28 de set de 2009

Parado à beira do caminho


Cheguei a Guaraí por volta da meia-noite para fazer conexão com o ônibus que vinha de Belém com destino ao Rio de Janeiro, chegada prevista às sete da manhã. Não quis pernoitar num hotelzinho, vá que me não acordassem a tempo, perderia a condução. E até ali a viagem já fora um tanto atribulada, melhor não arriscar mais transtornos.
Eu viera ao sul do Maranhão acompanhando minha sogra, que fora ao Rio em tratamento de saúde. Em Riachão fiquei alguns dias. O sul do Pará era a outra meta, onde visitaria parentes que ainda não conhecia na cidade de Redenção. Entre as duas cidades, o rio Tocantins.
O itinerário mais comum seria ir de Riachão a Carolina, na margem direita do rio, subir a Estreito, onde há ponte, descer pelo outro lado rodando na Belém-Brasília até Araguaína, e daí a Redenção. O ônibus passava às onze horas. Eu quis ganhar tempo e fui para Carolina, de onde um micro-ônibus me levaria a Araguaína, transpondo à balsa o Tocantins. O rio em nada atrapalhou, já o micro...
Demorou a sair o micro e ao fazê-lo retrocedeu à rodoviária, daí atravessou a cidade, chegando ao atracadouro quando a balsa já partia. Esperamos a próxima. Da outra margem (Filadélfia) seguiu célere, paradas poucas, mas nos arrabaldes de Araguaína iniciou-se uma irritante entrega em domicílio, com o micro desembarcando cada passageiro na porta de sua casa. E assim rodou toda a periferia, levou passageiros em restaurante na rodovia, onde fariam conexão e afinal desembarcou-nos na rodoviária, eu e uma senhora, apenas. Eram treze horas!
Perdida a conexão, fui almoçar.
Perdida não estava, atrasada sim, o ônibus quebrara na estrada! Chegou às dezesseis horas e trinta minutos, meia hora depois partia no rumo de Redenção.
Um dos meus interesses era ver o rio Araguaia, lindo e largo como diziam, ainda mais prenhe de águas, naquele verão prolongado. Não o veria na ida, a noite escondia tudo, quem sabe na volta.
Paramos no Posto Fiscal, divisa Tocantins-Pará, com os fiscais fiscalizando os papéis, como se neles estivessem os tráficos e contrabandos. Fiscalizar o ônibus nem vieram, melhor para nós, o atraso foi só de uma hora. A muito custo consegui arranjar comida num restaurante que àquela altura já não esperava clientes.
Além de Conceição do Araguaia e a vinte minutos de Redenção, furou-se um pneu ao ônibus! Mais uma hora perdida, o breu a três palmos do nariz; ai, se aparece um facínora!
Mas valeu bem a pena. Curti os parentes e a cidade, tanto quanto permitiu a chuva, que foi pouca em Redenção, mas torrencial em outras partes, do Pará ao Piauí, do Maranhão ao Ceará: transbordo de rios, cidades alagadas, encostas se derribando, pontes desmoronadas, vias obstruídas. Jesus, que água é essa!
De volta, disponibilidade de horários não havia, passagem só às vinte e duas horas. Novamente deixaria de regalar meus olhos com a visão do Araguaia. Paciência...
E paciência era o que eu precisava. Sem o que fazer, comecei a reparar no movimento da rodoviária.
Apesar de pequena, a rodoviária apresentava um fluxo de trânsito permanente, o que me deixava seguro. Ônibus chegavam de outras praças em demanda de praças outras; linha nenhuma fazia ponto final ou partia dali, todas chegavam de e iam para
Antes das sete perguntei ao funcionário da empresa se o ônibus estava no horário. Nenhum comunicado havia, sequer previsão de chegada. Às oito repeti a pergunta, às nove obtive resposta: rodovia obstruída na altura de Imperatriz, ônibus desviando a rota por Marabá, vai retornar a Imperatriz para embarque e desembarque, chegará às dezesseis horas... Jesus, haja paciência!
Com a esperança de matar o tempo com algum prazer, procurei um jornal na lojinha de bugigangas, mas nem jornal nem jornaleco, só revistas masculinas, de Playboy para baixo, e outras revistinhas safadas, rasteiras, pura pornografia. Que pena não ter trazido um ou dois livros na bagagem!
Chegava um ônibus de Belém para o Rio, de outra empresa e horário posterior ao meu. A estrada já está desobstruída, pensei, mas o meu ônibus dá voltas por Marabá.
Resolvi então dar vistas à cidade, tempo havia de sobra. Nada além de duas ruas paralelas à rodovia, uma de cada lado, mais algumas ortogonais, comércio comum para quem veio do Rio, aos locais nada faltava; vi três agências bancárias, duas brasileiras e uma espanhola; mais além uma construção singular, linhas retas e harmônicas, fumês nas fachadas e jardins ao redor, arquitetura moderna de qualidade, um palácio em lugar tão singelo. Que seria aquilo? Fui à frente ver de perto, era uma agência do Banco da Amazônia!
Comparando, as três agências anteriormente vistas funcionavam em prédios comuns da cidade, de há muito construídos, ora reformados e adaptados para a função bancária, de bancos comerciais e rentáveis. A outra, de fomento oficial, com verbas públicas de impostos sacados dos bolsos dos cidadãos, não podia ser menos que um palácio! Que rei governava ali, na incúria e no desperdício?
Pobre Amazônia! Pobres de nós!
Na rodoviária um pobre aleijado circulava acoplado a um pequeno veículo motorizado: pedia esmolas. Dei-lhe a minha contribuição e fui tomar café. O balconista quis saber de mim, pois me via ali desde a madrugada; disse-lhe do ônibus e do meu azar, respondeu-me que não era azar, era sorte. Que diabos quis ele dizer?
Depois de cochilar num banco após o almoço, o funcionário da empresa me procurou e disse:
- Vai atrasar mais três horas, o ônibus sofreu um assalto, retornou a Marabá para o competente registro policial, está saindo agora de Imperatriz, chega a Araguaína às dezessete, aqui às dezenove.
Chegou eram dezenove e trinta.
Embarquei para o Rio após vinte horas de espera e nunca tinha visto passageiros tão alegres e solidários. O sufoco por que passaram aproximou a todos. Estavam de bolsos vazios, mas vivos e inteiros.

 
Agosto de 2009

 

 

21 de set de 2009

Dias de Tiete


Soube por meu filho Daniel que a Prefeitura estava fazendo melhorias numa rua perto de casa. Fui lá conferir. Em frente a tal rua, tapando a UPA inaugurada nas últimas eleições, um pintor retocava a pintura de um conjunto de casas... Engraçado... Eu não me lembrava dessas casas, e olhem que conheço o lugar há muito! E não eram casas construídas recentemente, tinham aspecto antigo, mais ou menos no mesmo estilo das edificações da Escola Mauá, adjacentes.
Entrei na rua meio desconcertado. Um pedreiro dava os últimos retoques no canteiro central, construído em alvenaria e dividindo a rua larga em duas pistas. Alguns muros já restaurados e outros sendo reformados. Um pintor retocando a fachada de um sobrado e alguns portões aparentando pintura fresca. Um caminhão com mudas de plantas e placas de grama abastecia os jardineiros. Na calçada, uma árvore taluda plantada recente.
Não parecia obra da Prefeitura. É verdade que alguns garis varriam a rua, mas só. Os outros trabalhadores seriam, quando muito, terceirizados a serviço do município. Ou teriam os moradores se organizado em condomínio para realizar melhorias naquelas duas quadras?
Retornei a casa um tanto preocupado. Distraído sou, os que me conhecem não ignoram, mas aquelas casas em frente à UPA, como não me apercebi delas? Que horror estava ficando a minha memória! Ou será que... o Alzheimer...
No dia seguinte, uma segunda-feira, voltei ao local disposto a examinar melhor, mais atento e de espírito prevenido, pois decerto alguma coisa diferente estava acontecendo ali. E estava. O casario que me levou a duvidar de minha memória não passava de um cenário! Na rua, carpinteiros serravam, martelavam, construíam canteiros de madeira, que os pedreiros assentavam nas calçadas e os jardineiros enchiam de terra e plantavam mudas e grama. Outros carpinteiros faziam uma garagem num dos sobrados. Postes antigos eram montados no canteiro central. E a árvore taluda era de plástico, como os postes. Um Cenário! Um set de filmagem! Reparando melhor, vi que as pinturas executadas aparentavam mal feitas, para dar maior realismo.
Não é a primeira vez que Marechal Hermes serve de locação para uma produção cinematográfica ou televisiva. Nem será a última. Isto se deve à presença de muitos casarões e sobrados antigos, de estilo eclético e bem conservados, apesar de uma ou outra descaracterização nas janelas, mas no todo ainda bastante autênticos. Bom cenário para histórias ambientadas na primeira metade do século passado. A sobrevivência de tais prédios decorre, principalmente, da limitação de gabarito, pela proximidade do aeródromo militar do Campo dos Afonsos.
Indaguei de um operário se era novela, disse-me que não, era um filme de Arnaldo Jabor.
Ah! eu não podia perder o espetáculo. E no dia seguinte fui ver o andamento das atividades no set. Caminhões despejavam equipamentos os mais diversos. Os derradeiros toques de pintura. Tendas sendo montadas. Três carros de época lindos trocavam de placa: DF – 1945. Um formigueiro de técnicos invadira o set. Agitação. Um sobradinho improvisado em camarim. No jardim de outro sobradinho, o mais bonito da rua, preparava-se uma cena. Atores caracterizados. E o Jabor já estava lá, circulando, orientando, simulando com as mãos a tomada de câmera. Que lindo era tudo aquilo!
Fui para casa tomar um café e contar as novidades. Mais afastado do set, um gerador pronto para funcionar, cabos estendidos na rua.
De volta, procurei um posto de observação sem estorvar quem trabalhava. Um carro aproximou-se querendo atravessar o set, por entre a parafernália de equipamentos espalhados na rua. Um guarda interveio. O motorista explicou que era morador e precisava passar. Passou e entrou na garagem do último prédio. Poderia tê-lo feito pela outra rua, mas preferiu atravessar o set. Vá entender...
Atores e atrizes em posição, Jabor sentado na cadeira de Diretor, técnicos ao redor. Claquete. Silêncio, por favor! Gravando...
Não dava para entender as falas dos intérpretes, só gritos, risos, gargalhadas, muita alegria... Em meio aos cochichos dos espectadores, soube o título do filme: Suprema Felicidade. Técnicos correm com uma tela enorme e a colocam tapando a cena. Que seria aquilo? Eu não conhecia. Repetem a gravação. Não ficou boa. Montam um refletor por trás da telona. Agora sim, ficava clara a sua função, é um difusor de luz, ilumina a cena suavemente, sem o contraste forte da luz direta. Silêncio! Não se assustem, vai ter tiro, mas é de festim. A guerra acabou! A guerra acabou! Aaaaahhh!!!... E quatro tiros ecoam no ar.
O personagem que dá os tiros é um oficial da FAB comemorando com a família e vizinhos o término da II Guerra Mundial. O ator é conhecido, mas não atino com o nome dele. Será Caco Ciocler? Mais uma vez gravando, a pistola engasga. Atenção, efeitos especiais. Repetem uma, duas, três vezes mais, e finalmente está pronta a cena. Muito bom, vamos almoçar agora.
Fui também. Eram duas horas da tarde.
Suprema Felicidade. Fim da guerra, retorno dos nossos pracinhas, queda do Getúlio, fim da ditadura do Estado Novo. Redemocratização do país. É muita felicidade junta. Para ser maior – suprema – só falta a história terminar com folia carnavalesca, um desfile de bloco ou escola de samba, ou até mesmo uma batalha de confete. Lembram disso?
Para os mais novos eu explico: batalhas de confete eram bailes pré-carnavalescos de rua. A vizinhança se organizava, enfeitava a rua com bandeirinhas e o mais que pudesse, instalava gambiarras de luz, alguns altofalantes e um tocadisco com amplificador e microfone. E o samba rolava noite afora!
Eu chegara, ou melhor, retornara ao Brasil em janeiro de 1957, um pouco antes do carnaval, portanto. Dez anos de idade. Ouvi falar de batalha em nossa rua e pensei logo em violência, brigas, para depois constatar que na tal batalha não havia balas nem canhões, mas pandeiros, cuícas e tamborins, muita alegria, dança e cantoria. Que país bacana aquele, em que uma batalha nada mais era que uma grande farra!
De novo no set. Um grupo de figurantes acabava de ensaiar a sua atuação. Um maquiador dava os últimos retoques nos foliões, que iam festejar o fim da guerra em frente à residência dos personagens da sequência anterior, com direito a espancamento de um Judas de farda e bigodinho de Hitler. Foi preciso repetir a atuação dos personagens principais, incluído aí um beijo apaixonado do casal.
Um senhor acercou-se de mim querendo saber do que se tratava. Disse-lhe o que sabia e o que não sabia:
- Está vendo aquele ator, aquele de túnica azul aberta no peito? É o Caco Ciocler.
A minha fala chegou até um grupo de senhoras que fotografava de longe os artistas e se dispunham a pedir autógrafos, Tietes de verdade, não como eu, tímido e discreto no meu canto. Uma delas olhou-me, espantada com a minha ignorância.
- Moço, não é o Caco, é o Dan Stulbach.
Agradeci o aparte meio vexado e resolvi calar a boca para não dar mancada. Eu não estava ali tietando artistas, ídolos, mas todo o set e o que acontecia nele. Admirava tudo: cavaletes, escadas, tripés, refletores, as telonas, que mais tarde soube terem por nome butterfly, os carrinhos lindos e outras peças cenográficas; e os atores, atrizes, figurantes e suas atuações; e os técnicos de som, de fotografia, os iluminadores, eletricistas e maquinistas; as camareiras, os maquiadores e as meninas do bufê. Tudo. Admirava com olhos embevecidos aquela agitação laboriosa, aquele furdunço organizado e criativo.
Encerradas as gravações, Jabor passou por mim, orientando o Diretor de Fotografia quanto às tomadas de cena do dia seguinte. Vontade de cumprimentá-lo: "Tudo bem, Jabor? Que bom que tenha voltado ao cinema". Mas a timidez não me deixa externar tais manifestações de apreço. Infelizmente.
Manhã do dia seguinte. Ensaio. Cena de rua: um comprador de jornais velhos apregoa o seu trabalho, um carro sai da garagem, um ciclista transita, estudantes vão à escola, pedestres. Fico olhando os adereços amontoados na calçada: vassouras de palha, um par de muletas, um realejo. Há quanto tempo não via um realejo desses! Será que vai ter periquito tirando a sorte? Silêncio! Vai gravar. Ouve-se o pregão do velho comprador de jornais... E algazarra de estudantes chegando ao set por uma rua lateral. Por favor, gente, estamos gravando, falem baixo ou se afastem. Afastaram-se, irrequietos e ruidosos, aparentemente interessados apenas nos seus folguedos.
Nunca é de primeira uma gravação dessas. De uma vez foi o carrinho lindo que engasgou em cena. Felizmente fora uma indisposição passageira. De outra, a bicicleta quebrou. Buscaram a reserva, que a equipe é precavida. A cena em geral ficou boa, mas precisam repetir a sequência em que o velho compra jornais e conversa com a esposa do militar que eu pensei que era Caco e era Dan. Qualquer ruído complica. Barulho de vassoura de piaçava varrendo a calçada áspera e lá vai o técnico de som, por favor, senhora, o microfone é muito sensível, desculpe. Obrigado, senhora. Gravando de novo. Silêncio! Estrila o celular no bolso de uma mocinha! Por favor, meu bem, desliga o celular, o microfone é supersensível e o toque saiu na gravação. A mocinha fica sem graça, sob o olhar de censura da assistência. E eu fico irritado com essas interferências. Ô gente! Ô vassoura! Ô celular! Mas o Jabor é calejado nisso...
Terminada a gravação com sucesso, um senhor se aproximou a puxar conversa comigo. Está impressionadíssimo com a trabalheira para se aprontar uma fração diminuta do filme. Alimentei o papo referindo a pré-produção: dias e dias de planejamento, pesquisas, contratos, requerimentos, autorizações, aquisições, locações; o trabalho de figurinistas, costureiras, cenógrafos... E a pós-produção: laboratório, montagem, sonorização, essas coisas industriais... Muito trabalho e despesa!
- Pois é, e depois vem um qualquer e rouba tudo isso e lança uma cópia pirata no mercado. Eu é que não compro mais – terminou o senhor.
Eu não sairia do set sem ouvir exatamente o mesmo de outro senhor, com o qual concordei plenamente. Piratas, para mim, só aqueles de perna de pau, tapa olho e papagaio no ombro. Os de hoje são um horror. E mais perniciosos.
Fui almoçar. Quando retornei para as gravações da tarde, fui barrado pelos seguranças. Só os moradores tinham acesso... Acabaram com o meu brinquedo.


Julho de 2009

13 de set de 2009

Privilégio

Participei de um evento cultural, – Literatura de Segunda -, promovido pela Ong Laboratório Cultural, na Praça XV de Novembro, em Marechal Hermes. Para os engraçadinhos que já estão fazendo conjecturas sobre a qualidade da literatura ali apresentada, vou logo avisando: o evento aconteceu em 22 de junho do corrente, uma segunda-feira, portanto.

Teve árvores de livros, contadores de histórias, oficina de artes plásticas, uma instalação artística manipulável, literatura de cordel e poesia. Mais de cem poemas abraçando a praça, fixados nas grades que a rodeiam!

De início participei com o meu suor, armando tendas. Prazeroso foi depois: admirar os livros pendurados nas árvores, ler os poemas ao redor da praça, xeretar as oficinas, conhecer pessoas, conversê daqui e dali...

O Severino Honorato eu já conhecia de duas semanas antes, quando fomos clicados para o encarte Zona Norte de O Globo de 21 de junho, em grupo com os ongueiros. Severino é poeta e cordelista. Diz que não domina a arte do cordel, mas só pode ser modéstia. Trocamos nossos livros: Cacos da Memória pra lá, Don Severo em 4 Tempos pra cá.

Na próxima tenda visitada conheci Eduardo Marinho, artista plástico e poeta. Artista-cabeça, como atestam os seus desenhos e o livrinho que me deu, - Palavra &Imagem -, pequeno por fora, mas grande por dentro, todo manuscrito e reproduzido em serigrafia em sua Editora Faisamão, assim também as cópias de seus originais a bico-de-pena. Dele ouvi que vive e sempre viveu de sua arte, com dignidade. Viver de arte já é uma vitória, e com dignidade, nos tempos de hoje, é vitória ao quadrado! Bravo!

Nessa tenda conversei também com Ivon Carlos Bernardo, carpinteiro e poeta com mais de trezentos poemas inéditos!

Mas o maior sucesso do evento foi mesmo o caixote. A proposta era subir nele e declamar ou ler poesias de autoria própria ou de outrem. O Severino brilhou! E uma professorinha, que não lembro o nome. Desculpe, professorinha. Outros poetas se apresentaram. A muito custo subi também e li o meu poeminha, uma louvação a meus pais. Não foi tão difícil quanto pensava e até voltei para recitar alguns versos de Fernando Pessoa que sabia de cor.

Tudo isso fez com que eu quase esquecesse um dos motivos da minha presença ali: distribuir cem cópias de "A menina do guarda-chuva e os meus sapatos de verniz", a história que abre o meu livro Cacos da Memória. Ofertei o meu peixe na praça.

Ao final, vi um homem cortando a praça em minha direção. Seria o próximo a receber a minha Menina do guarda-chuva. Ou não. Reparando melhor, parecia mendigo, em Marechal é o que não falta, certamente a leitura não fazia parte de sua dieta. Preconceito. E se não fosse mendigo, mas um cidadão em penúria de trajes? E mesmo que fosse mendigo, eu estava discriminando, isso não era politicamente correto. E se gostasse de ler, sendo ou não mendigo? Que sei eu das ânsias alheias? Fiquei intimamente constrangido. Sim, vou oferecer-lhe a minha história, se não por outra razão, ao menos para ficar bem comigo mesmo.

- Boa noite, senhor, gosta de ler? Eu tenho aqui uma história...

O homem riu, dentes estragados, mas riso aberto e franco, talvez estranhando a educação com que fora abordado, ou satisfeito por que houvessem reparado nele, ou – o que é mais provável – já antevendo a facada que ia desfechar.

- Gostar de ler eu até gosto, mas é que a minha cabeça...

- Sei, está cansada para leitura, a vista não ajuda...

- Não, é que a minha cabeça só consegue pensar num café bem doce e quente, um pão...

- Bem, eu tenho uma história e o senhor tem fome; vamos fazer o seguinte: eu fico com a história e o senhor vai tomar o seu café – disse, dando-lhe cinco reais. - Vá, vá tomar o seu café bem doce e quente, vá – despedi-me, com tapinhas no ombro.

O mendigo seguiu contente. Eu me senti um privilegiado. Ali, na praça, com as urgências do estômago e outras bem atendidas, curtindo poesia, alimentando o espírito, enquanto há quem sonhe com um simples café bem doce e quente...



Julho de 2009