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3 de nov. de 2023

Certa noite em Belô

        Professor de geometria. Competente e ambicioso. Não aquela ambição que motiva e impulsiona à riqueza, mas a que lhe desse melhor qualidade de vida, talvez até casar e constituir família. Ambição natural e saudável.

        Nesse sentido, tinha duas matrículas: uma na rede pública estadual, outra em rede particular. Nesta última progrediu rápido até chegar a supervisor de ensino. Agora está bom, pensava. Podia casar, alegrava-se.

        Em tratativas pertinentes ao cargo, precisou deslocar-se à sucursal de Belo Horizonte, cidade que não conhecia. Após desincumbir-se da missão que o levara, ao cair da tarde, passeou pelo entorno do hotel em que se hospedara.

        Corria um vento persistente e brincalhão, a mexer-lhe os cabelos, levemente frio. Pensou em sentar-se a um bar e beber algo quente. O bar estava lotado, pediu licença a um senhor solitário em mesa na calçada e iniciou conversa:

        — Sou do Rio de Janeiro, vim a trabalho. O senhor é ...

        —  Mineiro. O povo de Minas gosta muito do Rio. Quando eu era moço ia muito na praia de Cabo Frio. Conheço também Copacabana.

        — E o que me diz de B H, o que tem de bom por aqui?

        — Aqui tem muito trem bom, uai!

        — Por exemplo? 

        — Mulher bonita, bebida boa...

        — O que está bebendo?

        — Batida de coco com leite Moça.

        — Leite condensado?

        — Só um tiquinho, pra melhorar o sabor.

        O carioca chamou o garçom e pediu a batida de coco com leite condensado. Bebeu-a quase de um gole só, tão gostosa que era.

        — Deliciosa!

        — É...

        — Garçom, mais uma. E pelo mesmo caminho foi a segunda batida.

        — Magnífica!

        — É...

        E já na terceira dose:.

        — Divina! Desce redondo, redondinho.

        E o mineiro, olhando com algum espanto o carioca, mas com ligeiro sorriso no canto da boca:

        — É. Mas costuma subir quadrado, quadradinho.

        Então o professor começou a sentir zonza a cabeça e um suor frio a escorrer- lhe das frontes. Tentou levantar- se , as pernas tremeram. E quando conseguiu ficar de pé, cambaleou, endireitou-se e seguiu, aos trancos e barrancos, rumo ao hotel. Entrou no quarto e desabou na cama.

        Nessa noite não sonhou com belas mulheres e prazeres tais e quais. Nessa noite sonhou com a quadratura do círculo.*


* PS: problema geométrico proposto pelos antigos gregos e que consiste em construir um quadrado de área igual à de um círculo dado, usando apenas compasso e régua não graduada, recursos que os gregos possuíam, permanecendo insolúvel durante cerca de 25 séculos. Atualmente é resolvido por meio de cálculos algébricos. 



20 de jan. de 2011

Nada além de cinco minutos


O homem falava sério, com ares de expert e atitude de quem ia revelar um grande segredo ou conhecimento relevante, restrito aos poucos que acumularam sabedoria ao longo da vida:
- Aprendi com meu pai e vou ensinar pra você. Preste atenção, não vou repetir. É o seguinte: não converse com uma mulher por mais de cinco minutos; nesse tempo você tem que conquistá-la ou derrubar na cama. Se não conseguir em cinco minutos, desista. Se continuar conversando, vira coleguinha. E coleguinha de mulher é viado!
Putaqueopariu! Preconceito machista maior não pode haver!
Alerto, porém, que não estou generalizando; não é a visão do subúrbio, mas a de um suburbano anônimo, em suas próprias palavras, entreouvidas à porta de um botequim.
Mas se o preconceito e o machismo podem chegar a tanto – e com a convicção de sabedoria -, não é de estranhar que as mulheres e os homossexuais sejam, frequentemente, vítimas de violência e discriminações variadas.

 
OBS: Esta crônica foi publicada originalmente no fanzine Visão Suburbana, edição de dezembro de 2010.