14 de mar. de 2012

Estamos todos enrascados


Caríssimos, hoje apenas transcrevo (ou copio e colo) o texto de Mia Couto, um dos mais importantes autores africanos de língua portuguesa. Natural da Beira – Moçambique, tem na escrita sua paixão constante. Vencedor de vários prêmios, sua obra (poesia, jornalismo e ficção) tem sido traduzida para vários idiomas, tais como: alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, neerlandês, norueguês e sueco.
O autor diz que "um dia isto tinha que acontecer" e eu digo que um dia alguém tinha que o dizer. Creio que Mia Couto reflete a atual situação econômica e social de Portugal e outros países europeus, mas o tema é universal e preocupante. Faço minhas as suas palavras.

 
Um Dia Isto Tinha Que Acontecer, por Mia Couto


 Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

 

5 de mar. de 2012

Saí para um sarau poético ...


... E acabei na feira nordestina de São Cristóvão! Acreditam nisso? Foi assim. Fui convidado por Adriana Kairos, pela terceira vez, a comparecer ao sarau poético da Biblioteca de Manguinhos, que acontece uma vez por mês. Não conhecia o bairro, embora passe por lá regularmente, na condução, sem nunca ter saltado. Sei que a fama do lugar não é boa, mas não importa, se tantos bairros têm fama idêntica. E além do mais, em geral só ficamos sabendo das coisas ruins, nunca das boas, como um sarau poético, por exemplo.
No último sábado (03/03), resolvi comparecer. Além de rever Adriana, queria participar da homenagem a outra poetiza de minha estima, Aline Leite, falando um ou dois poemas de sua autoria. Peguei um exemplar de POESIA SUBURBANA e outro com poemas de Fernando Pessoa, e parti. Parti já bastante atrasado, mas teria tempo de sobra. Sentei do lado direito do ônibus e fui observando a numeração da avenida D. Helder Câmara, para saltar próximo ao número 1184. Quando observei o número 1300, pensei: é aqui. Mas...
O bairro é atravessado pelo viaduto do metrô, e por baixo deste viaduto, barracos e outras traquitanas pouco simpáticas. Pouquíssimas pessoas perambulando na rua. Noite escura. E vocês sabem: à noite todos os gatos são pardos. Gente, não acionei a cigarra do ônibus, não saltei, passei batido, só parei no Campo de São Cristóvão! Lá eu conheço e sei me situar. Não é preconceito não, gente. Foi cagaço mesmo!
Saltei bem em frente a uma das entradas da feira nordestina. A intenção era pegar um ônibus de volta, mas a cantoria dos repentistas nordestinos me atiçou. Entrei.
Minha mulher, antes de eu sair de casa, me disse que talvez fosse à feira com uma amiga. Quem sabe nos encontraríamos lá. E repente daqui e dali, e forró de cá e de lá, me deu fome e sede. Sentei num restaurante e pedi uma cerveja e um angu à baiana, que há muito tempo não comia. O angu não foi lá essas coisas, mas comível para quem tem fome, e a cerveja desceu bem. De repente bateu-me uma saudade de outro angu, o Angu do Gomes, famoso outrora. Lembro-me de saboreá-lo na Praça XV, quando voltava da Faculdade à noite. A última vez que comi um angu do Gomes foi na Maré, na calçada da avenida Brasil. Talvez já não fosse o Gomes original, talvez um Gomes pirata, mas o angu era muito bom, igual ao do Gomes. Já comi caviar, mas tenho saudade é do Angu do Gomes!
Mas deixemos de culinária, que eu já estou de volta a casa. Ao passar por Manguinhos, que diferença! Muitas, muitíssimas pessoas circulando na rua, parece que iam a um lugar determinado, talvez um baile funk numa quadra que vi de portões abertos e toda iluminada. E o som bombando. Tive até vontade de saltar, tão aconchegante me pareceu o lugar! Segui meu rumo. Em outra oportunidade irei ao sarau de Manguinhos, mas antes vou lá durante o dia fazer um reconhecimento do terreno (e eu não fui milico? Pois então).
E a Rita, hein? Que disse que ia e não foi. E eu que não ia, fui.

 


 


 

16 de nov. de 2011

Por mares nunca de antes navegados


Consequente ao tema da página anterior e para dar-lhe ilustração adequada, transcrevo nesta algumas estrofes de Os Lusíadas, de Camões, precisamente aquelas em que Vasco da Gama descreve a visão do Gigante Adamastor, em sua crônica ao rei de Melinde.

XXIX
Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.
XL
Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.
XLI
E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho;
XLII
Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou imortal merecimento,
............................................................


















Indagado por Gama de sua identidade, o monstro responde:

Eu sou aquele oculto e grande cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Polo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende!

Fernando Pessoa, em seu poema épico Mensagem, também cria um monstro, não para personificar um acidente geográfico, mas o próprio mar tenebroso, o longe desconhecido...

O mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo,
"El-rei dom João segundo!"

"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?"
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
"Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e disse,
"El-rei dom João Segundo!"

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De el-rei dom João Segundo!"

E Mensagem termina com estes versos:


Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

13 de nov. de 2011

O gigante do mar tenebroso


Fiz recentemente um curso de extensão sobre a poesia de Fernando Pessoa no Real Gabinete Português de Leitura: "FERNANDO PESSOA RELIDO NO REAL". Não lhes falarei da simplicidade complexa do poeta, de sua multiplicidade una, de sua angústia existencial ou de seus versos... Até porque me faltaria capacidade para tal. Falarei de outra história, relembrada durante o curso, quando uma das conferencistas mencionou um fato banal, mas intrigante, e que também lhes contarei, por ser correlato à história que vou contar.
Um dia, faz muito tempo, as minhas sobrinhas Glória e Rosa ainda eram Glorinha e Rosinha, estava eu conversando com o pai delas, o José (que Deus o tenha), no bairro de São Francisco.
Dizia o José das coisas da Terrinha, das glórias passadas e dos perigos; da saga das navegações e do vencer o Cabo das Tormentas, no extremo sul da África. Relembrando, se para tanto não me falha a memória, o cabo foi descoberto e dobrado por Bartolomeu Dias, que ao explorar a costa ocidental da África foi surpreendido por violenta tempestade e levado ao largo no mar tenebroso, perdido. Ao reencontrar a costa, já estava do outro lado da África e, retornando, por imposição de marujos revoltosos, descobriu e nomeou o perigoso acidente geográfico, depois renomeado por D. João II para Cabo da Boa Esperança. Este feito foi essencial à saga do Gama.
Mas voltemos ao que dizia o meu cunhado.
Naquele tempo havia monstros no mar, e ao fim da África um gigante horrendo revoltava as águas e engolia as caravelas, impedindo-as de ir além: era o Gigante Adamastor. Os portugueses de Vasco da Gama passaram, à revelia do monstro, e completaram a gloriosa aventura. Não posso garantir que estas foram as palavras exatas do meu cunhado, mas esta foi a essência do seu discurso. Ele acreditava, sim, nos monstros e no Gigante Adamastor!
Percebi a sinceridade, a convicção de verdade na fala do meu cunhado e não tive coragem para contrapor-me ao que dizia. Não questionei, não argumentei; ouvi apenas.
Durante algum tempo pensei no caso. Como um português, do interior embora, pôde ter crescido com uma concepção tão fantasiosa da história e da geografia? Tomar por real uma fantasia poética criada por Camões para representar o Cabo Tormentório, a essa altura já da Boa Esperança, no seu poema épico "Os Lusíadas". Uma deficiência da escola básica, mormente as do interior? Leitura errônea, sem assistência, do épico camoniano? A força da tradição, que reconta as histórias de boca a boca, talvez já do princípio equivocadas, e sujeita a truncamentos, omissões e acréscimos, sem a menor possibilidade de corrigir-se? A magia de um passado glorioso? Não sei... Talvez um pouco de tudo isso...
Quaisquer que tenham sido as causas, porém, sempre pensei tratar-se de um caso pontual, não generalizado, nada mais...
Agora vamos à história ouvida no Real Gabinete.
Numa de suas viagens a Portugal, a conferencista ficou a ver televisão no hotel, por não ter o que fazer no fim de semana. Era um programa de auditório, um desses concursos de perguntas e respostas com prêmios aos vencedores, comandado pelo "Sílvio Santos de lá". Além dos candidatos a responder, havia um grupo de crianças que tentariam responder quando o candidato falhasse. O tema era geografia. O animador perguntou: Qual o nome do acidente geográfico localizado no extremo sul da África? O candidato não soube responder e uma criança imediatamente levantou o braço e disse: Gigante Adamastor!
E agora, José?... E agora, leitor?... Não é, como eu pensava, um fato isolado em algures do interior; mais de três quartos de século depois da educação equivocada do meu cunhado José, o fenômeno ainda persiste. Em Lisboa! Pelo visto a questão é muito mais séria e nem Camões suspeitaria que sua obra penetrasse tão fundo na alma portuguesa.
Mas se recordar é viver, não seria melhor recordar as glórias passadas, intensificadas poeticamente por Camões com figuras míticas, a encarar a realidade baça da terra, que é Portugal a entristecer, como nos diz Fernando Pessoa?