17 de nov. de 2013

Um domingo feliz

No último domingo (10/11) visitei a minha irmã caçula, a Nei. Almoçamos filé de Congro ao molho de camarão, muito bem preparado pelo “chef” Bill dos Santos, meu cunhado. Presentes também D. Morena, mãe do chef, e minha sobrinha Flávia, a diagramadora de “Cacos da memória” e agora de “Galo, galinha e pinto e outras histórias”, meu livrinho infantil em gestação.
Uma das finalidades da visita era justamente levar à minha sobrinha as ilustrações do livro e conversar sobre detalhes do trabalho a ser feito.
Mas como, senhor Vô Tônico? Neste mundo tecnológico o senhor ainda realiza trabalhos de estafeta, entregando pessoalmente o que pode ser entregue virtualmente?
Confesso que sou um tanto defasado, mas garanto a vocês que nada pode substituir o contato direto entre pessoas, nem a internet poderia proporcionar-me o domingo que tive. É claro que o texto do livro já havia seguido por e-mail, procedimento que não foi possível com as ilustrações, pois anda meio desarranjada a função scanner da minha impressora. A solução foi ir pessoalmente. E foi muito bom. O almoço e o que veio depois.
À tardinha fomos bater perna e tomar um café no Shopping Carioca, ali pertinho.

Malabares e pernas-de-pau
Fanfarra e bicicleta-de-uma-roda-só










Havia festa no Shopping. Uma trupe de saltimbancos fantasiados de duendes percorria os corredores anunciando a próxima chegada de Papai Noel. Malabares, bicicleta-de-uma-roda-só, pernas-de-pau ou andolas, como se dizia na minha infância. E uma fanfarra de palhaços-duendes, uma bandinha semelhante àquelas dos pequenos circos da minha adolescência. Crianças, adultos e velhos seguiam a trupe. E enchi-me de lembranças e marejaram-se-me os olhos. Do fundo da minha memória vieram os circos, os palhaços, os mágicos e a menininha que andava na corda bamba, da qual comprei um retratinho que não guardei. E mais do fundo vieram o arraial da Senhora do Socorro e o Zé Pereira com sua música simples, gaita-de-fole e bumbo, ele e sua mulher. Música que encantava a minha alma de menino e me arrastou pelo arraial até que me descobrisse perdido! Música que não estava ali, no Shopping, mas em mim.


D. Morena em primeiro plano
Minha careca
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
E novamente me descobri menino, seguindo aquela fanfarra, aquela gente, aquela alegria…
Porém desta vez não me perdi. O shopping não é tão grande que possa perder alguém, e a minha irmã Nei me vigiava, ciente do que se passava comigo. Rimos muito nós dois, cúmplices no mesmo sentimento nostálgico e pueril.
Ah! como estou ficando boboca!
Mas como foi bom!

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1 de ago. de 2013

Minas de Jussara



Minas de mim
Autora: Jussara Neves Rezende

“Doutora em literatura por amor aos livros mesmo antes de saber ler; pesquisadora para ir além da escrita e escritora para reinventar a vida”.




Minas de mim

Me desço e me subo
ladeira que eu sou,
me dispo, me busco,
mineira – eu vou.





Descubro histórias
de minas de mim.
Minérios,  explosivos
segredos me fazem assim.





De altos e baixos,
de sim e de não,
sou toda relevos
e casarões.


Jussara é uma das coisas boas que me aconteceram na Internet. Não fui eu quem a descobriu, mas ela é que descobriu a mim: um dia (07/01/2013) acessei o Vô Tônico e lá estava a carinha dela no Google Friend Connect e comentários na minha crônica “O início da idade da razão”. Daí em diante passamos a nos visitar virtualmente, eu no seu maravilhoso blog, o “Minas de mim”, trocamos livros e alguns e-mails. Sem que eu pedisse ou sequer insinuasse, Jussara produziu uma resenha do meu “Cacos da memória” que me deixou de queixo caído*.
Além da poesia, descobri em seus versos uma pessoa profundamente humana e sensível. Agora ofereço a vocês uma pequena amostra do talento poético de Jussara, nestes três poemas, ou "minas", publicados no seu livro “Minas de mim”. Encantem-se como eu me encantei.


Romantismo

Para os românticos, se a dor era tanta,
viravam lágrimas estrelas do céu,
bosques gemiam nas noites de lua,
cascatas e soluços sinônimos eram.

Para mim, que não sou romântica,
tudo tem sua exata dimensão:
cascatas, bosques e estrelas
não são senão o que são.

Por isso, se a dor minha é muita,
mergulho fundo no fundo de mim:
não há paisagem que melhor entenda
as mágoas dos sonhos que me fizeram assim.

E assim vou levando a minha dor,
romântica, sem dúvida, a seu modo.
Pobre dor romântica que não encontra
nem uma estrela disposta a chorar!…


Perdidos dias

Desmaiam os dias, malbaratados
que são por destroçados gestos,
por palavras vacilantes, abissais,
insuficientes como a própria vida.

Inexoràvel é o tempo que os consome
pondo rachaduras nas paredes,
nas faces e nos corações dos homens,
dissipando qualquer esperança.

Nada deixam se não deixam ternura
e as horas inutilmente alongam-se
se é imensurável a solidão e o desalento.

Esta a grande insensatez do tempo:
dispersa os momentos mais felizes,
faz longos demais os que não se quer viver…


Veja aqui mais minas de Jussara


*http://minasdemim.blogspot.com.br/2013/05/cacos-da-memoria-de-joao-antonio.html

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24 de jun. de 2013

A Vênus de barro


 Viajava conosco e sob a responsabilidade de papai, um rapaz da aldeia por nome Manuel e apelido Neca. Na 3ª classe. Fomos visitá-lo. O camarote, coletivo, estava vazio; bisbilhotamos ao redor de seu beliche e descobrimos, sob o seu travesseiro, um objeto deveras estranho: uma estatueta de barro representando uma mulher nua. Imaginem... nua! Além disso, não tinha pernas - só coxas – e um dos braços decepado na altura do ombro! O outro braço sustentava uma bola na mão, ao nível do umbigo. Não tinha cabeça. Que coisa mais esquisita! E sob o travesseiro do Neca...
O rapaz confirmou: não era dele, alguém colocara aquela coisa sob o seu travesseiro. Com que intuito?
O alarme soou, não sei pela boca de quem: “Bruxedo! Só pode ser bruxedo!”. Sim, bruxaria, coisa feita contra o coitado do Neca...
Assim entendidos e no pressuposto de resguardar o amigo Neca, pegamos aquela coisa, fomos todos ao convés e a lançamos ao mar. Assim, nas profundezas, nenhum mal poderia causar.
Mais tarde queixou-se ao Neca, consternado, um companheiro de camarote:
- Desapareceu a minha Vênus, que eu mesmo fiz e levava com todo o cuidado para mostrar ao meu irmão, no Brasil. Guardei-a sob o meu travesseiro e sumiu. Quem poderia ter feito isso? Era uma obra de arte, tinha muito valor para mim, só para mim...
Ouvimos, mudos, as lamentações do infortunado artista...

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17 de jun. de 2013

Noutro Reino


Autor: Carlos Pais
Carlos Alberto Coutinho Pais nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 30 de janeiro de 1974.  Filho de Manuel Marques Pais e Teresa de Jesus da Costa Coutinho Pais, imigrantes portugueses. Ensino médio profissionalizante no CEFET-RJ, graduado em Engenharia de Telecomunicações e mestre em Engenharia de Produção pela UFF. Busca inspiração nos relacionamentos, na realidade cotidiana e na música. Apaixonado pela cultura.
Publicado na antologia SINGULAR – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com

          Em questões de tamanhos e números,
me liguei nas formas.
Dito rei, trono outrora,
destruí os castelos,
me embolei com embrulhos,
festejando enterros,
ruínas dos muros.

Ri para as pedras, em trilhas sumo.
Simbá provou êxtase,
João bebeu suco,
trovando violetas
sem rimas, nem rumos.

Levantei bandeiras, entre becos e vielas,
bocas e pernas, alcance despedida
morro acima, glamour na avenida
multidão multicor multiplica
os nós que não se encaixam, mas explicam.

Pedido: que vá, escorra
desgraça, não traga fumaça,
socorro.

São colares tirados da crua e viva teta
comédia, a tragédia, balança a rédea,
publica: esgotos e sangue,
poder, a política; mentira.

Num gol de cabeça, pensante, ativa
me disse: sabor de vitória;
tarefa cumprida.


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