5 de jan. de 2010

A menina do guarda-chuva e os meus sapatos de verniz

Naqueles poucos dias que estive em Cunha, passei-os na casa de meu amigo Vavá, a quem visitava após mais de vinte anos sem contato. Levei um de meus filhos, Daniel, e ficamos confortavelmente instalados em suíte construída abaixo do pavimento principal da casa, no "porão", como dizia o meu amigo. Em frente havia girassóis e uma piscina, da qual não pude usufruir em virtude do clima de inverno. Bastaram-me os girassóis.
Levantava cedo e, com todos ainda recolhidos e ausência de café à mesa, saía andando pelos arredores, exercitando os músculos e aproveitando o ar fresco da manhã.
No dia em que retornaríamos ao Rio de Janeiro, um domingo, não foi diferente. Subi pela rua até onde terminava o asfalto e parei no cruzamento com a rua de barro, sem vontade de prosseguir: fazia frio, garoava, e o risco de escorregar no barro era grande, já que o relevo dali em diante apresentava aclives e declives acentuados. Um velhinho passou por mim expelindo vapores ao falar:
- Bons dias!
- Bom dia! – respondi.
As pessoas do interior, mormente as mais velhas, cumprimentam até quem nunca viram. Já nas cidades grandes...
Mas eu fiquei ali, encolhido no meu casaco de veludo, último remanescente de um passado em que frequentei a cidade e outras do Vale do Paraíba. Acendi um cigarro e olhei ao redor. Em frente, o caminho de barro continuava até subir um pequeno morro, entre casas modestíssimas e esparsas. Nada que se comparasse às favelas do Rio, porém ali moravam, com certeza, pessoas de precária condição econômica. À esquerda, um pequeno lago, assoreado e sujo, produto menos de nascente potável que de águas pluviais e talvez esgoto. Uma paisagem nada admirável.
Apaisagem nada admirável 5 anos depois: as ruas estão asfaltadas e o lago desassoreado e limpo. Ao fundo, o casario menos esparso e de melhor aspecto.

Olhei mais uma vez o sopé daquele morro. Uma figura, de guarda-chuva, caminhava em minha direção. Parecia uma menina. E muito bem trajada, o que me pareceu impróprio, vinda daquele lugar tão singelo. Caminhava com determinação e os seus sapatos, pisando o barro batido – úmido, mas firme – soavam nos meus ouvidos. Em dado momento, a menina (agora já era perceptível) diminuiu o passo, perdeu a determinação, parecendo-me indecisa ou receosa. Pensei: "já reparou em mim, reconheceu-me estranho ao lugar e intimidou-se com minha presença em seu caminho, já que sou a única pessoa na rua, além dela mesma". Resolvi afastar-me então, deixando o caminho à menina. Entrei na casa de meu amigo e postei-me na varanda, olhando a rua, curioso com aquela garota que descera do morro.

Os sapatos da menina agora soavam mais forte. Ela parou a conversar rapidamente com a vizinha e prosseguiu com o seu toc toc no asfalto. Passou.


Não tinha mais de onze, doze anos. O vestido preto, de tecido fino e bom caimento, um pouco acima dos joelhos, combinava com o guarda-chuva e os sapatos também pretos. Brancas, uma faixa prendendo os cabelos fartos, ligeiramente crespos e aloirados, e as meias de renda, compridas. Passos firmes e atitude de modelo desfilando moda na passarela. E ciente de sua elegância.
Do conjunto harmonioso destacavam-se os sapatos, com fivela e saltinho, estalando de novos e brilhando! Destacavam-se menos pelo que eram, mas pelo que diziam. Sim, os sapatos falavam, não com o asfalto, mas às pessoas: anunciavam a passagem da menina. Pareciam dizer: "olhem como está linda e elegante, olhem!".
Ao passar, a menina do guarda-chuva olhou discretamente para mim, e se foi
Seus sapatos falaram-me dela e de muitas coisas mais, de outros sapatos já esquecidos na minha infância longínqua...
Naquele tempo, eu queria porque queria sapatos de homem, não sandálias de menino. Já usava calças compridas, mas faltavam os sapatos. Mamãe comprou-me um par, a serem usados na minha 1ª comunhão. Sapatos de verniz, reluzentes! Não eram de cromo ou qualquer outro material nobre, mas tinham o acabamento "vitrificado", simulando verniz. Quando envelheceram, o "verniz" desmanchou-se em craquelê, pior que rugas em rosto de ancião, mas enquanto novos eram de causar inveja. Lindos!
Eu não podia esperar a 1ª comunhão. Sendo domingo, pedi à mamãe que me deixasse ir à missa em Ribeira de Fráguas, calçando os sapatos novos. Iria com a minha irmã Carmem. Autorizado, comecei a produzir-me: banho de bacia (resumia-se a lavar o rosto, orelhas e pescoço, braços e pernas); depois vestir calça, camisa e calçar meias e sapatos... Ah, os sapatos! Que complicado, eu mal sabia fazer o laço nos cadarços! Em vista de tudo isso, demorei muito e minha irmã não quis esperar-me, pois havia combinado ir com as amigas. Pois eu iria sozinho à missa, ainda que chegasse atrasado! Sozinho não: eu e os meus sapatos!
Chegamos já nos ritos finais da missa, mas valeu bem a pena: durante o longo trajeto e ali, no adro da igreja, tive a ilusão de que todos admiravam os meus sapatos de verniz!
Doce ilusão!...
Mas o que eu não sabia é que sapatos novos costumam magoar os pés e os meus ficaram magoadinhos: voltei para casa mancando!
Embora os sapatos da menina do guarda-chuva não me tenham dito aonde iam, eu não tinha mais dúvidas: dirigiam-se a um culto dominical. Mas pouco importa aonde ia a menina ou fazer o quê. Sua intenção, verdadeiramente, foi mostrar a toda gente os seus sapatos novos, seu vestido, sua elegância e a sua beleza pré-adolescente!
Aromas do café da manhã inundaram minhas narinas. Entrei.

Transcrito do livro "Cacos da Memória"
Autor: João Antonio Rodrigues Ventura
antoniorodrigues25@superig.com.br

4 de dez. de 2009

Diálogo pré-natalino


"Celebrando o nascimento" - original pintado
com a boca, por Ruth Christensen
* Pintores com a Boca e os Pés*
- Vem aqui vô, quero te contar uma coisa.
E achegando-se mais ao avô, com ar de mistério e atitude de quem vai revelar um segredo ou dizer algo impróprio para crianças, a menina contou:
- Vô, sabia que o Papai Noel não existe? Quem dá os presentes é a mãe, o pai... Papai Noel é mentira. Foi a minha amiga Luciana que me contou. É tudo mentira!
O avô não teve saída, mas tentou alimentar a conversa:
- Papai Noel é uma lenda, mas você sabe o que é a festa de Natal?
- É uma festa de presentes! – disse a menina com firmeza.
- É a festa de aniversário de Jesus – contestou o avô.
A menina parecia não saber dessa história, e o avô aproveitou para contá-la, desviando dos presentes a atenção da neta:
- Há mais de dois mil anos nasceu um menino muito pobre, tão pobrezinho que nasceu num curral e seu bercinho foi uma manjedoura. Sabe o que é curral e manjedoura? Curral é onde os animais se abrigam e manjedoura é o cocho onde eles comem. Havia no curral uma vaca e um burro...
- Ah, agora eu lembro, já vi esse burrinho e essa vaca na... no presepe do chopen. E tinha o pai do menino e a mamãe do céu, e o Jesus nas palhinhas, e uns homes com roupas de príncipe...
"Além da estrela" - original pintado com a boca, por Triantafillos Iliadis
*Pintores com a Boca e os Pés*
- Esses homens eram os três Reis Magos: Gaspar, Melchior e Baltasar. Eles vieram guiados por uma estrela muito brilhante e deram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra...
- Tá vendo vô, Natal é festa de presentes!
- Mas aqueles presentes... escuta aqui, lindinha do vovô, sabe o que é incenso e mirra? Incenso e mirra são resinas aromáticas para queimar, perfumar o ambiente, as casas - disse o avô, já arrependido de ter dado corda.
- E o menino gostou dos presentes?
- Como podia gostar, se era apenas um bebê? Mas o povo daquela época gostava muito de incensos.
- E de ouro também, né, vô? Eu já tenho um brinco de ouro e essas coisas... mirradas, eu não quero. Só se for um perfume Azarrô, igual ao da vovó.
- Mas como eu dizia...
- Já sei, vô, já sei da história. Vamos combinar: você me dá o perfume ou então a Barbie Fadinha. Tá bom, vô?
O avô optou pela boneca.

Dezembro de 2009

2 de dez. de 2009

A lagarta que não virou borboleta




Havia no quintal dos fundos da casa um pé de abacate que, apesar de jovem, projetava uma nesga de sombra suficiente para mitigar o calor a quem nela se refugiasse. Era aí que eu costumava ler o jornal de domingo. Lia recostado em confortável poltrona, enquanto uma brisa suave, vez por outra, vinha farfalhar nas folhas do jornal e nas do abacateiro, aumentando o meu refrigério e trazendo aromas do almoço em preparo. Só as notícias do jornal incomodavam.
Mas a concentração na leitura se desfez quando um barulhinho de mastigação, persistente e guloso, fez-se ouvir acima de mim. Examinei a copa do abacateiro: uma lagarta verde devorava uma folha, depois outra e outra... Como são ligeiras pra comer!
Voltei ao jornal sob o ritmo contínuo e tedioso das mandíbulas da lagarta, porém concentrar-me na leitura já não podia: aquele ruído penetrava-me os ouvidos e me dispersava o pensamento.
Até que o ruído cessou: a lagarta estava no chão.
O que teria acontecido? Que evento ou circunstância interrompera a comilança da lagarta? Um ataque ineficaz de um predador? Uma lufada mais forte da brisa, sacudindo o restaurante da bichinha? Ou a lagarta simplesmente escorregou da folha, com todos aqueles pezinhos? Nesse caso foi uma escorregadela múltipla! Puro azar.
Mas que importa a causa, se a lagarta estava no chão?
Desviei do jornal e fiquei observando o infortúnio da lagarta, em suas tentativas de retornar ao abacateiro.
Havia um pedaço de muro dividindo o quintal, mas aberto onde eu me encontrava; deste modo acessava-se a outra parte do terreno. O abacateiro crescia ali, a cerca de meio metro e mais ou menos parelho ao pilar de concreto que rematava o término do muro. A lagarta caiu perto desse pilar.
Mas não se achou perdida: o instinto lhe dizia que as deliciosas folhinhas estavam acima; era necessário subir, portanto. Rodou a esmo até dar de cara com o pilar de concreto. Se era para subir, subiu. Terminada a vertical, emendou pela horizontal do muro – talvez fosse um galho do abacateiro. Não achou as folhinhas e ao chegar à parte do muro batida pelo sol, retornou. Desceu ao chão. Nova procura pela verticalidade redentora e de novo o pilar à sua frente. Subir, subir, lhe dizia o instinto. Subia, andava pela horizontal do muro, voltava.
Evidentemente que suas vistas não eram grande coisa, o abacateiro estava a meio metro, mas a pobre não o enxergava, só topando com o pilar de concreto. Nem a textura, nem o aroma, nem a temperatura da superfície de concreto combinavam com o que sabia de árvores, galhos e folhas, mas o pilar era a única verticalidade que encontrava, e sabia que tinha de subir...
De visão curta e prisioneira do instinto, a lagarta ficou no sobe-e-desce, no vai-e-volta, indefinidamente, incapaz de variar em suas tentativas.
Adeus lagarta, adeus crisálida, adeus borboleta!
Assim é a vida: nem todas as lagartas viram borboletas, talvez só a minoria o consiga. E a maioria de nós não somos também lagartas, com um sonho lindo de virar borboletas?
Há de haver muito esforço, muito trabalho (e como se esforçam as lagartas!); há de haver talento e oportunidade, e muita sorte, claro. Não há fada madrinha nem varinha de condão para fazer virar.
Virar borboleta é apenas uma possibilidade imponderável. Vivamos pois nossa vidinha de lagartas, honestamente comendo folhas e desejando a beleza das borboletas.
Mas, se cairmos da folha?
Se cairmos da folha temos vantagem sobre as lagartas: temos liberdade e discernimento para variar os rumos, escolher caminhos, perseverar...
Outubro de 2009


1 de nov. de 2009

Arroz, feijão, macarrão



Sentado num banco do Passeio Público, eu acabava de ler o que de interessante achara no jornal, sem mais o que fazer além de aproveitar a sombra do arvoredo e olhar o entorno. Fazia hora para assistir à matinê do cine Palácio.
Um mendigo aproximou-se e pediu um cigarro. Dei. Mas considerei de bom alvitre afastar-me dali, movimentar-me, evitando assédios semelhantes ou piores. A matinê ainda demorava.
Transitei pelas ruelas tortuosas do jardim, observando as árvores, as plantas, o lago e as esculturas, e lamentando o péssimo estado de conservação de tudo aquilo. Parei na Fonte dos Amores, obra do Mestre Valentim. A conservação não era melhor (isto foi antes da restauração de 2004).
Perto da fonte, duas meninas pré-adolescentes, magras e andrajosas; uma de pé, a outra agachada lavando trapos nas águas verdes do lago. Mais velhos, mas pouco mais que meninos, dois rapazes conversavam e fumavam. Outro menino, o menor do grupo, mas talvez de idade superior à que permitiria supor o seu corpo miúdo, destacou-se dos parceiros de infortúnio e caminhou para mim.
Tive vontade de sai dali, de fugir ao assédio cujo resultado eu adivinhava.
- Tio, me paga uma quentinha?
- Filho, você não quer um saco de pipoca, uns doces? – tergiversei, na tentativa mesquinha de aliviar o bolso. Que criança não gosta de guloseimas?
- Não, tio. Eu quero comida, uma quentinha bem cheia.
- Está bem, eu pago a quentinha. Vamos.
- Tio, dá pra você pagar uma quentinha pra minha irmã?
Olhei as duas meninas. A que lavava trapos parou de lavar, ergueu a cabeça e olhou-me longamente sem dizer palavra. Nem precisava, seus olhos diziam tudo.
- OK, mais uma quentinha – conformei-me. Vamos buscá-las.
Alguns passos além e gritaram-me pelas costas:
- Tio, trás uma quentinha pra mim também?
Era a outra menina. Concordei - quem paga duas, paga três -, mas que ficassem ali, eu traria as quentinhas. Apressei-me, temendo que os outros pedissem também; nesse caso o meu orçamento ficaria seriamente comprometido, talvez nem desse para ver o filme. Disse-me o menino:
- Tio, a minha eu quero com bastante arroz, feijão e macarrão, tá?
Perguntei-lhe se sabia onde forneciam quentinhas; sabia, claro, e levou-me a um restaurante na Rua das Marrecas. Self Service, a peso. Não era chique, mas também não era popular: a despesa iria além do previsto. Entramos e o funcionário encrencou com o garoto, não o queria ali. Sosseguei o funcionário e orientei o menino para que ficasse junto ao caixa, enquanto eu fazia as quentinhas. Ele ainda advertiu:
- Tio, muito arroz, feijão e macarrão.
Enchi as quentinhas, pesei, paguei e saímos. Já no Passeio, segurando a sua quentinha, o menino falou:
- Tio, a minha eu não vou dividir com ninguém. A minha é só minha, tá?
- Claro. Se houver divisão é com estas duas, das meninas.
Entreguei as quentinhas às meninas, que agradeceram – também os rapazes o fizeram -, enquanto o menino sentava-se na grama para o seu almoço. Afastei-me, deixando-os à vontade na partilha.
Não lembro a que filme assisti no Palácio. Mas até hoje não esqueço daquelas crianças do Passeio Público, especialmente do menino. Não esqueço de sua esperteza recusando os doces e pedindo comida – com muito arroz, feijão e macarrão. Esperteza que lhe ensinou a vida, desde cedo.
Não esqueço aquele menino que há muito deixara de ser menino.

Outubro de 2009