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9 de abr. de 2024

Malandro demais também se atrapalha

          O marido de D. Maria era oficial de máquinas da Marinha Mercante, e nessa função ausentava-se em viagens longas e demoradas. Sozinha nessas ausências, Maria fechava portas e janelas de sua casa em bairro de Belém do Pará. De tal modo sentia-se mais segura.

          Certa feita, notou que alguém cutucava, por fora, a parede junto à porta, mais ou menos na altura da fechadura. Quem quer que fosse, não tinha boas intenções, por óbvio. Pretendia abrir buraco, introduzir a mão e abrir o trinco, adentrando na casa, deduziu Maria.

          Calmamente, sentou-se em cadeira frente à porta e esperou, facão na mão.

         Terminada a violação e introduzida a mão, Maria desfechou-lhe um golpe. O malandro saiu correndo e sangrando.

          Calmamente, Maria lavou  o sangue derramado na calçadinha entre a porta e o portão.

   

12 de fev. de 2015

O valor de uma noiva

Apesar de grande leitor de jornais durante a minha juventude e maturidade, ultimamente quase não os leio. Compro um exemplar, vez por outra, quando encontro uma manchete que me chama a atenção.
Em O Globo de 12/11/2014, pág. 27, encontrei uma história interessante, sob o título “Coração partido”. Na China, no dia 11/11, comemora-se o Dia dos solteiros. É o dia de multiplicar esforços para conseguir um par definitivo, o dia de contratar um casamento. Um jovem chinês, que economizara durante mais de dois anos, resolveu inovar em sua proposta de casamento à namorada, comprando 99 celulares de última geração pelo equivalente a 79 mil dólares. Comprou flores e dispôs os aparelhos, ainda nas caixas, formando um grande coração no piso da praça, reuniu os amigos à volta e pediu que filmassem tudo do alto de um edifício. Chamou a namorada para o centro do coração grande e fez o pedido apaixonado. Recebeu um retumbante NÃO! Virou caçoada na Internet!
Só para lembrar, caríssimos amigos; a China vem aplicando, desde os anos 80, uma política de controle da natalidade conhecida por “política do filho único”, o que está levando a um desequilíbrio demográfico de gênero: no censo de 2.000 constatou-se o nascimento de 119 meninos para cada 100 meninas. E esta tendência só deve agravar-se! As famílias estão praticando o aborto seletivo contra os fetos femininos, quando não infanticídio, abandono nas ruas e orfanatos públicos - que nada mais são que precários depósitos de crianças. Um horror!
E esse descaso com a mulher não é só na China: também na Índia e em outros países do Oriente Médio.
Nessas regiões (e não só), a discriminação, o preconceito, a violência e a negligência contra meninas e mulheres são o traço comum e forte de sociedades patriarcais conservadoras – traço comum e forte oriundo de sociedades medievais, e de mais além, já perdidas no passado, mas ainda presentes em culturas  atuais, em graus maiores ou menores, onde a mulher “tem pouca serventia” na família.
Ah!, meus caros, se mais não digo é por não afligir meu coração! Mas as mídias nos trazem constantemente relatos dessas atrocidades mundo afora!
A mulher tem sim, toda “serventia” na família, no mundo, no universo! A mulher é parceira, cúmplice e sócia majoritária no mistério da vida! E ainda lava louça!…
Mas voltemos à história do jovem chinês que recebeu um retumbante NÃO!
É cada vez mais difícil encontrar uma noiva, uma esposa. E algumas famílias chinesas já importam noivas para seus filhos! Não é de estranhar, portanto, o esforço inusitado e frustrado do jovem chinês. A continuar essa tendência (e continuará), talvez a mulher se valorize pela escassez, no âmbito das velhas e boas leis de mercado: oferta e procura. Por linhas tortas, quem sabe, se endireita a escrita sobre a mulher oriental. Se assim for, aleluia!
Desculpem a analogia com o mercado: a mulher não é mercadoria.
E convenhamos, caríssimos, acho que fez bem a noivinha chinesa não aceitando atrelar sua vida à de um cara tão falto de imaginação! Tanta coisa para ofertar, além de seu amor: sapatos, bolsas, relógios e jóias, mesmo que bijuterias de qualidade, perfumes e cosméticos, doces, que chineses são sempre magrinhos… Vá lá, um ou outro ícone tecnológico… mas 99 celulares! Um refinado idiota!

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7 de mar. de 2014

Uma história de carnaval


Este ano não fui para Maricá, como de hábito, e resolvi reler um livro que gosto muito: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Desde a juventude, é a terceira ou quarta vez que o leio. Desta feita, por andar com veleidades de escritor neófito, li-o com atenção redobrada, cuidando das palavras desconhecidas ou pouco íntimas, dicionário ao lado; e do estilo do autor, de sua técnica narrativa, de como vai construindo a trama, à maneira de um delicado mosaico, peça a peça, sutileza a sutileza, deixando pistas aqui e ali, um argumento acolá, novos indícios e dúvidas mais além.
Trata-se do clássico e sempre recorrente triângulo amoroso: neste caso Bentinho, Capitu e Escobar. Mas é, antes de tudo, o romance da dúvida. Dúvida para o leitor, que ao fim não tem convicção formada: Capitu traiu ou não traiu? Depende do leitor; em verdade ninguém sabe, ninguém viu.
E que mulher, a Capitu! Ah! Bentinho, por que tinhas de ser tão casmurro? Tão melhor seria que fosses mais generoso e menos ciumento, e assim viverias o resto dos teus dias navegando num mar de delícias com a tua Capitu… Mas neste caso também não teríamos esta obra prima do bruxo do Cosme Velho…
…Perdão, leitores. Perdoem o meu envolvimento. Eu pretendia contar uma história de carnaval, se é que não me enganei no título. Pois vamos a ela, sem mais delongas.


Li pra mais da metade do livro na segunda-feira de carnaval. À noite recebi uma ligação da mãe de Yasmin, que voltou a morar com a pequena na vila militar do Galeão, convidando para um churrasco em sua casa, na terça. Fui. Numa sacola levei 1Kg de contra-filé e uma sobremesa preparada por Rita, que não quis ir. Para ler no ônibus, levei o Dom Casmurro. Antes não levasse…
Depois do churrasco que, para desgosto do meu estômago foi servido lá pelas tantas da tarde, fomos todos espairecer no Complexo Recreativo, onde nesses dias sempre rola alguma coisa. As mesas da varanda quase lotadas, crianças fantasiadas dentro do salão, brincando com serpentinas e confetes. Deliciosas marchinhas carnavalescas – dos carnavais antigos – é o que havia de festa momesca. Não que a família militar não seja animada  – já fui a grandes bailes de carnaval em clubes militares – mas há que ter quem os organize e o Complexo serve mais para comemoração de aniversários, batizados, natal e outras datas do tipo, em suma, para a distração, o divertimento e a prática de esportes no dia-a-dia dos moradores da vila.
Sem ânimo momesco nas veias - lembrem-se que estava lendo um livro -, dei uma espiada no salão e dirigi-me discretamente para a varanda dos fundos, onde também há um barzinho, no pressuposto que meus acompanhantes preferissem ficar na frente. Sentei-me e ataquei de Dom Casmurro.
Dentro em pouco estava rodeado por meus convivas e mais além três mesas se juntavam para acomodar uma família, esta sim, com espírito carnavalesco: os dois homens, um mais ou menos da minha idade e de cabelos brancos e o outro mais jovem, que mais tarde vim a saber tratar-se de seu genro, ambos fantasiados de mulher. O senhor de cabelos brancos eu já conhecia desde a matinê de domingo, quando estive no local acompanhado por Rita, Yasmin e seus familiares. Na ocasião, este senhor, enfiado no mesmo vestido e a cara borrada de maquiagem, sapecara-me um beijo no rosto com as graças típicas e caricatas da fantasia. Tudo se deu entre risos e galhofas.


Como os do meu grupo aparentemente não se incomodavam que estivesse lendo, continuei lendo. A certa altura o senhor/senhora de cabelos brancos, dirigindo-se ao banheiro masculino, parou ao meu lado e, com trejeitos afetados e voz de falsete feminil, convidava-me ao banheiro para ajudá-lo num “serviço”. Já meio sem jeito, mas ainda com ferpley, disse-lhe que não fazia serviços desse tipo; rimos e apertamo-nos as mãos. E foi risota geral.
Agora a trama estava chegando ao clímax, atenção redobrada na leitura, foco total na desventura dos dois amantes; eu não estava ali com os meus, estava com Bentinho e Capitu… Então veio o susto e a minha reação automática e incontrolável, como no estouro inesperado de um rojão: levantei-me quase de um pulo, abrindo  os braços e afastando com energia as duas “senhoras” importunas que tentavam beijar-me o rosto, uma de cada lado.
- Não! Não! Brincadeira tem limite, pô!
Não, creio que não disse palavrão, mas não estranharia se tivesse dito. Assustei-me com a surpresa do ataque das “senhoras” num momento de extremo envolvimento literário. Quase fervi de irritação por me terem tirado do enleio em que me achava. Desta vez não houve risos, mas caras espantadas.
Escusado dizer que dali em diante não havia clima para continuar lendo; terminei o livro na quarta–feira de cinzas.
Já calmo, passei na mesa das “senhoras”, expliquei-lhes a minha reação e pedi desculpas; também as recebi, efusivamente, com apertos de mãos e tapinhas nos ombros.
E o riso voltou. Era carnaval. Evoé, Baco!

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26 de dez. de 2012

Agora temos celular - viva o celular!

Não pensem que usei o plural majestático. Não. Refiro-me a "nós" - humanidade. Eu continuo a não usar esse aparelhinho maravilhoso. Não faço parte da humanidade, ou melhor, estou auto-excluído da modernidade.
Amanhã ia viajar para Maricá, passar lá a virada 2012/2013, levando comigo a Yasmim. Tudo combinado, a menina empolgada, contando os minutos. Sua mãe me telefonou há pouco desmarcando o que estava marcado. Motivo: a menina perdeu o carregador do seu celular, já não dava para comprar outro, a viajem tinha de ser adiada. Sem celular, como ela poderia se comunicar com a filha, saber se chegara bem, etc, etc, etc?
Em que pese o cuidado da mãe com a filha, eu fico encucado, pensando: como é que as pessoas viviam antigamente, sem celular? Como é que a humanidade conseguiu sobreviver e chegar ao século XX, sem esse aparelhinho maravilhoso, já que hoje nada se faz, nada se resolve sem ele? Mesmo as coisas mais banais. Me ajudem a entender esse mistério da sobrevivência humana. Por favor!

5 de abr. de 2012

De Bolos e Brioches


Diz que a rainha Maria Antonieta, nos começos da revolução francesa, tendo sido informada por seus ministros que o povo não tinha pão, teria dito: "Não têm pão? Pois comam bolo!". Ou brioches, sei lá. Por essa e por outras Maria Antonieta perdeu a cabeça na guilhotina!
Pois hoje topei com uma figura bizarra que parece seguir o conselho cínico da rainha francesa.
Eu estava no caixa do supermercado passando as compras do mês e de olho no monitor de vídeo, preocupado com a conta que subia. Este foi um mês que tive um orçamento apertado e combinei com minha mulher cortar alguns itens supérfluos, como iogurte e a minha garrafa de vinho.
A figura aproximou-se e pediu algo que não entendi. Disse que não tinha dinheiro, ia pagar no cartão. Retrucou-me dizendo que não queria dinheiro, mas que lhe pagasse o pacote que trazia numa das mãos. Na outra tinha algo que já havia sido pago por outra pessoa. Cedi. A caixa digitou o valor e o homem foi embora. Só depois, alertado por minha mulher e pela moça da caixa, me dei conta do que fizera: pagara para o mendigo um finíssimo bolo que nem mesmo eu costumo comprar. E na outra mão o homem levava um pedaço de queijo!
Não pude deixar de comentar: "Fosse eu, enchia de pão uma sacola e pedia que alguém pagasse".
Mas o mundo mudou, mudaram os pobres...
E eu, que cortei o iogurte dos meninos e a minha garrafa de vinho, me senti um idiota!

27 de set. de 2011

Estórias da Carochinha


Sábado (24) levei a minha netinha ao teatro (tenho o privilégio de morar num bairro que tem teatro) para ver João e Maria, que todos vocês conhecem. Se não conhecem, deveriam. Há o que aprender sim, nessas estórias recheadas do que se convencionou chamar de senso comum – a sabedoria popular traduzida em tramas simples e de fácil compreensão.
Digo isto porque ontem (domingo) folheava uma revista quando li a seguinte notícia-crime:
Uma mulher contratou um ex-presidiário para matar outra mulher, sua desafeta. Ao intentar o crime, o homem reconheceu na vítima uma ex-amiga de infância e resolveu poupá-la. Amordaçou-a, encheu-lhe o corpo de ketchup e enfiou-lhe um facão entre o peito e um dos braços, simulando (muito mal) o crime. Tirou foto e levou-a à contratante, que se deu por satisfeita, pagando-lhe 1.000 reais, conforme o combinado. Dias depois a contratante viu-se lograda ao encontrar "algoz" e "vítima" aos abraços e beijos na pracinha do bairro. Não deixou por menos: foi à polícia e deu queixa de roubo! O delegado intimou o "ladrão" e soube de toda a história. Conclusão: os três acabaram indiciados; uma por ameaça de morte, os dois outros por extorsão.
Não pude deixar de relembrar de outra estória: Branca de Neve e os Sete Anões.
Para quem já esqueceu, eu lhes conto um pedaçinho, justo aquele por quase tudo igual ao fato descrito acima. A bruxa-madrasta de Branca de Neve, por inveja de sua beleza, mandou que um serviçal a levasse à floresta e a matasse, trazendo-lhe como prova o coração da princesa. O homem apiedou-se, libertou a princesa e matou um cervo, levando à bruxa o coração do animal.
Descobrindo-se lograda, o que fez a bruxa-madrasta? Foi dar queixa à polícia, ao rei, ao chefe da guarda ou lá a quem quer que fosse? Não. Engoliu o sapo, consultou o espelho mágico para descobrir o paradeiro de Branca e foi pessoalmente tentar dar cabo dela, oferecendo-lhe a maçã envenenada.
Ahhh, já não se fazem mais vilãs como antigamente!
Todo bom vilão ou vilã tem de ter um mínimo de inteligência! Se não tem, dá no que deu.
Para encerrar, um conselho para as três personagens da notícia supra: aproveitem o tempo em que ficarão trancafiadas para ler as estórias de D. Carochinha. E aprendam, panacas, que até no mundo do crime é preciso ter, senão inteligência, um mínimo de ética.

14 de ago. de 2011

Orgulho, orgulho, orgulho...


Apesar de não ler jornal diariamente como fiz outrora, nem acompanhar religiosamente a mídia televisiva, que nos traz todos os dias notícias de crimes e violências e toda sorte de roubalheiras, quer na esfera privada, quer na pública: apesar disso, li numa revista que a Câmara Municipal de São Paulo aprovou projeto instituindo o Dia do Orgulho Heterossexual – evidentemente um contraponto ao Dia do Orgulho Gay. Ora pois...
Para que tanto orgulho, gente? Devíamos era ter vergonha do que está ocorrendo neste país, mas deixa isso pra lá, que não quero afligir meu coração. Mas ainda assim o aflijo...
Orgulho. Orgulho gay, orgulho hétero, orgulho de origem, de classe, orgulho político, ideológico, religioso, orgulho de ser flamenguista, de ser branco, de ser preto, orgulho disso e daquilo... É muito orgulho, gente! Somos uma raça de orgulhosos!
Nada contra o brio pessoal, o amor-próprio e a auto-estima, que são normais e sadios, e que fazem as pessoas sentirem-se bem e conformes ao que são. Porém o orgulho exagerado é soberbia, é arrogância! E não será a arrogância a fonte de onde brotam os preconceitos e, por consequência, a discriminação? E a discriminação não levará ao desentendimento e à violência?
Creio que devemos focar na igualdade e não exacerbar as diferenças por meio de todos esses orgulhos. Mesmo que acentuar as diferenças pareça "politicamente correto". As diferenças devem ser tratadas, não com orgulho, mas com respeito. O bom e velho respeito. Só.