4 de set. de 2011

Calopsita, meu amor


Não tenho animais de estimação em casa. A não ser uma ou outra barata e de vez em quando um rato do qual logo dou um jeito de livrar-me, nada de animais. Os últimos que tive resultaram em tragédia e motivação para escrever uma das crônicas mais lidas deste blog: "Crônica de um amor impossível".
Mas não tenho animais de estimação, dizia eu... Não tinha...
Minha mulher (sempre ela) achou uma calopsita perdida na rua, caminhando na calçada, e compadecidamente recolheu-a. É uma calopsita "cara branca", segundo verifiquei na internet. Uma graça, a bichinha. Toda branca com discretas infiltrações sépia-claro no peito, nas costas e por baixo das asas.
Minha primeira preocupação: se estava caminhando na calçada e deixou-se apanhar facilmente, é porque está doente. Mas não parecia que estava. São assim mesmo, extremamente dóceis, as calopsitas, ainda segundo a internet. Colocamo-la numa gaiola que trouxe do Maranhão, não para prender pássaros, mas como peça de artesanato local. Gaiola pequena. As calopsitas são irrequietas, necessitam de espaço para se movimentarem, mas é o que tínhamos de imediato.
Outra preocupação: a ave não comia – eu não a via comer -, apesar de ser adequada a ração que comprei. Desta preocupação me livrei, simplesmente montando um raciocínio digno de um Sherlock Holmes; o papel que forrava a bandeja da gaiola amanheceu sujo de excrementos; logo, se a ave faz um cocozinho é porque está comendo. Elementar, meu caro Watson, elementar... Acho que a caturra (outro nome, mas prefiro calopsita) ainda estava inibida em seu novo lar e por isso comia escondido.
Outra preocupação, esta comigo mesmo, não com a calopsita: resolvi responder aos gritos e assobios da ave, no intuito de animá-la e deixá-la à vontade e sem temor; não consegui assobiar, meus lábios parece que perderam a flexibilidade para fazer o biquinho necessário ao assobio. Que vexame! Mas nada que um treino não resolva.
O pior é que agora ficamos assim, assobiando, eu de cá, ela de lá. Que bobeira! O que a idade não faz, heim?

14 de ago. de 2011

Orgulho, orgulho, orgulho...


Apesar de não ler jornal diariamente como fiz outrora, nem acompanhar religiosamente a mídia televisiva, que nos traz todos os dias notícias de crimes e violências e toda sorte de roubalheiras, quer na esfera privada, quer na pública: apesar disso, li numa revista que a Câmara Municipal de São Paulo aprovou projeto instituindo o Dia do Orgulho Heterossexual – evidentemente um contraponto ao Dia do Orgulho Gay. Ora pois...
Para que tanto orgulho, gente? Devíamos era ter vergonha do que está ocorrendo neste país, mas deixa isso pra lá, que não quero afligir meu coração. Mas ainda assim o aflijo...
Orgulho. Orgulho gay, orgulho hétero, orgulho de origem, de classe, orgulho político, ideológico, religioso, orgulho de ser flamenguista, de ser branco, de ser preto, orgulho disso e daquilo... É muito orgulho, gente! Somos uma raça de orgulhosos!
Nada contra o brio pessoal, o amor-próprio e a auto-estima, que são normais e sadios, e que fazem as pessoas sentirem-se bem e conformes ao que são. Porém o orgulho exagerado é soberbia, é arrogância! E não será a arrogância a fonte de onde brotam os preconceitos e, por consequência, a discriminação? E a discriminação não levará ao desentendimento e à violência?
Creio que devemos focar na igualdade e não exacerbar as diferenças por meio de todos esses orgulhos. Mesmo que acentuar as diferenças pareça "politicamente correto". As diferenças devem ser tratadas, não com orgulho, mas com respeito. O bom e velho respeito. Só.

15 de jun. de 2011

DUAS HISTÓRIAS E UM ENREDO


Eram duas mulheres: uma de idade avançada, a outra novinha. Apresentaram-se como representantes de empresa conhecidíssima na praça e desejavam fazer pesquisa de mercado.
- Tem alguma coisa contra pesquisas? – perguntou-me a moça, com airoso sorriso.
Não tinha.
- Podemos entrar? Assim falamos mais à vontade, e não vai demorar, é ligeirinho.
Eu estava sozinho na manhã daquele sábado, sem nada a fazer senão ler o jornal, hábito que me acompanhava desde há muito. Alguns minutos perdidos com a pesquisa não me fariam falta. Considerei ainda não haver perigo algum, eram mulheres aparentemente inofensivas, e uma delas idosa. Além do mais, não tinha em meu modesto apartamento nada que chamasse a atenção ou despertasse a cobiça alheia, só trecos comuns e baratos, nada que qualquer vizinho não tivesse igual ou melhor. E aqueles eram outros tempos, de mais sossego e menos desconfiança. Mas que não tentassem vender-me qualquer coisa, contra isso estava alerta e prevenido. Convidei-as, pois, a entrar, e indiquei-lhes que sentassem.
- O Senhor já conhece o nosso produto? – indagou a senhora idosa.
Conhecia. E nem podia deixar de conhecer, já que o dito invadia os nossos lares pela tela da televisão, patrocinando entretenimento e prometendo mil vantagens, fazendo sorteios e distribuindo prêmios, enfim, trazendo a felicidade aos tele-espectadores. Tratava-se de um carnê de prestações mensais, cujo valor total, ao final, era trocado por mercadoria nas lojas da empresa emissora, geralmente eletrodomésticos e outras utilidades do lar. Compras a prazo ao contrário - com pagamento antecipado! Minha mãe tinha dois ou três deles e nem de longe eu pensava em comprar mais, se a pesquisa das senhoras enveredasse para esse fim, como já suspeitava. Se confirmado, usaria esses carnês como justificativa para desvencilhar-me das pesquisadoras, já então vendedoras.
A senhora idosa iniciou a venda do seu peixe, enquanto a moça apenas ouvia, mas de olhar atento e simpático.
O tal Carnê da Felicidade era muito popular e vendia bem – dizia-me a senhora – mas ocorria que, em alguns bairros, sem razão aparente, as vendas andavam mal. No intuito de transformar esse malogro comercial localizado em sucesso de vendas, a empresa titular do produto teria elaborado um plano de vendas, uma promoção especial para os tais bairros, e só para esses. E por isso estavam ali as pesquisadoras, em Irajá, um dos bairros visados, dando início ao plano.
Temi que o discurso da senhora descambasse pura e simplesmente para a venda de carnês, e questionei:
- E a pesquisa?
É o que faziam naquele momento. Sondavam possíveis clientes com perfil adequado que pudessem participar da promoção da empresa. O plano consistia em premiar alguns poucos clientes nesses bairros e fazer publicidade intensiva do sorteio, aumentando as vendas, portanto. Qualquer pessoa que visse premiado alguém do seu bairro, talvez o seu vizinho, haveria de querer comprar também. Era simples.
- O Senhor já viu os programas na televisão, os sorteios...
- Sim...
- Gostaria de participar?
- E como seria isso? – indaguei, curioso.
- Veja bem, como o objetivo da empresa é aumentar as vendas...
Claro, eu teria de comprar alguns carnês. Mas – assegurou a mulher – os meus carnês seriam cartas marcadas no sorteio. Prêmio garantido. Fazia parte do plano. Dez mil cruzeiros novos! Nada mau, convenhamos. Se não chegava a ser uma quantia exorbitante, não era também uma ninharia: dava para comprar um Fusca zerinho! E tudo ficaria "só entre nós", no mais absoluto sigilo.
Evidentemente era uma desonestidade – pensei –, mas naquele momento julguei não ser de todo inverossímil que a empresa admitisse fraudar um sorteio, privilegiando uns poucos clientes em detrimento de milhares de outros. Tudo pela promoção de vendas! Até porque tais produtos, sendo novidade, achavam-se livres de maior regulação estatal e carentes de fiscalização mais acurada. E, de mais a mais, a desonestidade partira de outrem, apenas transitava por mim, e a minha culpa, já de si tão pequena, como que ficava diluída por milhares de prestamistas enganados. Diferente de quando se trapaceia diretamente com uma única pessoa, cuja imagem concentra e relembra toda a imoralidade do ato e a culpa do trapaceiro. E, claro, tudo incógnito, eu não teria vergonha do meu vizinho, de ninguém.
- Mas tem um porém – continuou a senhora que vendia o peixe, a esta altura já palatável e também eu mais inclinado a degustá-lo.
- Sempre há um porém. Diga lá...
- É que esta promoção é só para clientes especiais, uma meia dúzia se tanto, nos bairros com problemas, não para clientes miúdos. O Senhor compreende, é uma operação melindrosa, se abrirmos a muitos periga entrar na boca do povo – Deus nos livre! Quantos carnês o Senhor acha que poderia adquirir?
A mulher dizia isto e me olhava nos olhos, observando minhas reações e tentando perceber-me o ânimo e adivinhar o meu poder de fogo. E ainda mexia com os meus brios: cliente miúdo, né? – pois vamos ver!
- Uns quatro ou cinco – arrisquei.
Era pouco. Só a partir de oito, informou a senhora, que a esta altura já não era pesquisadora, mas vendedora, o que me era também já indiferente. E havia mais um porém, este felizmente fácil de cumprir: a empresa exigia uma fotografia, após o sorteio, para ilustrar a propaganda na televisão e impressionar a vizinhança do cliente felizardo. Além de tudo eu ainda teria alguns segundos de fama na telinha, sem quaisquer transtornos adicionais, sem precisar viajar, sem participar do programa na televisão, apenas cedendo uma foto. Tudo muito conveniente.
- O Senhor... posso tratá-lo de você, posso? – interferiu a jovem, enquanto ajeitava a saia sobre as pernas cruzadas ao descuido e abrindo um discreto sorriso, a principio um tanto atrapalhado e depois franco e algo malicioso, a ponto de me deixar desconcertado.
- Você... assim fica melhor... você já imaginou o que poderia fazer com dez mil? Sim, porque um de seus carnês será premiado, na certa. E só o que você tem a fazer é um pequeno esforço agora... E regalar-se depois...
Regalar-se... O verbo não era comum na boca do povo e, talvez por isso mesmo, entrou-me pelos ouvidos e foi direto à imaginação, campo fértil a todo e qualquer devaneio, do mais simples e infantil, como o regalar-se com os quindins e queijadinhas da vitrine da padaria, aos mais complexos e secretos regalos de homem adulto. Regalar-me depois?... Ah, como gostaria! Não só com os dez mil...
- Dez. Dez carnês é o que posso – disse, cortando as fantasias que me invadiam a mente.
- Parabéns! O Senhor acaba de ganhar dez mil. Lindinha, minha filha, vá preenchendo os carnês, vá.
Fui ao quarto buscar a quantia referente à comissão das vendedoras, enquanto estas preparavam a burocracia final.
Os meus queridos leitores já perceberam que eu acabara de cair no conto do carnê premiado, uma variante do famoso conto do vigário. Não tive maiores prejuízos, a não ser o brio ferido, já que os carnês quitados foram trocados por mercadoria. Mas o fato me lembra outro, este bem mais antigo, na minha adolescência.
Fui ao Banco sacar um dinheirinho na Poupança de mamãe para me matricular num curso preparatório à Escola de Especialistas de Aeronáutica. Saído da agência, topei com um matuto muito atrapalhado, que me indagou de um endereço no bairro. Não lhe soube informar. Nisto chegou um senhor bem apessoado, trajando terno e chapéu-coco e com a Bíblia debaixo do braço. Interessou-se pelo caso do caipira. Este procurava um mascate que tempos atrás passara no seu arrabalde e lhe vendera um bilhete da loteria; tempos mais tarde retornou desejando comprar o bilhete que lhe vendera, fornecendo-lhe aquele endereço para que o procurasse, caso quisesse fechar o negócio. Perspicaz, o senhor da Bíblia percebeu o enredo por trás da história do matuto: "- Se o mascate quer o bilhete de volta, com certeza está premiado". E propondo-se a resolver a questão:
- Naquele botequim tem um prospecto da Loteria Federal, vamos lá conferir o bilhete.
O matuto não quis ir, rogou que fôssemos nós, tinha medo até de atravessar a rua. Eu já estava um tanto impaciente com o prolongar daquela história, ia meio constrangido, inquieto, e no trajeto até o botequim disparou-me um alarme na mente: se estiver premiado é golpe, só pode ser golpe! E não deu outra: o bilhete (adulterado, evidentemente) fora premiado! Primeiro prêmio! Uma grana assombrosa!
Fiquei aflito, confuso, o coração batendo forte, e o senhor da Bíblia iniciou a etapa seguinte de sua vigarice:
- O matuto é um palerma, nós podíamos...
Deixei-o a falar sozinho. O mais da conversa que não aconteceu o leitor pode bem imaginar... Passava um ônibus, peguei-o sem olhar pra onde ia, não era a minha condução, desci mais à frente e peguei outra. Livrei-me dos vigaristas!
Nestas duas histórias que acabo de contar, a mesma psicologia de usar a ambição e a desonestidade da própria vítima. Isso é que é malandragem! Há uma diferença, porém, a qual determinou finais diversos: naquele tempo da minha adolescência eu ainda era idealista... e possivelmente honesto.

9 de jun. de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 5)

Afinal, o bicho costureiro


Um piscar de olhos e Tonico já estava no bosque em que encontrara a moça da melancia: viagem mais impressionante que o mais impressionante dos sonhos! À sua frente, pairando no ar, a bola de fogo, que não era de fogo, mas resplandecia como o vestido de Morgana.

- Então, querias conhecer-me?

- O bicho costureiro, uma bola de luz?

- Sim, mas na verdade sou invisível. A luz que vês é por causa do vestido que fiz para a princesa Morgana, costurando milhares e milhares de vaga-lumes. Impregnei-me com a fosforescência deles. Cavacos do ofício...

- Mas disseram-me que foi uma velha...

- Pois foi...

E dizendo isto, a bola encolheu-se ao tamanho de um vaga-lume de luz intensíssima; depois cresceu, transformando-se numa árvore fosforescente; em seguida alongou-se como corda e evoluiu no ar em graciosos volteios, para finalmente descer em forma de balão.

- Entendes agora? Posso transformar-me no que quiser, não tenho forma definida. Virei-me numa velha e apresentei-me como costureira às princesas...

- E os vestidos, por que se desmancharam?

- Ah, que terríveis são aquelas meninas, que gênio! Os vestidos, costurei-os com uma linha mágica muito delicada, porém eficiente e apropriada a costuras igualmente delicadas, mas que não resiste a estados emocionais intensos: sentimentos negativos como ciúme, inveja, raiva, destroem a linha, desfazendo as costuras. Foi isso... Eu quis fazer os dois vestidos com pétalas, apenas variando a cor, mas a princesa Morgana insistiu em querer algo mais deslumbrante...

- E a masmorra?

- Ora, é impossível prender um espírito. Deixei-me trancafiar para não chamar a atenção, mas posso fugir até pelo buraco de uma fechadura.

- E como soube que eu queria conhecê-lo?

- Uma pombinha me contou...

- O Senhor...

- Você, se me faz o favor.

- Você também não gosta de meninos curiosos?

- Não há por quê! A curiosidade é mãe da ciência. Viva a curiosidade!

- E agora, ainda pretende correr mundo?

- Não, prefiro o sossego da minha máquina de costura. O mundo dos homens é muito complicado! Mas antes de voltar preciso livrar-me deste brilho, não vá tia Rosinha assustar-se, pensando que sua máquina pega fogo por dentro.

E dizendo isto, o bicho costureiro começou a sacudir-se no ar, fazendo movimentos rápidos de vai-e-vem para livrar-se da fosforescência. Propôs-lhe então o menino:

- Por que não se esfrega em minhas roupas, passando-me o brilho?

E assim fez o bicho, até ficar novamente invisível.

- Até mais ver. Cuida-te.

Tonico olhou a noite: breu puro, mas suas roupas iluminavam a mata ao redor. E das bandas do Reino das Princesas Vaidosas chegava ao bosque uma nuvem de alegres vaga-lumes


Epílogo


- Tonico! Tonico! Responde, meu filho!

Tiana procurava o filho na mata, aflita, pois de há muito o sol se apagara. Não era a primeira vez que o filho lhe aprontava uma dessas: vivia espionando as formigas, os grilos, as lagartas, os vaga-lumes e tudo o mais, e às vezes adormecia na mata. Como achá-lo naquela escuridão, pensou Tiana, que nem uma lanterna levava, tão apressada saíra de casa.

Um clarão entre as moitas conduziu Tiana ao filho adormecido na relva.

Ora, essa! As roupas a brilhar! Com certeza estava brincando com os vaga-lumes, pois nunca se viu tantos na mata, deduziu a mãe ao recolher o filho nos braços.

No dia seguinte Tonico dormiu até mais tarde e ao levantar-se, antes mesmo de tomar café, correu ao ateliê de costura da tia Rosinha. Estava lá o Elias mecânico.

- Ó tia Rosinha, a sua máquina está boa, não lhe encontrei nada de errado.

- Mas, como, se ontem não funcionava?

- Mas está ótima, experimente.

A costureira sentou-se com os pés na pedaleira, ajeitou um retalho sob a agulha e tic tic, tic tic, tic tic, a costura fez-se perfeita como nunca!

- Não entendo... não entendo... – balbuciou tia Rosinha. E quanto lhe devo seu Elias?

- Ora, não é nada. O que fiz foi só aplicar um tiquinho de óleo para lubrificar os mecanismos.

O tio Jaime observava tudo com expressão preocupada. Disse ao mecânico:

- Aceite ao menos merendar...

- Ah, pois claro, com muito gosto.

A costureira foi preparar a merenda enquanto seu marido chegava-se ao Elias e confidenciava:

- Não sei não, Elias, mas acho que a Rosa está caducando...

Tonico, que tudo observava, olhou a máquina de costura e sorriu. Depois saiu, sem pressa, chutando as pedrinhas do chão. Um bando de pombas passou voando e o menino acenou-lhes com as duas mãos: quem sabe não estaria entre elas a pombinha falante... ou a moça da melancia.

FIM


Perguntas que o leitor está fazendo agora

E a pombinha, encontrou o seu amor?

Encontrou. E o seu amo já era rei e a Moura Torta sua rainha!

A pombinha apareceu nos jardins do palácio dizendo: "Onde andará meu amo e a sua Moura Torta?". O jardineiro ficou intrigado com a fala e contou ao rei, que mais intrigado ficou. O rei mandou então que o jardineiro prendesse a pombinha e a levasse até ele. Logo se afeiçoaram. Mas a rainha, percebendo de quem se tratava, caiu de desejos por uma sopa de pombinha e nada a fez desistir de seu intento, até que o rei cedeu. Antes de dar a ave para a cozinheira real, porém, o rei acariciou-lhe a cabecinha e descobriu o alfinete que lhe cravara a Moura Torta. Então retirou o alfinete e o encantamento se desfez, virando pombinha em moça da melancia. A Moura Torta foi duramente castigada e expulsa do palácio. E o rei viveu feliz para sempre com sua nova rainha.

Cabe ainda outra pergunta: como um moço pobrezinho, que no início da história só tinha uma melancia, no final vira rei de um reino?

Não sei. Minha mãe não me contou. Nem contaram pra ela. Ao que tudo indica, a história da Moura Torta – da tradição oral – chegou truncada até nós, faltando um pedaço. Ninguém sabe, ninguém saberá...


PS: Li recentemente em "Contos Tradicionais do Brasil", de Câmara Cascudo, uma versão recolhida no Nordeste brasileiro na qual o moço não é pobrezinho, mas filho de rei, príncipe portanto, e filho único. Ao sair pelo mundo, encontra uma velhinha carregando um feixe de lenha e oferece-lhe ajuda; em agradecimento a velha lhe dá três laranjas (encantadas, claro). No mais a história segue como acima. A variante que contei foi-me passada por minha mãe e coincide com a de Monteiro Lobato em "Histórias de Tia Nastácia".

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