15 de mai. de 2011

Uma historinha infantil para adultos – parte 1

Há muito e muito tempo, num lugar que ninguém sabe, um menino ouviu de um velho contador de histórias que havia uma panela cheia de ouro, lá bem onde o arco-íris toca a terra. Um dia, durante a estação das chuvas, saiu de casa e caiu no mundo, disposto a encontrar esse tesouro.

Já andara muito quando encontrou uma menina de tranças pulando de pedra em pedra sobre as águas de um regato. Disse-lhe a menina:

- Brinca comigo...

- De quê? – perguntou o menino.

- De pular, ou de jogar pedrinhas na água e ver os círculos que elas formam.

O menino considerou não valer a pena atrasar-se por brincadeira tão boba. E seguiu.

Muito além daquele sítio encontrou um camponês plantando flores. Disse-lhe o floricultor:

- Vem ajudar-me. As flores te darão o sustento e alegrarão a tua vida.

- Flores dão muito trabalho e demoram a crescer. E eu tenho pressa: busco uma riqueza maior...

Caminhando de sol a sol e descansando à noite, foi ter a uma fazenda onde se realizava uma festa de casamento. Apresentou-se e felicitou os recém-casados e seus pais, que o deixaram à vontade, apesar de ser forasteiro. Havia comida e bebida à farta e músicos animando os convidados. Comeu e bebeu – apressadamente! – e já ia embora quando uma mocinha lhe disse:

- Dança comigo...

Surpreso com o convite da mocinha, o menino passou a mão no rosto e só então percebeu que já não era menino, mas um rapazola, com os primeiros fios de barba a crescer.

- Desculpe, mas tenho um sonho a realizar. Talvez na volta... – respondeu o rapazola à mocinha, antes de se pôr a caminho.


(continua no próximo post)

6 de mai. de 2011

O Sol no Ipê Amarelo


Corria o ano de 1972. Eu estava escalado para um plantão de 24 horas no quartel. Comprei na banca o jornal de hábito, atravessei a rua e parei na calçada, aguardando o ônibus que me levaria ao trabalho.
Enquanto esperava abri o jornal, como de costume naquela época, pelo caderno de Economia. Não que tivesse urgência em saber notícias do mercado; assistira ao noticiário no dia anterior e estava informado: a Bolsa continuava despencando. Eu procurava a opinião abalizada dos economistas, análises de empresas, de tendências, algo que me desse uma pista, um sinal, uma esperança de ver revertido aquele quadro desolador do mercado de capitais, Bolsa recuando inabalável.
Tempos atrás eu entrara num fundo de investimento em ações, quando a Bolsa arrebentava todos os limites de alta, aplicações mensais fixas, muita gente investindo, eu acreditava, uma beleza durante alguns meses, o meu dinheirinho aumentando. Até que a Bolsa deu de recuar, sabe-se lá por quê, investidores neófitos em debandada, assim como entraram, do mesmo modo saíam, com espírito de boiada. Mas eu não era boi dessa boiada, sabia que debandar só piorava, era neófito, mas não quadrúpede. Bolsa é investimento de longo prazo, um dia subirá, não há mal que sempre dure, já dizia minha mãe.
Mas a Bolsa nem ligava para as minhas expectativas, só fazia descer, quando não, andava de lado, fazendo crer que chegara ao fundo; então vai subir, pensava eu, mas caía de novo e no dia seguinte também e a semana toda. E o gráfico no jornal já não semelhava como outrora o perfil de cordilheira, mas de uma encosta íngreme sem vale que se perceba. E os meus cem cruzeiros aplicados num dia, no seguinte já minguavam, não valiam nem cinquenta. Ai, meu dinheirinho!
E o ônibus demorava, era assim nos fins de semana, pior aos domingos, em cidade do interior, onde uma única concessionária prestava o serviço. Não era de estranhar.
Dei uma olhada no primeiro caderno. A política era outra pedra no meu sapato. Já me decepcionara no passado, em plena adolescência, com a queda de Jango, na mão grande, à força, sem resistência. Foi um golpe na minha incipiente formação política. Então desliguei, não queria saber, tratei da vida, que um homem precisa fazer algo por si e pelos seus.
Entretanto o interesse voltou, o país se modernizava, a economia crescia a taxas incríveis, exportações em alta, grandes obras, a Bolsa dando saltos, os resultados surgindo aqui e ali, este é um país que vai pra frente, talvez deixe de ser do futuro para ser do presente, tem comando e administração, ordem ainda falta, mas terá, a subversão está por um fio, e de progresso ninguém duvida. Pra frente Brasil, quem não o ama que o deixe, e somos tricampeões do mundo, pois então!
No entanto o meu entusiasmo arrefecera. Os jornais publicavam, na primeira página, poemas e receitas culinárias. Que notícias nos estavam sonegando, não os jornais, mas os censores do governo? Eu tentava orientar-me lendo o que deixavam, recorria a publicações alternativas e atinava que algo de podre acontecia nos desvãos do regime.
Até parecia que os senhores no poder detinham o monopólio do patriotismo, sendo os contrários abjetos traidores, mas eu me perguntava se não seriam também patriotas ao seu modo, uns e outros em luta por ideários díspares, porém sinceros e todos brasileiros.
Estas aflições eu as guardava, confidências só aos amigos mais íntimos e olhe lá; no trabalho nem pensar, seria intrigar felinos na toca do leão, e besta eu não era.
E o milagre brasileiro deixara de funcionar na Bolsa, e o ônibus não vinha, e o que pretendia aquele maluco que avançava contra mim?
Era um menino portador da síndrome de Down, como se diria hoje na cartilha do politicamente correto, naquele tempo um menino mongolóide. Avançou contra mim, gesticulando e a falar, articulava com dificuldade, eu não entendia, me assustei, recuei dois passos, não que o temesse fisicamente, era um menino, apesar de pré-adolescente e avolumado, mas temia o ridículo, o constrangimento público, que se podia esperar de criaturas assim, para o vulgo era tudo doido, melhor evitar. Estatelou à minha frente, braço direito e dedo indicador em riste para o outro lado da rua, desejava comunicar algo, esperava o meu entendimento e eu não entendia, meus olhos fixos no menino espantado com o meu espanto.
Uma senhora que esperava a condução interferiu:
- Ele está querendo lhe mostrar o ipê.


Do outro lado da rua num baldio, um ipê levantado contra os cinzas difusos da manhã, os primeiros raios de sol, rasantes, filtrando por suas pequeninas flores amarelas, realçando-lhes a cor e o brilho. O ipê resplandecia, grande candelabro insólito e belo!
Sorri, levantei o polegar em sinal de compreensão e concordância, sim, é belo, o menino sorriu e assim ficou, braços cruzados, admirando contente o ipê, e eu no íntimo envergonhado por ter desentendido quando o menino só queria partilhar comigo a beleza que os seus olhos viam e os meus não.
Vemos o que queremos ver, o que está dentro de nós. Eu passei ao lado e não vi o ipê, via os gráficos e a Bolsa, o progresso e a repressão, coisas importantes de fato, mas distantes. De maior apreço é a vida, se descuidamos ela passa, e a vida está ao lado, até nas coisas mais simples, se temos olhos e coração atentos; está na mocinha que passa ou no olhar puro da criança; estava no ipê ensolarado em manhã de primavera e no menino que se encantava com ele.
O ônibus vinha afinal, do atraso eu não escapava. Acenei ao menino em despedida, eu e a senhora embarcamos. Sentei-me à janela, domingo tem isso de bom, poltrona vaga sobrando no coletivo, tem outros regalos ainda, mas eu estava de serviço.
Dobrei o jornal. A paisagem corria ao lado, deixando para trás o menino e o ipê banhado de sol; o sol que amornava o meu rosto e aquecia a terra, cobrindo-a de vida e de cores. E ainda que nuvens passageiras lhe toldem a face, ressurgirá na primeira janela aberta ou no dia seguinte, e assim por todos os dias... Tudo o mais passará.

 
FIM

 
OBS: Este conto participou da 11ª edição do Concurso Talentos da Maturidade, do grupo Santander – 2009.

2 de mai. de 2011

Todas as estrelas do céu


"Tem dias que eu chego da escola,
tomo o meu banho,
me troco,
fico pronta;
janto e escovo os meus dentes.
E brinco um pouco com os meus brinquedos.
O sono não vem.
Então vou pra janela do meu quarto
e fico olhando o céu
e contando as estrelas.
Eu acho que ninguém nunca contou
todas as estrelas do céu.
Eu já..."
- Quantas?
"- Cinquenta e quatro."

19 de abr. de 2011

A cultura do chafariz
Quem ainda não viu um chafariz numa pracinha ou jardim, bonito, mas que não verte água – não funciona? Pois eu conheço vários. Difícil é encontrar um que funcione!
Esses chafarizes, contudo, foram inaugurados com festas e discursos (e pedidos de votos) e funcionaram durante algum tempo, até ficarem inoperantes e degradados por falta de manutenção. Parece que é o destino dos chafarizes! Mas isso não acontece só com os chafarizes. Os nossos políticos e administradores são ótimos construtores (as empreiteiras adoram), mas, infelizmente, péssimos mantenedores. E não só os de hoje – a cultura do chafariz é antiga.
Só para ilustrar, uma historinha que um passarinho me contou: estando em visita eleitoral a uma favela do Rio, ano passado, e notando que uma quadra esportiva construída há pouco estava fechada por falta de segurança, o então presidente Lula disse ao companheiro governador:
- Cabral, bota um guarda nessa xxxxx e abre ao público, se não nós nos ferramos.
Não sei se a tal quadra está funcionando até hoje, talvez não, mas aqui mesmo em Marechal temos um parquinho infantil que permanece trancado a cadeado. Se era para ficar fechado, por que foi construído? É a cultura do chafariz...
E o jardim do Teatro Armando Gonzaga (de Burle Marx, sabiam?) já foi replantado diversas vezes, a última no início deste ano, mas não resiste à falta de manutenção. Vão lá e comprovem. E não digam que os mendigos pisotearam. Não! Acontece que logo após o plantio sobreveio um estio de mais de mês e as mudinhas morreram esturricadas. Faltou manutenção!
E as duas escadas rolantes da estação Bangu, paradas há meses, quando voltarão a funcionar? Acertou quem respondeu: “Nas próximas eleições”. E os hospitais? E o SUS, que nunca funciona a contento? O SUS não é uma obra, é pura gestão de meios e recursos... Nem falo das calçadas esburacadas e dos bueiros entupidos. Exemplos não faltam e vocês podem constatá-los em seus próprios bairros. É a cultura do chafariz: construir, construir, inaugurar, discursar... Manutenção? Funcionamento? Ora essa! Meros detalhes que não dão inauguração nem discurso.
E para terminar, outra historinha; esta não me contou o passarinho – fui testemunha ocular.
Estava eu varrendo a calçada, antes das oito da manhã, quando passou uma senhora com seu filho passando mal. O garoto sentou-se na calçada, nauseado. “Suspeita de dengue”, disse-me a senhora. “Não o levou ali na UPA?”, perguntei. “Levei, mas não tinha pediatra. Venho de São João de Meriti, fui na UPA de Ricardo, não tinha pediatra e me encaminharam para a de Marechal. Agora vou pro Carlos Chagas”.
Ué?!... As UPAs não eram justamente para desafogar os hospitais?
Será que estamos diante de um novo e imenso chafariz que não verte água?
Abril de 2011
OBS: Esta crônica foi publicada originalmente no blog Visão Suburbana em 18/04/2011