24 de mai. de 2013

O boné amarelo

Autora: Suelene Barroso
Atualmente cursa Biblioteconomia pela UFCE e Letras pela UECE. Aos 17 ingressou no curso de Filosofia pela UECE, o qual cursou apenas dois anos, o suficiente para amadurecer uma mente recém-saída da escola e do colo protetor da mãe. Com a carga recebida diariamente, tanto em casa como nas Universidades e nos bares, tem o auxílio das palavras para aliviar a rotina dessa vida incoerente e traduzir  inspirações do difícil, porém encantador, convívio social.
www.contradizeres.blogspot.com 

Publicado na antologia Singular – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com


          Tirou o boné e olhou as nuvens que cobriam o sol naquele instante. Pode sentir o vento penetrar nos cabelos e acariciá-los num gesto de ternura matinal. Pedro olhou para o chão e viu o calor que lhe invadia os calçados, mesmo assim caminhou devagar; queria perceber os detalhes do caminho que percorria todos os dias até à escola. Nunca reparava. Mas hoje… Hoje ele queria ver cada pedacinho de terra que seus sapatos gastos pisavam toda manhã. – Amarelo! Do jeito que você gosta, filho. Agora o pai vai viajar, mas volta logo. Loguinho! Dentro de um mês tô de volta e aí a gente vai praquela praia que você quer tanto ir com o Luquinhas. Cuida bem da mãe, viu? – saiu pela porta deixando-a entreaberta e sumiu pela estrada. E ele adorou aquele boné. Amarelo! Era realmente a cor preferida. E seu pai sabia disto. Mas já haviam se passado dois meses além do prazo dado e nenhuma notícia do seu Elias. Pedro não queria pensar no que podia ter acontecido. Algum contratempo talvez?! Talvez. Não queria pensar.

          Parou diante de um cacto seco que invadia parte da ruazinha de terra, havia uma flor. Mirou aquela flor e reparou no quanto era bonita, pensou em arrancá-la e tirá-la daquele vazio cacto que a sustentava. Pois a flor era bonita, o cacto, deserto. No entanto, Pedro percebeu que faziam parte um do outro; o deserto era belo por causa daquela flor e ela precisava manter em sua vã beleza um vazio que a equilibrasse. Pedro olhou mais uma vez a flor, o cacto e continuou a caminhar sozinho.
          O tempo parecia correr entre os grãos de areia que batiam em sua face. O sol, agora iluminando com temor, talvez por não querer perder o seu lugar na aurora e no crepúsculo, queimava o rosto moreno de Pedro e esquentava o caminho que parecia sem fim. Sem medo, pois Pedro era menino de coragem, como o pai sempre dizia, olhou para o sol como se o enfrentasse. Ficaram por alguns instantes encarando um ao outro. Com a visão meio embaçada, Pedro olhou para trás como se esperasse por alguém, mas viu apenas  uma imensidão vertiginosa. Olhou para o boné pendurado na mochila, agora mais amarelo como se o sol refletisse nele, e o pegou. Analisou as linhas que o mantinham inteiro, algumas brancas, outras pretas. Voltou-se para o caminho de terra seca que ainda teria que percorrer até à escola, colocou o boné para se proteger e continuou, sozinho.

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22 de mai. de 2013

Ecos d’África

Desceu o estreito caminho de acesso à casa de D. Maria e veio andar na estrada, em frente à venda do Grandela, olhando a paisagem e causando grande admiração aos passantes. Os menos discretos chegavam a olhar para trás - nunca tinham visto uma pessoa assim! Muito menos eu, que não tirava os olhos dela.
Nem mulher nem menina, negra, num vestido muito branco, ainda mais branco pelo contraste com sua pele; cabelos ao natural, enroladinhos, curtinhos; brincos de argola nas orelhas, lábios grossos e os olhos como dois luzeiros na escuridão. Parecia não dar importância ao espanto das pessoas.
Aos meus olhos de menino era uma imagem maravilhosa, comparável àquelas personagens das estórias ao pé do lume – uma princesa negra!
A rapariga viera de Angola, acompanhando a filha, genro e netos de D. Maria do Porto, imigrados lá e de visita à terra natal. A princesa era a criada da família.


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18 de mai. de 2013

O pirulito

Autor: João Antonio Ventura

Publicado na antologia SINGULAR - O país dos invisíveis, coordenada por Adriana  Kairos, da ALEPA - A Literatura dos Espaços Populares Agora
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Umas vão, outras voltam; umas entram, outras saem. Algumas param e olham, depois seguem no mesmo ritmo frenético do formigueiro. A maioria delas carrega algo, um embrulho, pacote ou sacola. Formigueiro de gente. Aqui, uma fanfarra toca marchinhas carnavalescas à porta de uma loja; ali, um locutor anuncia pechinchas imperdíveis, enquanto mãos nervosas vasculham a bancada à procura das melhores peças. Barulho, confusão, cotoveladas e esbarrões, com pedidos apressados de desculpas - que todos são civilizados, caramba!
Formigueiro de gente, sem a ordem e a disciplina das formigas.
Estamos em Madureira, maior centro comercial da zona norte, reduto tradicional do samba e ponto de convergência e passagem para todos os lugares suburbanos. E nos horários de pico, um verdadeiro nó-cego no trânsito.
É sábado, poucos dias antes do carnaval. Nesta época (e também antes do Natal) o cuidado deve ser redobrado. Cuidado, senhora! Tem malandro na sua cola. É... Esse que dissimula, fingindo olhar a vitrine... Cuidado, senhorinha! Ah, melhor assim: bolsa fechada e apertadinha contra o sovaco.
D. Ruth já está advertida, por experiência própria, dos riscos que corre o consumidor incauto nestes dias tumultuosos do bairro. Por isso mesmo, quando vem a Madureira, nem bolsa traz; os documentos e o dinheiro guarda-os no sutiã ou no cós da calcinha. E já está de volta, depois de quitar o carnê da Leader, e o da Riachuelo, e o da Renner, e o da...
Bem, voltemos ao destino de D. Ruth. Já no ponto de ônibus, a mulher topa com três adolescentes modestamente vestidas, uma delas com um bebê ao colo.
- Moça, ajuda nóis, não temos nada de comer em casa.
Perplexa por alguns momentos, incomodada, não com a cena ou o pedido, que já não lhe causam qualquer espanto ou dor, mas porque está sem dinheiro, - tem apenas o do ônibus -, D. Ruth pensa numa desculpa...
Espere aí, D. Ruth... E aquele troco, aquelas moedinhas no sutiã...
- É mesmo, tenho aqui umas moedinhas. Esperem aí, meninas.
E D. Ruth compra num camelô próximo, um saquinho de balas e um pirulito.
- Olha o que a titia trouxe pro neném, olha, diz D. Ruth, balançando o pirulito aos olhos atentos do bebê, que estende ligeiro a mãozinha e o agarra, levando-o à boca e sugando-o com sofreguidão, apesar do invólucro da guloseima.
- Deixa a titia tirar o papelzinho, deixa, diz D. Ruth, tentando desembalar o pirulito. Mas a mãozinha do bebê o segura como se fosse uma possante tenaz, e o pirulito a sua tábua de salvação. E só com muito jeito a mãe da criança consegue retirar o invólucro. Então o bebê suga com prazer e seus olhos brilham! D. Ruth pergunta à mãe adolescente:
- Essa criança está com muita fome. Você não lhe dá o peito?
- Peito? Não tenho leite, estou seca... e o leite Ninho acabou.
- E o pai, não ajuda?
- O pai... mataram o pai dele...
D. Ruth emudece, acaricia a face magra do bebê, entrega o saquinho de balas às meninas, - que logo ocupam suas bocas -, e se afasta, de olho em seu ônibus que vem chegando. Sentada num banco do coletivo, olhar vago e pensativa, D. Ruth não sabe dizer o que sente - um certo desconforto moral, uma opressão no peito, uma angústia indefinida que mareja seus olhos... D. Ruth não sabe dizer, mas sente. Lá fora um molecote atravessa a rua correndo perigosamente entre os veículos. Alguém grita:
- Pega ladrão! Pega ladrão! Levou a minha bolsa, aquele lá ó...
Ahhh, senhorinha... bem que o narrador lhe avisou.

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16 de mai. de 2013

A história do batizado

Guiados por minha tia Maria e o Galrão na rabiça (1), os bois forcejavam à charrua (2), que ia desnudando a terra em sulcos profundos de ponta a ponta da leira; depois voltavam rasgando outro sulco, e repetiam essa lida num vai-vém vagaroso mas consistente, até que terminassem toda a lavra. As beiras, onde a charrua não alcançava, amanhavam-se à enxada, por minha mãe e por quem mais se dispusesse. Uma aragem fresca começava a soprar, aliviando gentes e animais. Mas ainda faltava a gradagem, procedimento de destorroamento e uniformização do lavrado, feita com uma pesada grade de madeira com dentes de ferro. O Galrão desatrelou os bois e levou-os à sombra das oliveiras. Chegava a merenda.
Sentamos todos no chão, ao redor do prato de rijões (3) e broa de milho postos sobre uma toalha. O ti’Galrão, marido da tia Maria, viera, como sempre, lavrar as nossas terras do Mortal, pois tinha bois e arado, preparando-as para a semeadura. Comíamos em silêncio (é feio falar com a boca cheia). O ti’Galrão, após engolir um naco de carne , falou:
— Ó cunhado, sabes aquele batizado que eu fui, o do menino que ia chamar-se Andúbio?
— Pois...
— Foi um grande sarilho (4) o batizado do menino: o padrinho queria dar-lhe por nome Andúbio, mas o pai queria porque queria Andubinho. O padre ficou a esperar uma decisão e os dois a discutir em frente à pia batismal e na presença dos convidados, se o menino seria Andúbio ou Andubinho...
Meu pai parou de comer, aparentemente interessado naquela trapalhada que o Galrão contava e, esboçando um ligeiro sorriso, perguntou:
— E a mãe da criança, que dizia?
— Nada, coitadinha! Estava envergonhada com os dois a discutir. Para ela tanto fazia, se Andúbio ou Andubinho.
— E afinal, que nome recebeu o menino? – perguntou papai.
— Andubinho. O pai do menino não deixou por menos: An-du-bi-nho!
— Pois seja – disse papai, passando um garrafão de cinco litros ao meu tio.
— Ora, viva! – exclamou o ti’ Galrão satisfeito, sorvendo em seguida uns goles de vinho diretamente do gargalo, como era o hábito em situações de improviso como aquela.
Só então compreendi a história do batizado.
Ouvi essa história outras vezes. Era uma brincadeira geralmente feita por convidados de um jantar ou ceia, para alertar o anfitrião quanto à oportunidade de começar a servir o vinho (“Anda o vinho!”). Longe de desconhecer o momento oportuno, o anfitrião até participava da pilhéria, como se fora um ritual preparatório à degustação.
(1) rabiça – braço do arado, empunhado pelo lavrador.
(2) charrua – tipo de arado.
(3) rijões – fritos de carne de porco.
(4) sarilho – complicação, confusão.

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