Fui buscar Yasmin para mais um fim de semana em minha casa. Sua mãe fazia uma faxina nos cacarecos da casa e havia enchido um saco preto com livros destinados ao lixo. Por sugestão da pequena, fui garimpar no saco preto e salvei cerca de vinte livros, a maioria muito bons. Trouxe para casa uma sacola cheia; assim tenho livros para doar nos saraus que por vezes frequento.
Um desses livros reservei para mim: “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Apesar de ter referências da obra e do autor , jamais tinha lido qualquer coisa do José Lins (que vergonha!). O meu interesse por “Menino de Engenho” cresceu a partir do momento que a minha amiga virtual Jussara Neves Rezende, ao resenhar o meu “Cacos da memória”, disse que este é do mesmo gênero daquele. Fiquei curiosíssimo e agora apresentava-se a oportunidade de conhecer a obra que poderia ter sido inspiração para mim.
Li e reli “Menino de Engenho”. A primeira vez sofregamente, a segunda com mais vagar e melhor apreciação.
É impressionante a similaridade dos dois livros, resguardadas as devidas proporções e diferenças culturais. O de Lins apresenta uma realidade dramática, até mesmo cruel, nas relações da produção açucareira no interior da Paraíba; no meu, apesar das muitas dificuldades, a realidade não é tão dura, eu diria mesmo amena, em relação ao romance de Lins.
Mas o que realmente me impressionou – e aí reside a similaridade – foi o universo das crianças no engenho Santa Rosa. Lendo o livro, pensei com os meus botões: as crianças são mesmo muito parecidas, qualquer que seja o espaço e o tempo – só mudam de nome e endereço! O mesmo encantamento por ouvir histórias da tradição oral, na Paraíba histórias de Trancoso; a mesma curiosidade por máquinas e ofícios (os meninos); a mesma atração por conversas de adultos, no sentido de conhecer/descobrir o mundo. Até algumas brincadeiras e traquinagens são as mesmas, na essência, variando apenas nos aspectos culturais.
Escrevi “Cacos da memória” na intuição, sem qualquer plano ou modelo a seguir: desejava escrever meia dúzia de histórias da minha infância, por sugestão e incentivo de meus sobrinhos, e acabei escrevendo um livro. A minha inspiração, posso dizer, foi a “Menina do guarda-chuva”, garota anônima que vi passar numa rua da cidade de Cunha – SP. Menina cuja história abre o meu livro e que, juntamente com a “Nota do autor”, funciona como prefácio.




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