4 de mai. de 2013

O dia em que o céu rachou


Naquele sábado não fui com as minhas irmãs levar as ovelhas ao pasto. Nem com papai e mamãe, que tinham ido à feira de Santo Amaro comprar leitões. Fiquei em casa por um só motivo: Aniceto e seus homens trabalhavam na reforma da nossa casa. Curioso, gostava de observá-los preparando argamassa, rebocando, queimando a cal virgem, caiando, elaborando as tintas (naquele tempo não havia tintas já prontas) ou pintando. Eu não perdia nada dessa lida. Foi quando ecoaram os primeiros gritos:
- Acalderrei! É o fim do mundo! Acalderrei! (1)
Fui na amurada do jardim espiar; uma velha ajoelhada no meio da rua (se não me engano, a avó dos Carriços) com as mãos estendidas para o céu, aos prantos, suplicava desesperada:
- Ai, Jesus! Perdoai os nossos pecados, Senhor Jesus!...
Olhei o céu, estava azul e límpido como raramente se vê, a não ser por um diminuto ponto brilhante (uma estrela?) cruzando o firmamento de ponta a ponta, deixando atrás de si um risco branco e fino, semelhante a uma trinca ou rachadura; outro ponto brilhante começava a riscar o céu em sentido transversal ao primeiro; e mais outro e outro mais... O céu ficou todo riscado, parecendo uma casca de ovo rachada!
Estrelas à luz do dia, deslocando-se velozmente (não eram estrelas cadentes, disso eu tinha certeza) e rasgando o céu em muitos pedaços! Algo de sobrenatural parecia estar acontecendo! Seria o fim do mundo? “De mil passarás, a dois mil não chegarás”, teria dito Nossa Senhora, segundo minha mãe. E a largura das rachaduras aumentando! E o céu aos cacos, prestes a desabar!
A aldeia estava em polvorosa! A velha ajoelhada levantou-se e correu ladeira abaixo, sempre a gritar “ai, Jesus... ai, Jesus”. Mulheres e crianças corriam em direção a suas casas: se o mundo ia acabar, melhor seria estar perto dos seus. As minhas irmãs chegaram tangendo as ovelhas em correria. Assustadas, me contaram que estavam brincando de santinha e pensaram ser castigo por estarem a brincar com as coisas do céu.
A barafunda atingiu outros lugares e até a feira de Santo Amaro virou um caos: correria para todo lado, barracas desabando, gritaria, choro... E para piorar a confusão, os animais à venda soltaram-se e os aproveitadores saquearam a não poder mais. Um inferno!
Eu não entendia nada do que estava ocorrendo no céu, todavia permaneci tranqüilo durante aqueles momentos extraordinários. E a razão era simples: quando tudo começou, o Aniceto olhou o céu, esboçou um ligeiro sorriso e retornou ao trabalho. Se ele permaneceu calmo, por que eu iria afligir-me?
Não durou muito, porém, aquela ameaça do céu: as rachaduras, alargando-se, diluíram-se no azul celeste e desapareceram. Sumiram também as estrelas que as provocaram. Teria Jesus ouvido as preces dos aflitos e desesperados? Teria Deus lhes perdoado os pecados? Eu não sabia, mas o céu estava novamente azul e límpido como dantes e a aldeia sossegada.
Alguns dias depois ouvi um comentário na loja do Grandela:
- Foram os aviões-a-jato de Figueira da Foz. Está no jornal do Aives...
João Aives era o homem mais bem informado da aldeia: recebia semanalmente um jornal pelo correio. Morava do outro lado do Caima, em frente à ponte, aparecia pouco, falava menos ainda, mas sabia de tudo. Estava no jornal...
E foi isso. As tais rachaduras nada mais eram que os rastros de gases deixados pelos aviões-a-jato voando em grande altitude. A fuselagem metálica dos aviões e os gases refletiam a luz solar, tornando-os brilhantes e dando a impressão de estrelas rasgando o céu. A ignorância e a desinformação fizeram o resto...
(1) Acalderrei! – corruptela da expressão “Acá, El Rei”; pedido de ajuda; socorro.

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1 de mai. de 2013

A moça e a mosca


Autora: Adriana Kairos
É professora, escritora e coordenadora do projeto cultural ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora, que tem por objetivo estimular e apresentar a produção poética e ficcional de autores de periferias. Neste projeto organizou as antologias Marginal – contos de periferia, Poesia Suburbana – entre trilhos e versos (dezembro/10), Singular – o país dos invisíveis (agosto/11) e Vozes (agosto/2012). Moradora do Complexo de favelas da Maré – Rio de Janeiro, RJ, AKairos cursa Letras na UFRJ. Em 2009, publicou Claraboia, livro de poesia e prosa, que tenta retratar o olhar dos marginalizados de uma maneira poética e reflexiva. No final de 2011 lançou Anjos, ventos e quimeras, livro de contos, prefaciado pelo Prof. Juliano Carrupt – UFF e revisado pelo Prof.Tiago Cavalcante – UFRJ. Outros textos seus já foram publicados em várias antologias e em sites na Internet. Além disso, a autora se debruça sobre a questão do fazer literário nos/dos espaços populares e a sua ascensão, as culturas marginalizadas e o “bum” da cultura digital.

Publicado na antologia VOZES, coordenada pela autora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com
www.cartografianalma.blogspot.com.br



Ela era daquele tipo de pessoa, que de tão desprovida, só tinha uma mosquinha-de-guarda. Moça anônima, moça qualquer. Um número numa ficha de entrada de um hospital, de um abrigo, de um lugar qualquer que a acolha, que mate sua fome por algumas horas,  que lhe empreste um sabonete para um banho eventual. Um número fora das pesquisas (nunca respondeu ao IBGE), dentro das estatísticas. Quando morre, um indigente a mais, um Brasil a menos.
Dois quaiquer a deixaram na porta de um outro qualquer-hospital. Ela grunhia segurando a barriga inchada, pequena, parecia um calo. Foi socorrida por outros anônimos-enfermeiros e levada ao centro cirúrgico. Era caso de urgência. Era caso de fome ou morte.
Tinha mesmo mais fome que dor. Deu a luz a um bebê tão faminto quanto ela. A mosca entrou pela janela da enfermaria e observou a tudo e a todos de um canto da parede. A tudo: seu sofrer, seu chorar, seu medo, sua desilusão, seu abandono, sua tristeza infinita… A todos os olhares, de horror, de preconceito, de julgamento, de maldade, de descompaixão cristã.
A mosca só a observava, não se metia, não interferia em nada. Nada. Observava apenas. Outra coisa também não podia fazer o guardião diminuto, sempre correndo o constante e eminente risco de uma palmada mortal de algum desavisado. Uma mosca com status de anjo. Foi o que sobrara para ela, para a moça com o corpo e a idade que a rua lhe dera.
A mosca também a acompanhou na sala de parto e seguiu velando-a por toda a noite. Ela se sentia impotente. Que raios de guardião eu sou. Aproximou-se da moça e passou a observá-la da cabeceira da cama. Sempre tinha alguém tentando espantá-la de seu posto. Sobrevoava para salvar-se e voltava, sempre, para o mesmo lugar.
Uma enfermeira quis mostrar a moça sua cria. Ela respirou fundo, fechou os olhos, estendeu os braços para afastar qualquer tentativa de aproximação e disse não. Deitou e fingiu dormir. Despertou com o som do carrinho que trazia a ceia noturna. Sentou-se na beira da cama e devorou os biscoitos, as geleinhas em potinhos descartáveis e o suco. Ávida como nunca, pediu o que sobrara das outras internas da maternidade.
Quer ver sua filha? Enfermeira insistente.
O seu olhar vazio chocou as outras mães da enfermaria, mas ninguém disse nada. Todos ficaram mudos diante do que acontecia. Diante da miséria-ferida aberta e sem médicos para suturá-la. O que dizer ou o que fazer? Perguntaram-se todos sem palavras.
Ela pensava em não-sei-o-quê. A mosca jurou que ela sonhava. Contudo, a moça sabia que esse privilégio sua origem não lhe dava.
Não quero vê-la. Quero que a levem para um outro destino.
A encaminharemos ao concelho tutelar.
O tempo passou nas gotas cansadas do soro sobre o suporte. A moça, saciada de sua fome e de seu desejo materno, admirava calmamente sua mosquinha guardiã. Cansada de velá-la, a mosca sobrevoou um pouco mais o seu leito, sabia que a moça também cansara.
A mosca pousou dormida sobre o ventre da moça dormente. A moça descansou seus olhos e suas mãos sobre a mosca. A mosca não a velou mais, nem a moça sentiu fome outra vez.

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28 de abr. de 2013

Nas matas de São Pedro

 
Outras estórias que eu gostava muito eram as que falavam de coisas do Brasil, a terra onde eu nascera e para a qual muitos queriam ir. O que eu sabia do Brasil, soube ao pé do lume...
Papai explorava as matas de São Pedro, (1) produzindo carvão, o combustível então usado no cotidiano doméstico da cidade do Rio de Janeiro. A madeira era derrubada a machado e cortada em tamanho adequado para a formação dos balões, método de queima bastante primitivo, mas não muito diferente do usado até hoje pelos carvoeiros. Eu ficava imaginando como seriam esses balões, a partir da descrição de minha mãe: a lenha era juntada cuidadosamente em montes, mais ou menos no formato das medas (2) de trigo; depois se revestia tudo com grossa camada de barro, deixando em cima um furo ou chaminé e na base alguns outros furos para entrada de ar e por onde se tocava o fogo. Depois da queima, desmanchava-se o balão, deixava-se arrefecer e ensacava-se o carvão, que era carregado em lombo de burro até à estação de São Pedro, para posterior embarque nos vagões da Estrada de Ferro Rio D’Ouro. (3)
Barro, fuligem, cinza. E suor, muito suor!
Mas nem só de carvão se ocupavam os empregados de papai: também plantavam abóboras nas terras desmatadas, como contrapartida à concessão carvoeira. Exigia-se o plantio de qualquer coisa e papai optou por abóboras, creio, por ser uma cultura pouco exigente em cuidados. Afinal, era carvoeiro, não agricultor. E bastava que chovesse para as plantas crescerem e frutificarem. Bastava que chovesse... Mas São Pedro, o santo, tinha lá as suas esquisitices e mandara chuva à farta sobre a gleba do carvoeiro vizinho e nem uma gota na sua. “Que falta de sorte, carago!” – pensava papai, olhando a sua plantação já então de futuro incerto. Todavia, a terra era generosa, ainda com o humo da cobertura florestal e a falta de chuva em sua gleba fora apenas episódica. Por conseguinte, os vagões da Rio D’Ouro carregaram grandes quantidades de suas abóboras e também de laranjas e melancias que ele contratava com agricultores locais para serem comercializadas na própria estação ferroviária de Coelho Neto, por meus irmãos Esmeralda e Benjamin.
O carvão destinava-se à carvoaria de papai, no mesmo subúrbio, onde morava com a família; ia a São Pedro uma a duas vezes por mês verificar o andamento dos trabalhos e pagar o salário de seus carvoeiros. Pernoitava com os trabalhadores em casa de pau-a-pique à beira da mata e, durante a noite, dizia ele, era comum serem visitados por uma onça pintada; a bicha rondava a casa, rosnava e arranhava a taipa onde o barro se desmanchara, afastando-se depois. Papai viu-lhe as unhas, os bigodes e pouco mais. Nem mais queria ver: não era caçador. E apesar de precária, a casa de taipa sempre o protegeu e a seus trabalhadores.
Sobre essas matas papai contava outra estória... Um dia, após o almoço, intrometeu-se na mata em busca de sombra e frescor, sentou-se distraído num tronco caído no chão e acendeu um cigarro. Já na primeira tragada sentiu o tronco embaixo de si mover-se, rabear! Quase que por instinto, levantou-se de um salto, sem saber o que acontecia e, ao voltar-se, constatou com espanto que o assento em que repousara não era um tronco, era uma cobra! E bem criada! Imensa! Devia ser uma sucuri em repouso após uma farta refeição. Papai viu a bicha afastar-se entre as folhagens, ondulante e pesadona. Ainda bem. Meu pai tampouco era caçador de cobras.


(1) São Pedro – Atual Jaceruba, bairro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense; faz parte da Reserva Ecológica de Tinguá e limita com Japeri.
(2) meda – agrupamento de feixes de trigo, palha, etc., a que se dá forma geralmente cônica e que os ceifadores elevam nos campos.
(3) Estrada de Ferro Rio d’Ouro - Extinta em 1970, a ferrovia iniciava na ponta do Caju e chegava a São Pedro, Tinguá e Xerém. Em parte de seu antigo leito trafegam hoje os trens metropolitanos da linha 2.

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25 de abr. de 2013

Meu drama


Autora: Maria do Socorro da Silva
76 anos, é poeta e faz repentes. Nasceu em Pernanbuco, mas vive no Rio de Janeiro des 1976. Moradora de uma ocupação na antiga fábrica da CCPL, em Manguinhos, ela vive temporariamente na região da Embratel. Enquanto aguarda uma nova moradia, recebe o aluguel social.
Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com


Meus senhores e senhoras
Desculpem assim me expressar
Pois não tenho cultura
Não sei como falar
Estou contando o meu drama
Para me desabafar
Fui uma criança pobre
Sem carinho de meus pais
E bolando pelo mundo
Meu sofre já é demais
Agora estou aqui
Em uma favela morando
Em pobreza profunda
Cada vez vai piorando
Não tenho emprego fixo
Pro meu futuro “melhorá”
Muitas vezes fico pensando
Começo logo a chorar
A criança pede o sapato
A outra pede também
E eu fico como louca
Só Deus sabe e
Mais ninguém…

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