1 de jun. de 2013

A revolta da palmatória


Outono, início do ano letivo. Em virtude da adoção do regime misto, eu e outros tantos meninos fomos transferidos para a escola velha, na qual já estudavam as minhas irmãs Silvina e Rosa. Apresentei-me com os demais no período da tarde, após o jantar. Nós tínhamos uma hora e meia para a refeição, das 11:30 às 13, e, malgrado a distância entre nossa casa e a escola, ainda nos sobrava um tempinho para brincar no pátio. Antes de entrar na sala de aula eu já sabia da novidade: a palmatória sumira e a nova professora queria o instrumento de volta! Não se falava noutra coisa, mas eu e o Quim fomos brincar de rapa-tudo sobre o largo muro de arrimo que envolvia a escola pela lateral esquerda e aos fundos. A brincadeira consistia em rolar um dado e ganhar, ou perder, pontas de lápis de ardósia, com os quais praticávamos as quatro operações sobre pequenas lousas individuais do mesmo material. O dado, feito por nós mesmos (todo menino tinha um no bolso), não era cúbico, mas da forma de um paralelepípedo. Em suas faces principais lia-se: RAPA TUDO, PÕE 1, TIRA 1, PÕE 2. Todo jogo tem por natureza prender os jogadores envolvidos na disputa, de modo que deixamos entrar em aula toda a criançada e seguimos por último, já com algum atraso. Talvez por isso a professora nos incumbiu de resgatar a palmatória. Não só, mas também porque o Quim morava no Vale da Sapa, onde fora parar a palmatória, segundo apuração da mestra.
A palmatória sumira no final do período letivo anterior, quando já se sabia da substituição da professora. Ótima oportunidade para dar sumiço àquele instrumento abominável! Por idéia própria ou coletiva, uma aluna do último ano levara a dita para sua casa, talvez encorajada pelo fato de não retornar no período seguinte. As meninas exultaram – estavam livres daquele terror! A nova professora, contudo, não engoliu o fato consumado, inquiriu as meninas e soube da estória.
E lá fomos nós, eu e o Quim, à casa da garota que escondia a palmatória, devolvida sem dificuldades. De nada adiantara o seu feito. Tudo voltaria a ser como antes (E não é assim com a maioria das revoltas?).
No regresso resolvemos, espertinhos que éramos, retardar a chegada e assim ganharmos a tarde a vadiar: encurtamos o passo, paramos, colhemos morangos, bebemos água fresca e deitamos na relva a olhar os desenhos que as nuvens formavam no céu. Aquilo é que era vida! Por fim, molhamos o rosto para fingir suor e voltamos à escola ao final da tarde. Por certo a professora acreditaria em nossa simulação, já que nada sabia das lonjuras daquele lugar onde viera lecionar. Entregamos a palmatória à professora, que assim ficou devidamente aparelhada para exercer sua função pedagógica. Isto feito, sentamos numa carteira esperando o término da aula. Mas, pelo visto, a professora também era espertinha e não acreditou no suor dos nossos rostos, prolongando a aula o quanto pode. Nunca saímos tão tarde da escola!

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24 de mai. de 2013

O boné amarelo

Autora: Suelene Barroso
Atualmente cursa Biblioteconomia pela UFCE e Letras pela UECE. Aos 17 ingressou no curso de Filosofia pela UECE, o qual cursou apenas dois anos, o suficiente para amadurecer uma mente recém-saída da escola e do colo protetor da mãe. Com a carga recebida diariamente, tanto em casa como nas Universidades e nos bares, tem o auxílio das palavras para aliviar a rotina dessa vida incoerente e traduzir  inspirações do difícil, porém encantador, convívio social.
www.contradizeres.blogspot.com 

Publicado na antologia Singular – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com


          Tirou o boné e olhou as nuvens que cobriam o sol naquele instante. Pode sentir o vento penetrar nos cabelos e acariciá-los num gesto de ternura matinal. Pedro olhou para o chão e viu o calor que lhe invadia os calçados, mesmo assim caminhou devagar; queria perceber os detalhes do caminho que percorria todos os dias até à escola. Nunca reparava. Mas hoje… Hoje ele queria ver cada pedacinho de terra que seus sapatos gastos pisavam toda manhã. – Amarelo! Do jeito que você gosta, filho. Agora o pai vai viajar, mas volta logo. Loguinho! Dentro de um mês tô de volta e aí a gente vai praquela praia que você quer tanto ir com o Luquinhas. Cuida bem da mãe, viu? – saiu pela porta deixando-a entreaberta e sumiu pela estrada. E ele adorou aquele boné. Amarelo! Era realmente a cor preferida. E seu pai sabia disto. Mas já haviam se passado dois meses além do prazo dado e nenhuma notícia do seu Elias. Pedro não queria pensar no que podia ter acontecido. Algum contratempo talvez?! Talvez. Não queria pensar.

          Parou diante de um cacto seco que invadia parte da ruazinha de terra, havia uma flor. Mirou aquela flor e reparou no quanto era bonita, pensou em arrancá-la e tirá-la daquele vazio cacto que a sustentava. Pois a flor era bonita, o cacto, deserto. No entanto, Pedro percebeu que faziam parte um do outro; o deserto era belo por causa daquela flor e ela precisava manter em sua vã beleza um vazio que a equilibrasse. Pedro olhou mais uma vez a flor, o cacto e continuou a caminhar sozinho.
          O tempo parecia correr entre os grãos de areia que batiam em sua face. O sol, agora iluminando com temor, talvez por não querer perder o seu lugar na aurora e no crepúsculo, queimava o rosto moreno de Pedro e esquentava o caminho que parecia sem fim. Sem medo, pois Pedro era menino de coragem, como o pai sempre dizia, olhou para o sol como se o enfrentasse. Ficaram por alguns instantes encarando um ao outro. Com a visão meio embaçada, Pedro olhou para trás como se esperasse por alguém, mas viu apenas  uma imensidão vertiginosa. Olhou para o boné pendurado na mochila, agora mais amarelo como se o sol refletisse nele, e o pegou. Analisou as linhas que o mantinham inteiro, algumas brancas, outras pretas. Voltou-se para o caminho de terra seca que ainda teria que percorrer até à escola, colocou o boné para se proteger e continuou, sozinho.

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22 de mai. de 2013

Ecos d’África

Desceu o estreito caminho de acesso à casa de D. Maria e veio andar na estrada, em frente à venda do Grandela, olhando a paisagem e causando grande admiração aos passantes. Os menos discretos chegavam a olhar para trás - nunca tinham visto uma pessoa assim! Muito menos eu, que não tirava os olhos dela.
Nem mulher nem menina, negra, num vestido muito branco, ainda mais branco pelo contraste com sua pele; cabelos ao natural, enroladinhos, curtinhos; brincos de argola nas orelhas, lábios grossos e os olhos como dois luzeiros na escuridão. Parecia não dar importância ao espanto das pessoas.
Aos meus olhos de menino era uma imagem maravilhosa, comparável àquelas personagens das estórias ao pé do lume – uma princesa negra!
A rapariga viera de Angola, acompanhando a filha, genro e netos de D. Maria do Porto, imigrados lá e de visita à terra natal. A princesa era a criada da família.


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18 de mai. de 2013

O pirulito

Autor: João Antonio Ventura

Publicado na antologia SINGULAR - O país dos invisíveis, coordenada por Adriana  Kairos, da ALEPA - A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com


Umas vão, outras voltam; umas entram, outras saem. Algumas param e olham, depois seguem no mesmo ritmo frenético do formigueiro. A maioria delas carrega algo, um embrulho, pacote ou sacola. Formigueiro de gente. Aqui, uma fanfarra toca marchinhas carnavalescas à porta de uma loja; ali, um locutor anuncia pechinchas imperdíveis, enquanto mãos nervosas vasculham a bancada à procura das melhores peças. Barulho, confusão, cotoveladas e esbarrões, com pedidos apressados de desculpas - que todos são civilizados, caramba!
Formigueiro de gente, sem a ordem e a disciplina das formigas.
Estamos em Madureira, maior centro comercial da zona norte, reduto tradicional do samba e ponto de convergência e passagem para todos os lugares suburbanos. E nos horários de pico, um verdadeiro nó-cego no trânsito.
É sábado, poucos dias antes do carnaval. Nesta época (e também antes do Natal) o cuidado deve ser redobrado. Cuidado, senhora! Tem malandro na sua cola. É... Esse que dissimula, fingindo olhar a vitrine... Cuidado, senhorinha! Ah, melhor assim: bolsa fechada e apertadinha contra o sovaco.
D. Ruth já está advertida, por experiência própria, dos riscos que corre o consumidor incauto nestes dias tumultuosos do bairro. Por isso mesmo, quando vem a Madureira, nem bolsa traz; os documentos e o dinheiro guarda-os no sutiã ou no cós da calcinha. E já está de volta, depois de quitar o carnê da Leader, e o da Riachuelo, e o da Renner, e o da...
Bem, voltemos ao destino de D. Ruth. Já no ponto de ônibus, a mulher topa com três adolescentes modestamente vestidas, uma delas com um bebê ao colo.
- Moça, ajuda nóis, não temos nada de comer em casa.
Perplexa por alguns momentos, incomodada, não com a cena ou o pedido, que já não lhe causam qualquer espanto ou dor, mas porque está sem dinheiro, - tem apenas o do ônibus -, D. Ruth pensa numa desculpa...
Espere aí, D. Ruth... E aquele troco, aquelas moedinhas no sutiã...
- É mesmo, tenho aqui umas moedinhas. Esperem aí, meninas.
E D. Ruth compra num camelô próximo, um saquinho de balas e um pirulito.
- Olha o que a titia trouxe pro neném, olha, diz D. Ruth, balançando o pirulito aos olhos atentos do bebê, que estende ligeiro a mãozinha e o agarra, levando-o à boca e sugando-o com sofreguidão, apesar do invólucro da guloseima.
- Deixa a titia tirar o papelzinho, deixa, diz D. Ruth, tentando desembalar o pirulito. Mas a mãozinha do bebê o segura como se fosse uma possante tenaz, e o pirulito a sua tábua de salvação. E só com muito jeito a mãe da criança consegue retirar o invólucro. Então o bebê suga com prazer e seus olhos brilham! D. Ruth pergunta à mãe adolescente:
- Essa criança está com muita fome. Você não lhe dá o peito?
- Peito? Não tenho leite, estou seca... e o leite Ninho acabou.
- E o pai, não ajuda?
- O pai... mataram o pai dele...
D. Ruth emudece, acaricia a face magra do bebê, entrega o saquinho de balas às meninas, - que logo ocupam suas bocas -, e se afasta, de olho em seu ônibus que vem chegando. Sentada num banco do coletivo, olhar vago e pensativa, D. Ruth não sabe dizer o que sente - um certo desconforto moral, uma opressão no peito, uma angústia indefinida que mareja seus olhos... D. Ruth não sabe dizer, mas sente. Lá fora um molecote atravessa a rua correndo perigosamente entre os veículos. Alguém grita:
- Pega ladrão! Pega ladrão! Levou a minha bolsa, aquele lá ó...
Ahhh, senhorinha... bem que o narrador lhe avisou.

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