17 de mai de 2018

Ainda sobre o povo feliz

No texto abaixo menciono uma comunidade que vive em condições precárias no interior da África, mas ainda assim é feliz. Termino o texto com a expressão "santa ignorância", atribuída a esse povo. E ao postá-lo no face-book dedico-o "a todos aqueles que perseguem a felicidade".
Não, meus queridos, não estou insinuando que a "santa ignorância" seja o caminho para a felicidade. Não. Até porque vocês conhecem muitas coisas que aqueles africanos não conhecem; vocês não são ignorantes nem santos.
Chamo a atenção, contudo, para o fato de aquelas pessoas viverem conformes à realidade que as cercam, conformes ao que são e ao que têm, sem conflitos, portanto.
Na busca da felicidade há que ter essa conformidade. É preciso estar satisfeito com o que se é (principalmente) e com o que se tem.
Você, meu querido, minha querida, que conhece mais e precisa de mais, lute por consegui-lo, mas sem ânsias e desesperos, porque ao fim e ao cabo a vida é que importa. 

16 de mai de 2018

Pessimismo

Hoje amanheci como amanheço todos os dias: contente por mais um dia. Vou à cozinha beber um gole de café e a televisão anuncia mais uma tragédia do cotidiano carioca: uma mocinha, na Ilha do Governador, teve a sua vida estupidamente ceifada. Por um celular! O celular estava bloqueado e a mocinha, nervosa, não conseguiu desbloqueá-lo. Por isso recebeu um tiro na cabeça! Não resistiu...
 E logo agora que estava disposto a comprar um celular só para comunicar-me com a minha Rita quando demoro um pouco mais na rua, ou para chamar um táxi. Sei não, fiquei "bolado".
E eram apenas dois meninos!
Nessas horas me bate uma nostalgia dos tempos em que o bandido surrupiava o incauto com habilidade e destreza, sem que a vítima sequer percebesse. Ou do velho "conto do vigário". Eram tempos românticos!
Sem a opção de desligar a televisão (a Rita estava assistindo), levo para fora o lixo, varro o quintal e a calçada, como faço todos os dias. E volto para tomar café. Da geladeira, pego salada de frutas; do armário, um prato. E por instantes fico confuso, sem saber para que o queria. Queria mesmo era uma tigela. E novamente fico confuso ao abrir uma gaveta. Por que aquela gaveta, se quero uma colher?...
Rita saiu para uma visita. Penso: que farei hoje? A minha obrigação diária está feita, ver televisão nem pensar, estou farto. Desenhar a planta-baixa de uma obrinha que pretendo fazer no quintal? Rascunhar ilustrações do meu próximo livrinho? Escrever no Vô Tônico, de há muito quase abandonado, preguiçoso que ando com a palavra escrita, apesar de ter já três livrinhos aguardando a pública luz?
E aqui estou, frente ao computador, temperando uma salada de palavras e estruturas sintáticas.
Naqueles momentos confusos que mencionei, passou-me pela cabeça um fato, uma história não vivida, mas que pode ser pertinente ao que escrevo e ao estado d'alma em que me encontro.
Li, algum tempo atrás, sobre uma pesquisa que determinava um ranking dos povos mais felizes do mundo. O povo mais feliz, - pasmem! -, era uma pequena comunidade no interior da África. Desculpem não poder mencionar a entidade pesquisadora, os critérios de pesquisa, bem como esse povo feliz e o país africano onde vivem. A memória guarda apenas o essencial. E o essencial era a felicidade desse povo.
Por que eram felizes? Porque tinham tudo que precisavam!
Não era muito. Moravam em palhoças, mas cada família tinha a sua. Praticavam agricultura de subsistência, manufaturavam do barro utensílios domésticos, fiavam e teciam. Não tinham saneamento básico, escola ou posto de saúde. Conheciam e usavam a rústica carroça de tração animal e tosco ferramental agrícola. De tecnologia mais avançada, só a bomba manual para puxar água dos poços.
Não era muito, mas era tudo o que conheciam. E tinham tudo o que conheciam. E mais não precisavam porque mais não conheciam.  E por isso eram felizes. Os mais felizes do mundo, segundo a pesquisa.
Meus queridos, com todo o respeito e admiração por esse povo, isto é o que se pode chamar de santa ignorância!   

22 de nov de 2017

Dialogar é preciso

Num desses dias que ando pela cidade com vagar e olhos de ver, reparei numa escultura que se exibe no jardim em frente à prefeitura, na Cidade Nova.
Antes de escrever estas linhas, pesquisei na internet a autoria da obra para dar o crédito necessário e lustrar o meu verniz cultural.
A obra é de Ascânio M M M, um artista que despontou nos anos 1960/70, agora famoso no Brasil e no mundo.
Mas estas palavras não são para falar de arte, movimentos artísticos ou da biografia do Ascânio, que para tal me faltam os meios. São para falar daquela escultura. E do meu diálogo com ela.
Sim, a escultura parece convidar os passantes a observá-la, contornando-a. Aceitei o convite. E vi múltiplas formas se revelarem a cada passo meu, a cada ponto de vista. E a beleza da obra se desvendou integralmente a mim, que aceitei admirá-la deste modo.
É isto que falta no mundo atual, principalmente no Brasil: ver com olhos de ver, ouvir com ouvidos de ouvir; observar os fatos, a realidade, e ouvir o que ela nos diz. E o que dizem as outras pessoas. E refletir sobre o que se vê e o que se ouve. E entender, se possível.
Falta dialogar, meus queridos! 

1 de nov de 2017

Nada melhor que mãe e pai

Como todos sabem, estou brincando de construtor. Tenho tido, no entanto, oportunidade de observar fatos muito além da construção em que estou envolvido. Fatos de uma outra construção, infinitamente profunda, misteriosa e bela.
Há na casa um corredor lateral e externo ao qual se tem acesso apenas pelos fundos. Fui lá, com vassoura em punho, promover uma faxina com o fito de preparar uma concretagem.
No fim do corredor, camuflado pelas folhas secas caídas da mangueira vizinha, um filhote de sabiá- laranjeira assustou-se comigo (e com a vassoura) e correu atrapalhadamente até conseguir alçar pequeno voo. Postou-se empoleirado sob um andaime. O pequeno peralta caíra do ninho, possivelmente da mangueira.
Não vendo os pais nas proximidades, preocupou-me a sorte do bichinho. Ao menos, pensei, vou dar-lhe água e o mais que puder para salvá-lo. Levei-lhe a água num pires, mas ele nem ligou, aparentemente desconhecendo a natureza e o valor do líquido, acostumado que ainda estava em receber todo o alimento do bico dos pais.
O bichinho estava quase completamente emplumado, as penas do peito já alaranjando, era macho, sim senhor, mas bebê, e assustou-se com o pires e a minha insistência. Voou tentando ultrapassar o muro, não conseguiu e foi ao chão. Neste momento chegaram os pais, vigiando da árvore do outro lado do muro.
Bem, acharam-no, se já não o haviam achado antes, agora é com eles, pensei.
Fui trabalhar dentro da casa, pois nada poderia fazer naquele corredor em virtude do drama ali desenvolvido.  Mas, curioso, vigiei discretamente.
Na primeira espiadinha vi a senhora sabiá, de corpo esbelto e elegante em seu costume cinza básico, sob umas tábuas encostadas à parede, piar como quem diz: vem para cá, filho, aqui é mais protegido, vem. Mas qual! Viu-me e voou para longe. O pequeno voou novamente para o poleiro sob o andaime.
Eu precisava ser mais discreto, mas a curiosidade não me deixou. Surpreendi o senhor sabiá num voo rasante ao muro, logo revertido assim que me viu, não sem antes soltar no ar um pio misto de ameaça e desespero, para meu espanto, acostumado que estava com seu belo cantar matinal.
Toda a tarde foi uma rotina só: senhor e senhora sabiá abasteceram o papo do filhote. Ao final da tarde, quando da última espiadinha, o filhote estava lá no poleiro, tranquilo e esperto,  ajeitando as penas com o bico.
Amanheci  com o cantar do senhor sabiá, que nunca me pareceu tão exuberante e belo.
Após um café na padaria , dei mais uma espiadinha. O filhote não estava mais lá; dele, só uns cocozinhos no chão.