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18 de jun. de 2017

Paranoia?

Por duas semanas estive em São Gonçalo colaborando em obra de construção já referida em crônica anterior. Ficamos, eu e o Zé, meu pedreiro favorito, alojados em quartinho-suíte no terraço da casa vizinha à obra, residência da sogra da mãe de Yasmin.
Vou dormir cedo, que o corpo pede. Consequentemente acordo pela madrugada e fico aguardando sinais do alvorecer: o cantar dos muitos galos que há por lá, os primeiros trinados dos pássaros, inclusive de um casal de sabiás que vive nas proximidades, o roncar de carros na rua, a passagem do primeiro ônibus, o latir de cães, os passos apressados e duros de algum trabalhador descendo as escadas, a eventual fala entre  vizinhos que se encontram. 
Passa o segundo ônibus. Passa o terceiro. É hora. Levanto-me, preparo-me e desço. A nascente claridade do dia, ainda muito tímida, se anuncia. Faço hora na rua se ainda não abriu a padaria. Aberta, peço dois cafés, tomo um, calmamente observando a paisagem humana de trabalhadores rumo ao ponto de ônibus ou esperando nas esquinas, levo o outro para o Zé , me troco e desço à obra, iniciando o trabalho, antes mesmo do café da manhã.
Tem sido assim todos os dias. Melhor, quase todos...
Terça ou quarta-feira passada, ao descer encontrei o portão trancado; abri o ferrolho interno, mas alguém passara a chave na fechadura, que antes ficava só no trinco. Olhei em volta à procura de alguma chave, ainda não acreditando que me trancaram. Mas trancaram!
No terraço, esperei, irritado e ansioso, que D. Norma (a sogra) abrisse o portão, libertando-me.
E foi assim no dia seguinte e no outro.
Comentando com o Zé, disse-me ele que D. Norma andava muito preocupada com roubos, assaltos e tal... Eu mesmo já comentei um desses eventos que preocupam D. Norma, o assalto no ponto de ônibus. Mas que diabo! Um ferrolho com meia polegada de diâmetro é mais seguro que qualquer fechadura! Com tal parceria, uma fechadura não acrescenta nada, é inútil! Isso é paranoia! Se alguém mal intencionado quiser entrar, escala o muro, que é bastante alto, mas nada de impossível a um malfeitor.
Na sexta-feira comentei com o filho de D. Norma, dono da obra na qual colaboro:
--- Que nada, seu Antonio! Minha mãe tranca o portão para o senhor não sair muito cedo, para lhe proteger, preocupada com a sua segurança...
Ora vejam só! D. Norma me tranca para me proteger! Uma espécie de prisão preventiva domiciliar de curta duração e a favor do réu. E nem sou réu de delito algum. A não ser de me cansar, dormir cedo e acordar pela madrugada.
Mas sosseguei e não penso em reclamar de nada. Submeto-me às normas de D. Norma. Espero pacientemente o portão ser aberto. Na próxima semana levarei uma revista para ler, ou um livro. D. Norma nos trata muito bem e faz um pãozinho caseiro recheado com presunto, uma delícia! Faz lembrar-me, mal comparando, do bolo salgado que minha mãe fazia a cada fornada, com cobertura de sardinhas. Ah! que regalo! E que saudade!   

20 de fev. de 2017

Vô Tônico minimalista - 2

Tolerância só não basta: é preciso respeito.

4 de nov. de 2016

Vô Tônico minimalista

Feira de arte. Moderna, pós-moderna, de vanguarda. Artistas importantes e famosos. Três quadros pequenos num stand.
Chega uma família; o filho pergunta à mãe:
--- O que é isso?
--- São quadrinhos, meu filho...
E com a convicção de seus 7/8 anos, o menino dispara:
--- Isso são rabiscos!
Sábia inocência das crianças.

26 de set. de 2015


O buraco do sino

Andei por aí com um amigo de infância muito querido. Não lembro por onde andamos, o que fizemos, nem o que comemos, nem o que bebemos. Devo ter bebido demais. Só lembro da volta, daquele maldito ônibus chaqualhando, tarde da noite, cheio de boêmios e gente esquisita. Ou eu é que estava esquisito? Fora do ônibus, breu puro! Impossível reconhecer o ponto a descer. Por que ficamos até tão tarde na rua? Já não tenho idade para essas extravagâncias!
Meu amigo, porém, estava alerta e acenou-me para descer. Aos trancos e barrancos entre as gentes esquisitas, cheguei à porta e saltei. O ônibus partiu desabalado. Procurei por meu amigo entre as pessoas que ali estavam e não o achei. Pensei que descera na minha frente, mas não - foi-se com o maldito ônibus!
Agora estava eu ali, sozinho, num lugar desconhecido e entre gente desconhecida. Procurei situar-me. Perguntei que lugar era aquele, já me denunciando como forasteiro. Disseram-me: - Buraco do sino. Nunca ouvira falar de tal lugar. Mas o lugar não era mau, até um pouco bucólico: algumas casas esparsas, outras agrupadas, e muito verde; ruas sinuosas e estreitas, mas calçadas. Não era um buraco, mas uma encosta de morro. Uma favela? Talvez, mas muito diferente das que eu conhecia. Das que conhecia de vista, pois nunca antes subira numa favela.
De repente senti a mão da loirinha sarará que estava ao meu lado pressionar-me a calva, e algo pontudo  e duro espetar-me as costelas; um bafejamento quente segredou-me ao ouvido: - Perdeu, passa tudo. Querendo evitar qualquer movimento brusco ou desajeitado que pudesse assustá-los, disse à mocinha: – Posso pegar a carteira ou…? Ela disse: – O senhor mesmo pega. Nervoso, atrapalhei-me com a carteira e a mocinha tomou-a de mim e fez a limpa, largando-a no chão. Afastaram-se calmamente, a loirinha e os dois comparsas negões. Ela ainda me aconselhou: – Senhor, não ande assim tão tarde na rua. É perigoso.
Safada! E eu nem fiquei com raiva dela!
E as pessoas que estavam ali no ponto de ônibus parece que nem notaram o que aconteceu comigo!
Sem dinheiro (um mísero trocado que fosse, para a passagem do ônibus!), sem identidade, CIC, cartão de crédito; sem leira nem beira, assim eu fiquei no Buraco do sino!
Era urgente sair dali, pedir carona num ônibus, o motorista haveria de entender. Vinha um em sentido contrário ao meu rumo, não importava, era esse mesmo - urgia sair! Mas o coletivo bifurcou noutro rumo, enganando-me. Então enveredei por um beco, escadas aqui e ali, no intuito de cercar o ônibus na rua mais acima. Fui parar num terreiro entre barracos e mato, uma espécie de oficina mecânica de carros, mecânico mal-encarado, talvez nem oficina fosse, mas um desmanche. Voltei e desci as escadas, quando subiam, em fila, vários homens nada simpáticos e que portavam nas mãos instrumentos que não defini bem, nem queria definir. Esgueirei-me entre eles e sumi dali!
Tentei um táxi, não tinha dinheiro, mas importante era sair dali e chegar em casa, então daria um jeito de pagar ao taxista. Veio um: lotado. Veio outro, vazio, mas nem ligou pra mim. Filho da …!
Desanimado, encostei-me num canto ao lado de um comércio, uma birosca, onde homens bebiam e falavam animadamente. Cantoria no ar. Um canto solene e suave. Meninas vestidas de branco, em procissão, chegavam ao lugar onde eu estava. Pararam. A da frente voltou-se para mim e olhou-me longamente sem dizer palavra. Pareceu-me que esperava uma atitude minha. Entendi que estava no lugar errado, na hora errada, eu mesmo uma pessoa errada naquele contexto. Entendi que estava, talvez, profanando um lugar sagrado para aquelas meninas, que ali iam ofertar seus mimos e cantar seus cantos para algum santo que eu desconhecia.
Afastei-me. Atravessei a rua e desci por uma escadaria sinuosa (como eram sinuosos e incertos aqueles caminhos!), intermitente e intercalada por patamares de chão batido. Parei em frente a uma casa, mais para casebre, onde havia pessoas conversando. Um senhor, idoso como eu, deu-me um dedo de prosa. Não lembro o que conversamos, mas as pessoas me pareceram simpáticas e acolhedoras. E aquele lugarzinho, aconchegante.
Olhei para além: não vi mar nem horizonte. Mais perto e mais para baixo, outra encosta alevantada, esta de rocha pura, nua, negra e lúgubre. E imensos nichos escavados nela, lembrando portais góticos. Não vi imagens. Apenas nichos vazios de uma catedral insólita. No buraco do sino.

Sempre que adormeço de bruços, tenho pesadelos. Raismaparta!!!

O amigo de infância que me deixou só, era o Ismael, de Minas do Palhal – Portugal. A catedral insólita me pareceu (sem os nichos) a imensa rocha que há por trás da levada, na mesma aldeia, e por cuja várzea eu brinquei, enquanto as ovelhas pastavam (esta última associação não a fiz durante o sonho, mas enquanto escrevia esta crônica).

Que me dizem disto, caríssimos psicólogos e decifradores de sonhos?

21 de jun. de 2015

Tirando uma flecha do meu peito

No post anterior, Parem o bonde que eu quero descer (mas não há bonde), falei de situações de rua que nos trazem  à alma desassossego e angústia. Foi diferente neste sábado, 20/06/15. Saí à rua para ver e participar do 2º FESTIVAL CARIOCA DE ARTE PÚBLICA, agora em Marechal Hermes durante os próximos 60 dias. O festival acontece em comemoração ao 450º aniversário da cidade do Rio de Janeiro, no âmbito da lei municipal 5.429/2012, que dispõe sobre apresentação de artistas de rua nos logradouros públicos da cidade.
A minha participação foi mínima: ler um manifesto ao povo de Marechal Hermes, logo ao início das manifestações culturais. Mas bom mesmo foi o que houve antes e o que veio depois.
Concentração na praça Monte-se. Cheguei quando se iniciava o cortejo pela calçada central da avenida, em direção à praça XV de Novembro, local do evento.
Ah! meus queridos! Fogos estourando no ar, aquele som mambembe da fanfarra, o padroeiro São Sebastião conduzido à frente, e o líder do grupo TÁ NA RUA, organizador do evento, em charrete puxada a cavalo, anunciando a festa. E palhaços, e capoeiristas, e bailarinas, e pernas de pau… Ai, que lindo!
Tive de afastar-me para me recompor da emoção. Não sei o que acontece comigo! Nostalgias da infância? A música do Zé Pereira no arraial da santa? Parece que aquela música me acompanha em diferentes formas e circunstâncias. Mas então eu não me emocionava em lágrimas, tudo era muito natural como são naturais as crianças. Será que então eu era mais homem que agora? Ou agora sou mais menino que então?
Recomposto, voltei  ao cortejo e cheguei à praça de alma lavada, para ler o manifesto. Depois foi um suceder de atrações, até às 19 horas: circo, dança-afro, dança cigana, capoeira, teatro de rua; uma festa da diversidade cultural e do povo carioca; uma festa para os olhos e para a alma, como Marechal jamais viu!


A cultura, me parece, é um denominador comum que aproxima, solidariza as pessoas; não aparta nem divide, mas soma. Foi o que vi na praça XV de Novembro, em Marechal Hermes.

10 de jun. de 2015

Parem o bonde que eu quero descer! (mas não há bonde)

No último fim de semana fui a São Gonçalo visitar a minha irmã Rosa. Fui pelos modais de costume: trem, ônibus, barca, ônibus. Gosto de passar na praça XV, pelos ecos do passado barroco ali presentes, e mais recentemente para “fiscalizar” as obras em andamento naquela região, que prometem revitalizar lindamente toda a orla, do Largo da Misericórdia até o cais do porto. Tenho outra motivação antiga: cruzar a Baía de Guanabara, por cujas águas naveguei, entrando nesta cidade, há mais de 58 anos. É um regalo aos olhos e um resvalar em nostalgias que me serenam a alma, longe das aflições de agora.
Pois bem. Em Niterói fiz um lanche e dirigi-me ao terminal rodoviário para a última etapa da viagem. Antes deparei-me com um grupo de teatro de rua, se assim posso dizer; um ator e uma atriz (jovens) representavam no chão, sem que eu pudesse atinar do que se tratava; várias mulheres à volta ostentando cartazes, em silêncio. Pus-me a ler os cartazes: todas elas eram vítimas de abuso sexual na infância ou adolescência. Os atores representavam um roteiro de pedofilia doméstica (pai e filha), possivelmente óbvio, mas convincente e angustiante para mim, que o assistia. Retirei-me. A serenidade interior esvaíra-se.
Não que no meu tempo não houvesse pedofilia. Nem tenho reparos a fazer ao grupo que se manifestava em repúdio a esse abominável crime contra a infância. É preciso mesmo divulgar e conscientizar as pessoas sobre esses fatos, infelizmente, ainda corriqueiros. Retirei-me porque estou saturado desses horrores: crianças maltratadas, abusadas; crianças morrendo de fome e doenças; outras fugitivas da guerra, com suas famílias, embarcadas como escória em frágeis embarcações, na esperança de uma vida melhor, e muitas delas finalmente sepultadas no fundo do Mediterrâneo.
Retirei-me porque estou cansado de tanta informação ruim. Se fico em casa a televisão me bombardeia, se saio... O mundo está virando um circo dos horrores (ou já era e não sabíamos).
E ver aquela menina com os olhinhos fixos na teleobjetiva, em meio à grande tragédia, e ainda assim, com tanta inocência, esboçar um leve sorriso… dói... 

2 de fev. de 2015

Galo, galinha e pinto em família

O autor apresentando "Galo, galinha e pinto...", de costas para o galinheiro.






Em 25/12/2014, no já tradicional encontro de família, a apresentação de "Galo, galinha e pinto e outras histórias"
Havia vários cartazes alertando para a "ferocidade" do galo. 


O grilo cantor/Deir. Esqueceu o texto, mas saiu-se muito bem no improviso.



Abelhuda/Teresa, em atuação pra lá de convincente.




A menina ouvinte/Yasmin, atuando no contraponto ao contador.



Fim da apresentação. Olha que bailarina mais linda!

Autografando.

PC e Mário na fila de autógrafos.




Tavinho



Pedro e a bailarina da apresentação - Rafaela.


Ana Paula
Futuro leitor - Gabriel.



Acho que o galo, bem atrás de mim, não gostou de tanto palavrório e resolveu atrapalhar a apresentação. Pudera! - estávamos falando da família dele e sequer o convidamos para a festa. Veja no link.
Link>>>>>>>Galo, galinha e pinto e outras histórias


 Agradeço a presença de todos, principalmente das crianças, e àqueles que participaram atuando, fotografando ou filmando. Beijos, meus queridos!


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30 de jan. de 2015

Um ar que me deu

Após longo e tenebroso inverno estou de volta ao teclado. E começo pedindo desculpas pelo lugar-comum inadequado, já que estamos sob um verão abrasador. Foi um jeito torto de começar um texto não menos torto. Desculpem, queridos, pela longa ausência.
Não sei o que me deu!
Andei adoentado nos últimos tempos. Não AVC ou coisa parecida, nem resfriado, nem gripe. Simplesmente perdi a vontade de escrever! Muitos assuntos, muitas questões, talvez demais,, mas vontade de escrever não havia. Há seis meses quase não escrevo. Escrevi apenas o essencial: minha participação no Bookcrossing Blogueiro, alguns posts sobre “Galo, galinha e pinto…” e uma crônica sobre viagem a Santa Catarina. Inapetência literária…
Minha amiga Jussara Neves Rezende deixou, há pouco, um comentário num texto que escrevi por ocasião da eleição presidencial de 2010. Dizia ela, já adivinhando o meu estado d’alma, que é normal o desânimo após um intenso período de atividade intelectual e artística (a edição de “Galo, galinha e pinto…”). A adrenalina baixa, o desânimo vem. Faz sentido, mas creio que não basta como explicação. Há mais coisas, com certeza.
Assisti a uma entrevista do Ferreira Gullar ao jornalista Roberto D’Ávila. Pergunta do jornalista: Qual a fonte de sua inspiração? Resposta de Gullar: O espanto. O poeta se espanta com determinada questão e, nesse envolvimento espantado, nesse estado de perplexidade, escreve.
Espantado estou sim, mas não é um espanto específico, é geral e difuso como a névoa das manhãs frias,  nada do espanto inspirador do poeta. Muito pelo contrário, é paralisante. E a bem dizer, nem espanto é, mas desencanto. E não só com o Brasil. Na minha caminhada, nunca me pareceu tão aterrador o mundo!
Confesso que me deixei apanhar pela brisa; não a brisa fresca das manhãs, nem a quente deste verão escaldante; mas a brisa virtual da internet – envenenada e virulenta! – durante a campanha eleitoral. Muito trololó, muito lixo e baixaria! E deixei-me levar… E nenhuma vontade de escrever… Nem mesmo no meu “Sutil como um elefante”, espaço onde me sinto mais à vontade para temas polêmicos ou desagregadores.
Não sei o que me deu!
Lá bem atrás, na aldeia da minha infância, quando uma pessoa idosa sofria um derrame – AVC ou coisa que o valha –, ficando em geral com um lado do corpo afetado, ou a face repuxada e a boca torta, as outras pessoas, ignorando a doença, sua origem e natureza, costumavam dizer acerca das causas: “foi um ar que lhe deu”. O ar, que nos mantém vivos e pode muito bem explicar um resfriado ou uma gripe, era causa certa de males desconhecidos. Quando não eram as bruxas!
Pois bem, meus queridos, como não creio em bruxas ( pero que las hay, las hay!) e na falta de melhor diagnóstico para o mal que me acometeu, digo, como diziam os antigos da minha aldeia: foi um ar que me deu.
Estou convalescendo, porém. No período comentado não estive totalmente inerte: fiz as ilustrações do livrinho infantil da minha amiga Adriana Kairos e li três livros. Domingo irei ao CCBB ver a exposição de Kandinski.
E obrigado, Jussara, pelo toque. Escrever é preciso.

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4 de set. de 2014

Amigos para sempre

Era o ano de 1965. O carioca chegava, de terno e gravata e mala na mão. Já se vê que não era um carioca típico. Da varanda do segundo andar, os “bichos” chegados anteriormente davam as boas vindas jogando bombas d’água – sacos plásticos cheios e amarrados na boca. O carioca não se livrou do bombardeio amigo.
Já no alojamento do 2º andar, um “bicho”, vizinho a três armários do seu, lhe entregou vassoura e rodo para que fizesse faxina nos banheiros. O carioca não se abalou, arrumou suas coisas no  armário e foi fazer a faxina, já acostumado, pois servira quatro meses no exército.
O que o mandara à faxina era “barriga verde”; barriga verde não, estes são do litoral, ele era da serra catarinense, de Lages, embora nascido em São Joaquim; e se formara no Ginásio Industrial de Florianópolis, que àquela altura ainda não era Floripa.
Veio o “baile do bicho”, evento oficial de boas-vindas aos calouros. O catarinense queria ir mas carecia de roupa adequada. O carioca nem sabia dançar, tinha terno e gravata, o catarinense foi bailar.
Foi o início de uma amizade duradoura.
Formaram-se e serviram ali mesmo, na escola. Arrimo de família, o do sul trouxe mãe e irmã. Moraram os quatro na mesma casa. Como uma família. Os dois, não sendo irmãos, eram.
Mas a vida que promove encontros também engendra separações: o catarinense casou-se, o carioca foi-se ao Rio de Janeiro. Ainda se viram algumas vezes, depois desgarraram-se, perderam o contato. Nunca mais souberam um do outro.
2014. Mais de trinta anos se passaram.
Nome completo do catarinense no Google, vários verbetes, aposentadoria de promotor público, endereço, telefone… Viva a Internet!
E lá se foi o carioca ao encontro do passado.
Que bom rever o amigo, saber que está bem, apesar de viúvo; que bom rever parentes do amigo, irmão, irmã, cunhada; que bom conhecer filhas e netas do amigo. Que bom caminhar com ele no calçadão da praia, rememorando, jogando conversa ao vento e olhando as moças que passam.

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9 de jul. de 2014

Janela da memória


Acordei hoje com uma sensação esquisita, uma aflição, uma apertura no peito que não sei descrever em palavras, mas passa por um ligeiro sentimento de perda. Sofri este sentimento apenas uma vez na vida, quando me descobri só, afastado de mulher e filhos, separado, desprovido – formalmente embora - do projeto e sonho acalentado anos a fio.
A diferença é que naquela oportunidade não foi “um ligeiro sentimento”, mas forte, renitente e prolongado. Doía ao acordar, doía ao longo das horas quando, entre os afazeres, abria-se uma brecha ou janela, na qual vinha a memória debruçar-se a me afligir. E ao recolher-me à solidão do Hotel de Trânsito da BAGL, mais forte doía a dor. Fugia dela. Pensava em outras coisas, mas cada coisa pensada também doía. Então fechava os olhos e imaginava algo imaterial, um ponto, um foco de luz brilhante, e me concentrava nele de modo que coisa alguma ou pensamento pudesse penetrar-me a mente. Funcionava enquanto persistia o esforço de concentração.




E para fechar portas e janelas a impertinências doloridas, também tentei fazer versos. Fiz dois ou três poemas sofríveis, recheados de ressentimento e despeito, dos quais não me orgulharia se os tivesse para mostrar: perderam-se nos caminhos da vida. Melhor assim. Talvez só um fosse digno de salvação: o que fiz para minha ex-mulher àquela época, amoroso e delicado, mas do qual minha memória não guardou um único verso (Ah! memória descuidada!).
E assim foram dias e dias, e semanas, até que a vida se encarregou  em desvanecer a dor e aliviar o meu peito. E a vida seguia.
Desculpem, caríssimos! Eu pretendia falar sobre o jogo Brasil x Alemanha, ontem, no Mineirão, mas os meus sentimentos desviaram o assunto e abriram uma janela pela qual me desvendo um pouco para vocês. Às vezes o discurso assume a pena, ou os dedos... De maneira que, trocado o assunto, troquei também o título, que seria “O mineiraço”. Voltarei ao assunto, aguardem.

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25 de mai. de 2014

Às voltas com o bruxo

Dia desses fui ao Centro  e passei pela Cinelândia, onde pretendia lanchar antes de tomar o Metrô de volta a casa. Deparei-me com a feira de livros que volta e meia estaciona por lá, e circulei entre as tendas à procura de algum alimento para o espírito que me não fosse indigesto ao bolso. Interessei-me por dois títulos de crítica literária sobre a obra de Machado de Assis. Eliminei um, para não eliminar o lanche. Ao sentar-me no bar Amarelinho, já lia “Tempo e Metáfora em Machado de Assis”, de Dirce Cortes Riedel – professora emérita da UERJ (já falecida).
É a primeira vez que leio um livro de crítica literária; e isto é mais uma peça – involuntária e póstuma – do bruxo do Cosme Velho!




Não vou mentir e dizer-lhes que entendi tudo perfeitamente, que agora sou um expert em Machado. Para ter “fumos” de expert, teria de ler mais, muito mais, nem o resto de vida me daria tempo.
Mas, em que pese a linguagem técnica e acadêmica a que não estou afeiçoado,  as muitas referências filosóficas e  de outros críticos que evidentemente não conheço, a autora abriu-me os olhos para novas leituras e releituras do autor. Tanto que estou determinado a reler algumas obras, sob novo olhar, especialmente Quincas Borba, que li apenas uma vez e há muito tempo, e de igual modo o Memorial de Aires. Sem embargo de outras obras da primeira fase do autor, e uma infinidade de contos que não conheço. Vagar eu tenho, haja olhos!
Resumindo, caríssimos; lendo um livro, se há boa vontade e alguns neurônios, sempre se aprende alguma coisa. O principal é que há muito ainda por aprender!
E para fechar com pertinência e humor, cometo aqui uma paródia a Drumond:
Ah! livros, livros, melhor seria não os ler; mas se os não lemos, como aprender?


OBS: A paródia acima não é a Drumond, como está no texto, mas a Vinicius de Moraes. Os versos parodiados são estes: Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?. Estão em "Poema enjoadinho", na Antologia Poética, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 195.
Quem me alertou para o equívoco de autoria foi a minha amiga virtual Jussara Neves Rezende, do blog Minas de Mim. Obrigado Jussara!

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21 de abr. de 2014

Um editor atrapalhado


Uma das ilustrações de
"Galo, galinha e pinto e outras histórias"
Escrevo estas poucas linhas, se não são poucas foi a maneira de iniciar o texto dando notícias do meu “Galo, galinha e pinto e outras histórias”, há tempos prometido e ainda não cumprido.
Já disse que ando com veleidades de escritor neófito; pois agora meti-me também a editor. Imaginem!
Para tal era preciso que me cadastrasse na Agência Brasileira do ISBN para obter o meu prefixo editorial e o ISBN (International Standard Book Number) e código de barras para o livro a ser editado. Isto eu queria, para que o meu livrinho tivesse todas as formalidades dos outros livros. As editoras de demanda fazem o procedimento, mas cobram, é claro, e a menos que eu tivesse uma editora que me bancasse, era preciso diminuir custos. E é “facinho”, é on line, me disse a simpática atendente da gráfica onde fiz o orçamento para uma tiragem de 500 exemplares.
Pois bem, meus amigos, não era tão facinho assim.
Pra começar, o site da agência é novo, e como toda coisa nova, ainda não testada pelo uso, apresentava algumas deficiências de informação e comunicação, que eu só pude superar com inúmeros telefonemas para a agência, ao longo das quatro tentativas que fiz.
Na primeira tentativa logo desisti. E optei por ir pessoalmente na agência entregar os documentos e comprovante de pagamento dos serviços. Não pode, o senhor começou on line tem que terminar on line. Mas não tem problema, nós lhe devolvemos a tarifa na sua conta corrente. Não tem problema! óh, céus!
Segunda tentativa on line: cancelada sem eu saber o porquê.
Quando voltei de minhas férias das férias nos sertões do Pará, dei um tempo, escrevi várias crônicas, dei mais um tempo e voltei à carga: terceira tentativa. Desta vez notei várias informações que não existiam antes no site. Uma delas: os tipos de arquivos que o sistema admitia para anexar CPF e folha de rosto. E agora ficava sabendo por que nada dera certo antes: um dos meus arquivos a anexar estava em jpg e o outro em doc – um dos padrões não aceitos pelo sistema. Chamei o meu Rafael, que rapidamente transformou, não sei por que passes mágicos, doc em pdf, e assim foram anexados.
Desta vez vai! Ah! se não!
Não foi. Recebi e-mail: não foi possível atender o seu pedido; diagnóstico do analista – anexar CPF e folha de rosto.
Putz!
Passaram-se alguns dias em que  fiquei ruminando o acontecido e fui para a quarta tentativa, e esta seria a derradeira, eu já estava a ponto de mandar tudo para os quintos dos infernos (menos o meu livrinho, é claro!). Por precaução eu mesmo preparei os dois arquivos em jpg, vá lá saber se deram errado as mágicas do meu filho Rafael. E chamei o meu Daniel para ficar ao meu lado fiscalizando, no pressuposto de eu estar errando algum procedimento.
E clic daqui e clic dali, o CPF já está anexado, agora vamos para a folha de rosto…Não, pai, não! Espera um pouco, deixa completar a transferência do arquivo…
Putz! Mil vezes putz!
Até aqui eu fechava o pedido de ISBN antes que se completasse a transferência dos arquivos (quando pára de rodar aquele circulozinho, lá em cima, e que eu nem via). Por isso os arquivos não iam, não chegavam na agência. Ai, meu pai! Tu te enchias de suor e fuligem na carvoaria, mas não tinhas que passar por isto!
Bem, amigos, desta vez deu certo, já estou com o prefixo editorial e o ISBN para Galo, galinha e pinto, mas tem um outro porém: gastei o dinheiro que reservara para a impressão. Nada que não se resolva, mais um pouco de paciência, em julho mando para a chocadeira (ou será prelo?).
Empanturrem-se de futebol e aguardem.

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3 de abr. de 2014

O misterioso entregador de revistas


Pensava que tinha lido Vidas secas, de Graciliano Ramos; engano da minha memória; o que eu li, na minha juventude, foi Seara vermelha, de Jorge Amado, sobre o mesmo tema da seca nordestina. E vi, na mesma época, o filme de Nelson Pereira dos Santos sobre a obra do Graciliano. Mas do enredo e dos personagens pouco lembrava, só não esqueci da cachorrinha Baleia.
Estava pois a ler Vidas secas na manhã do último domingo, sentado no sofá da varanda, quando Rita, – que saía para a missa – , voltou e entregou-me a revista: “Olha aqui, entregaram hoje”. Concentradíssimo como estava na leitura, peguei a revista e olhei a capa: nenhuma imagem ou forma bem definida ou impactante; apenas tons de azul, esmaecidos e imprecisos, puxados ao branco, nada que me chamasse a atenção de imediato. O melhor é que eu não precisaria telefonar para a editora reclamando dos desacertos do entregador nas últimas semanas. Agora me entregava a revista adiantado, pois que geralmente é entregue às segundas ou terças. Pousei a revista no sofá e retomei a leitura do  Graciliano, que só terminei por volta do meio-dia.



Esclarecendo o leitor: já notara a falta da revista durante as semanas anteriores, até que uma vizinha entregou-nos dois exemplares, dizendo que um terceiro se estragara com a chuva, e que o entregador as entregara por engano em sua casa. Verifiquei a etiqueta de endereçamento; o meu endereço estava correto, o entregador é que era um trapalhão (ou míope).
Depois do almoço fui tirar a sesta. Quando acordei, lembrei-me da revista e decidi terminar o dia lendo-a. Fui buscá-la ao sofá. Não a encontrei. Rodei a casa, nada. Fui ao quarto e perguntei à Rita ainda sonolenta: nada sabia da revista. Voltei ao sofá, já intrigado, procurei atrás, dos lados, embaixo. Nada! Esperei meus filhos descerem e perguntei-lhes; não pegaram a revista! Desisti de procurar a maldita revista.
Segunda-feira falei novamente a Rita sobre o caso; ela jamais me estregara revista alguma. Então eu sonhara, só pode! Mas em nenhum momento percebi ter sonhado, como é comum quando acordamos após um sonho. A impressão foi tão nitidamente real que sequer desconfiei da possibilidade de um sonho. Aquela revista, aquela capa de tons azuis esmaecidos, puxados ao branco…




Terça-feira entregaram-me a revista: estava na caixa de correio. Não a recebi de Rita, mas de Daniel, meu filho. E eu não estava no sofá lendo Vidas secas, mas na cozinha lavando a louça. E aquela revista agora em minhas mãos eu já conhecia, aquela capa em tons de azul esmaecido, puxados ao branco… Era uma reportagem sobre a escassez de água em São Paulo e outros lugares.
E agora o que me dizem, caríssimos, desse entregador de revistas? Não o de terça-feira, mas o de domingo?

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7 de mar. de 2014

Uma história de carnaval


Este ano não fui para Maricá, como de hábito, e resolvi reler um livro que gosto muito: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Desde a juventude, é a terceira ou quarta vez que o leio. Desta feita, por andar com veleidades de escritor neófito, li-o com atenção redobrada, cuidando das palavras desconhecidas ou pouco íntimas, dicionário ao lado; e do estilo do autor, de sua técnica narrativa, de como vai construindo a trama, à maneira de um delicado mosaico, peça a peça, sutileza a sutileza, deixando pistas aqui e ali, um argumento acolá, novos indícios e dúvidas mais além.
Trata-se do clássico e sempre recorrente triângulo amoroso: neste caso Bentinho, Capitu e Escobar. Mas é, antes de tudo, o romance da dúvida. Dúvida para o leitor, que ao fim não tem convicção formada: Capitu traiu ou não traiu? Depende do leitor; em verdade ninguém sabe, ninguém viu.
E que mulher, a Capitu! Ah! Bentinho, por que tinhas de ser tão casmurro? Tão melhor seria que fosses mais generoso e menos ciumento, e assim viverias o resto dos teus dias navegando num mar de delícias com a tua Capitu… Mas neste caso também não teríamos esta obra prima do bruxo do Cosme Velho…
…Perdão, leitores. Perdoem o meu envolvimento. Eu pretendia contar uma história de carnaval, se é que não me enganei no título. Pois vamos a ela, sem mais delongas.


Li pra mais da metade do livro na segunda-feira de carnaval. À noite recebi uma ligação da mãe de Yasmin, que voltou a morar com a pequena na vila militar do Galeão, convidando para um churrasco em sua casa, na terça. Fui. Numa sacola levei 1Kg de contra-filé e uma sobremesa preparada por Rita, que não quis ir. Para ler no ônibus, levei o Dom Casmurro. Antes não levasse…
Depois do churrasco que, para desgosto do meu estômago foi servido lá pelas tantas da tarde, fomos todos espairecer no Complexo Recreativo, onde nesses dias sempre rola alguma coisa. As mesas da varanda quase lotadas, crianças fantasiadas dentro do salão, brincando com serpentinas e confetes. Deliciosas marchinhas carnavalescas – dos carnavais antigos – é o que havia de festa momesca. Não que a família militar não seja animada  – já fui a grandes bailes de carnaval em clubes militares – mas há que ter quem os organize e o Complexo serve mais para comemoração de aniversários, batizados, natal e outras datas do tipo, em suma, para a distração, o divertimento e a prática de esportes no dia-a-dia dos moradores da vila.
Sem ânimo momesco nas veias - lembrem-se que estava lendo um livro -, dei uma espiada no salão e dirigi-me discretamente para a varanda dos fundos, onde também há um barzinho, no pressuposto que meus acompanhantes preferissem ficar na frente. Sentei-me e ataquei de Dom Casmurro.
Dentro em pouco estava rodeado por meus convivas e mais além três mesas se juntavam para acomodar uma família, esta sim, com espírito carnavalesco: os dois homens, um mais ou menos da minha idade e de cabelos brancos e o outro mais jovem, que mais tarde vim a saber tratar-se de seu genro, ambos fantasiados de mulher. O senhor de cabelos brancos eu já conhecia desde a matinê de domingo, quando estive no local acompanhado por Rita, Yasmin e seus familiares. Na ocasião, este senhor, enfiado no mesmo vestido e a cara borrada de maquiagem, sapecara-me um beijo no rosto com as graças típicas e caricatas da fantasia. Tudo se deu entre risos e galhofas.


Como os do meu grupo aparentemente não se incomodavam que estivesse lendo, continuei lendo. A certa altura o senhor/senhora de cabelos brancos, dirigindo-se ao banheiro masculino, parou ao meu lado e, com trejeitos afetados e voz de falsete feminil, convidava-me ao banheiro para ajudá-lo num “serviço”. Já meio sem jeito, mas ainda com ferpley, disse-lhe que não fazia serviços desse tipo; rimos e apertamo-nos as mãos. E foi risota geral.
Agora a trama estava chegando ao clímax, atenção redobrada na leitura, foco total na desventura dos dois amantes; eu não estava ali com os meus, estava com Bentinho e Capitu… Então veio o susto e a minha reação automática e incontrolável, como no estouro inesperado de um rojão: levantei-me quase de um pulo, abrindo  os braços e afastando com energia as duas “senhoras” importunas que tentavam beijar-me o rosto, uma de cada lado.
- Não! Não! Brincadeira tem limite, pô!
Não, creio que não disse palavrão, mas não estranharia se tivesse dito. Assustei-me com a surpresa do ataque das “senhoras” num momento de extremo envolvimento literário. Quase fervi de irritação por me terem tirado do enleio em que me achava. Desta vez não houve risos, mas caras espantadas.
Escusado dizer que dali em diante não havia clima para continuar lendo; terminei o livro na quarta–feira de cinzas.
Já calmo, passei na mesa das “senhoras”, expliquei-lhes a minha reação e pedi desculpas; também as recebi, efusivamente, com apertos de mãos e tapinhas nos ombros.
E o riso voltou. Era carnaval. Evoé, Baco!

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23 de fev. de 2014

Uma tragédia dentro da tragédia


Dos cerca de vinte livros que salvei do lixo, reservei mais um para mim: o Diário de Anne Frank. Pertenceu à mãe ou à avó de Yasmin, não sei bem; é leitura comum no segundo ciclo do 1º grau ou no 2º grau, creio.
Então por que separá-lo para mim, se já é leitura passada, apreendida e ruminada? Não para mim, caríssimos amigos. O meu ginásio e o meu 2º  grau foram substituídos pela Escola de Especialistas de Aeronáutica, uma escola técnica e militar, portanto o programa de Português não contemplava a literatura, nem tempo havia para leituras consideradas, digamos, supérfluas. Havia os regulamentos, os manuais técnicos e as normas-padrão de ação. Mas não pensem que estou surpreso com o achado. A história de Anne e sua família é bastante conhecida, uma tragédia particular dentre tantas outras no âmbito da grande tragédia que foi a 2ª guerra mundial e o holocausto nazista. Eu mesmo conhecia a história de há muito, só nunca havia lido o famoso diário. Li-o agora, com muitos anos de atraso. Nunca é tarde para se ler um livro.




E que menina excepcional! Acompanhei, pelo diário, o desenvolvimento pessoal dessa menina inteligente, sensível e talentosa durante os três anos de sua adolescência (dos 13 aos 15) em que ficou confinada com sua e mais outra família de amigos num esconderijo (o “anexo secreto”), tentando escapar da sanha genocida nazista. Acompanhei as dificuldades do confinamento, os medos e as angústias, as alegrias e tristezas. E o desabrochar de seu caráter reto e firme, de seu espírito crítico, que não poupava nem a si mesma, de sua fé inabalável e de sua esperança sempre renovada. E de sua imensa vontade de viver, de seu amor à vida.
Apenas Otto Frank, o pai de Anne, sobreviveu ao horror da guerra.
Anne Frank queria ser jornalista e escritora. Escritora ela já era…
Que tesouro se perdeu!

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4 de dez. de 2013

Vô Tônico perfumado

"Árvore das Nações"- original pintado com a boca por
 José Henrique Breda, dos Pintores  com a boca e os pés. 
Yasmin passou um fim de semana comigo. Fui buscá-la à porta do trabalho de sua mãe, em São Cristóvão. Já em casa, não demorou muito e vasou:
- Vô, era pra ser segredo mas eu não aguento, vou falar: comprei um presente de Natal pra você – um perfume.
A mãe de Yasmin, para garantir um dindim extra, está vendendo cosméticos e perfumarias. A menina tinha uns dinheirinhos, pacientemente poupados para ocasião de mor importância, e resolveu gastá-los presenteando o avô. O que tinha não era suficiente, a mãe concedeu-lhe um desconto abrindo mão de parte da sua comissão e a conta fechou. Escolheu e encomendou o perfume, que me daria quando, no domingo, fosse levá-la em São Gonçalo, onde mora  agora (só até o fim do ano, quando volta para o Rio).
Na volta, depois do trem, do ônibus e da barca, paramos perto do Terminal  Rodoviário de Niterói, onde embarcaríamos para São Gonçalo. Frente a nós havia uma tenda de lona, uma espécie de mini-circo que não costumava estar ali. Era uma livraria. Entramos. Encontrei, numa das bancas, uma linda edição da “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes, que há muito desejava dar a Yasmin. Comprei-a e dei-lha, como presente de Natal.
Já em sua casa, e dando-me o perfume, disse-me ela:
- Vô, eu sei que você não costuma usar perfume mas este você tem de usar, foi dado com muito carinho e eu quero você cheirosinho. É assim, bota um pouquinho nos pulsos, no pescoço e atrás das orelhas, tá?
Confesso que nunca desenvolvi o hábito de usar perfumes, nem quando saía para namorar (e já lá vão muitos anos). Até desodorante raramente usava. Agora não tem jeito, tenho que usar o perfume que Yasmin me deu com tanto gosto e à custa da dilapidação de seu pequeno (grande!) tesouro. Mal sabe ela que o meu perfume é ela mesma, os meus filhos e a minha Rita, e o fato de, ao longo da vida, não ter feito inimigos nem  alimentado ressentimentos e rancores. Isto é o meu perfume.
Mas, caríssimos, se me encontrarem por aí exalando um discreto perfume, não estranhem. Estarei cumprindo uma determinação de Yasmin.

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17 de nov. de 2013

Um domingo feliz

No último domingo (10/11) visitei a minha irmã caçula, a Nei. Almoçamos filé de Congro ao molho de camarão, muito bem preparado pelo “chef” Bill dos Santos, meu cunhado. Presentes também D. Morena, mãe do chef, e minha sobrinha Flávia, a diagramadora de “Cacos da memória” e agora de “Galo, galinha e pinto e outras histórias”, meu livrinho infantil em gestação.
Uma das finalidades da visita era justamente levar à minha sobrinha as ilustrações do livro e conversar sobre detalhes do trabalho a ser feito.
Mas como, senhor Vô Tônico? Neste mundo tecnológico o senhor ainda realiza trabalhos de estafeta, entregando pessoalmente o que pode ser entregue virtualmente?
Confesso que sou um tanto defasado, mas garanto a vocês que nada pode substituir o contato direto entre pessoas, nem a internet poderia proporcionar-me o domingo que tive. É claro que o texto do livro já havia seguido por e-mail, procedimento que não foi possível com as ilustrações, pois anda meio desarranjada a função scanner da minha impressora. A solução foi ir pessoalmente. E foi muito bom. O almoço e o que veio depois.
À tardinha fomos bater perna e tomar um café no Shopping Carioca, ali pertinho.

Malabares e pernas-de-pau
Fanfarra e bicicleta-de-uma-roda-só










Havia festa no Shopping. Uma trupe de saltimbancos fantasiados de duendes percorria os corredores anunciando a próxima chegada de Papai Noel. Malabares, bicicleta-de-uma-roda-só, pernas-de-pau ou andolas, como se dizia na minha infância. E uma fanfarra de palhaços-duendes, uma bandinha semelhante àquelas dos pequenos circos da minha adolescência. Crianças, adultos e velhos seguiam a trupe. E enchi-me de lembranças e marejaram-se-me os olhos. Do fundo da minha memória vieram os circos, os palhaços, os mágicos e a menininha que andava na corda bamba, da qual comprei um retratinho que não guardei. E mais do fundo vieram o arraial da Senhora do Socorro e o Zé Pereira com sua música simples, gaita-de-fole e bumbo, ele e sua mulher. Música que encantava a minha alma de menino e me arrastou pelo arraial até que me descobrisse perdido! Música que não estava ali, no Shopping, mas em mim.


D. Morena em primeiro plano
Minha careca
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
E novamente me descobri menino, seguindo aquela fanfarra, aquela gente, aquela alegria…
Porém desta vez não me perdi. O shopping não é tão grande que possa perder alguém, e a minha irmã Nei me vigiava, ciente do que se passava comigo. Rimos muito nós dois, cúmplices no mesmo sentimento nostálgico e pueril.
Ah! como estou ficando boboca!
Mas como foi bom!

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5 de mar. de 2012

Saí para um sarau poético ...


... E acabei na feira nordestina de São Cristóvão! Acreditam nisso? Foi assim. Fui convidado por Adriana Kairos, pela terceira vez, a comparecer ao sarau poético da Biblioteca de Manguinhos, que acontece uma vez por mês. Não conhecia o bairro, embora passe por lá regularmente, na condução, sem nunca ter saltado. Sei que a fama do lugar não é boa, mas não importa, se tantos bairros têm fama idêntica. E além do mais, em geral só ficamos sabendo das coisas ruins, nunca das boas, como um sarau poético, por exemplo.
No último sábado (03/03), resolvi comparecer. Além de rever Adriana, queria participar da homenagem a outra poetiza de minha estima, Aline Leite, falando um ou dois poemas de sua autoria. Peguei um exemplar de POESIA SUBURBANA e outro com poemas de Fernando Pessoa, e parti. Parti já bastante atrasado, mas teria tempo de sobra. Sentei do lado direito do ônibus e fui observando a numeração da avenida D. Helder Câmara, para saltar próximo ao número 1184. Quando observei o número 1300, pensei: é aqui. Mas...
O bairro é atravessado pelo viaduto do metrô, e por baixo deste viaduto, barracos e outras traquitanas pouco simpáticas. Pouquíssimas pessoas perambulando na rua. Noite escura. E vocês sabem: à noite todos os gatos são pardos. Gente, não acionei a cigarra do ônibus, não saltei, passei batido, só parei no Campo de São Cristóvão! Lá eu conheço e sei me situar. Não é preconceito não, gente. Foi cagaço mesmo!
Saltei bem em frente a uma das entradas da feira nordestina. A intenção era pegar um ônibus de volta, mas a cantoria dos repentistas nordestinos me atiçou. Entrei.
Minha mulher, antes de eu sair de casa, me disse que talvez fosse à feira com uma amiga. Quem sabe nos encontraríamos lá. E repente daqui e dali, e forró de cá e de lá, me deu fome e sede. Sentei num restaurante e pedi uma cerveja e um angu à baiana, que há muito tempo não comia. O angu não foi lá essas coisas, mas comível para quem tem fome, e a cerveja desceu bem. De repente bateu-me uma saudade de outro angu, o Angu do Gomes, famoso outrora. Lembro-me de saboreá-lo na Praça XV, quando voltava da Faculdade à noite. A última vez que comi um angu do Gomes foi na Maré, na calçada da avenida Brasil. Talvez já não fosse o Gomes original, talvez um Gomes pirata, mas o angu era muito bom, igual ao do Gomes. Já comi caviar, mas tenho saudade é do Angu do Gomes!
Mas deixemos de culinária, que eu já estou de volta a casa. Ao passar por Manguinhos, que diferença! Muitas, muitíssimas pessoas circulando na rua, parece que iam a um lugar determinado, talvez um baile funk numa quadra que vi de portões abertos e toda iluminada. E o som bombando. Tive até vontade de saltar, tão aconchegante me pareceu o lugar! Segui meu rumo. Em outra oportunidade irei ao sarau de Manguinhos, mas antes vou lá durante o dia fazer um reconhecimento do terreno (e eu não fui milico? Pois então).
E a Rita, hein? Que disse que ia e não foi. E eu que não ia, fui.

 


 


 

14 de set. de 2011

SONHOS


Falo daqueles que sonhamos dormindo e sobre os quais não temos o menor controle. Eu, por exemplo, já sonhei que namorava a Angélica, aquela loirinha global com pinta na coxa. Já pensou?! Mas acordei ainda nas preliminares...!!! Foi um tempo em que eu sonhava belos sonhos. Digo isto porque ultimamente tenho sonhado coisas ruins, às vezes até pesadelos. O último sonhei-o na madrugada de domingo para segunda (12/09). Foi assim o sonho:
Estava eu ajeitando alguma coisa na casa para onde ia mudar, a mesma para a qual já mudei há uns quatro anos, quando, terminado o serviço, entrei na sala e deparei com um homem trepado numa escada e furando uma parede. Era um profissional, velho conhecido, que chamara para fazer um reparo, mas nem eu sabia da sua presença ali, nem ele da minha. Surpreso, gritei: - Pedro Paulo! O homem assustou-se, desequilibrou-se e estatelou-se no chão, desacordado e sangrando. Apavorei-me. Pedro Paulo! Pedro Paulo! Acorda homem. Vou chamar uma ambulância pra te levar no hospital. Acorda, Pedro Paulo!
O homem acordou meio abobalhado, abraçou-se a mim e nos erguemos abraçados. Em seguida, acordei. Que alívio! Ufa!
O interessante é que esse homem não era Pedro Paulo, mas Zé Roberto, como disse um velho conhecido que não vejo há mais de vinte anos. Por que o chamei várias vezes de Pedro Paulo?
Pela manhã, no café, tentei decifrar o sonho, se é que é possível interpretar sonhos. José do Egito fez isso muito bem, prevendo a seca prolongada, mas contou com a ajuda prestimosa de Deus. Eu só tinha a ajuda de minha mulher.
Bem, Pedro Paulo é o corretor que está vendendo um apartamentinho meu, o que ainda não conseguiu, não por falta de comprador, mas porque o imóvel está ocupado por um inquilino que se demora em desocupá-lo. Roberto é titular da imobiliária que fez a locação e que agora está tentando desocupar o imóvel a meu pedido. Havia uma promessa do locatário em mudar do apartamento no dia 10, mas eu não estava certo, pois outras tantas promessas haviam sido descumpridas. Não pude me comunicar com o Roberto, portanto não sabia o que de fato acontecera. E a tensão foi aumentando...
Para nós, eu e minha mulher, estava claro: a mudança não era senão a do inquilino, desocupando o nosso imóvel, já que o sonho envolvia o Pedro Paulo – corretor – e o Roberto, da imobiliária. E mais: a circunstância onírica de eu me levantar abraçado a Zé Roberto/Pedro Paulo, indicava um final feliz para a estória. Pois.
E afinal, perguntarão vocês, o inquilino mudou-se?
Ainda não. Não pude conversar com o Roberto na segunda-feira, falei com ele na terça. Na quarta (hoje/14) o inquilino tem agenda na Caixa para assinar escritura de compra de um apartamento por ela financiado, negócio que vinha perseguindo há meses. Mais um final de semana para pintura e se muda dia 24, entregando as chaves a 26. Aleluia!
Creio que o meu sonho foi uma espécie de pressentimento ou premonição de fatos vindouros, a confirmar dia 26. Ou não. Mas agora estou confiante.
E por que nos conta tudo isso, Senhor Vô Tônico, estarão intimamente perguntando os caríssimos leitores. Simples, porque não tinha nada melhor para lhes contar. E não me venham pedir que interprete seus sonhos. Estou fora dessa! Cada um é o melhor intérprete para seus sonhos, quer os que se sonham dormindo, quer os que se sonham acordado.
Nessa questão de sonhos que se sonham dormindo, só quero uma coisa: voltar a sonhar com a Angélica pra terminar o que apenas começara quando acordei, se é que vocês me entendem, há! há! há! há!
Perdão, leitores, perdão.

30 de jan. de 2011

Eu quero é vadiar


Estou aposentado, mas de uns tempos para cá venho sofrendo insinuações de que devo arranjar um "bico", uma ocupação que some alguns trocados ao orçamento doméstico, como fazem muitos de meus antigos companheiros de trabalho. Até já recebi insinuações mais diretas e objetivas, mas sempre declino. Mais recentemente, em face do meu desempenho na supervisão da reforma da minha casa e dos bons resultados obtidos, sei que há quem sonhe com os meus préstimos na supervisão de obras alheias. As insinuações são tais que até minha mulher já disse: - Vai trabalhar, homem, te ocupa, vai espairecer e traz um dinheirinho pra casa, que não faz mal a ninguém.
Porra! Eu já trabalhei muito, carago!
Eu só brinquei até os dez anos. Depois foi trabalho, trabalho, trabalho... Primeiro ajudando os meus pais, entregando sacos de carvão e galões de querosene, de bicicleta, nessas ruas do Valqueire e adjacências; depois na oficina de bicicletas; depois na padaria entregando pão nos pontos de venda e fritando sonhos no tacho; depois o serviço militar e depois, depois, depois... Nunca aprendi a empinar pipa e a jogar bolinha de gude, e por conseqüência meus filhos também não sabem...
Eu não quero mais fritar sonhos – quero persegui-los e brincar com eles, como as crianças fazem nas brincadeiras de pique!
Mas não tenho medo do trabalho, nunca tive e me orgulho disso. Continuo trabalhando, domesticamente: pequenos reparos, troca de lâmpadas, interruptores e tomadas, faxina pesada, isso é comigo mesmo. E, se necessário, lavo a louça e encosto a barriga no fogão... E já limpei cocô de bundinha de neném e troquei muita fralda (ah! que saudade daqueles tempos!). A divisão do trabalho doméstico, que entre muitos casais ainda é tema de discussão, já se pratica em minha casa há muito tempo. Naturalmente, sem crise, sem discussão da relação.
Quanto a trabalho formal, quero repetir aqui um verso de um poema de Oscar Niemayer, que ouvi de sua boca (em vídeo) e minha memória gravou, na exposição memorável de sua obra no Riocentro: Que se foda o trabalho!
O que eu quero agora é vadiar, brincar de escritor e artista plástico, poetar, contar histórias, causos e lorotas; perder tempo olhando as nuvens para descobrir que desenho formam ou que não formam desenho algum, mas anunciam chuva; olhar o sol ao entardecer e embeber-me nas cores do seu declínio no horizonte; olhar as pessoas que passam, sem outra intenção que não seja a de imaginar que enredo, que drama ou tragédia carregam, enquanto meus ouvidos tentam ouvir o que dizem, que histórias contam; e, claro, estar com os amigos num bar ou à sombra de uma amendoeira na praia, neste calor abrasador do Rio de Janeiro, deitando conversa fora e tomando uma geladinha, que ninguém é de ferro.
O mestre Oscar, contudo, continua trabalhando até hoje, com mais de cem anos de idade - não abstante o verso de seu poema acima mencionado.
Não estranhem, portanto, se algum dia me encontrarem trabalhando.

30 de janeiro de 2011