3 de out. de 2009

Aniversário




Fiz 63 anos há dias. Yasmin veio com a mãe e mal chegou entregou-me o presente. Sorriso e olhar de expectativa enquanto eu o desembrulhava: era uma camisa polo.
- Gostou, vô?
- Gostei, é muito linda – disse, mesmo que não fosse diria que sim, mas era de fato.
Depois da chaleirice de sempre e de palrar um bocado, perguntou:
Vô, vai ter bolo?
- Não sei, só se a vó encomendou em segredo, pra fazer surpresa.
Disse por dizer, sabia que não tinha bolo, nem docinhos, nem croquetes; o que havia era um almoço melhorado com dois pratos, lasanha e camarão com chuchu, refrigerante e uma garrafa de vinho, que me dera o meu cunhado Bil. E uma sobremesa caprichada e talvez pastéis.
Convidados também não havia, além da menina e sua mãe.
Nesta altura eu já não ligo para aniversário, se é que algum dia liguei. Nem há por quê: a coluna dói, o joanete incomoda, a vista não dispensa óculos, o topete desapareceu há muito e o vigor diminui a conta-gotas, mas implacável; os anos pesam cada vez mais, os sonhos ficaram longe... Comemorar o quê? Aniversário agora é mero evento contábil - somar um ano aos muitos já passados. Em suma: é diminuir o tempo de validade!
Prefiro gastar dinheiro em coisas mais úteis ou interessantes, como passar um fim de semana em Parati, por exemplo. Ou comprar um bom livro, ou...
Mas como afinal o bolo não apareceu, Yasmin declarou-me, debruçada em meus joelhos, com o indicador apontado em minha cara e ar de censura e decepção:
- Vô, eu não venho mais no teu aniversário, porque não tem bolo nem docinhos. Nem parabéns, nem festa. E não vou mais te dar presente! Nunca mais!
Conheceu, mané? Aniversário tem de ter bolo e apagar de velinhas, parabéns e presentes; tem de ter brigadeiro, cajuzinho e olho de sogra, balas, salgadinhos e refrigerantes.
Aniversário é festa, senão para o aniversariante, para os outros.
Pensarei nisso para os anos vindouros, sob pena de não ganhar presentes da Yasmin.


Setembro de 2009

1 de out. de 2009

Por que Vô Tônico?




João Antonio batizado,

Por Toninho conhecido;

Tonho e Tonico por fim,

Mais o Tônico consagrado

Da netinha Yasmin.

Crianças!


Crianças às vezes nos deixam sem graça com as perguntas que fazem. E sem respostas.
Estávamos eu e alguns familiares nas areias de Maricá, sob cobertura improvisada com folhas de coqueiro. Eu molhava o bico e olhava o mar, sem vontade de ler o jornal sobre a mesinha: meus olhos tinham mais com que se deleitar. No horizonte nevoento, uma silhueta imprecisa navegava. Mais ao perto, ondas vigorosas arrebentavam na praia em turbilhões de espuma: era mar aberto, naquele dia impróprio ao banho. Entre banhistas e guardassóis coloridos passeavam meus olhos. E o sol, coando entre as folhagens da cobertura, tecia um rendilhado de luz e sombra nas mesas, nas pessoas, na areia próxima...
A meus pés brincava Yasmin, cavando na areia fantasias. Dois aninhos, pouco mais. Outras crianças se achegaram. Uma menina mais velha, uns cinco anos, por aí, começou a brincar como se Yasmin fosse uma boneca, que realmente parecia, como toda criança na sua idade. Desconhecia o perigo a menina, e eu fiquei de olho. É que a pequena costumava morder quando se via aperreada, e era o que acontecia, com a outra abraçando, apertando, alisando...
A menina ofereceu biscoitos, e Yasmin ocupou seus dentinhos de forma mais civilizada. Sosseguei.
Foi quando a menina, ajoelhada na areia, levantou o olhar, quem sabe reparando nos meus cabelos grisalhos e na barba por fazer, e disparou a pergunta:
- Você é Deus?
- Não, não sou Deus.
- E onde é que está Deus?
Surpreso com as perguntas e sem tempo para refletir, levantei o indicador para o alto e respondi:
- Dizem que está lá em cima...
Descrente no olhar, a menina me fixou por mais alguns instantes, esperando talvez outros esclarecimentos, e nada mais obtendo baixou a cabeça e retomou o brinquedo com Yasmin.
Também, com a resposta idiota que dei, quem haveria de prosseguir a conversa?
E o que sei eu de Deus?
Mas podia ter-lhe dito que Deus está dentro de nós, no amor que sentimos, ou como dizia o poeta*, está "nas árvores e nas flores, nos montes, no sol e no luar", nesse imenso milagre que é a vida... Ou que Deus está onde O queremos ver...
Certamente nem isso contentaria a menina. Ela buscava, pelo visto, um deus concreto e pessoal, com barbas e cabelos brancos e jeito de avô, com o qual haveria de conversar e passear na praia, e a quem pudesse metralhar com um montão de perguntas e ouvir as respostas, sem idiotices e enrolação.
Também eu gostaria de ouvir as respostas. Continue perguntando, menina.
*Fernando Pessoa
Julho de 2009


Louvação





(poema lido em cima do caixote, na praça XV de Novembro, Marechal Hermes, durante o evento Literatura de Segunda, em 22-06-2009 e mencionado na crônica Privilégio)






Meu pai

Não foi herói nem guerreiro;

Foi trabalhador –

Carvoeiro.

D'além- mar veio procurar,

Com esforço, o sonho seu.

O procurado – nunca achou;

E o que achou – perdeu.

Já minha mãe foi camponesa;

Do inverno ao verão

Em campos de trigo e milho

Cavou-nos da terra o pão.

E no descanso fiava,

Rezava,

E contava histórias ao redor da lareira.

Não foi santa nem guerreira.

Minha mãe foi apenas –

Mãe!