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19 de jan. de 2016

A viagem que começou há mais de trinta anos


Há trinta e três ou trinta e quatro anos, não sei precisar exatamente, passei por Paranaguá voltando de uma viagem que fiz ao Sul em companhia de Rita, minha irmã mais velha e duas sobrinhas; dirigia uma Brasília e subi a Serra do Mar, entre o litoral e Curitiba, por uma estrada encantadora, florzitas à beira, entre a exuberância da mata atlântica. A estrada, uma das antigas trilhas abertas pelos índios que iam do litoral ao planalto colher pinhões, melhorada posteriormente pelos colonizadores, creio que fosse a Estrada da Graciosa, naquela época ainda com trechos em paralelepípedos e outros em terra batida. Agora a terra batida virou asfalto, mas a graça da estrada perdura, não mais com singelas florzitas, mas touceiras e touceiras de hortências azuis à beira. Embora, a meu gosto, preferisse as florzitas.
Porém o que mais me encantou naquela travessia foi a vista de um trenzinho maria-fumaça parado numa estação em meio à floresta. Àquela época, de há muito trafegavam as locomotivas a diesel, mas ali estava uma a vapor, a maria-fumaça da minha infância. Não pude parar para apreciá-la melhor e bisbilhotar-lhe a presença longeva e sua vida pregressa naquele mundo verde. Mas não a esqueci, sua imagem permaneceu em mim.
De lá para cá tenho visto muitas fotos de litorinas ou trens de tração diesel atravessando pontes ou viadutos da estrada de ferro Paranaguá-Curitiba. E sempre com a imagem daquele trenzinho maria-fumaça na mente, alimentei o desejo de um dia viajar naqueles trilhos, não só pelo trem, mas pelo grandioso cenário em que ele trafega.


Passando pelos mananciais de Piraquara

Desejo saciado. O trem, com dezoito carros e duas locomotivas, partiu lentamente de Curitiba apitando nas passagens de nível, enquanto a guia turística resumia fatos da história da ferrovia e distribuía o kit lanche. Em Piraquara, antes da descida, uma parada técnica para dar passagem a um trem de carga que subia. Depois sucederam-se as emoções: o Túnel do Diabo com quinhentos metros de escuridão, a cascata Véu da Noiva, mais túneis, a arrojada ponte São João, sobre o rio de mesmo nome, e o ápice da viagem, o Viaduto do Carvalho contornando as escarpas do Desfiladeiro do Diabo, onde o trem parece flutuar no espaço; no alto, quase furando as nuvens, o Pico do Diabo que, segundo a guia turística, visto de certo ângulo semelha um cão sentado de costas. Cenário grandioso! Se alguns topônimos são do diabo, a paisagem é divina!


Rumo à descida

























Um dos muitos túneis. O braço em primeiro plano é do
 meu filho Daniel


























A exuberante mata atlântica


























Cascata Véu da Noiva 


























A arrojada ponte São João, principal dificuldade técnica
 na construção da ferrovia


























O rio São João

























Ao fundo, a ponte São João


Ao fundo, o início do trem






O Pico do Diabo, coroando o desfiladeiro do mesmo nome

E mais túneis, o Santuário do Cadeado e uma cruz à beira da ferrovia. Neste ponto, durante a revolta do Contestado, foram assassinados um tal Sr. Barão e seus asseclas, que iam presos de Paranaguá a Curitiba. Outra parada na estação do Parque Estadual de  Marumbi, única em operação no trajeto, onde alguns aventureiros saltam para acampar.



Estação do Parque Estadual de Marumbi

Em Morretes, fim da viagem de trem (os de carga seguem até Paranaguá), almoçamos o prato típico da região, o barreado. Até Yasmin gostou.
Pela tarde fizemos um breve tour pela cidade de Antonina, antiga cidade portuária, para a qual a ferrovia estendeu um ramal, ora desativado (e creio que de há muito). Vi a estação ainda preservada e a caixa d'água elevada, com mangueira para abastecer as locomotivas a vapor - verdadeiro museu a céu aberto. Compreendi que aquela maria-fumaça que vi há mais de trinta anos estaria parada em alguma estação deste ramal, àquela época teimosamente ainda operando com tecnologia a vapor. Voltamos de ônibus pela Estrada da Graciosa, que inicia justamente em Antonina.

Os amigos que tiveram paciência de me ler até aqui devem estar pensando: Que gosto esse do Vô Tônico! Trens, locomotivas, maria-fumaça, que coisa mais antiga e atrasada! Que gosto mais sem jeito!
Digo-vos, meus queridos, gosto de trens porque eles fazem parte da minha vida desde o início (vejam Cacos da Memória). E como diz o meu amigo virtual mineiro Sylvio Bazote: "Gosto de trem porque trem é um trem bão, uai!".

17 de jan. de 2016

Um turista em apuros

Fui ao Sul conhecer Curitiba. Levei a família. Pretendia dar uma esticada até Morretes e Antonina, no litoral paranaense, viajando no trem da ferrovia Paranaguá-Curitiba; e ainda visitar um amigo no balneário Camboriú, em Santa Catarina, e levar a Yasmin ao Beto Carrero. Hospedamo-nos num hotel próximo da rodoferroviária para facilitar a logística.
Visitar o amigo não foi possível, por motivos alheios à minha vontade, mas o resto do programa se concretizou.


No ônibus da linha turística

Curitiba é uma bela cidade, bastante funcional e limpa, deslocamentos facilitados e muito verde, com seus muitos bosques e parques, alguns deles implantados a partir de antigas pedreiras desativadas. Um bom lugar para se viver. E uma cidade onde ainda vale a pena ter carro particular.



No Bosque do Alemão

Mas então onde estão os apuros do turista?
Para aproveitar o recesso laboral do meu filho Daniel, viajamos antes do Natal. Pretendia fazer a consoada num restaurante qualquer da cidade, pensava num prato de bacalhau, uma garrafa de vinho e rabanadas. Embarcamos no BRT curitibano rumo ao setor histórico - lá deveria ser o melhor lugar para consoar. Tudo fechado! Grupos de festeiros na rua, um ou outro bar funcionando, mas restaurantes, nenhum! Pegamos um táxi e fomos para Santa Felicidade, um bairro de feição italiana e polo gastronômico da cidade. Nem a santa ajudou! Encontramos dois restaurantes funcionando mediante prévio agendamento e outro sem, mas com enorme fila!
Meu filho Rafael já havia me advertido que talvez fosse necessário agendar, mas não lhe dei ouvidos, besteira dele. Como uma cidade como Curitiba não terá um restaurante onde se possa ceiar, qualquer que seja o dia? Nunca tal me passara pela cabeça!


Na Ópera de Arame

Desistimos. Antes ainda passamos pelo shopping Estação (antiga estação ferroviária), também fechado. Voltamos ao hotel e ligamos para um delivery: a ceia de Natal foi pizza com guaraná!
No reveillon não foi diferente. Compramos na rodoviária esfihas e pão de queijo. Com mate gelado.
Na virada do ano, da sacada do quarto de hotel, eu olhava o perfil da cidade, agora faiscante, contra o negro horizonte: despedidas ao ano que se ia e saudações ao que chegava elevaram-se ao céu em formas reluzentes e coloridas, expressões ruidosas de corações esperançosos.
E o primeiro dia do novo ano amanheceu, igual a todos os outros dias, sob o céu cinzento de Curitiba.

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No centro da cidade

4 de fev. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 11

Os Martírios de Goiás
Em crônica postada aqui, referi-me à leitura que fez a delícia da minha pré-adolescência: “Expedição aos Martírios”, que, juntamente com “Volta à Serra Misteriosa” e “O Bugre do Chapéu de Anta”, compõe a trilogia do “Roteiro dos Martírios”, obras infanto-juvenis de Francisco Marins. Cabe agora maior explicação sobre a referência que fiz, até por estarmos no Pará e próximos à região que outrora constituiu o norte de Goiás e hoje é o estado do Tocantins.
Martírios era a lendária serra aonde teria chegado o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva nos idos do século XVI. O bandeirante embrenhou-se pelos sertões do Araguaia e relata que na serra onde estivera o ouro brotava do chão. Em virtude de inscrições antigas encontradas nas rochas em “semelhança com a coroa, lança e cravos da paixão de Cristo”, deu-lhe o nome de Martírios. Voltando em busca do rio Vermelho, encontrou uma aldeia indígena do povo Goiá e engambelou os índios, tocando fogo numa tigela de aguardente e ameaçando queimar todas as águas e fontes, se os goiás não lhe indicassem o caminho do ouro. Os índios chamaram-no de Anhanguera – diabo velho.

Inscrições como estas deram nome à serra
O filho do Anhanguera, de mesmo nome e mesmo apelido, e que teria estado com o pai na serra dos Martírios aos doze anos de idade, por três anos explorou os sertões goianos em busca de Martírios. Não a encontrou. Encontrou, porém, ouro no rio Vermelho, que recebeu este nome em virtude do barro proveniente das lavras, e ali se estabeleceu com mandato real de capitão das minas; fundou o arraial de Santana, mais tarde Vila Boa de Goiás e depois cidade de Goiás – capital do estado – e agora conhecida por Goiás Velho. A história de Martírios rapidamente virou lenda.

Goiás Velho e seus becos

O rio Vermelho e a casa de Cora Coralina, à esquerda.
Atualmente o rio só tem essa coloração em época de
 chuvas fortes. No mais, é cristalino.

Ao tempo em que Francisco Marins escreveu o Roteiro dos Martírios, a serra permanecia uma lenda – jamais alguém a encontrara. O autor trabalhou esse mito e tantos outros do Brasil grande, criando uma obra memorável para a infância e a adolescência.

1º vol. do "Roteiro dos Martírios"
Francisco Marins












Tempos depois o engenheiro e historiador paulista Manoel Rodrigues de Oliveira, baseado nos relatos históricos e exaustivas pesquisas de campo, finalmente localizou Martírios. Trata-se da serra das Andorinhas, no município de São Geraldo do Araguaia, sudeste do Pará. A serra estende-se pela margem esquerda do Araguaia até a confluência deste com o rio Tocantins, região conhecida como bico do papagaio, extremo norte do antigo estado de Goiás. Claro está que ao tempo dos bandeirantes, não havendo fronteiras delimitadas, toda aquela região era “os sertões de Goiás”. Não muito distante de onde estávamos, considerando que são sempre longas as distâncias do Brasil grande.

O rio Araguaia, tendo ao fundo a serra dos Martírios/Andorinhas

Atualmente a serra é tombada e faz parte do Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas.


Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas
A região também foi palco de acontecimentos traumáticos na história recente do país: a guerrilha do Araguaia, de triste memória. Exterminada a guerrilha, o governo promoveu, no final da década de 1970, uma operação limpeza com o intuito de apagar vestígios do conflito. Ossadas foram desenterradas, queimadas, e os restos remanescentes levados à serra dos Martírios/Andorinhas e lá enterrados. Atualmente a Comissão da Verdade executa escavações no local na tentativa de resgatar vestígios que possam identificar guerrilheiros desaparecidos.
A lenda se desfez. Martírios permanece.

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3 de fev. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 10

No caminho das pedras parideiras
Despedimo-nos da Camaçari no dia 02/01 pela manhã, após o café. Voltamos por outro caminho, pela serra, caminho quase impossível em dias de chuva, mas cerca de 30 km mais curto.
Paramos na serra para fotografar as pedras parideiras, das quais já ouvira falar. O povo mais antigo destes lugares acreditava ou ainda acredita que essas pedras dão cria – filhotes que se espalham encosta abaixo e nas várzeas. Mas ninguém nunca explicou como se dá a concepção e o parto dessas pedras magníficas. Ninguém nunca flagrou esse momento, talvez por ser demasiadamente demorado – séculos! – para a curta existência humana. A natureza tem lá os seus mistérios. Mais um não faz diferença.

As pedras parideiras
Singelas e monumentais
Os filhotes, encosta abaixo
Bem mais adiante paramos à beira de um rio. Já estavam lá parados o Neguinho com a esposa. Era a “rodoviária”, segundo me disseram, lugar de parada para aviar as necessidades, refrescar o rosto e seguir em frente. Quem precisava se espalhou procurando moitas, também procurei a minha. Não lavei o rosto nas águas do rio, mas sacudi o pó das roupas e limpei com o lenço os cantos dos olhos. E comi duas colheres de frito com farinha, prato preparado para a ocasião. O único conforto dessa “rodoviária” foi a abertura de uma garrafa de vinho. Dividido pelos adultos, bebi dois goles. E fomos adiante.


Um tatu atravessou a estrada e Diogo deu ré, farejando um almoço diferenciado. O tatu não era besta e sumiu-se no mato. Melhor para ele: se desse bobeira, não haveria IBAMA que o protegesse.

Reparem nos meus cabelos "aloirados"
Chegamos em Redenção beirando a hora do almoço, as minhas cãs aloiradas pelo pó da estrada. Nunca antes desejara tanto um banho!


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1 de fev. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 9

Viva Laurita! Viva Juliana!
Quero aqui fazer uma singela homenagem às mulheres sertanejas de Serra Azul, nas pessoas de D. Laurita e de Juliana - com todos os respeitos e datas vênias que a circunstância requer e as senhoras merecem.
D. Laurita é esposa, companheira e suporte de José Barbeiro. É a mãezona que todos gostaríamos de ter e comanda o departamento mais importante de uma casa – a cozinha. Sei disso pois comi durante quatro dias na Camaçari.
Sobre ela se conta uma história: no início, para ajudar o marido, Laurita saía dirigindo uma velha camionete pelos lugares do sertão e nas cidades, comprando e vendendo porcos. Laurita dirigia mas não era habilitada, nem a camionete tinha a documentação legal e a manutenção necessária. Um dia foi parada numa blitz. O sargento disse: “Mas D. Laurita, a senhora não tem carteira e a viatura não tem documentos! O que é que eu faço com a senhora?” Laurita estava enrolada! Então veio o desenrolo: a oferta de um porquinho. O sargento considerou boa a solução e já escolhia um porquinho, quando Laurita lhe disse: “Não sargento, não é desses que vou lhe dar; tenho um agrado muito melhor lá na fazenda, uma porquinha já enxertada, vai dar cria logo, logo”. Laurita safou-se. E até hoje o sargento espera por sua porquinha enxertada.
D. Laurita gosta muito quando recebe visitas na fazenda, e quando vão embora não quer se despedir, esconde-se num quarto a chorar.



Juliana é flor silvestre, nasceu e cresceu no campo; é  jovem, esposa e mãe. Sua filhinha é muito bem cuidada. É escolada e ativa em todas as lidas de uma fazenda ou sítio – o braço direito da sogra Laurita. Monta a cavalo como anda de moto, ultimamente o meio de transporte mais utilizado no sertão. E estuda na Universidade à distância. Me chamou a atenção por ocasião da busca ao milho verde, quando tão bem soube conduzir aquela tarefa. E mais impressionado fiquei quando, no réveillon, apareceu produzida, linda e elegante de causar inveja. Neca, meu querido, cuida bem dessa mulher! Com todo o respeito.

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30 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 8

Um réveillon inusitado
Boa parte da população de Serra Azul comparece ao réveillon da Camaçari. O acesso à fazenda fica lotado de carros e motos. Churrasco tem para todos (bebida não). E neste ano o forró foi incrementado com luzes estroboscópicas e fumacinha artificial, por obras e artes de Pedro e Diogo. José Barbeiro percorre o pátio cumprimentando os que chegam e me leva consigo; diz que vamos fazer uma ronda para ver se está tudo em ordem. Está. As pessoas ficam ao largo, mas aos poucos se aproximam, se entrosam, e mais um pouco algumas já estão dançando na varanda.


José Barbeiro tem por hábito e gosto, por ocasião da passagem de ano, exercitar sua verve e sua veia política, discursando um pouco antes da meia noite. Fui convidado a dizer algumas palavras, depois de outros e antes de José, que encerraria o falatório. Além da praxe de agradecer pelo bem que passou e desejar saúde e paz no ano que estava por chegar, falei da minha satisfação em estar ali, em conhecer aquelas pessoas simples e autênticas e conviver com elas - as que sabia o nome e as que não sabia, as da fazenda e as de Serra Azul. Eu fora tratado por todos com muita consideração e carinho. E carinho ninguém esquece. Disse que levaria deles  saudade e deixei com eles a promessa de voltar.


José discursou tão inflamado que temi pudesse ele enfartar ou sair voando pelo espaço, tal era o gestual que acompanhava a fala. Porém a técnica esqueceu de acender as luzes e o orador discursou no escuro.
À meia noite estouram dois singelos rojões. Olho para o alto. O céu está lindamente estrelado como só no sertão se pode ver!

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21 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além -7

Um gaúcho longe do chimarrão

Da parentela que foi chegando para o réveillon, o que mais me chamou a atenção foi o Galego. É casado com uma irmã de D. Laurita. Gaúcho de ascendência holandesa e tcheca, cabelo aloirado e roupas triviais, dança forró como ninguém, sempre conversador e enturmado. Em nada denuncia um gaúcho; em nada faz lembrar erva-mate, bomba e cuia.

Neguinho e Galego
É pecuarista em região próxima. Vindo de uma cultura mais sistemática e fechada, não teve dificuldades em adaptar-se à cultura deste Brasil grande e credita o fato ao temperamento cordial e alegre do povo brasileiro. Diz que esse jeito de ser do brasileiro só facilita o entrosamento de povos, o caldeamento de culturas. E isso é bom para o Brasil, diz Galego (perdoem não saber o nome).

Galego (sentado) e José Barbeiro
E vai por aí o nosso gaúcho. Está iniciando a inseminação artificial em seu rebanho e convenceu o José Barbeiro, um criador tradicional, a criar porcos enxertados de javali. Eu comi uma costela desse porco e é uma delícia, quase sem gordura. José já não quer outro porco.
Gaúcho dá outro exemplo: "Aqui não se ordenha sábado e domingo porque o Laticínio não recolhe o leite nesses dias. No sul de onde eu venho, usa-se o leite desses dias para fazer queijo. O que falta é informação".
Enquanto isso, em Redenção, é comum procurar queijo na padaria e não encontrar. Gaúcho acredita que é só questão de tempo e informação. Amém!

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20 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 6

Expedição ao milho verde
Último dia de 2013.  A manhã chegou envolta em névoa baixa. Francisquinho disse: “Névoa baixa é sol que racha”. E foi. Logo depois a névoa se dissipou e o sol veio rachando.
Iam matar uma novilha para a churrascada da passagem de ano. Não me apetecia o espetáculo e preferi ir com o José Barbeiro visitar o córrego e o tanque para piscicultura. Para tal calcei um par de galochas, gentilmente cedido pelo anfitrião. Quando voltamos a novilha já era descourada e havia outra missão em preparo: buscar milho verde para fazer pamonha e curau. Eu já havia ajudado a minha cunhada Neuza a fazer o doce de leite, mas apenas pegando a colher de pau e mexendo o leite no tacho. Nem mais podia fazer. Eu queria participar de alguma coisa, de algum procedimento na fazenda. Se por mais não fosse, ao menos para ter uma história pra contar. Quem ia cumprir a tarefa era a Juliana, acompanhada por um menino. Ninguém mais se dispunha? Tanta gente e Juliana vai quase sozinha?
Neguinho procurava voluntários. Apresentei-me. Em seguida também minhas duas sobrinhas, Gabriela e Daniela se dispuseram. O marido desta última, o Rafael, ia ao volante da F 1000, nosso pau-de-arara. Nem cogitava a necessidade de tanto aparato para ir ali, numa rocinha de milho… Vai ser moleza. Juliana ia na cabine, mas de última hora resolveu subir  à boleia. Melhor para mim.
E roda rolando na estrada. Perto da vila de Serra Azul bifurcamos noutra estrada, e mais além, noutra. Para quem, como eu, imaginava uma rocinha de milho ali adiante, já estava demasiado longe. Fui pensando no caso: em terras de pecuária, uma rocinha de milho e outros produtos corriqueiros é difícil e quase sempre longe. A pecuária extensiva também estava por trás do que veio a seguir: a primeira porteira. Gabriela desceu da boleia e abriu-a. Depois a segunda, Gabriela idem. Dali em diante compreendi a função do carona na cabine e passei a descer rapidamente para abrir porteiras e colchetes. E foram muitas porteiras e colchetes!
Já no sítio dos pais de Juliana, que estavam viajando, largamos o pau-de-arara e seguimos rumo ao milharal. Juliana no comando da expedição, a cavalo,  e eu atrás, brincando de cabo cerra-fila, cuidando da retaguarda da tropa, não vá um soldado se dispersar ou perder.
Próximo ao destino, a comandante apeou e amarrou o cavalo à sombra de um arbusto. Seguimos mais uns cinquenta metros a pé, embrenhamo-nos no milharal, onde preferi encher um saco com as espigas colhidas pelos outros. O sol rachava e rachava o meu entusiasmo! E eu não gostava de pamonha tanto assim! Mas restava o brio. Com as meninas, arrastei dois sacos de espigas até as proximidades do cavalo e sentei-me a descansar. Abelhas tiúbas (creio) entravam e saíam da fenda de um matacão chamuscado, o que indicava que elas refaziam a colmeia destruída anteriormente a fogo. Neguinho já me contara a história da expedição ao milho do ano anterior, quando foram atacados por um enxame de abelhas europa. Esconderam-se dentro do carro, mas os vidros não fechavam e o jeito foi sair correndo, para o lado que calhava, cada um por si e Deus por todos. Foi a salvação, pois as abelhas dividiram-se em perseguição aos fugitivos e, assim, não tiveram poder ofensivo suficiente para fazer vítimas. Afastei-me das tiúbas, apesar de parecerem pacíficas.
Quatro sacos de espigas. Juliana orientou a amarração dos sacos e o ajuste da carga ao cavalo. Iniciamos a volta. Mais à frente dois sacos foram ao chão, justamente aqueles que eu amarrara. Recomposta a carga, continuei na retaguarda da tropa, agora não só pela função de cerra-fila, mas a pedido do corpo. Próximo ao sítio, na estrada, deixei a soldado Gabi descansando sob uma árvore e segui no encalço do grupo. O cavalo e todos sumiram de repente. Segui pela estrada no intuito de descobrir a trilha de aceso ao sítio. Nada. Já pensava seguir até uma elevação da estrada para olhar o entorno, quando notei, à esquerda, a cúpula de um arvoredo conhecido: era o sítio. Que maçada! Logo eu, o cabo cerra-fila! Perdido! Desgarrado da tropa! Retornei, acessei a trilha e juntei-me aos companheiros, bem a tempo de beber água de coco providenciada por Juliana. Oh! delícia! A comandante ainda recolheu cocos verdes, abacates e ovos para levar á Camaçari.
Retornando, a maratona dos colchetes e porteiras! Por duas vezes abri colchetes e me fechei do outro lado. As meninas riam na boleia!
A esta altura os leitores já perceberam porque não apareceram voluntários para a expedição. E não só pelas abelhas europa do ano anterior.
Chegamos à Camaçari após o almoço. Não parei até que a carga estivesse na dispensa, eu mesmo carregando dois sacos no lombo.
Banhei-me e almocei. Estava moído. Prepararam-me uma rede à sombra do tamarindeiro. Deitei, procurando evitar uma réstia de sol no rosto. Desajeitei-me e fui ao chão, sob o  riso geral. Foi o último mico do dia.  

PS: A expedição não levou fotógrafo, por isso não há ilustrações.

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19 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além -5

A visagem Magnólia

A casa da fazenda tem apenas um banheiro, o que é plenamente  satisfatório para a família que ali vive. Porém em dias de festa como estes, com a chegada de mais parentela e convidados, o dito quarto de banho é pouco para a demanda. Na hora do banho, e também de outras necessidades, carece ficar à espreita, aguardando uma oportunidade. Antes que eu me adaptasse à circunstância e descobrisse um cantinho atrás do chiqueiro dos porcos, ficava, como os demais, de olho na porta do banheiro sempre que necessitava aliviar uma urgência sentida. Certa feita, ao anoitecer, vi a porta escancarada, entrei apressadamente, tranquei a porta e iniciei o alívio. Então me pareceu que havia alguém no box do chuveiro: eu via movimento de sombras como se alguém estivesse se enxugando ou vestindo a roupa. Olhei para cima, desconfiado que alguma mariposa esvoaçando em torno da lâmpada estivesse projetando aquelas sombras. Nada de insetos. Silêncio total. Mas havia alguém ali dentro. Que culpa tinha eu? A porta estava escancarada!
O jeito foi inclinar-me um pouco mais sobre o vaso e girar o corpo à esquerda, no  intuito de vedar à visão de outrem a imagem do instrumento em operação. Vá que fosse uma mulher ou criança!
Quem era eu não vi: abriu a porta do box, passou por trás de mim sem tossir nem mugir, destrancou a porta do banheiro e saiu, encostando-a em seguida.
Mais tarde, deitado na barraca, contei o acontecido à Rita; não sei se era homem ou mulher; criança não era – não seria tão discreta.

Eu e Neguinho, Francisquinho à esquerda
Pela manhã, à sombra do tamarindeiro, comentamos o caso. Não sei se era homem ou mulher, dizia eu, quando Neguinho atalhou, dizendo:
- Foi a visage.
- Como assim, a “visage”? Um fantasma?
- É moço. Muitas pessoas já viram, seu Zé também já viu. Era uma velha que morou na fazenda e morreu há mais de oitenta anos. Foi ao banheiro e estatelou-se no chão. Finou-se…
- E qual o nome da velha?
- Magnólia…
Neguinho é genro do José Barbeiro, eletricista, morador de Redenção e também trabalhador compulsivo. E nas horas vagas sempre alegre e divertido. Mas falou sério sobre a visagem.
- Com que então eu vim de longe a esta terra para ser assediado pela visagem da velha Magnólia? Mas rapaz!

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18 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 4

Breve história de José Barbeiro

A primeira impressão que tive foi a de um homem compulsivamente trabalhador. Mal chegado à fazenda, vi-o carregando uma braçada de folhas de palmeira para a cobertura que os filhos preparavam.

José é natural de Minas, mas foi criado em Natal, onde diz ter assentado praça no Exército Brasileiro, na década de 1960, exercendo o ofício de barbeiro. Fez curso de paraquedista, mas não o  concluiu, pois por três vezes o avião da Aeronáutica escangalhou. Também fez incursões pela Marinha… José fala muito desse passado militar, com entusiasmo e orgulho, conta histórias e lembra nomes de superiores e companheiros, até do seu n° de identificação, ensaia passos de ordem unida e bate continência; tudo em linguagem vivaz, apressada e escorregadia, que ao fim é difícil saber onde acaba a luz e começa o farol. O certo é que José foi e é um grande oficial barbeiro, a ponto de o ofício se incorporar ao nome.
Deu baixa do exército e voltou a Minas, de onde partiu para o interior do país. Chegou ao Pará, parou. Em Redenção. Montou salão de barbeiro e trabalhou, trabalhou. E casou. E no seu ofício conheceu os grandes do lugar.
Em demarcação de limites entre fazendas da região sobrou uma “cunha” de terra que não interessava aos donos, nem lhes fazia falta. Deram essa nesga de terra ao José Barbeiro.

José partiu para o seu “latifúndio” e começou a investir. Nessa região a terra já era muito valorizada e José vendeu-a por bom dinheiro, foi mais além, onde havia terras baratas, e comprou várias dezenas de alqueires, mais tarde acrescentados de outros tantos, e depois mais tantos… É a Camaçari de hoje.

- E tudo com o meu trabalho, diz José, orgulhoso. – Não é posse, não é invasão, não é grilo. Tudo comprado com papel passado e pago com o meu dinheiro, com o meu trabalho. E não quero sair daqui. Não quero Belém, não quero nenhuma capital. O meu lugar é aqui. Só quero poder me comunicar com qualquer lugar e a qualquer hora, quero a luz elétrica pra mecanizar a ordenha e aumentar a produção, quero...
Aleluia, José Barbeiro!

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17 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 3

Aventura na serra

Era sempre um dos primeiros a levantar, ainda no lusco-fusco da manhã. E sendo a fazenda produtora de gado e leite, minha primeira agenda na Camaçari foi ir ao curral apreciar a ordenha, a cargo do Veinho e do Neca, filhos do José Barbeiro. Depois do bom café da manhã, com cuscuz de milho e leite fresquinho, preparado ou orientado por D. Laurita, conheci outro personagem da fazenda – o Pedrinho – que andava a criar alvoroço entre as crianças no pátio, e segundo dizem, protegido de Juliana, a nora de Laurita, que entretanto não confirma a proteção ao sapinho. Mas dizem que o bichinho costuma agasalhar-se na cozinha e Juliana não se incomoda, até mesmo faz vistas grossas.

Pedrinho
Mas a aventura do dia já estava combinada desde o dia anterior: subir a serra que ladeia a Camaçari ao longo da estrada. Calcei um tênis e fui com os outros, adultos, jovens e crianças. Rita comigo. A serra não era grande nem alta, pouco mais que um outeiro, e pontilhada pelos matacões já nossos conhecidos. Essas pedras só ajudavam, serviam de degraus as menores e de patamares as maiores, onde sempre se podia descansar. Apesar do esforço, só via alegria e risos em quem subia. Andar no mato, subir e descer encostas, pode ser banal ao sertanejo, mas para nós, da cidade, é aventura. Talvez por esse gostinho exótico, teve gente que subiu “bufando que nem peba”, mas nem por isso descontente.

A Camaçari ao fundo
Degraus e patamares
Fui ao matacão mais alto e olhei em volta. Por trás havia outra serra, mais alta e mais difícil, onde brota a água que abastece a fazenda. Pretendíamos chegar até essa fonte, mas já não via disposição nos parceiros. Descemos, pois.
Ao descer, por um breve instante lembrei da leitura que fez a delícia da minha pré-adolescência: Expedição aos Martírios, literatura juvenil de Francisco Marins. Martírios é a lendária serra por onde teria passado o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva – o Anhanguera –  nos sertões de Goiás. Em Martírios o ouro brotava do chão! Nesta serra que eu descia, o que brotava do chão eram as formigas de fogo, miudinhas, vermelhas e terríveis em suas ferroadas. Safei-me delas olhando atentamente onde pisava.

Fim da aventura
No almoço, galinha caipira e rijões de porco, preparados no tacho, como outrora. Eita, trem bão! E uma geladinha, que ninguém é de ferro.
A modorra da tarde, porque todas as tardes são modorrentas, principalmente para quem não tem obrigações a cumprir, foi quebrada por estrepitosa trovoada e chuva grossa. Parte do prolongamento da varanda construído no dia anterior, ruiu. O nosso acampamento também sofreu: quase desaba o plástico que o cobria e uma das barracas teve de ser desmontada. 
Mas chuva de verão é passageira e pouco depois o forró já sacudia na varanda.

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15 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além


Segunda etapa da viagem

Íamos passar o réveillon numa fazenda de amigos a 130 km de Redenção. Em estrada de barro. Nada menos de quatro horas de viagem na boleia de uma F 1000 – o nosso pau-de-arara. Acordamos cedo para reunir a tropa e ajeitar a bagagem: barracas, colchões infláveis, churrasqueira, carvão, um razoável estoque de cervejas e refrigerantes, gelo, caixas e mesa de som, um pequeno gerador a diesel, lanternas e muitas outras miudezas necessárias, além de roupas e utilidades de uso pessoal. Era tanta a bagagem e tão pouca  a F 1000, que mal pudemos nos acomodar; éramos mais de quinze, entre crianças e adultos, e ainda o Nick, um cachorrinho poodle. Rafael quis ficar na cidade arrastando a asa às moças.

Preparando a viagem
E roda rolando na estrada.
Primeira surpresa: paramos numa cancela com guarita e funcionário a cobrar pedágio. Estou acostumado a pedágios, mas aquele não era cobrado pelo governo ou empresa legalmente constituída e licitada para tal, mas por particulares, donos das terras pelas quais enveredava a estrada. Fizemos uma “vaquinha”, pagamos o leite e seguimos. Não obstante, a estrada, dali em diante, só piorava. Na boleia, alegria.

A festa na boleia
E a paisagem, cheia de buritis e vegetação variada e viçosa, foi dando lugar a pastos cercados, entremeados por campos aparentemente livres, ou desprovidos de cercas. Enquanto passávamos, tranquila ema desfilava no campo. Mais à frente, matacões de granito (?) afloravam da terra entre o verde da vegetação rasteira; de variados tamanhos e formas arredondadas, alguns semelhavam ovos de algum ser gigante e desconhecido. Dali em diante estes seres insólitos e inesperados para mim, e que pareciam vigiar a estrada e a quem nela se aventura, se tornaram uma constante na paisagem.
Sobranceiro à estrada, na encosta de um pequeno outeiro, um desses insólitos matacões de granito. Pousadas nele, duas corujas arregalam os olhos. E um par de araras, no cimo de um pau de árvore, nos vigiam em silêncio. E o nosso pau-de-arara parado na estrada. Mais um pedágio!, fantasio eu.

O registro da nossa passagem
Não era pedágio, nem estávamos escangalhados, não. Era para pichar  no matacão uma inscrição assinalando a passagem da nossa comitiva. Diogo e Pedro, que para tal traziam spray branco na bagagem, providenciaram a inscrição: PAPIMARARIO 2013. Pará, Piauí, Maranhão e Rio. Nossa comitiva tinha representantes de grande parte do Brasil.
Rita saiu da cabine e subiu na boleia, ajeitando-se ao meu lado e misturando os seus pés aos vinte e quatro que disputavam, uns por cima outros por baixo, meio metro quadrado de espaço. Mas a boleia era mais animada! 
E roda rolando novamente.
Eu sabia que íamos para um lugar que não tinha luz elétrica, por isso observava a rede ao longo da estrada; antes completa, ativa, agora só os postes apontavam para o alto – uma esperança para as gentes daqueles lugares. E para mim sinal que não demorávamos a chegar.Mas ainda demorava!
Uma construção abarracada à beira da estrada, encimada por uma placa de madeira rústica onde se lia, em letras abertas a fogo: Bar risca a faca. Propaganda ou advertência? Desejei parar e tomar uma cerveja geladinha, mas em face da informação da placa, era melhor não. E mais agora, que a vontade  de chegar estava estampada na cara de todos. Urgia chegar.  Mais além, um bando de urubus cercava uma carcaça bovina e um odor putrefato encheu o ar. A viagem estava ficando sinistra! Urgia chegar! O pó da estrada já fazia lama no canto dos meus olhos!

Urgia chegar
Finalmente a vila agrária de Serra Azul, com três ruas em cruz e duas ou três dezenas de construções.
Mais 2 km de estrada cada vez pior e o nosso pau-de-arara traspôs a porteira da fazenda Camaçari. Os homens da casa construíam um prolongamento da varanda, com lona e folhas de palmeira, para maior conforto dos convidados. Era hora do almoço: ensopado de galinha caipira.

Forró na varanda
Pela tarde montamos o nosso acampamento e ao anoitecer roncou o gerador a diesel. E os equipamentos eletrônicos soltaram o som. E o forró foi noite a dentro.


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12 de jan. de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além

A primeira etapa da viagem

A partir do Santos Dumont, uma hora e vinte minutos de voo. Havia chovido forte em Brasília, aeroporto fechado, o avião circulou durante quinze minutos antes de aterrissar. Em consequência, todas as conexões atrasaram. Mais uma hora até Palmas, a cidade do pequi e das longas distâncias. Daí em diante tudo se complicou. Perdido o horário do ônibus, fomos aconselhados a seguir para Guaraí, às margens da Belém-Brasília, onde haveria mais opções e já minha velha conhecida. Haveria mais opções… se não fosse fim de ano, muita gente viajando. Todas as opções lotadas, passagens só no dia seguinte. Ou esperar a vam que sairia de Palmas às dezoito horas, com previsão de chegada às vinte e duas horas e o risco de já chegar lotada. E essa condução só nos levaria até  Conceição do Araguaia. Daí em diante eu contava com os parentes da minha Rita, que viriam de Redenção para nos resgatar. Ainda tentei uma lotada de táxi até Conceição por quase o dobro do preço das passagens; quando a lotada se completou, o preço já tinha subido. Aporrinhei-me com essa inflação repentina (mas previsível) e declinei da lotada. O jeito era pernoitar e prosseguir no dia seguinte. Mas a minha Rita já confabulava ao telefone, seus parentes  viriam nos buscar em Guaraí. Em boa hora, pois a vam realmente veio lotada de Palmas.

Canteiro central de uma avenida em Palmas
 (foto tirada na volta, porque na ida não houve chance)
As lanchonetes já fechavam as portas. O taxista aproximou-se, lá pelas tantas, sondando a possibilidade de reatar a lotada antes recusada e confiante na minha cara descorçoada pela espera.
- E aí, conseguiram alguma coisa?
- Os parentes da minha mulher veem de Redenção nos buscar. Não demora e estão chegando.
Só Deus sabe o gostinho com que lhe dei essa resposta!
Chegamos na madrugada do dia 28/12. Eu, Rita, Rafael e os parentes redentores Pedro e Diogo. Em Redenção, Sul do Pará, no coração geográfico do Brasil ou bem pertinho. Mas o destino final era mais além. Prosseguiríamos no dia seguinte.


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28 de set. de 2009

Parado à beira do caminho


Cheguei a Guaraí por volta da meia-noite para fazer conexão com o ônibus que vinha de Belém com destino ao Rio de Janeiro, chegada prevista às sete da manhã. Não quis pernoitar num hotelzinho, vá que me não acordassem a tempo, perderia a condução. E até ali a viagem já fora um tanto atribulada, melhor não arriscar mais transtornos.
Eu viera ao sul do Maranhão acompanhando minha sogra, que fora ao Rio em tratamento de saúde. Em Riachão fiquei alguns dias. O sul do Pará era a outra meta, onde visitaria parentes que ainda não conhecia na cidade de Redenção. Entre as duas cidades, o rio Tocantins.
O itinerário mais comum seria ir de Riachão a Carolina, na margem direita do rio, subir a Estreito, onde há ponte, descer pelo outro lado rodando na Belém-Brasília até Araguaína, e daí a Redenção. O ônibus passava às onze horas. Eu quis ganhar tempo e fui para Carolina, de onde um micro-ônibus me levaria a Araguaína, transpondo à balsa o Tocantins. O rio em nada atrapalhou, já o micro...
Demorou a sair o micro e ao fazê-lo retrocedeu à rodoviária, daí atravessou a cidade, chegando ao atracadouro quando a balsa já partia. Esperamos a próxima. Da outra margem (Filadélfia) seguiu célere, paradas poucas, mas nos arrabaldes de Araguaína iniciou-se uma irritante entrega em domicílio, com o micro desembarcando cada passageiro na porta de sua casa. E assim rodou toda a periferia, levou passageiros em restaurante na rodovia, onde fariam conexão e afinal desembarcou-nos na rodoviária, eu e uma senhora, apenas. Eram treze horas!
Perdida a conexão, fui almoçar.
Perdida não estava, atrasada sim, o ônibus quebrara na estrada! Chegou às dezesseis horas e trinta minutos, meia hora depois partia no rumo de Redenção.
Um dos meus interesses era ver o rio Araguaia, lindo e largo como diziam, ainda mais prenhe de águas, naquele verão prolongado. Não o veria na ida, a noite escondia tudo, quem sabe na volta.
Paramos no Posto Fiscal, divisa Tocantins-Pará, com os fiscais fiscalizando os papéis, como se neles estivessem os tráficos e contrabandos. Fiscalizar o ônibus nem vieram, melhor para nós, o atraso foi só de uma hora. A muito custo consegui arranjar comida num restaurante que àquela altura já não esperava clientes.
Além de Conceição do Araguaia e a vinte minutos de Redenção, furou-se um pneu ao ônibus! Mais uma hora perdida, o breu a três palmos do nariz; ai, se aparece um facínora!
Mas valeu bem a pena. Curti os parentes e a cidade, tanto quanto permitiu a chuva, que foi pouca em Redenção, mas torrencial em outras partes, do Pará ao Piauí, do Maranhão ao Ceará: transbordo de rios, cidades alagadas, encostas se derribando, pontes desmoronadas, vias obstruídas. Jesus, que água é essa!
De volta, disponibilidade de horários não havia, passagem só às vinte e duas horas. Novamente deixaria de regalar meus olhos com a visão do Araguaia. Paciência...
E paciência era o que eu precisava. Sem o que fazer, comecei a reparar no movimento da rodoviária.
Apesar de pequena, a rodoviária apresentava um fluxo de trânsito permanente, o que me deixava seguro. Ônibus chegavam de outras praças em demanda de praças outras; linha nenhuma fazia ponto final ou partia dali, todas chegavam de e iam para
Antes das sete perguntei ao funcionário da empresa se o ônibus estava no horário. Nenhum comunicado havia, sequer previsão de chegada. Às oito repeti a pergunta, às nove obtive resposta: rodovia obstruída na altura de Imperatriz, ônibus desviando a rota por Marabá, vai retornar a Imperatriz para embarque e desembarque, chegará às dezesseis horas... Jesus, haja paciência!
Com a esperança de matar o tempo com algum prazer, procurei um jornal na lojinha de bugigangas, mas nem jornal nem jornaleco, só revistas masculinas, de Playboy para baixo, e outras revistinhas safadas, rasteiras, pura pornografia. Que pena não ter trazido um ou dois livros na bagagem!
Chegava um ônibus de Belém para o Rio, de outra empresa e horário posterior ao meu. A estrada já está desobstruída, pensei, mas o meu ônibus dá voltas por Marabá.
Resolvi então dar vistas à cidade, tempo havia de sobra. Nada além de duas ruas paralelas à rodovia, uma de cada lado, mais algumas ortogonais, comércio comum para quem veio do Rio, aos locais nada faltava; vi três agências bancárias, duas brasileiras e uma espanhola; mais além uma construção singular, linhas retas e harmônicas, fumês nas fachadas e jardins ao redor, arquitetura moderna de qualidade, um palácio em lugar tão singelo. Que seria aquilo? Fui à frente ver de perto, era uma agência do Banco da Amazônia!
Comparando, as três agências anteriormente vistas funcionavam em prédios comuns da cidade, de há muito construídos, ora reformados e adaptados para a função bancária, de bancos comerciais e rentáveis. A outra, de fomento oficial, com verbas públicas de impostos sacados dos bolsos dos cidadãos, não podia ser menos que um palácio! Que rei governava ali, na incúria e no desperdício?
Pobre Amazônia! Pobres de nós!
Na rodoviária um pobre aleijado circulava acoplado a um pequeno veículo motorizado: pedia esmolas. Dei-lhe a minha contribuição e fui tomar café. O balconista quis saber de mim, pois me via ali desde a madrugada; disse-lhe do ônibus e do meu azar, respondeu-me que não era azar, era sorte. Que diabos quis ele dizer?
Depois de cochilar num banco após o almoço, o funcionário da empresa me procurou e disse:
- Vai atrasar mais três horas, o ônibus sofreu um assalto, retornou a Marabá para o competente registro policial, está saindo agora de Imperatriz, chega a Araguaína às dezessete, aqui às dezenove.
Chegou eram dezenove e trinta.
Embarquei para o Rio após vinte horas de espera e nunca tinha visto passageiros tão alegres e solidários. O sufoco por que passaram aproximou a todos. Estavam de bolsos vazios, mas vivos e inteiros.

 
Agosto de 2009