2 de jun. de 2011
O BICHO COSTUREIRO (Parte 3)
29 de mai. de 2011
O BICHO COSTUREIRO (Parte 2)
O vestido de folhas
Foi ter a um bosque denso e sombreado. Havia ali uma fonte a minar do chão e formando uma poça de água fresca e cristalina. Pôs-se de cócoras, para beber dela pelas mãos em concha. Antes de estar saciado completamente, viu no espelho d'água um rosto refletido. E não era o seu, pois nem tinha cabelos loiros nem feições femininas! Ergueu-se, olhando para cima: uma belíssima jovem escondia-se entre as folhas de um galho!
- Ora, se não é a moça da melancia! – exclamou Tonico, lembrando-se da história que tantas vezes ouvira de sua mãe.
Era assim a história:
Um pai pobrezinho deu a cada um de seus três filhos uma melancia quando estes resolveram correr mundo, recomendando-lhes que só as abrissem onde houvesse água. O filho mais velho esqueceu a recomendação do pai e abriu a melancia longe da água; de dentro da melancia saiu uma linda jovem que lhe pediu leite ou água e como não houvesse nem uma coisa nem outra, a jovem morreu. Com o filho do meio aconteceu o mesmo.
O filho caçula, porém, lembrando-se das palavras do pai, abriu a melancia junto a uma fonte; a jovem bebeu água à farta e salvou-se. Mas como estivesse nua, o rapaz escondeu-a nas folhagens de um galho acima da fonte, dizendo-lhe que dali não saísse até que voltasse com roupas.
Mais uma vez a história ia repetir-se, agora sob o olhar do menino.
A jovem fez menção de sair de entre as folhas e Tonico, cavalheirescamente, virou-se de costas, para que não ficasse constrangida em sua nudez. A moça riu-se e disse:
- Não precisa dar-me as costas, estou vestida, olha...
De fato, a jovem trajava um vestido de folhas, todas costuradinhas por finíssimo fio.
- Mas, como foi isto?!
- Passou por cá um costureiro e fez-me este vestido. Não é grande coisa, mas evita-me a vergonha, já que o meu senhor demora-se tanto.
O menino já sabia de qual costureiro a jovem falava, mas perguntou:
- E como é esse costureiro?
- Não sei – respondeu-lhe a jovem. É invisível, mas costura muito bem, e rápido.
- E para onde foi?
- Disse que ia correr mundo em busca de fama e fortuna.
- Ah... E quanto a ti, é melhor que te escondas muito bem. Pode vir alguém...
- Eu sei. Já esteve cá uma velha muito feia e torta, a buscar água. Viu o meu rosto refletido na fonte e pensou que era o dela. Então disse: "Sendo tão bonita assim, por que trabalho eu para os outros?". Em seguida quebrou o cântaro e foi embora. Foi tão engraçado! Contive-me a muito custo, para não estourar de rir!
- A velha vai retornar, não te descuides...
- Que pode uma velha daquelas contra mim? De mais a mais, o meu amo não tarda a chegar.
Tonico teve vontade de contar-lhe tudo o que estava por acontecer, mas achou melhor deixar a história cumprir-se. Despediu-se e afastou-se. Ainda queria encontrar o bicho costureiro.
A Moura Torta
A velha muito feia e torta, a Moura Torta, como era conhecida, retornava à fonte com outro cântaro, depois de ter sido espinafrada por sua patroa. Vinha cantando, ou melhor, resmungando uns versos, tortamente – sem ritmo e sem melodia – com sua voz rouca e expressão enfezada, como a lamentar-se por toda uma vida de trabalhos sem proveito:
Ai, minha mãe dos trabalhos
Para quê trabalho eu?
Trabalho, mato o meu corpo
Não tenho nada que é meu (1)
A velha metia medo a qualquer criança, mas Tonico criou coragem e saltou-lhe na frente.
- Raios! Só me faltava esta: um fedelho no meu caminho! Arreda, fedelho, não vês que estou a trabalho?
- Desculpe, Senhora D. Moura, mas queria saber se tem notícias do bicho costureiro
A moura gostou da maneira educada do menino e desfez a carranca.
- Não sei de que bicho estás falando...
- Do bicho costureiro que fugiu da máquina de costura da tia Rosinha. Soube que foi correr mundo e desejava muito avistar-me com ele.
- Já sei... Tu és um desses meninos curiosos que querem saber tudo, conhecer, mexer... Não gosto de gente assim, vivem aprontando. Sei de um que desmontou um relógio "só pra ver como era" e nunca mais conseguiu montá-lo. Ah, curiosos!!!... Quanto ao bicho de que falas, se é costureiro e costura bem...
- Costura muito bem, eu garanto.
- Nesse caso pode estar no Reino das Princesas Vaidosas. Elas são muito exigentes e não se satisfazem com qualquer costureirazinha...
- E onde fica esse reino, Senhora?
- É perto daqui. Segue sempre em frente e chegas lá: depois dos campos de trigo.
- Agradecido, Senhora.
- Não tem de quê. Agora me deixa ir, tenho muito a fazer. Ai, minha mãe dos trabalhos!
O menino afastou-se em direção ao Reino das Princesas Vaidosas. E foi pensando na história que se desenrolava no bosque.
Retornada à fonte, a moura viu-se novamente refletida na água e novamente julgou-se belíssima e novamente quebrou o cântaro. Então a jovem não resistiu e deu uma gargalhada. Descoberta, contou à velha a sua história. E a moura, antevendo vantagens, ofereceu-se para pentear-lhe os lindos cabelos doirados. Por ingênua ou vaidosa, ou por ambas as coisas, a jovem deixou-se pentear e a velha, enquanto o fazia, espetou-lhe um alfinete na cabeça, virando-a em pombinha! A Moura Torta era uma bruxa...
Já Tonico marchava rumo ao Reino das Princesas Vaidosas quando uma pombinha branca, voando do bosque, alçou no azul do céu sobre o ouro dos trigais.
- versos recolhidos da tradição oral portuguesa.
(continua no próximo post)
27 de mai. de 2011
O BICHO COSTUREIRO (Parte 1)
O menino curioso
No tempo em que as mães contavam histórias a seus filhos ao redor da lareira, havia um menino muito curioso que vivia espiando a vida dos bichos e observando tudo o que de interessante tem a natureza. Todos o tratavam por Tonico da Tiana, e Tiana era sua mãe.
Um dia Tiana foi à costureira encomendar uma peça de roupa. Tonico foi junto e ficou encantado com a máquina de costura, com aqueles mecanismos que tão bem sabiam costurar! E quis logo abrir a janelinha redonda da máquina para ver por dentro como funcionava aquela maravilha. Tia Rosinha, a costureira, advertiu-o:
- Não mexas aí, Tonico, podes machucar-te!
E como o menino continuasse mexendo, a costureira insistiu:
- Já te disse, não mexas! Tem aí dentro um bicho que gosta de morder menino curioso. E ele já está indo para a janelinha, não tarda a morder-te o dedinho mexelhão!
O menino olhou para sua mãe como a indagar se era verdade o que tia Rosinha dizia. Sua mãe confirmou, balançando a cabeça e dizendo:
- Pois é, tem sim. Não mexas...
E por muitas outras vezes que lá foi e tentou abrir a janelinha, o menino ouviu a mesma lengalenga: "Não mexas, olha o bicho!". E por sua mãe confirmar, não tinha mais dúvidas: havia mesmo um bicho ali dentro, talvez um bicho costureiro – a alma da máquina de costura. Como seria interessante ver o tal bicho, conhecer sua aparência, saber que poderes tinha! Mesmo com o risco de levar uma mordida no dedo.
A curiosidade de Tonico não o deixou desistir e, sempre que se desgarrava de sua mãe, ia espiar a máquina de costura, na esperança de ver o bicho costureiro. Um dia, estando a vigiar, viu a costureira arreliar-se com a máquina: parara de funcionar, enguiçara sem mais nem por que, de repente! Os mecanismos giravam, faziam tudo que costumavam fazer, mas as linhas não se entendiam e a costura não se realizava! A mulher já fizera de tudo na vã tentativa de trazê-la de volta ao trabalho; não sabia mais o que pudesse fazer e lamentava-se ao marido:
- E essa agora... Como pode, se até ontem funcionava tão bem? Que diabos lhe aconteceu, para escangalhar desse jeito?
Tio Jaime limitava-se a rodear e olhar a máquina sem dizer palavra, pois de máquinas nada entendia, nem de costura nem de outras.
- E logo agora que tenho tantas encomendas por fazer! Ai de mim!... Não há outro jeito senão chamar o Elias mecânico, e sem mais tardança... Diacho!
Tonico saiu dali pensando que talvez a máquina de costura houvesse perdido a sua alma; o bicho costureiro, ao que tudo indicava, evadira-se...
Vendo e ouvindo na mata
Nada mais interessante que um passeio na mata. Há muitas coisinhas bonitas de se ver, plantas, flores e bichos, muitos bichinhos. Há cores e perfumes. E variados sons, desde os mais delicados, como o da brisa correndo entre as folhas do arvoredo ou o sussurrar das águas no córrego; até os mais estridentes, como o cantar-de-uma-nota-só da cigarra ou o cri cri cri dos grilos do campo. Ah, que graça estes bichinhos! Acordam aos primeiros raios de sol e saem dos buraquinhos onde moram para comer e cantar. E como cantam (ou falam?)! Como são cricrizeiros, esses grilos do campo!
Tonico passeava na mata pleno de encanto, e cheirava os cheiros, e ouvia os sons, e tudo observava: formigas cortadeiras derrubando folhas de um arbusto, enquanto outras as levavam, em carreira, ao formigueiro; lagartas descendo um tronco, em fila, uma exatamente atrás da outra, arrumadinhas e disciplinadas – uma procissão lagartal.
Agora era um barulhinho de come-come: uma lagarta verde empanturrava-se em cima de uma folha.
Mais além, estranhas folhas duplas formando algo como casulos. Tonico examinou-as: pareciam estar costuradas, duas a duas, por finíssimo fio de seda. O menino espiou pela abertura na extremidade das folhas: os casulos estavam vazios. Quem teria feito aquilo? Tonico imediatamente pensou no bicho costureiro fugido da máquina de costura. Estaria escondido na mata? Pensando nisso, prosseguiu o passeio, agora mais interessado nos casulos de folhas costuradas.
Bem perto dali, entre os galhos de um arbusto, uma aranha tecelã construía sua teia. Uma voz miudinha, quase inaudível, chamava:
- Comadre, ó comadre!
Tonico espantou-se! Seria possível? Aproximou-se um pouco mais e apurou os ouvidos. Sim, outra aranha falava à tecelã:
- Já soube da novidade, comadre?
- ???
- Temos vizinho novo; um tal de bicho costureiro que anda a costurar pela mata. Não se fala noutra coisa...
- Não me importo... desde que não me venha fazer concorrência.
- Não. Ele só costura, não tece.
- Pois então... não me importo. Só quero saber de moscas, mosquitos e outros petiscos semelhantes. Outros bichos não me interessam.
- Desculpe. Pensei...
- Pois pensou mal, comadre, pensou muito mal. Não perco tempo com a vida alheia nem gosto de gente curiosa, como esse menino que está com o nariz em cima da minha teia: se der um espirro, lá se vai todo o meu trabalho. Arreda menino, arreda!
Tonico afastou-se da teia, ouvindo ainda uma última fala da aranha tecelã:
- Vá, comadre, vá cuidar da sua vidinha, vá, vá!
A mata nunca estivera tão interessante quanto naquele dia. Pois se até os bichos falavam! E não havia dúvida: o bicho costureiro estava ali. O menino saiu à sua procura, seguindo a pista das folhas costuradas.
(continua no próximo post)
20 de mai. de 2011
Uma historinha infantil para adultos - epílogo
(leia primeiro as partes 1e2, abaixo)
Quando acordou, uma luz intensa varava suas pálpebras e atingia suas retinas cansadas. Abriu os olhos devagarinho, protegendo-os com a palma da mão. Brotando do chão à sua frente, quase aos seus pés, o tão procurado arco-íris, do vermelho ao violeta matizado, resplandecente e lindo! Eufórico, o velho levantou-se de um salto. Mas não havia panela de ouro ou qualquer coisa que semelhasse um tesouro. Decepcionado e triste, o velho lamentou-se por toda uma vida perdida.
- Que fiz eu da minha vida? Loucura, só loucura! E aquele contador de histórias, que grande trapaceiro! Não há panela de ouro, nem uma pepita sequer... Era tudo mentira!... Mais valera cultivar flores e aprender a dançar com aquela mocinha... e ter filhos com ela...
Raivoso e fora de si, o velho lançou-se aos socos e pontapés na base do arco-íris. Então percebeu que podia agarrá-lo, subir nele, montá-lo. E assim fez e foi caminhando nele com se fora uma estrada – a mais linda estrada de sua vida! E, quem sabe, o tesouro não estaria na outra ponta do arco-íris...
Passou as nuvens e alcançou as estrelas. Uma música antiga, que parecia conhecer, soou nos seus ouvidos e uma figura, ainda distante, rodopiou no espaço: era a mocinha da festa de casamento, dançando nas estrelas! Ah! que vontade de dançar com ela! Mas a bailarina das estrelas aproximou-se, dançou ao seu redor, sorriu e desapareceu no infinito.
O velho caminhou um pouco mais e viu outra figura entre as estrelas: era o floricultor cuidando de suas flores. E como eram lindas, as flores! Ou seriam estrelas?
Ainda admirado com o que via, o velho prosseguiu na sua caminhada sobre a estrada de luz. Uma estrela cadente riscou o céu. E mais outra. E outra mais. Uma chuva de estrelas cadentes! E todas vinham do mesmo lugar no espaço, como se algo ou alguém as impelisse. O velho continuou a caminhar, tentando entender o que acontecia, até finalmente reconhecer: era a menina de tranças arremessando estrelas no espaço, como se fossem pedrinhas sobre as águas de um regato!
- Brinca comigo... – disse a menina ao velho.
O velho sorriu, pegou-a pela mão e saiu, saltitando com ela nas estrelas. E era menino outra vez...
FIM
