12 de dez de 2015

Delicadezas de Jussara

Desde o formato às ilustrações de "Breve Lua", de Jussara Neves Rezende: delicadezas!
Mas não se engane o leitor com o substantivo que uso ou com o adjetivo "breve" utilizado por Jussara em seu título, para daí concluir tratar-se de poesia leve, superficial ou meramente gentil e romântica. Não! A poetisa mergulha fundo nas inquietações e ânsias da alma humana, talvez mais da feminina, como de resto já o fizera em seu primeiro livro, o "Minas de Mim".
Vejam este poema de 1987:

Dança
Loucas bailarinas
flutuam sobre as águas
ao som do riso da lua.

Assustados pirilampos
e florinhas curiosas
são adornos para a dança
enquanto gargalha a lua.

Flutuam coloridas
as bailarinas da lua.
Se há silêncio, mergulham.
O riso as põe a dançar.

O motivo dos versos não poderia ser mais trivial: os reflexos oscilantes da lua num espelho d'água. Certamente todos nós já vimos imagens da lunar dança, mas só os poetas sabem revelar a poesia que a envolve, ou inventar a que ela enseja (ai, que inveja dos poetas!). Jussara vai além, creio eu, nos dois últimos versos, remetendo o leitor aos silêncios e risos - não os da lua - mas a risos e silêncios da humana alma.

Quanto às ilustrações, deixo aqui um depoimento insuspeito: o de Yasmin. Disse-me ela:
- Sabe vô, desculpa, mas esses desenhos são melhores que os teus...
E tem razão a crítica de arte Yasmin Júlia. O traço simples e espontâneo, as delicadas texturas a grafite e as composições primorosas, como a da menina de guarda-chuva em direção à lua, são, para além dos poemas, outro ponto a destacar no "Breve Lua".
Evoé, Jussara!


Saiba mais sobre "Breve Lua" e Jussara Neves Rezende aqui e aqui 


1 de dez de 2015

Conto de Natal

     
        É consoada de Natal. Sobre a mesa pernil assado, peru à Califórnia, bacalhau à portuguesa, arroz à grega, maionese, pastéis; e rabanadas, aletria, pudim, frutas tropicais, pêssegos, ameixas, figos secos, castanhas, nozes e avelãs. E há vinho do bom no refrigerador, e cervejas e refrigerantes.
          Harre! que muita fome se passa nos outros dias!
          Já não há pacotes de presentes sob a árvore de natal: os meninos cresceram.
          Daniel belisca uns pastéis e sai: haverá tempo de saborear aquelas iguarias, que afinal vão rolar da geladeira à mesa durante dias. É a primeira vez que sai à noite sozinho. Vai ao encontro de um amigo, a sobra da mesada no bolso; vai deitar conversa fora, tantas coisas a dizer do mundo que se desvenda, e beber uma cerveja no bar do Pita, esta sim de sabor especial – o adolescente sabor da transgressão.
          Num banco da praça do teatro senta-se à espera. Fiéis entram na igreja aos primeiros ritos da missa do galo, que já se não reza à meia-noite como dantes, mas bem mais cedo, às 21 horas, que é perigoso para um filho de Deus andar tarde da noite na rua.
          Alheio ao que se passa na igreja, Daniel repara noutra cena que seus olhos nunca haviam visto nem sua mente jovem conhecera ou sequer suspeitara: três homens, moradores de rua, preparam uma tosca ceia natalina junto à grade que protege a lateral do teatro.


"Velas e bolas natalinas" - original pintado com a boca por Mariam Paré
Pintores com a boca e os pés

          Em lata sobre três pedras a servir de trempe, um dos homens corta a canivete um molho de couves, do jeito que viera da banca do verdureiro, com talo e tudo. A um canto, no chão, um pedaço de mocotó, descourado, raspado mesmo, e esvaziado de seu conteúdo. Daniel não tem dificuldade em adivinhar o primeiro prato do cardápio: cozido de lascas de couro com tutano e couves. O outro prato, talvez o mais ansiosamente desejado, prepara-o um dos outros dois, enfiando num pedaço de vergalhão algumas asas de galinha. O que parece ser o “chef” daquela cozinha improvisada e rústica pega do companheiro o vergalhão, dá mais uma ajeitada nas asas e escora-o na lata, que já ferve e denuncia pelo odor a natureza do cozido. O terceiro homem, que desmancha um caixote para alimentar o fogo, pega a garrafa de Pitu e bebe um gole, passando-a ao que espetara as asas no vergalhão, que faz o mesmo. Ao “chef”, que vigia as asas de galinha a chamuscar ao fogo, resta apenas jogar fora a garrafa vazia.
          Afinal o amigo chega e Daniel levanta-se e vai com ele ao bar do Pita. Já não pensa na cerveja nem atenta ao que o amigo diz, seu pensamento ficou lá na lateral do teatro. Tão falador que é, vai quase calado, respondendo ao amigo por monossílabos; tem vontade de falar, mas as palavras que brotam de sua mente engasgam na garganta, confusas, contraditórias, caóticas. O amigo nota algo de errado:
          - Tudo bem, parceiro?
          - Tudo mal... tudo mal...
         Chegando ao bar, Daniel tira do bolso uns trocados, confere e vai ao balcão do estabelecimento, voltando com uma garrafa de cachaça na mão. E retoma o caminho de volta à praça do teatro. O amigo segue-o, sem questionar ou dizer palavra. Na lateral do teatro, aproxima-se do “chef”, estende a mão com a garrafa e saúda:
          - Feliz Natal!
          O homem recebe a garrafa com largo sorriso, abre-a com os dentes e sorve um primeiro gole:
          - Obrigado, sangue bom! Quer um gole, uma asinha de galinha?
       Daniel agradece e afasta-se, ainda acenando e desejando boas festas, com algum alívio no coração e a inocência perdida.
         



26 de set de 2015


O buraco do sino

Andei por aí com um amigo de infância muito querido. Não lembro por onde andamos, o que fizemos, nem o que comemos, nem o que bebemos. Devo ter bebido demais. Só lembro da volta, daquele maldito ônibus chaqualhando, tarde da noite, cheio de boêmios e gente esquisita. Ou eu é que estava esquisito? Fora do ônibus, breu puro! Impossível reconhecer o ponto a descer. Por que ficamos até tão tarde na rua? Já não tenho idade para essas extravagâncias!
Meu amigo, porém, estava alerta e acenou-me para descer. Aos trancos e barrancos entre as gentes esquisitas, cheguei à porta e saltei. O ônibus partiu desabalado. Procurei por meu amigo entre as pessoas que ali estavam e não o achei. Pensei que descera na minha frente, mas não - foi-se com o maldito ônibus!
Agora estava eu ali, sozinho, num lugar desconhecido e entre gente desconhecida. Procurei situar-me. Perguntei que lugar era aquele, já me denunciando como forasteiro. Disseram-me: - Buraco do sino. Nunca ouvira falar de tal lugar. Mas o lugar não era mau, até um pouco bucólico: algumas casas esparsas, outras agrupadas, e muito verde; ruas sinuosas e estreitas, mas calçadas. Não era um buraco, mas uma encosta de morro. Uma favela? Talvez, mas muito diferente das que eu conhecia. Das que conhecia de vista, pois nunca antes subira numa favela.
De repente senti a mão da loirinha sarará que estava ao meu lado pressionar-me a calva, e algo pontudo  e duro espetar-me as costelas; um bafejamento quente segredou-me ao ouvido: - Perdeu, passa tudo. Querendo evitar qualquer movimento brusco ou desajeitado que pudesse assustá-los, disse à mocinha: – Posso pegar a carteira ou…? Ela disse: – O senhor mesmo pega. Nervoso, atrapalhei-me com a carteira e a mocinha tomou-a de mim e fez a limpa, largando-a no chão. Afastaram-se calmamente, a loirinha e os dois comparsas negões. Ela ainda me aconselhou: – Senhor, não ande assim tão tarde na rua. É perigoso.
Safada! E eu nem fiquei com raiva dela!
E as pessoas que estavam ali no ponto de ônibus parece que nem notaram o que aconteceu comigo!
Sem dinheiro (um mísero trocado que fosse, para a passagem do ônibus!), sem identidade, CIC, cartão de crédito; sem leira nem beira, assim eu fiquei no Buraco do sino!
Era urgente sair dali, pedir carona num ônibus, o motorista haveria de entender. Vinha um em sentido contrário ao meu rumo, não importava, era esse mesmo - urgia sair! Mas o coletivo bifurcou noutro rumo, enganando-me. Então enveredei por um beco, escadas aqui e ali, no intuito de cercar o ônibus na rua mais acima. Fui parar num terreiro entre barracos e mato, uma espécie de oficina mecânica de carros, mecânico mal-encarado, talvez nem oficina fosse, mas um desmanche. Voltei e desci as escadas, quando subiam, em fila, vários homens nada simpáticos e que portavam nas mãos instrumentos que não defini bem, nem queria definir. Esgueirei-me entre eles e sumi dali!
Tentei um táxi, não tinha dinheiro, mas importante era sair dali e chegar em casa, então daria um jeito de pagar ao taxista. Veio um: lotado. Veio outro, vazio, mas nem ligou pra mim. Filho da …!
Desanimado, encostei-me num canto ao lado de um comércio, uma birosca, onde homens bebiam e falavam animadamente. Cantoria no ar. Um canto solene e suave. Meninas vestidas de branco, em procissão, chegavam ao lugar onde eu estava. Pararam. A da frente voltou-se para mim e olhou-me longamente sem dizer palavra. Pareceu-me que esperava uma atitude minha. Entendi que estava no lugar errado, na hora errada, eu mesmo uma pessoa errada naquele contexto. Entendi que estava, talvez, profanando um lugar sagrado para aquelas meninas, que ali iam ofertar seus mimos e cantar seus cantos para algum santo que eu desconhecia.
Afastei-me. Atravessei a rua e desci por uma escadaria sinuosa (como eram sinuosos e incertos aqueles caminhos!), intermitente e intercalada por patamares de chão batido. Parei em frente a uma casa, mais para casebre, onde havia pessoas conversando. Um senhor, idoso como eu, deu-me um dedo de prosa. Não lembro o que conversamos, mas as pessoas me pareceram simpáticas e acolhedoras. E aquele lugarzinho, aconchegante.
Olhei para além: não vi mar nem horizonte. Mais perto e mais para baixo, outra encosta alevantada, esta de rocha pura, nua, negra e lúgubre. E imensos nichos escavados nela, lembrando portais góticos. Não vi imagens. Apenas nichos vazios de uma catedral insólita. No buraco do sino.

Sempre que adormeço de bruços, tenho pesadelos. Raismaparta!!!

O amigo de infância que me deixou só, era o Ismael, de Minas do Palhal – Portugal. A catedral insólita me pareceu (sem os nichos) a imensa rocha que há por trás da levada, na mesma aldeia, e por cuja várzea eu brinquei, enquanto as ovelhas pastavam (esta última associação não a fiz durante o sonho, mas enquanto escrevia esta crônica).

Que me dizem disto, caríssimos psicólogos e decifradores de sonhos?

21 de jun de 2015

Tirando uma flecha do meu peito

No post anterior, Parem o bonde que eu quero descer (mas não há bonde), falei de situações de rua que nos trazem  à alma desassossego e angústia. Foi diferente neste sábado, 20/06/15. Saí à rua para ver e participar do 2º FESTIVAL CARIOCA DE ARTE PÚBLICA, agora em Marechal Hermes durante os próximos 60 dias. O festival acontece em comemoração ao 450º aniversário da cidade do Rio de Janeiro, no âmbito da lei municipal 5.429/2012, que dispõe sobre apresentação de artistas de rua nos logradouros públicos da cidade.
A minha participação foi mínima: ler um manifesto ao povo de Marechal Hermes, logo ao início das manifestações culturais. Mas bom mesmo foi o que houve antes e o que veio depois.
Concentração na praça Monte-se. Cheguei quando se iniciava o cortejo pela calçada central da avenida, em direção à praça XV de Novembro, local do evento.
Ah! meus queridos! Fogos estourando no ar, aquele som mambembe da fanfarra, o padroeiro São Sebastião conduzido à frente, e o líder do grupo TÁ NA RUA, organizador do evento, em charrete puxada a cavalo, anunciando a festa. E palhaços, e capoeiristas, e bailarinas, e pernas de pau… Ai, que lindo!
Tive de afastar-me para me recompor da emoção. Não sei o que acontece comigo! Nostalgias da infância? A música do Zé Pereira no arraial da santa? Parece que aquela música me acompanha em diferentes formas e circunstâncias. Mas então eu não me emocionava em lágrimas, tudo era muito natural como são naturais as crianças. Será que então eu era mais homem que agora? Ou agora sou mais menino que então?
Recomposto, voltei  ao cortejo e cheguei à praça de alma lavada, para ler o manifesto. Depois foi um suceder de atrações, até às 19 horas: circo, dança-afro, dança cigana, capoeira, teatro de rua; uma festa da diversidade cultural e do povo carioca; uma festa para os olhos e para a alma, como Marechal jamais viu!


A cultura, me parece, é um denominador comum que aproxima, solidariza as pessoas; não aparta nem divide, mas soma. Foi o que vi na praça XV de Novembro, em Marechal Hermes.

10 de jun de 2015

Parem o bonde que eu quero descer! (mas não há bonde)

No último fim de semana fui a São Gonçalo visitar a minha irmã Rosa. Fui pelos modais de costume: trem, ônibus, barca, ônibus. Gosto de passar na praça XV, pelos ecos do passado barroco ali presentes, e mais recentemente para “fiscalizar” as obras em andamento naquela região, que prometem revitalizar lindamente toda a orla, do Largo da Misericórdia até o cais do porto. Tenho outra motivação antiga: cruzar a Baía de Guanabara, por cujas águas naveguei, entrando nesta cidade, há mais de 58 anos. É um regalo aos olhos e um resvalar em nostalgias que me serenam a alma, longe das aflições de agora.
Pois bem. Em Niterói fiz um lanche e dirigi-me ao terminal rodoviário para a última etapa da viagem. Antes deparei-me com um grupo de teatro de rua, se assim posso dizer; um ator e uma atriz (jovens) representavam no chão, sem que eu pudesse atinar do que se tratava; várias mulheres à volta ostentando cartazes, em silêncio. Pus-me a ler os cartazes: todas elas eram vítimas de abuso sexual na infância ou adolescência. Os atores representavam um roteiro de pedofilia doméstica (pai e filha), possivelmente óbvio, mas convincente e angustiante para mim, que o assistia. Retirei-me. A serenidade interior esvaíra-se.
Não que no meu tempo não houvesse pedofilia. Nem tenho reparos a fazer ao grupo que se manifestava em repúdio a esse abominável crime contra a infância. É preciso mesmo divulgar e conscientizar as pessoas sobre esses fatos, infelizmente, ainda corriqueiros. Retirei-me porque estou saturado desses horrores: crianças maltratadas, abusadas; crianças morrendo de fome e doenças; outras fugitivas da guerra, com suas famílias, embarcadas como escória em frágeis embarcações, na esperança de uma vida melhor, e muitas delas finalmente sepultadas no fundo do Mediterrâneo.
Retirei-me porque estou cansado de tanta informação ruim. Se fico em casa a televisão me bombardeia, se saio... O mundo está virando um circo dos horrores (ou já era e não sabíamos).
E ver aquela menina com os olhinhos fixos na teleobjetiva, em meio à grande tragédia, e ainda assim, com tanta inocência, esboçar um leve sorriso… dói... 

16 de abr de 2015

Sorteio de boneca mineira



Sorteio de linda boneca artesanal no Minas de mim, até dia 09/05. Para participar, clic aqui e faça um comentário no blog da Jussara. Abraços.

13 de abr de 2015

Bookcrossing Blogueiro–3

Descendo da prateleira
Escrevi Cacos da memória entre 2006 e 2008, a partir de um evento ocorrido na cidade de Cunha – SP, que abre o livro sob o título de “A menina do guarda-chuva e os meus sapatos de verniz”, por ocasião de visita a um amigo de longa data, mas de há muito desgarrado da minha vida.
Ao escrevê-lo descobri que gostava de escrever; e o que era para ser meia dúzia de pequenas histórias virou um livro com mais de cem fragmentos da memória; e no conjunto uma crônica da minha família naquele período de dez anos.
E também descobri, ou redescobri, a aldeia da minha infância, longe no espaço e no tempo e quase apagada da minha memória. Visitei seus lugares (os meus lugares), seus habitantes e suas histórias. E aquela aldeia – Minas do Palhal – renasceu em mim.
Pude notar, enquanto escrevia e, principalmente, ao fim da tarefa, uma aproximação afetiva com o lugar e seus habitantes. A aldeia, que nos primeiros textos eu designei por “um lugar como aquele”, ao meio do livro designava por seu próprio nome e ao fim já era a “minha aldeia”.




Um amigo virtual português, Nuno Jesus, ao ler “Cacos da memória” derramou-se em elogios. Não compreendi bem o seu entusiasmo.
Nuno é diletante e pesquisador da etnografia daquela região em que se insere a minha aldeia; e autor, juntamente com a historiadora Nélia Oliveira, do livro “Ribeira de Fráguas – sua história”. Nuno enviou-me o ficheiro com a diagramação de outro livro seu, este em coautoria com Emília Campos e Vera Marques: “Telhadela – perspectiva histórica e etnográfica”. Ao ler o trabalho, lindamente ilustrado com fotografias de época, compreendi o entusiasmo de Nuno com o meu livro e também o significado da palavra etnografia, desconhecido para mim àquela altura. É que de certa maneira eu também fiz etnografia em Cacos da memória - sem o saber, porém, e portanto sem o compromisso e o rigor da ciência. Fiz etnografia contando histórias. Talvez por isso agradável de ler, segundo depoimentos vários.

Este é o livro, entre outros, que desço da prateleira para iniciar a aventura do bookcrossing blogueiro, iniciativa do blog Luz de Luma, yes party!, da minha amiga Luma Rosa.
Boa viagem, amigos.


1 - Viajante: Cacos da memória, de João Antonio Ventura
      Início da viagem: 13/04/2015

2 - Viajante: Poemas, de Fernando Pessoa
      Início da viagem: 21/04/2015

3 - Viajante: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
      Início da viagem: 05/05/2015

4 - Viajante: Esaú e Jacó, de Machado de Assis
      Início da viagem: 27/07/2015

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12 de fev de 2015

O valor de uma noiva

Apesar de grande leitor de jornais durante a minha juventude e maturidade, ultimamente quase não os leio. Compro um exemplar, vez por outra, quando encontro uma manchete que me chama a atenção.
Em O Globo de 12/11/2014, pág. 27, encontrei uma história interessante, sob o título “Coração partido”. Na China, no dia 11/11, comemora-se o Dia dos solteiros. É o dia de multiplicar esforços para conseguir um par definitivo, o dia de contratar um casamento. Um jovem chinês, que economizara durante mais de dois anos, resolveu inovar em sua proposta de casamento à namorada, comprando 99 celulares de última geração pelo equivalente a 79 mil dólares. Comprou flores e dispôs os aparelhos, ainda nas caixas, formando um grande coração no piso da praça, reuniu os amigos à volta e pediu que filmassem tudo do alto de um edifício. Chamou a namorada para o centro do coração grande e fez o pedido apaixonado. Recebeu um retumbante NÃO! Virou caçoada na Internet!
Só para lembrar, caríssimos amigos; a China vem aplicando, desde os anos 80, uma política de controle da natalidade conhecida por “política do filho único”, o que está levando a um desequilíbrio demográfico de gênero: no censo de 2.000 constatou-se o nascimento de 119 meninos para cada 100 meninas. E esta tendência só deve agravar-se! As famílias estão praticando o aborto seletivo contra os fetos femininos, quando não infanticídio, abandono nas ruas e orfanatos públicos - que nada mais são que precários depósitos de crianças. Um horror!
E esse descaso com a mulher não é só na China: também na Índia e em outros países do Oriente Médio.
Nessas regiões (e não só), a discriminação, o preconceito, a violência e a negligência contra meninas e mulheres são o traço comum e forte de sociedades patriarcais conservadoras – traço comum e forte oriundo de sociedades medievais, e de mais além, já perdidas no passado, mas ainda presentes em culturas  atuais, em graus maiores ou menores, onde a mulher “tem pouca serventia” na família.
Ah!, meus caros, se mais não digo é por não afligir meu coração! Mas as mídias nos trazem constantemente relatos dessas atrocidades mundo afora!
A mulher tem sim, toda “serventia” na família, no mundo, no universo! A mulher é parceira, cúmplice e sócia majoritária no mistério da vida! E ainda lava louça!…
Mas voltemos à história do jovem chinês que recebeu um retumbante NÃO!
É cada vez mais difícil encontrar uma noiva, uma esposa. E algumas famílias chinesas já importam noivas para seus filhos! Não é de estranhar, portanto, o esforço inusitado e frustrado do jovem chinês. A continuar essa tendência (e continuará), talvez a mulher se valorize pela escassez, no âmbito das velhas e boas leis de mercado: oferta e procura. Por linhas tortas, quem sabe, se endireita a escrita sobre a mulher oriental. Se assim for, aleluia!
Desculpem a analogia com o mercado: a mulher não é mercadoria.
E convenhamos, caríssimos, acho que fez bem a noivinha chinesa não aceitando atrelar sua vida à de um cara tão falto de imaginação! Tanta coisa para ofertar, além de seu amor: sapatos, bolsas, relógios e jóias, mesmo que bijuterias de qualidade, perfumes e cosméticos, doces, que chineses são sempre magrinhos… Vá lá, um ou outro ícone tecnológico… mas 99 celulares! Um refinado idiota!

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Obs: não deixe de ler o comentário de Luma Rosa, abaixo, clicando em comentários.

2 de fev de 2015

Galo, galinha e pinto em família

O autor apresentando "Galo, galinha e pinto...", de costas para o galinheiro.






Em 25/12/2014, no já tradicional encontro de família, a apresentação de "Galo, galinha e pinto e outras histórias"
Havia vários cartazes alertando para a "ferocidade" do galo. 


O grilo cantor/Deir. Esqueceu o texto, mas saiu-se muito bem no improviso.



Abelhuda/Teresa, em atuação pra lá de convincente.




A menina ouvinte/Yasmin, atuando no contraponto ao contador.



Fim da apresentação. Olha que bailarina mais linda!

Autografando.

PC e Mário na fila de autógrafos.




Tavinho



Pedro e a bailarina da apresentação - Rafaela.


Ana Paula
Futuro leitor - Gabriel.



Acho que o galo, bem atrás de mim, não gostou de tanto palavrório e resolveu atrapalhar a apresentação. Pudera! - estávamos falando da família dele e sequer o convidamos para a festa. Veja no link.
Link>>>>>>>Galo, galinha e pinto e outras histórias


 Agradeço a presença de todos, principalmente das crianças, e àqueles que participaram atuando, fotografando ou filmando. Beijos, meus queridos!


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30 de jan de 2015

Um ar que me deu

Após longo e tenebroso inverno estou de volta ao teclado. E começo pedindo desculpas pelo lugar-comum inadequado, já que estamos sob um verão abrasador. Foi um jeito torto de começar um texto não menos torto. Desculpem, queridos, pela longa ausência.
Não sei o que me deu!
Andei adoentado nos últimos tempos. Não AVC ou coisa parecida, nem resfriado, nem gripe. Simplesmente perdi a vontade de escrever! Muitos assuntos, muitas questões, talvez demais,, mas vontade de escrever não havia. Há seis meses quase não escrevo. Escrevi apenas o essencial: minha participação no Bookcrossing Blogueiro, alguns posts sobre “Galo, galinha e pinto…” e uma crônica sobre viagem a Santa Catarina. Inapetência literária…
Minha amiga Jussara Neves Rezende deixou, há pouco, um comentário num texto que escrevi por ocasião da eleição presidencial de 2010. Dizia ela, já adivinhando o meu estado d’alma, que é normal o desânimo após um intenso período de atividade intelectual e artística (a edição de “Galo, galinha e pinto…”). A adrenalina baixa, o desânimo vem. Faz sentido, mas creio que não basta como explicação. Há mais coisas, com certeza.
Assisti a uma entrevista do Ferreira Gullar ao jornalista Roberto D’Ávila. Pergunta do jornalista: Qual a fonte de sua inspiração? Resposta de Gullar: O espanto. O poeta se espanta com determinada questão e, nesse envolvimento espantado, nesse estado de perplexidade, escreve.
Espantado estou sim, mas não é um espanto específico, é geral e difuso como a névoa das manhãs frias,  nada do espanto inspirador do poeta. Muito pelo contrário, é paralisante. E a bem dizer, nem espanto é, mas desencanto. E não só com o Brasil. Na minha caminhada, nunca me pareceu tão aterrador o mundo!
Confesso que me deixei apanhar pela brisa; não a brisa fresca das manhãs, nem a quente deste verão escaldante; mas a brisa virtual da internet – envenenada e virulenta! – durante a campanha eleitoral. Muito trololó, muito lixo e baixaria! E deixei-me levar… E nenhuma vontade de escrever… Nem mesmo no meu “Sutil como um elefante”, espaço onde me sinto mais à vontade para temas polêmicos ou desagregadores.
Não sei o que me deu!
Lá bem atrás, na aldeia da minha infância, quando uma pessoa idosa sofria um derrame – AVC ou coisa que o valha –, ficando em geral com um lado do corpo afetado, ou a face repuxada e a boca torta, as outras pessoas, ignorando a doença, sua origem e natureza, costumavam dizer acerca das causas: “foi um ar que lhe deu”. O ar, que nos mantém vivos e pode muito bem explicar um resfriado ou uma gripe, era causa certa de males desconhecidos. Quando não eram as bruxas!
Pois bem, meus queridos, como não creio em bruxas ( pero que las hay, las hay!) e na falta de melhor diagnóstico para o mal que me acometeu, digo, como diziam os antigos da minha aldeia: foi um ar que me deu.
Estou convalescendo, porém. No período comentado não estive totalmente inerte: fiz as ilustrações do livrinho infantil da minha amiga Adriana Kairos e li três livros. Domingo irei ao CCBB ver a exposição de Kandinski.
E obrigado, Jussara, pelo toque. Escrever é preciso.

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