3 de abr. de 2014

O misterioso entregador de revistas


Pensava que tinha lido Vidas secas, de Graciliano Ramos; engano da minha memória; o que eu li, na minha juventude, foi Seara vermelha, de Jorge Amado, sobre o mesmo tema da seca nordestina. E vi, na mesma época, o filme de Nelson Pereira dos Santos sobre a obra do Graciliano. Mas do enredo e dos personagens pouco lembrava, só não esqueci da cachorrinha Baleia.
Estava pois a ler Vidas secas na manhã do último domingo, sentado no sofá da varanda, quando Rita, – que saía para a missa – , voltou e entregou-me a revista: “Olha aqui, entregaram hoje”. Concentradíssimo como estava na leitura, peguei a revista e olhei a capa: nenhuma imagem ou forma bem definida ou impactante; apenas tons de azul, esmaecidos e imprecisos, puxados ao branco, nada que me chamasse a atenção de imediato. O melhor é que eu não precisaria telefonar para a editora reclamando dos desacertos do entregador nas últimas semanas. Agora me entregava a revista adiantado, pois que geralmente é entregue às segundas ou terças. Pousei a revista no sofá e retomei a leitura do  Graciliano, que só terminei por volta do meio-dia.



Esclarecendo o leitor: já notara a falta da revista durante as semanas anteriores, até que uma vizinha entregou-nos dois exemplares, dizendo que um terceiro se estragara com a chuva, e que o entregador as entregara por engano em sua casa. Verifiquei a etiqueta de endereçamento; o meu endereço estava correto, o entregador é que era um trapalhão (ou míope).
Depois do almoço fui tirar a sesta. Quando acordei, lembrei-me da revista e decidi terminar o dia lendo-a. Fui buscá-la ao sofá. Não a encontrei. Rodei a casa, nada. Fui ao quarto e perguntei à Rita ainda sonolenta: nada sabia da revista. Voltei ao sofá, já intrigado, procurei atrás, dos lados, embaixo. Nada! Esperei meus filhos descerem e perguntei-lhes; não pegaram a revista! Desisti de procurar a maldita revista.
Segunda-feira falei novamente a Rita sobre o caso; ela jamais me estregara revista alguma. Então eu sonhara, só pode! Mas em nenhum momento percebi ter sonhado, como é comum quando acordamos após um sonho. A impressão foi tão nitidamente real que sequer desconfiei da possibilidade de um sonho. Aquela revista, aquela capa de tons azuis esmaecidos, puxados ao branco…




Terça-feira entregaram-me a revista: estava na caixa de correio. Não a recebi de Rita, mas de Daniel, meu filho. E eu não estava no sofá lendo Vidas secas, mas na cozinha lavando a louça. E aquela revista agora em minhas mãos eu já conhecia, aquela capa em tons de azul esmaecido, puxados ao branco… Era uma reportagem sobre a escassez de água em São Paulo e outros lugares.
E agora o que me dizem, caríssimos, desse entregador de revistas? Não o de terça-feira, mas o de domingo?

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16 de mar. de 2014

Book Crossing Blogueiro


A partir do Luz de Luma, o blog da minha amiga virtual Luma Rosa, desço da estante o primeiro livro para fazê-lo viajar pelos caminhos do bookcrossing blogueiro. O meu primeiro viajante é o Dom Casmurro, de Machado de Assis, obra que gosto demais. Mas não ficarei órfão de Dom Casmurro: tenho outro exemplar. Para quem não conhece, o procedimento é muito simples: fazer o livro chegar a outros leitores, “esquecendo-o” em lugar público e de fácil acesso (ônibus, trem, por exemplo), com o aviso de que o livro não foi esquecido ou abandonado, mas que se destina à leitura de outras pessoas – que devem, por sua vez, “esquecê-lo” também nas mesmas condições, para mais leitores usufruírem dele. Mais esclarecimentos e informações sobre o Bookcrossing Blogueiro veja no Luz de Luma. Ela vai adorar sua visita.




Não fiz uma resenha do Dom Casmurro por ser a obra demasiado conhecida e também, confesso, por não ser fácil resenhar. Mas escrevi uma história de carnaval que envolve o livro de Machado com as folias momescas. Se me dão a honra, confiram.


1 - Viajante: Dom Casmurro, de Machado de Assis
         Início da viagem: 17/03/2014

2 - Viajante: O Melhor do Conto Brasileiro 1 de Aníbal Machado/Josué Montello/
                                                                          Rachel de Queiroz/Orígenes Lessa
         Início da viagem: 24/03/2014

3 - Viajante: Morte na Mesopotâmia, de Agatha Christie
        Início da viagem: 26/03/2014

4 - Viajante: Cacos da memória, de João Antonio Ventura
        Início da viagem: 03/04/2014

5 - Viajante: Movimentos culturais da juventude, de Antonio Carlos Brandão e
                                                                               Milton Fernandes Duarte
         Início da viagem: 12/04/2014

6 - Viajante: Dom Severo em 4 tempos, de Severino Honorato
        Início da viagem: 12/05/2014


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7 de mar. de 2014

Uma história de carnaval


Este ano não fui para Maricá, como de hábito, e resolvi reler um livro que gosto muito: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Desde a juventude, é a terceira ou quarta vez que o leio. Desta feita, por andar com veleidades de escritor neófito, li-o com atenção redobrada, cuidando das palavras desconhecidas ou pouco íntimas, dicionário ao lado; e do estilo do autor, de sua técnica narrativa, de como vai construindo a trama, à maneira de um delicado mosaico, peça a peça, sutileza a sutileza, deixando pistas aqui e ali, um argumento acolá, novos indícios e dúvidas mais além.
Trata-se do clássico e sempre recorrente triângulo amoroso: neste caso Bentinho, Capitu e Escobar. Mas é, antes de tudo, o romance da dúvida. Dúvida para o leitor, que ao fim não tem convicção formada: Capitu traiu ou não traiu? Depende do leitor; em verdade ninguém sabe, ninguém viu.
E que mulher, a Capitu! Ah! Bentinho, por que tinhas de ser tão casmurro? Tão melhor seria que fosses mais generoso e menos ciumento, e assim viverias o resto dos teus dias navegando num mar de delícias com a tua Capitu… Mas neste caso também não teríamos esta obra prima do bruxo do Cosme Velho…
…Perdão, leitores. Perdoem o meu envolvimento. Eu pretendia contar uma história de carnaval, se é que não me enganei no título. Pois vamos a ela, sem mais delongas.


Li pra mais da metade do livro na segunda-feira de carnaval. À noite recebi uma ligação da mãe de Yasmin, que voltou a morar com a pequena na vila militar do Galeão, convidando para um churrasco em sua casa, na terça. Fui. Numa sacola levei 1Kg de contra-filé e uma sobremesa preparada por Rita, que não quis ir. Para ler no ônibus, levei o Dom Casmurro. Antes não levasse…
Depois do churrasco que, para desgosto do meu estômago foi servido lá pelas tantas da tarde, fomos todos espairecer no Complexo Recreativo, onde nesses dias sempre rola alguma coisa. As mesas da varanda quase lotadas, crianças fantasiadas dentro do salão, brincando com serpentinas e confetes. Deliciosas marchinhas carnavalescas – dos carnavais antigos – é o que havia de festa momesca. Não que a família militar não seja animada  – já fui a grandes bailes de carnaval em clubes militares – mas há que ter quem os organize e o Complexo serve mais para comemoração de aniversários, batizados, natal e outras datas do tipo, em suma, para a distração, o divertimento e a prática de esportes no dia-a-dia dos moradores da vila.
Sem ânimo momesco nas veias - lembrem-se que estava lendo um livro -, dei uma espiada no salão e dirigi-me discretamente para a varanda dos fundos, onde também há um barzinho, no pressuposto que meus acompanhantes preferissem ficar na frente. Sentei-me e ataquei de Dom Casmurro.
Dentro em pouco estava rodeado por meus convivas e mais além três mesas se juntavam para acomodar uma família, esta sim, com espírito carnavalesco: os dois homens, um mais ou menos da minha idade e de cabelos brancos e o outro mais jovem, que mais tarde vim a saber tratar-se de seu genro, ambos fantasiados de mulher. O senhor de cabelos brancos eu já conhecia desde a matinê de domingo, quando estive no local acompanhado por Rita, Yasmin e seus familiares. Na ocasião, este senhor, enfiado no mesmo vestido e a cara borrada de maquiagem, sapecara-me um beijo no rosto com as graças típicas e caricatas da fantasia. Tudo se deu entre risos e galhofas.


Como os do meu grupo aparentemente não se incomodavam que estivesse lendo, continuei lendo. A certa altura o senhor/senhora de cabelos brancos, dirigindo-se ao banheiro masculino, parou ao meu lado e, com trejeitos afetados e voz de falsete feminil, convidava-me ao banheiro para ajudá-lo num “serviço”. Já meio sem jeito, mas ainda com ferpley, disse-lhe que não fazia serviços desse tipo; rimos e apertamo-nos as mãos. E foi risota geral.
Agora a trama estava chegando ao clímax, atenção redobrada na leitura, foco total na desventura dos dois amantes; eu não estava ali com os meus, estava com Bentinho e Capitu… Então veio o susto e a minha reação automática e incontrolável, como no estouro inesperado de um rojão: levantei-me quase de um pulo, abrindo  os braços e afastando com energia as duas “senhoras” importunas que tentavam beijar-me o rosto, uma de cada lado.
- Não! Não! Brincadeira tem limite, pô!
Não, creio que não disse palavrão, mas não estranharia se tivesse dito. Assustei-me com a surpresa do ataque das “senhoras” num momento de extremo envolvimento literário. Quase fervi de irritação por me terem tirado do enleio em que me achava. Desta vez não houve risos, mas caras espantadas.
Escusado dizer que dali em diante não havia clima para continuar lendo; terminei o livro na quarta–feira de cinzas.
Já calmo, passei na mesa das “senhoras”, expliquei-lhes a minha reação e pedi desculpas; também as recebi, efusivamente, com apertos de mãos e tapinhas nos ombros.
E o riso voltou. Era carnaval. Evoé, Baco!

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23 de fev. de 2014

Uma tragédia dentro da tragédia


Dos cerca de vinte livros que salvei do lixo, reservei mais um para mim: o Diário de Anne Frank. Pertenceu à mãe ou à avó de Yasmin, não sei bem; é leitura comum no segundo ciclo do 1º grau ou no 2º grau, creio.
Então por que separá-lo para mim, se já é leitura passada, apreendida e ruminada? Não para mim, caríssimos amigos. O meu ginásio e o meu 2º  grau foram substituídos pela Escola de Especialistas de Aeronáutica, uma escola técnica e militar, portanto o programa de Português não contemplava a literatura, nem tempo havia para leituras consideradas, digamos, supérfluas. Havia os regulamentos, os manuais técnicos e as normas-padrão de ação. Mas não pensem que estou surpreso com o achado. A história de Anne e sua família é bastante conhecida, uma tragédia particular dentre tantas outras no âmbito da grande tragédia que foi a 2ª guerra mundial e o holocausto nazista. Eu mesmo conhecia a história de há muito, só nunca havia lido o famoso diário. Li-o agora, com muitos anos de atraso. Nunca é tarde para se ler um livro.




E que menina excepcional! Acompanhei, pelo diário, o desenvolvimento pessoal dessa menina inteligente, sensível e talentosa durante os três anos de sua adolescência (dos 13 aos 15) em que ficou confinada com sua e mais outra família de amigos num esconderijo (o “anexo secreto”), tentando escapar da sanha genocida nazista. Acompanhei as dificuldades do confinamento, os medos e as angústias, as alegrias e tristezas. E o desabrochar de seu caráter reto e firme, de seu espírito crítico, que não poupava nem a si mesma, de sua fé inabalável e de sua esperança sempre renovada. E de sua imensa vontade de viver, de seu amor à vida.
Apenas Otto Frank, o pai de Anne, sobreviveu ao horror da guerra.
Anne Frank queria ser jornalista e escritora. Escritora ela já era…
Que tesouro se perdeu!

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