13 de nov. de 2011

O gigante do mar tenebroso


Fiz recentemente um curso de extensão sobre a poesia de Fernando Pessoa no Real Gabinete Português de Leitura: "FERNANDO PESSOA RELIDO NO REAL". Não lhes falarei da simplicidade complexa do poeta, de sua multiplicidade una, de sua angústia existencial ou de seus versos... Até porque me faltaria capacidade para tal. Falarei de outra história, relembrada durante o curso, quando uma das conferencistas mencionou um fato banal, mas intrigante, e que também lhes contarei, por ser correlato à história que vou contar.
Um dia, faz muito tempo, as minhas sobrinhas Glória e Rosa ainda eram Glorinha e Rosinha, estava eu conversando com o pai delas, o José (que Deus o tenha), no bairro de São Francisco.
Dizia o José das coisas da Terrinha, das glórias passadas e dos perigos; da saga das navegações e do vencer o Cabo das Tormentas, no extremo sul da África. Relembrando, se para tanto não me falha a memória, o cabo foi descoberto e dobrado por Bartolomeu Dias, que ao explorar a costa ocidental da África foi surpreendido por violenta tempestade e levado ao largo no mar tenebroso, perdido. Ao reencontrar a costa, já estava do outro lado da África e, retornando, por imposição de marujos revoltosos, descobriu e nomeou o perigoso acidente geográfico, depois renomeado por D. João II para Cabo da Boa Esperança. Este feito foi essencial à saga do Gama.
Mas voltemos ao que dizia o meu cunhado.
Naquele tempo havia monstros no mar, e ao fim da África um gigante horrendo revoltava as águas e engolia as caravelas, impedindo-as de ir além: era o Gigante Adamastor. Os portugueses de Vasco da Gama passaram, à revelia do monstro, e completaram a gloriosa aventura. Não posso garantir que estas foram as palavras exatas do meu cunhado, mas esta foi a essência do seu discurso. Ele acreditava, sim, nos monstros e no Gigante Adamastor!
Percebi a sinceridade, a convicção de verdade na fala do meu cunhado e não tive coragem para contrapor-me ao que dizia. Não questionei, não argumentei; ouvi apenas.
Durante algum tempo pensei no caso. Como um português, do interior embora, pôde ter crescido com uma concepção tão fantasiosa da história e da geografia? Tomar por real uma fantasia poética criada por Camões para representar o Cabo Tormentório, a essa altura já da Boa Esperança, no seu poema épico "Os Lusíadas". Uma deficiência da escola básica, mormente as do interior? Leitura errônea, sem assistência, do épico camoniano? A força da tradição, que reconta as histórias de boca a boca, talvez já do princípio equivocadas, e sujeita a truncamentos, omissões e acréscimos, sem a menor possibilidade de corrigir-se? A magia de um passado glorioso? Não sei... Talvez um pouco de tudo isso...
Quaisquer que tenham sido as causas, porém, sempre pensei tratar-se de um caso pontual, não generalizado, nada mais...
Agora vamos à história ouvida no Real Gabinete.
Numa de suas viagens a Portugal, a conferencista ficou a ver televisão no hotel, por não ter o que fazer no fim de semana. Era um programa de auditório, um desses concursos de perguntas e respostas com prêmios aos vencedores, comandado pelo "Sílvio Santos de lá". Além dos candidatos a responder, havia um grupo de crianças que tentariam responder quando o candidato falhasse. O tema era geografia. O animador perguntou: Qual o nome do acidente geográfico localizado no extremo sul da África? O candidato não soube responder e uma criança imediatamente levantou o braço e disse: Gigante Adamastor!
E agora, José?... E agora, leitor?... Não é, como eu pensava, um fato isolado em algures do interior; mais de três quartos de século depois da educação equivocada do meu cunhado José, o fenômeno ainda persiste. Em Lisboa! Pelo visto a questão é muito mais séria e nem Camões suspeitaria que sua obra penetrasse tão fundo na alma portuguesa.
Mas se recordar é viver, não seria melhor recordar as glórias passadas, intensificadas poeticamente por Camões com figuras míticas, a encarar a realidade baça da terra, que é Portugal a entristecer, como nos diz Fernando Pessoa?


12 de nov. de 2011

POEMINHA SEM MÉTRICA, SEM RIMA E SEM VERGONHA



PRIMEIRO LEVARAM A CAPITAL
(ESTAVA NA CONSTITUIÇÃO)
DEPOIS LEVARAM O ICMS DO PETRÓLEO
(NÃO ESTAVA, MAS FOI ACORDADO NA CONSTITUIÇÃO DE 1988)
AGORA QUEREM LEVAR OS ROYALTIES DO PETRÓLEO
(A CONSTITUIÇÃO DIZ QUE SÃO DA REGIÃO PRODUTORA)
PAREM DE SACANEAR O RIO DE JANEIRO!
É COVARDIA!
(24 ESTADOS CONTRA 2)
É INCOERÊNCIA REGULATÓRIA
(E O FERRO, O MANGANÊS, O ALUMÍNIO, O COBRE, ETC , NÃO ENTRAM NA DANÇA?)
É INJUSTIÇA!
(NÃO SERIA SE TODOS OS MINERAIS ENTRASSEM NA REGRA; NESTE CASO NÃO SERIAM 24 CONTRA 2, NÃO SERIA INCOERENTE NEM COVARDE)
É ROUBO!
(FACE AO EXPOSTO, O QUE PODE SER, SENÃO ROUBO?)
POR QUE FAZEM ISTO COM O RIO DE JANEIRO?
SERÁ QUE É PORQUE NÃO PODEM ROUBAR A SUA BELEZA SEM PAR?

(Quem quiser relembrar toda esta questão pode fazê-lo nas 4 crônicas de março de 2010: "Vô Tônico indignado - 2", "Da Candelária à Cinelândia", "Chupa essa manga, candidato" e "Chupa essa manga, companheiro".)

9 de nov. de 2011

No que dá frequentar sebos


Faz poucos dias comprei um livro (que novidade!) numa feira de sebos na Rua da Alfândega: Estilística da Língua Portuguesa, de M. Rodrigues Lapa, Livraria Acadêmica, 4ª edição, 1965. Paguei R$ 1,00!
O autor, creio ser português e não sei se ainda vive. O conteúdo, como o título indica, trata do estilo ao escrever, dos processos da linguagem, dos arranjos das palavras e da expressividade maior ou menor dos vocábulos, dependendo do arranjo que se faça. Tenho certeza que o livro será bem mais valioso, para mim, que agora vivo metido a escrever, do que o preço pago.
Mas não quero falar-lhes de estilo, cada um tem o seu, embora seja sempre possível e desejável melhorá-lo. Quero falar-lhes de outra coisa, ao final estilo também, senão literário, estilo político. Quero falar-lhes do estilo do politicamente correto, quando envolve o uso de palavras.
De uns tempos para cá tenho ouvido pessoas dizerem comunidade em substituição ao antigo e expressivo favela. O que é comunidade? Numa de suas acepções, conjunto de habitações e seus habitantes num determinado espaço geográfico. Neste sentido Marechal Hermes é uma comunidade, assim como Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, São Gonçalo, Icaraí, Rocinha, Mangueira, Vila Kenedy, Cidade de Deus... Tudo é comunidade! O termo é por demais amplo, geral, abstrato e intelectual. E por dizer tudo, nada diz, ou quase nada! É um substantivo pouco ou nada expressivo.
favela é quase um adjetivo. Quando penso ou falo o substantivo favela, embutidos no termo vêm vários qualificativos: favela é um lugar de habitações precárias, carente de saneamento básico, de serviços e equipamentos públicos, de segurança...; reduto de bandos criminosos e, por conseguinte lugar de violência e medo; e traz em si, até, um pouco da história do nosso Nordeste, que meus esclarecidos leitores conhecem bem, e que só vou aqui mencionar em favor dos meus leitores de além-mar.
Favela é uma leguminosa silvestre, abundante outrora no Morro da Favela, lugar onde o beato Antonio Conselheiro ergueu o seu Arraial de Canudos, no sertão baiano, e contra o qual foram três expedições militares a combatê-lo, no final do século XIX. A saga é narrada por Euclides da Cunha em "Os Sertões". Após o conflito, os soldados retornados não tinham onde morar e para tal subiram o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, e construíram lá os seus barracos. O morro passou a ser conhecido por Morro da Favela, uma referência a Canudos, e daí por diante todo aglomerado de construções precárias nos morros cariocas designou-se por favela.
Quando digo favela, digo tudo isto sem precisar dizer! É, como disse, um substantivo-adjetivo, prenhe de significados e estourando de expressividade, por tudo quanto evoca à nossa imaginação.
Outra palavra em voga nos últimos tempos: afro-descendente. Trata-se de um adjetivo gentílico para designar negros, mulatos, etc, no lugar dos adjetivos negros, mulatos, etc. Outra invenção dos ideólogos do politicamente correto que desaconselham o uso de tais adjetivos por serem pejorativos ou até mesmo ofensivos. E o que diz o gentílico afro-descendente? Apenas indica a origem remota da pessoa. Só. Não tem nenhum outro qualificativo para o objeto a que se refere. E se ampliarmos para trás a perspectiva do tempo, veremos que o homo-sapiens surgiu na África e se espalhou pelo mundo; portanto é afro-descendente o japonês e o chinês, tanto quanto o europeu e o africano. Somos todos afro-descendentes: África é a Grande Mãe de todos nós!
E o adjetivo negro, o que nos diz? Não obstante ser também abstrato, nos traz de imediato um qualificativo absolutamente concreto – porque visível – a cor da pessoa. E ainda evoca, neste nosso Brasil, aspectos culturais, tais como a música popular, a culinária, danças e ritos religiosos, entre outros. Mas espera aí, senhor; a palavra afro-descendente também evoca esses aspectos culturais, não acha? Não! Não acho. O negro e a palavra negro é que sempre estiveram ligados à formação da nossa cultura. O uso de afro-descendente é recente e, apesar disso, a palavra já nasceu fraca e descorada. Não tem expressividade.
Não sou ingênuo, porém; sei que palavras como favela e negro/negra são usadas (mais no passado que agora) para desqualificar, discriminar, xingar e ofender. Sei disto muito bem. Justamente por serem palavras expressivas trazem também o preconceito como qualificativo. Mas as palavras não têm culpa; de nada adianta trocá-las. O que discrimina e ofende são os sentimentos que pegam carona nas palavras e se manifestam por outras linguagens, pela entoação da voz, pela expressão facial e trejeitos de corpo do ofensor. As pessoas que ofendem continuarão ofendendo e amanhã as novas palavras (comunidade e afro-descendente) estarão já estigmatizadas pelo preconceito.
Aos ofensores: denúncia e punição! Às palavras: liberdade!
E por já me ter alongado bastante, peço licença aos meus compatriotas, favelados ou não, dentre eles os ideólogos do politicamente correto, para dizer as derradeiras palavras desta crônica, que faz tempo estão a me coçar a garganta:
Afro-descendente é o c*!!! Somos todos negros, brancos, mulatos, mamelucos e cafuzos; somos mestiços de todas as cores e tons; somos BRASILEIROS, com todo respeito!

*Isso mesmo que o leitor pensou.


27 de set. de 2011

Estórias da Carochinha


Sábado (24) levei a minha netinha ao teatro (tenho o privilégio de morar num bairro que tem teatro) para ver João e Maria, que todos vocês conhecem. Se não conhecem, deveriam. Há o que aprender sim, nessas estórias recheadas do que se convencionou chamar de senso comum – a sabedoria popular traduzida em tramas simples e de fácil compreensão.
Digo isto porque ontem (domingo) folheava uma revista quando li a seguinte notícia-crime:
Uma mulher contratou um ex-presidiário para matar outra mulher, sua desafeta. Ao intentar o crime, o homem reconheceu na vítima uma ex-amiga de infância e resolveu poupá-la. Amordaçou-a, encheu-lhe o corpo de ketchup e enfiou-lhe um facão entre o peito e um dos braços, simulando (muito mal) o crime. Tirou foto e levou-a à contratante, que se deu por satisfeita, pagando-lhe 1.000 reais, conforme o combinado. Dias depois a contratante viu-se lograda ao encontrar "algoz" e "vítima" aos abraços e beijos na pracinha do bairro. Não deixou por menos: foi à polícia e deu queixa de roubo! O delegado intimou o "ladrão" e soube de toda a história. Conclusão: os três acabaram indiciados; uma por ameaça de morte, os dois outros por extorsão.
Não pude deixar de relembrar de outra estória: Branca de Neve e os Sete Anões.
Para quem já esqueceu, eu lhes conto um pedaçinho, justo aquele por quase tudo igual ao fato descrito acima. A bruxa-madrasta de Branca de Neve, por inveja de sua beleza, mandou que um serviçal a levasse à floresta e a matasse, trazendo-lhe como prova o coração da princesa. O homem apiedou-se, libertou a princesa e matou um cervo, levando à bruxa o coração do animal.
Descobrindo-se lograda, o que fez a bruxa-madrasta? Foi dar queixa à polícia, ao rei, ao chefe da guarda ou lá a quem quer que fosse? Não. Engoliu o sapo, consultou o espelho mágico para descobrir o paradeiro de Branca e foi pessoalmente tentar dar cabo dela, oferecendo-lhe a maçã envenenada.
Ahhh, já não se fazem mais vilãs como antigamente!
Todo bom vilão ou vilã tem de ter um mínimo de inteligência! Se não tem, dá no que deu.
Para encerrar, um conselho para as três personagens da notícia supra: aproveitem o tempo em que ficarão trancafiadas para ler as estórias de D. Carochinha. E aprendam, panacas, que até no mundo do crime é preciso ter, senão inteligência, um mínimo de ética.