina, disse a mulher, já pegando a mão da criança.
Então o incidente, simples e de fácil resolução, complicou-se: homem e mulher se olharam por instantes, sem que desse olhar resultasse entendimento; pelo contrário, anuviou-se o semblante do velho, de súbito invadido por temores e desconfianças.
- Não, é melhor não, obrigado... Vem, Julinha, vem com o vô, chamou o velho, orientando a neta às roletas de saída.
E a senhora afastou-se, meneando a cabeça, talvez intuindo o que se passara na cabeça do velho.
Ora, onde já se viu! Tomar conta da minha menina, uma pessoa estranha, que nunca vi mais gorda? Nem pensar! É assim que acontece: uma oferta de ajuda, uma distração, e as crianças somem! Comigo não, violão! Vá ajudar a quem lhe peça, ou necessite; eu cá sei dar o meu jeito, não preciso...
Após comprar outra passagem e recolher o troco à carteira, o velho segurou a mão da menina.
- Vamos, Julinha. Agora temos de passar juntos na roleta.
- É. Se não passa junto, dá merda, né, vô?
O pior é que o Velho do Saco existe; ora, se não existe! Pode estar caminhando ao nosso lado em pleno dia, com a cara mais simpática e transpirando bonomia. Pode ser a senhora prestativa e solidária que oferece ajuda, sabe-se lá com que intenções ocultas. O fato é que as crianças somem. São mais de sete mil todos os anos! Crianças e adolescentes. Jamais são achados, jamais retornam a casa. Mais de sete mil! Por que descaminhos vagueiam? Nos sinais de trânsito, jogando malabares ou vendendo balas e não raro explorados por gente ordinária? Ou esmolando, idem. Ou escravizados na prostituição... Ou mortos... Fala-se em tráfico internacional de pessoas e... órgãos! Quanta crueldade! Quanto horror!... Custa-me crer, mas as crianças somem. Fogem de conflitos familiares ou maus tratos, ou se perdem, ou sofrem um sequestro... É possível que muitas sejam roubadas porque alguém se descuidou, porque um avô se distraiu...
Descendo as escadas de acesso à plataforma dos trens paradores, Júlia reclamou:
- Vô, você tá apertando muito a minha mão...
- Hem? Ah, é por causa da escada, é perigoso.
- Mas eu já sou mocinha, vô, já sei descer escada.
Na plataforma, sentados num banco, o avô largou a mão da neta. Os altofalantes transmitiam música ambiente, avisos diversos e o movimento dos trens. A menina abriu a sua bolsa-oncinha de pelúcia e retirou dela um pequeno espelho e um batonzinho de brilho; maquiou os lábios, apertando-os, como fazem as mulheres adultas; olhou-se no espelho e ajeitou os cabelos; guardou os apetrechos na bolsa e fechou-a, pondo-a a tiracolo; finalmente levantou-se e fez pose de modelo.
- Tou bonita, vô?
- Está linda, muito linda, uma princesa.
A neta sorriu, vaidosa; sorriu também o avô, orgulhoso. Quem não quer uma criança assim?
- Tomara que o nosso trem seja aquele novinho, né, vô? Com ar re... refri... refrigerante.
- Ar refrigerado, corrigiu o avô, a esta altura distante dos temores e desconfianças que lhe ocuparam a mente até ali, deliciando-se agora com a graça de sua mocinha de cinco anos.
Por alguns instantes, apenas. Do outro lado, na plataforma dos trens que demandam a Baixada Fluminense, sentada, a senhora que lhe oferecera ajuda. Os olhares cruzaram-se: o da mulher desviou, o do velho fingiu não ver. Mas olhavam-se de través... E a mente do velho inquietou-se de novo, desta vez com preocupações de teor diverso.
Aquela dona parece triste e pensativa, longe da que me ofereceu ajuda, de ar natural e simpática. Teria percebido o meu temor e se magoado? Ou, pior, sentiu-se discriminada por ser negra? Esse preconceito não tenho, porém bem sei que existe, difuso na sociedade como esse clima de insegurança, esse medo... E se fosse realmente uma sequestradora, se fosse uma Velha do Saco, que poderia fazer numa estação ferroviária, cercada por grades, catracas e roletas, escadas para descer ou subir e guardas na plataforma? A única chance seria com a chegada imediata de um trem, correr e lograr enfiar-se nele. Mas a minha menina já é mocinha, ia gritar e espernear, fazer escândalo. O maquinista seria avisado e o trem interceptado na próxima parada, em Deodoro; e a mulher presa e a menina devolvida... Isso se tudo ocorresse com a eficiência desejável. Mas claro está que este não é o melhor lugar para uma ação dessa natureza... E a dona parece respeitável; deve ter filhos e netos como eu. Deve ser uma boa pessoa. Quem vê cara não vê coração, bem sei, mas também ela não enxerga o meu e solidarizou-se comigo... Foi tudo um equívoco, uma desconfiança infundada, um temor precipitado...
- Vô, por que é que você tá mexendo com a boca e as mãos?
- Ãh? É que estou falando com os meus botões...
- Os botões da camisa? Eles ouve, é?
- É maneira de falar. Estou é falando comigo mesmo, entendeu?
- Entendi, mas aquela moça lá tava olhando pra você. Vai ver ela pensa que o meu vô tá doidando...
O velho achou graça no verbo, riu e abraçou a neta, enquanto pensava: doidando é? Pois estou é muito alerta, isto sim! Talvez lendo jornal demasiado, vendo muito TV, deixando-me levar, entrando no clima... Acho que vou é ler romances de agora em diante: me distraio e não me enveneno...
- Vô, o que é que a moça tá falando?
- Que moça? A do altofalante? Está dizendo que saiu um trem parador da estação de Piedade, com destino a Bangu. È o nosso, não demora.
Já calmo e apaziguado, convencido do exagero de seus cuidados e do mal-estar que engendrara, o velho não queria sair dali deixando para trás ressentimentos. Carecia, portanto, desfazer o mal causado. Como? Talvez um gesto cordial e um sorriso à senhora sentada na plataforma à sua frente resultasse no efeito desejado. Talvez lhe pudesse dizer duas palavras: desculpe, senhora. E a senhora talvez retribuísse com idêntico gesto e um sorriso compreensivo, absolvendo-o de culpa por tal situação, quem sabe ela mesma partilhando iguais sentimentos, tanto que se prontificou a tomar conta da menina... Sim, era isso. Mas havia de fazê-lo já, não tardava a chegar o trem.
Fácil pensar...
Com a menina segura na mão esquerda, o velho ficou de pé e voltou-se para a senhora do outro lado, fitando-a; ela percebeu algum propósito naquele olhar franco e direto, ausente de negaças ou desvios; e, sustentando o olhar, esperou...
O velho não tinha dúvida do que fazer: era acenar e sorrir, talvez duas ou três palavras, e ir para casa de coração limpo e leve. Porém, ainda ligeiramente constrangido, embaraçado entre o pensar e o fazer, o corpo não lhe obedeceu de pronto: seu braço e mão direita relutaram em alçar o gesto, e o sorriso não desatou...
E quando, afinal, alevantava-se a mão e a boca abria na promessa de um sorriso, já o trem metia-se entre os dois, vedando-lhes a visão e inibindo o gesto apenas iniciado...
- Vamo logo, vô, o trem chegou!... Tá bobeando, vô!

Setembro de 2009
Prêmio Kairos Poiesis: Uma segunda versão deste conto, com o texto expurgado de excessos e reduzido a quatro laudas, venceu o concurso de contos e poesias promovido pelo blog Kairos Poiesis. blogspot. com - em 1º mugar - recebendo o prêmio Kairos Poiesis, categoria conto. Fará parte de uma antologia a ser editada no próximo mês de outubro/2010. Dia de lançamento ainda não determinado.


16 de out. de 2009

Fiscalização


Tomo um remédio diariamente, um complexo vitamínico antioxidante para combater os radicais livres que atuam no meu olho esquerdo (e em outras partes do corpo – são livres, pois não?). É de uso contínuo e fornecido por uma farmácia de manipulação mediante formulação própria. Nenhuma outra o produz. Tomo duas cápsulas ao dia, sessenta ao mês.
Por estes dias liguei para a farmácia encomendando a cota mensal. Fui informado que a receita existente junto ao meu cadastro estava vencida (prazo de um ano), carecia atualizá-la, sem o que não poderiam me fornecer o medicamento, a fiscalização exigia, etc.
No dia seguinte (hoje) fui à oftalmologista com a receita vencida para que me desse outra. Não era a profissional que me dera a receita anterior, mas voltei com a receita nova e passei-a por fax à farmácia. Em seguida telefonei para encomendar o medicamento.
- Senhor, tudo bem, a receita está aqui, com a prescrição médica e data de hoje, com a expressão uso contínuo por um ano, como exige a fiscalização, mas está faltando a formulação, que deve ser indicada pelo médico, como exige a...
- Mas a fórmula é a de vocês, a mesma que está na receita anterior. Além do mais, trata-se de vitaminas, que problema há nisso, por que tanto rigor?
- Problema tem sim, nas dosagens; se o médico não indica, a responsabilidade é nossa, a fiscalização...
- Está bem, minha filha. Hoje não dá mais, mas segunda-feira volto à oftalmologista e mando nova receita pra vocês, como manda o figurino da fiscalização.
Senti-me rigorosamente fiscalizado. Mas tinha razão a atendente, tinha razão a farmácia, e tinha razão a fiscalização! Assim é que tem de ser! Vá que a oftalmologista queira assassinar o meu olho esquerdo, ao invés de preservá-lo!
E que bom saber que a fiscalização fiscaliza com rigor e a empresa cumpre rigorosamente os preceitos da fiscalização!
O que falta neste país é fiscalização.
Ponham os fiscais na rua, fiscalizando. Ponham batalhões de fiscais nas fronteiras, coibindo a entrada de armas, drogas e contrabandos de toda espécie. Inundem a Amazônia com torrentes de fiscais. Que todo madeireiro ilegal, todo incendiário tenha um em seus calcanhares. E os traficantes da biodiversidade idem. E que toda sorte de traficante ou pirata esbarre num fiscal.
Cortem pela metade as vagas de senadores, deputados e vereadores (não fariam falta) e façam deles fiscais. Desatulhem os gabinetes com ar refrigerado e ponham os funcionários excedentes e os aspones de qualquer natureza para fiscalizar os fiscais. E nomeiem fiscais para fiscalizar os fiscais dos fiscais.
Fiscalizem, fiscais, e depois não digam que não sabiam de nada!
16 de Outubro de 2009