9 de jul. de 2014

Janela da memória


Acordei hoje com uma sensação esquisita, uma aflição, uma apertura no peito que não sei descrever em palavras, mas passa por um ligeiro sentimento de perda. Sofri este sentimento apenas uma vez na vida, quando me descobri só, afastado de mulher e filhos, separado, desprovido – formalmente embora - do projeto e sonho acalentado anos a fio.
A diferença é que naquela oportunidade não foi “um ligeiro sentimento”, mas forte, renitente e prolongado. Doía ao acordar, doía ao longo das horas quando, entre os afazeres, abria-se uma brecha ou janela, na qual vinha a memória debruçar-se a me afligir. E ao recolher-me à solidão do Hotel de Trânsito da BAGL, mais forte doía a dor. Fugia dela. Pensava em outras coisas, mas cada coisa pensada também doía. Então fechava os olhos e imaginava algo imaterial, um ponto, um foco de luz brilhante, e me concentrava nele de modo que coisa alguma ou pensamento pudesse penetrar-me a mente. Funcionava enquanto persistia o esforço de concentração.




E para fechar portas e janelas a impertinências doloridas, também tentei fazer versos. Fiz dois ou três poemas sofríveis, recheados de ressentimento e despeito, dos quais não me orgulharia se os tivesse para mostrar: perderam-se nos caminhos da vida. Melhor assim. Talvez só um fosse digno de salvação: o que fiz para minha ex-mulher àquela época, amoroso e delicado, mas do qual minha memória não guardou um único verso (Ah! memória descuidada!).
E assim foram dias e dias, e semanas, até que a vida se encarregou  em desvanecer a dor e aliviar o meu peito. E a vida seguia.
Desculpem, caríssimos! Eu pretendia falar sobre o jogo Brasil x Alemanha, ontem, no Mineirão, mas os meus sentimentos desviaram o assunto e abriram uma janela pela qual me desvendo um pouco para vocês. Às vezes o discurso assume a pena, ou os dedos... De maneira que, trocado o assunto, troquei também o título, que seria “O mineiraço”. Voltarei ao assunto, aguardem.

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20 de jun. de 2014

Inexorável tempo!



"Nestes jardins - há vinte anos - andaram nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos."


Foto: Mário Martins



Foto: Mário Martins





(E não foram vinte anos, mas cinquenta e sete!)


 "E se alguém de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso."







"E Assim nos separamos, suspirando dias futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos."









"E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo."












Vejam aqui análise literária do poema "O tempo no jardim", por Jussara Neves Rezende

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16 de jun. de 2014

Perdão, poeta!



Meus queridos, cometi um equívoco de autoria no post “Às voltas com o bruxo”; e para me redimir com Vinícius de Moraes, que está lá nas estrelas vigiando a minha ignorância, publico o seu “Poema enjoadinho”, de cujos 4 primeiros versos cometi uma paródia.





Poema enjoadinho

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


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25 de mai. de 2014

Às voltas com o bruxo

Dia desses fui ao Centro  e passei pela Cinelândia, onde pretendia lanchar antes de tomar o Metrô de volta a casa. Deparei-me com a feira de livros que volta e meia estaciona por lá, e circulei entre as tendas à procura de algum alimento para o espírito que me não fosse indigesto ao bolso. Interessei-me por dois títulos de crítica literária sobre a obra de Machado de Assis. Eliminei um, para não eliminar o lanche. Ao sentar-me no bar Amarelinho, já lia “Tempo e Metáfora em Machado de Assis”, de Dirce Cortes Riedel – professora emérita da UERJ (já falecida).
É a primeira vez que leio um livro de crítica literária; e isto é mais uma peça – involuntária e póstuma – do bruxo do Cosme Velho!




Não vou mentir e dizer-lhes que entendi tudo perfeitamente, que agora sou um expert em Machado. Para ter “fumos” de expert, teria de ler mais, muito mais, nem o resto de vida me daria tempo.
Mas, em que pese a linguagem técnica e acadêmica a que não estou afeiçoado,  as muitas referências filosóficas e  de outros críticos que evidentemente não conheço, a autora abriu-me os olhos para novas leituras e releituras do autor. Tanto que estou determinado a reler algumas obras, sob novo olhar, especialmente Quincas Borba, que li apenas uma vez e há muito tempo, e de igual modo o Memorial de Aires. Sem embargo de outras obras da primeira fase do autor, e uma infinidade de contos que não conheço. Vagar eu tenho, haja olhos!
Resumindo, caríssimos; lendo um livro, se há boa vontade e alguns neurônios, sempre se aprende alguma coisa. O principal é que há muito ainda por aprender!
E para fechar com pertinência e humor, cometo aqui uma paródia a Drumond:
Ah! livros, livros, melhor seria não os ler; mas se os não lemos, como aprender?


OBS: A paródia acima não é a Drumond, como está no texto, mas a Vinicius de Moraes. Os versos parodiados são estes: Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?. Estão em "Poema enjoadinho", na Antologia Poética, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 195.
Quem me alertou para o equívoco de autoria foi a minha amiga virtual Jussara Neves Rezende, do blog Minas de Mim. Obrigado Jussara!

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