19 de dez de 2014

O Natal vem chegando...




Nesta oportunidade quero agradecer aos internautas e amigos (virtuais e reais) que me visitaram neste espaço durante o ano que finda. E desejar a todos boas festas e um ano bom pleno de paz e de realizações - e que toda esperança se confirme! Até 2015. Abraços, queridos.

Veja aqui uma história de Natal

3 de nov de 2014

Book Crossing Blogueiro - 2



Uma família de retirantes vagueia pelo sertão sob sol abrasador: Fabiano, Sinhá Vitória, dois meninos, a cadela Baleia e um papagaio. Este, com um resto de farinha, virou almoço. Chegam a uma fazenda abandonada e se aboletam ali. Vem a chuva, o verde renova a paisagem, a vida explode. Agora Fabiano é o vaqueiro da fazenda, cujo dono retornou com a chuva. Sinhá Vitória só quer uma cama nova, com lastro de couro, confortável, para substituir a cama de varas que lhe mói o corpo. Festa de Natal na cidade.

Baleia adoece – sarnenta – e tem que ser sacrificada.Vem a arribação puxando mais uma seca. Morrem  os animais. E novamente a família parte, fugindo, buscando um pouso, outro inverno.
Esta obra – Vidas Secas – é a mais conhecida e famosa do autor Graciliano Ramos. Virou filme de Nelson Pereira dos Santos (1963) com Átila Iório e Maria Ribeiro. Ao ser exibido em Cannes suscitou muito burburinho por conta do realismo da morte da cachorrinha Baleia. O animal foi levado a Paris para provar que estava vivo. Não adiantou muito. “Vira-lata é tudo igual” – disseram os críticos.


1 - Viajante: Vidas Secas, de Graciliano Ramos
      Início da viajem: 03/11/2014

2 - Viajante: As três Marias & Papo de Mulher (cordel), de Dalinha Catunda
       Início da viajem: 16/11/2014

3 - A Bruxa de Portobello, de Paulo Coelho
      Início da viajem: 16/11/2014

4 - Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
      Início da viajem: 16/12/2014

5 - Dom Casmurro, de Machado de Assis
      Início da viajem: 16/12/2014

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4 de set de 2014

Amigos para sempre

Era o ano de 1965. O carioca chegava, de terno e gravata e mala na mão. Já se vê que não era um carioca típico. Da varanda do segundo andar, os “bichos” chegados anteriormente davam as boas vindas jogando bombas d’água – sacos plásticos cheios e amarrados na boca. O carioca não se livrou do bombardeio amigo.
Já no alojamento do 2º andar, um “bicho”, vizinho a três armários do seu, lhe entregou vassoura e rodo para que fizesse faxina nos banheiros. O carioca não se abalou, arrumou suas coisas no  armário e foi fazer a faxina, já acostumado, pois servira quatro meses no exército.
O que o mandara à faxina era “barriga verde”; barriga verde não, estes são do litoral, ele era da serra catarinense, de Lages, embora nascido em São Joaquim; e se formara no Ginásio Industrial de Florianópolis, que àquela altura ainda não era Floripa.
Veio o “baile do bicho”, evento oficial de boas-vindas aos calouros. O catarinense queria ir mas carecia de roupa adequada. O carioca nem sabia dançar, tinha terno e gravata, o catarinense foi bailar.
Foi o início de uma amizade duradoura.
Formaram-se e serviram ali mesmo, na escola. Arrimo de família, o do sul trouxe mãe e irmã. Moraram os quatro na mesma casa. Como uma família. Os dois, não sendo irmãos, eram.
Mas a vida que promove encontros também engendra separações: o catarinense casou-se, o carioca foi-se ao Rio de Janeiro. Ainda se viram algumas vezes, depois desgarraram-se, perderam o contato. Nunca mais souberam um do outro.
2014. Mais de trinta anos se passaram.
Nome completo do catarinense no Google, vários verbetes, aposentadoria de promotor público, endereço, telefone… Viva a Internet!
E lá se foi o carioca ao encontro do passado.
Que bom rever o amigo, saber que está bem, apesar de viúvo; que bom rever parentes do amigo, irmão, irmã, cunhada; que bom conhecer filhas e netas do amigo. Que bom caminhar com ele no calçadão da praia, rememorando, jogando conversa ao vento e olhando as moças que passam.

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31 de jul de 2014

Contando histórias


“Galo, galinha e pinto” é sem dúvida um dos livros infantis mais gostosos que já li. Carregado dessa magia envolvente da contação de histórias, em especial daquelas que pais, avós, gente carinhosa conta para os pequenos antes  de dormir. O livro nos leva pela mão e pelos sonhos. Uma verdadeira viagem entre versinhos.
                                                                                                        Adriana  Kairos


Um contador de histórias (avô?) e a menina ouvinte (netinha?); o contador conta, a menina esperta rebate, contesta, critica ou comenta a história e pede ao contador que conte outra. Ponto e contraponto construindo a estrutura do livro, até a quinta e última história, quando o sono chega e a menina se despede do contador.

Histórias: Galo, galinha e pinto/Abelhuda e o grilo cantor/A vaquinha Magnólia/Um grilo do campo na cidade/A flor que queria ser mãe.

Esta também não presta - foi corrigido no livro

O autor ainda sugere que os pequenos leitores/ouvintes peguem lápis e deem cor às suas ilustrações; e cheirem, mordam e “comam” o livro de todas as maneiras que a imaginação indicar. É dupla diversão para os pequenos.

Veja aqui mais comentários sobre a obra.

Lançamento
Farei o lançamento na Maré, com as crianças de Adriana Kairos, em tarde de contação de histórias. Melhor ambiente e assistência não pode haver para o meu filhote. Divulgarei dia, hora e endereço, quando tudo estiver acertado.

Para os familiares que não estiverem ansiosos e possam esperar, farei um segundo lançamento em nosso já tradicional encontro de Natal, no dia 25/12. Oportunamente divulgarei a programação do evento.

Para os amigos e familiares que moram perto, é só se comunicarem comigo e entregarei em domicílio, aproveitando para fazer visita. Ou me visitem, oras. Atenção: eu moro em Marechal Hermes - Rio de Janeiro.

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Vamos agora à 2ª parte do comercial, menos agradável mas necessária.

Preço: R$ 15,00. Dois ou mais exemplares - R$ 12,50 cada.
Pedidos, pagamento e envio: 
Os pedidos podem ser feitos preferencialmente pelo meu e-mail jarodriguesventura@gmail.com
Pagamento com depósito bancário em conta corrente (os dados serão fornecidos na transação)
Envio pelo correio, com acréscimo da tarifa postal (R$ 4,00 - um exemplar; R$ 5,00 - dois exemplares - Registro módico nacional)

Nota: Verifiquei a possibilidade de envio por SEDEX A COBRAR, mas fica mais caro e mais complicado para mim e para o leitor.

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29 de jul de 2014

Feliz como um pinto no lixo

Chegou!

Galo, galinha e pinto
outras histórias

João Antonio Ventura




Já está sob as minhas asas. Aguardem mais um pouco, enquanto busco alternativas para que possam ter acesso a este meu filhote querido.

22 de jul de 2014

Na chocadeira

Vem aí


Galo, galinha e pinto e outras histórias

João Antonio Ventura

Hoje, pela tarde, estive na gráfica revisando as provas de "Galo, galinha e pinto e outras histórias". Tudo certo, mandei ao prelo. Mais alguns dias, estará pronto. Aguardem brevemente mais informações.


12 de jul de 2014

A maldição da riqueza


Mal comparando, dizia eu no último post, o Brasil sofre da maldição da riqueza. Vamos então comparar.
Somos um país imensamente rico em recursos naturais: jazidas minerais generosas, fauna e flora diversificadas, clima variado e águas abundantes (ainda); imensidões de terras agriculturáveis, que nos permitem ser “o celeiro do mundo”. Então a nossa economia se mantém historicamente com as exportações de commodities minerais e agrícolas, de baixo valor agregado.
Já os países ou territórios pobres em recursos naturais, como Japão e os chamados tigres asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan), entre outros, e mais recentemente a própria China, não podendo contar com riquezas naturais e precisando crescer, optaram por investir fortemente em educação, pesquisa, inovação tecnológica, industrialização. Tornaram-se desta forma exportadores de produtos industrializados com alto valor agregado. Nem precisa dizer quem leva a taça do desenvolvimento econômico.

Suécia 1958 - Brasil campeão - Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos...

Trocando o campo econômico pelo campo do futebol.
Sempre fomos celeiro de excepcionais jogadores de futebol. Nas cinco Copas que conquistamos eles estavam lá, com técnica e arte, fazendo a diferença, decidindo partidas, frente a um futebol, no geral, de estilo europeu, mais duro, baseado na força física e na disciplina tática.  A partir de 1958 conquistamos cinco Copas praticamente à  custa desses craques excepcionais. Não havia força ou disciplina tática que superasse a habilidade dos craques.


Chile 1962 - Brasil bi - Garrincha, Didi, Nilton Santos; Amarildo substituiu Pelé.

México 1970 - Brasil tri - Pelé,Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gerson...

Enquanto isso, os europeus admiravam o futebol sul-americano, em especial o do Brasil,  Admiravam e se inspiravam nele.

EUA 1994 - Brasil tetra - Romário, Bebeto... 

Após a derrota para o Brasil em 2002, no Japão, a Alemanha resolveu mudar tudo no seu futebol: investiu forte nas categorias de base, centros de treinamento e apoio ao atleta, reformulou conceitos e reciclou técnicos. Mais de uma década de planejamento, investimento e trabalho. Os resultados surgem agora. A Alemanha é realmente um time, organicamente, funcionalmente, sem depender  da excepcionalidade de um ou vários craques, tendo, porém, muitos bons atletas. E nos superou até no toque-de-bola, historicamente a característica do nosso futebol.


Japão 2002 - Brasil penta - Ronaldo, Kaká, Ronaldinho, Rivaldo...

E na safra atual o Brasil teve apenas um craque, o Neymar, que não jogou contra a Alemanha, e mesmo se jogasse…

Brasil 2014 semifinais- Festa teutônica

E é isto, meus queridos: ficamos pra trás também no futebol porque sempre tivemos grandes craques e portanto não investimos em outros aspectos essenciais ao esporte. O resto são detalhes.
Sei que não serve de consolo, mas tivemos uma copa, no dizer de muitos analistas, excepcional: maior média de gols dos últimos tempos, várias seleções sem tradição despontando no cenário e incomodando as favoritas, várias campeãs caindo já nas fases preliminares e o imprevisto “mineiraço”. E mais: não aconteceram grandes problemas relacionados ao evento e os brasileiros bateram um bolão, recebendo com simpatia e cordialidade os estrangeiros. E mais ainda: a polícia do Rio desbaratou uma quadrilha internacional de  cambistas – golaaaço!
Por tudo isto, é ou não é a Copa das Copas?

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10 de jul de 2014

O “mineiraço”


Um pouco antes da Copa pretendia escrever uma  crônica com o título “Não haverá maracanaço”, uma alusão à Copa de 1950, no Maracanã. No meu entender, depois de cinco Copas conquistadas, com muitas derrotas nos intervalos e o amadurecimento do povo, que não é mais (pensava eu) a “pátria de chuteiras” mas as “chuteiras sem pátria”, como faziam supor algumas manifestações que vimos nas ruas durante o último ano; no meu entender não haveria mais espaço nos corações e mentes para um sentimento de tragédia como o que dominou a nação naquela oportunidade. Sentei-me algumas vezes ao teclado e a crônica não saiu. Faço-a agora, sob outro título.
E bola rolando, rolando bola…
Eis senão quando, para evitar talvez o mal maior, antecipam-se os deuses do futebol e mandam o MINEIRAÇO! E num escore arrasador, humilhante, trágico, histórico: 7 x 1!!!
Perplexidade, consternação, choro! Precisava tanto assim, deuses do futebol?
Não, não precisava. Mas a Seleção Brasileira não ajudou os deuses do futebol… Então os deuses teutônicos dançaram com a bola em campo arrasado!




Ah! deu branco, deu apagão, deu… desorganização geral. O time brasileiro não tinha consistência, não tinha coesão calcada na disciplina tática, o time não era um time realmente, mas um grupo de bons atletas. Só. Até porque precisa treinar muito para se ter um time, um organismo – onde o todo é maior que suas partes e estas interagem funcionalmente para o todo. Isto os alemães tinham e têm de sobra, à parte os bons atletas que também possuem.




Teve também a questão psicológica por se tratar de Copa no Brasil e os atletas, a maioria, jovens. Tanto que o Felipão não cansou de inventar estratégias para motivar o seu grupo. Mas só isto não basta.
Eu fiz dois concursos públicos bastante concorridos ao longo da minha vida. Não tive quem me motivasse, foi auto-motivação mesmo. Mas não fiquei só nisso, preparei-me exaustivamente – estudando – para ser aprovado, para vencer dentro de campo. A motivação serve para acreditar que é possível vencer; se alguém entra em campo pensando em derrota, já está derrotado. Mas a preparação, o treino, o estudo é que dão segurança, potencializam a motivação e levam à vitória no campo e na vida. A insegurança era óbvia,  apesar das motivações do Felipão: frente aos alemães (e  não só) era preciso fazer o primeiro gol para que a Seleção ficasse tranquila e tentasse equilibrar o jogo. E os alemães fizeram o primeiro, o segundo… Desmonte total da Seleção Brasileira! Depois foi um passeio, ou baile…
Agora, meus queridos, a lição a aprender é esta: ficamos para trás também no futebol. E que a verdadeira tragédia do povo brasileiro não é a dos campos de futebol, mas a que está fora deles: o atraso imenso na educação, na saúde e na segurança, entre outros, que já veem de décadas e irão além.




E nada de queimar a bandeira nacional, de execrar atletas, mesmo os que jogaram mal. Não são culpados. Os culpados estão a partir da Comissão Técnica, para trás ou para o alto. E que eles deixem a arrogância de lado e também consigam aprender a lição.
O que aconteceu no Mineirão, mal comparando… Não. Deixemos esta comparação para o próximo post. Abraços, queridos.

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9 de jul de 2014

Janela da memória


Acordei hoje com uma sensação esquisita, uma aflição, uma apertura no peito que não sei descrever em palavras, mas passa por um ligeiro sentimento de perda. Sofri este sentimento apenas uma vez na vida, quando me descobri só, afastado de mulher e filhos, separado, desprovido – formalmente embora - do projeto e sonho acalentado anos a fio.
A diferença é que naquela oportunidade não foi “um ligeiro sentimento”, mas forte, renitente e prolongado. Doía ao acordar, doía ao longo das horas quando, entre os afazeres, abria-se uma brecha ou janela, na qual vinha a memória debruçar-se a me afligir. E ao recolher-me à solidão do Hotel de Trânsito da BAGL, mais forte doía a dor. Fugia dela. Pensava em outras coisas, mas cada coisa pensada também doía. Então fechava os olhos e imaginava algo imaterial, um ponto, um foco de luz brilhante, e me concentrava nele de modo que coisa alguma ou pensamento pudesse penetrar-me a mente. Funcionava enquanto persistia o esforço de concentração.




E para fechar portas e janelas a impertinências doloridas, também tentei fazer versos. Fiz dois ou três poemas sofríveis, recheados de ressentimento e despeito, dos quais não me orgulharia se os tivesse para mostrar: perderam-se nos caminhos da vida. Melhor assim. Talvez só um fosse digno de salvação: o que fiz para minha ex-mulher àquela época, amoroso e delicado, mas do qual minha memória não guardou um único verso (Ah! memória descuidada!).
E assim foram dias e dias, e semanas, até que a vida se encarregou  em desvanecer a dor e aliviar o meu peito. E a vida seguia.
Desculpem, caríssimos! Eu pretendia falar sobre o jogo Brasil x Alemanha, ontem, no Mineirão, mas os meus sentimentos desviaram o assunto e abriram uma janela pela qual me desvendo um pouco para vocês. Às vezes o discurso assume a pena, ou os dedos... De maneira que, trocado o assunto, troquei também o título, que seria “O mineiraço”. Voltarei ao assunto, aguardem.

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20 de jun de 2014

Inexorável tempo!



"Nestes jardins - há vinte anos - andaram nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos."


Foto: Mário Martins



Foto: Mário Martins





(E não foram vinte anos, mas cinquenta e sete!)


 "E se alguém de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso."







"E Assim nos separamos, suspirando dias futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos."









"E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo."












Vejam aqui análise literária do poema "O tempo no jardim", por Jussara Neves Rezende

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16 de jun de 2014

Perdão, poeta!



Meus queridos, cometi um equívoco de autoria no post “Às voltas com o bruxo”; e para me redimir com Vinícius de Moraes, que está lá nas estrelas vigiando a minha ignorância, publico o seu “Poema enjoadinho”, de cujos 4 primeiros versos cometi uma paródia.





Poema enjoadinho

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


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25 de mai de 2014

Às voltas com o bruxo

Dia desses fui ao Centro  e passei pela Cinelândia, onde pretendia lanchar antes de tomar o Metrô de volta a casa. Deparei-me com a feira de livros que volta e meia estaciona por lá, e circulei entre as tendas à procura de algum alimento para o espírito que me não fosse indigesto ao bolso. Interessei-me por dois títulos de crítica literária sobre a obra de Machado de Assis. Eliminei um, para não eliminar o lanche. Ao sentar-me no bar Amarelinho, já lia “Tempo e Metáfora em Machado de Assis”, de Dirce Cortes Riedel – professora emérita da UERJ (já falecida).
É a primeira vez que leio um livro de crítica literária; e isto é mais uma peça – involuntária e póstuma – do bruxo do Cosme Velho!




Não vou mentir e dizer-lhes que entendi tudo perfeitamente, que agora sou um expert em Machado. Para ter “fumos” de expert, teria de ler mais, muito mais, nem o resto de vida me daria tempo.
Mas, em que pese a linguagem técnica e acadêmica a que não estou afeiçoado,  as muitas referências filosóficas e  de outros críticos que evidentemente não conheço, a autora abriu-me os olhos para novas leituras e releituras do autor. Tanto que estou determinado a reler algumas obras, sob novo olhar, especialmente Quincas Borba, que li apenas uma vez e há muito tempo, e de igual modo o Memorial de Aires. Sem embargo de outras obras da primeira fase do autor, e uma infinidade de contos que não conheço. Vagar eu tenho, haja olhos!
Resumindo, caríssimos; lendo um livro, se há boa vontade e alguns neurônios, sempre se aprende alguma coisa. O principal é que há muito ainda por aprender!
E para fechar com pertinência e humor, cometo aqui uma paródia a Drumond:
Ah! livros, livros, melhor seria não os ler; mas se os não lemos, como aprender?


OBS: A paródia acima não é a Drumond, como está no texto, mas a Vinicius de Moraes. Os versos parodiados são estes: Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?. Estão em "Poema enjoadinho", na Antologia Poética, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 195.
Quem me alertou para o equívoco de autoria foi a minha amiga virtual Jussara Neves Rezende, do blog Minas de Mim. Obrigado Jussara!

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21 de abr de 2014

Um editor atrapalhado


Uma das ilustrações de
"Galo, galinha e pinto e outras histórias"
Escrevo estas poucas linhas, se não são poucas foi a maneira de iniciar o texto dando notícias do meu “Galo, galinha e pinto e outras histórias”, há tempos prometido e ainda não cumprido.
Já disse que ando com veleidades de escritor neófito; pois agora meti-me também a editor. Imaginem!
Para tal era preciso que me cadastrasse na Agência Brasileira do ISBN para obter o meu prefixo editorial e o ISBN (International Standard Book Number) e código de barras para o livro a ser editado. Isto eu queria, para que o meu livrinho tivesse todas as formalidades dos outros livros. As editoras de demanda fazem o procedimento, mas cobram, é claro, e a menos que eu tivesse uma editora que me bancasse, era preciso diminuir custos. E é “facinho”, é on line, me disse a simpática atendente da gráfica onde fiz o orçamento para uma tiragem de 500 exemplares.
Pois bem, meus amigos, não era tão facinho assim.
Pra começar, o site da agência é novo, e como toda coisa nova, ainda não testada pelo uso, apresentava algumas deficiências de informação e comunicação, que eu só pude superar com inúmeros telefonemas para a agência, ao longo das quatro tentativas que fiz.
Na primeira tentativa logo desisti. E optei por ir pessoalmente na agência entregar os documentos e comprovante de pagamento dos serviços. Não pode, o senhor começou on line tem que terminar on line. Mas não tem problema, nós lhe devolvemos a tarifa na sua conta corrente. Não tem problema! óh, céus!
Segunda tentativa on line: cancelada sem eu saber o porquê.
Quando voltei de minhas férias das férias nos sertões do Pará, dei um tempo, escrevi várias crônicas, dei mais um tempo e voltei à carga: terceira tentativa. Desta vez notei várias informações que não existiam antes no site. Uma delas: os tipos de arquivos que o sistema admitia para anexar CPF e folha de rosto. E agora ficava sabendo por que nada dera certo antes: um dos meus arquivos a anexar estava em jpg e o outro em doc – um dos padrões não aceitos pelo sistema. Chamei o meu Rafael, que rapidamente transformou, não sei por que passes mágicos, doc em pdf, e assim foram anexados.
Desta vez vai! Ah! se não!
Não foi. Recebi e-mail: não foi possível atender o seu pedido; diagnóstico do analista – anexar CPF e folha de rosto.
Putz!
Passaram-se alguns dias em que  fiquei ruminando o acontecido e fui para a quarta tentativa, e esta seria a derradeira, eu já estava a ponto de mandar tudo para os quintos dos infernos (menos o meu livrinho, é claro!). Por precaução eu mesmo preparei os dois arquivos em jpg, vá lá saber se deram errado as mágicas do meu filho Rafael. E chamei o meu Daniel para ficar ao meu lado fiscalizando, no pressuposto de eu estar errando algum procedimento.
E clic daqui e clic dali, o CPF já está anexado, agora vamos para a folha de rosto…Não, pai, não! Espera um pouco, deixa completar a transferência do arquivo…
Putz! Mil vezes putz!
Até aqui eu fechava o pedido de ISBN antes que se completasse a transferência dos arquivos (quando pára de rodar aquele circulozinho, lá em cima, e que eu nem via). Por isso os arquivos não iam, não chegavam na agência. Ai, meu pai! Tu te enchias de suor e fuligem na carvoaria, mas não tinhas que passar por isto!
Bem, amigos, desta vez deu certo, já estou com o prefixo editorial e o ISBN para Galo, galinha e pinto, mas tem um outro porém: gastei o dinheiro que reservara para a impressão. Nada que não se resolva, mais um pouco de paciência, em julho mando para a chocadeira (ou será prelo?).
Empanturrem-se de futebol e aguardem.

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3 de abr de 2014

O misterioso entregador de revistas


Pensava que tinha lido Vidas secas, de Graciliano Ramos; engano da minha memória; o que eu li, na minha juventude, foi Seara vermelha, de Jorge Amado, sobre o mesmo tema da seca nordestina. E vi, na mesma época, o filme de Nelson Pereira dos Santos sobre a obra do Graciliano. Mas do enredo e dos personagens pouco lembrava, só não esqueci da cachorrinha Baleia.
Estava pois a ler Vidas secas na manhã do último domingo, sentado no sofá da varanda, quando Rita, – que saía para a missa – , voltou e entregou-me a revista: “Olha aqui, entregaram hoje”. Concentradíssimo como estava na leitura, peguei a revista e olhei a capa: nenhuma imagem ou forma bem definida ou impactante; apenas tons de azul, esmaecidos e imprecisos, puxados ao branco, nada que me chamasse a atenção de imediato. O melhor é que eu não precisaria telefonar para a editora reclamando dos desacertos do entregador nas últimas semanas. Agora me entregava a revista adiantado, pois que geralmente é entregue às segundas ou terças. Pousei a revista no sofá e retomei a leitura do  Graciliano, que só terminei por volta do meio-dia.



Esclarecendo o leitor: já notara a falta da revista durante as semanas anteriores, até que uma vizinha entregou-nos dois exemplares, dizendo que um terceiro se estragara com a chuva, e que o entregador as entregara por engano em sua casa. Verifiquei a etiqueta de endereçamento; o meu endereço estava correto, o entregador é que era um trapalhão (ou míope).
Depois do almoço fui tirar a sesta. Quando acordei, lembrei-me da revista e decidi terminar o dia lendo-a. Fui buscá-la ao sofá. Não a encontrei. Rodei a casa, nada. Fui ao quarto e perguntei à Rita ainda sonolenta: nada sabia da revista. Voltei ao sofá, já intrigado, procurei atrás, dos lados, embaixo. Nada! Esperei meus filhos descerem e perguntei-lhes; não pegaram a revista! Desisti de procurar a maldita revista.
Segunda-feira falei novamente a Rita sobre o caso; ela jamais me estregara revista alguma. Então eu sonhara, só pode! Mas em nenhum momento percebi ter sonhado, como é comum quando acordamos após um sonho. A impressão foi tão nitidamente real que sequer desconfiei da possibilidade de um sonho. Aquela revista, aquela capa de tons azuis esmaecidos, puxados ao branco…




Terça-feira entregaram-me a revista: estava na caixa de correio. Não a recebi de Rita, mas de Daniel, meu filho. E eu não estava no sofá lendo Vidas secas, mas na cozinha lavando a louça. E aquela revista agora em minhas mãos eu já conhecia, aquela capa em tons de azul esmaecido, puxados ao branco… Era uma reportagem sobre a escassez de água em São Paulo e outros lugares.
E agora o que me dizem, caríssimos, desse entregador de revistas? Não o de terça-feira, mas o de domingo?

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16 de mar de 2014

Book Crossing Blogueiro


A partir do Luz de Luma, o blog da minha amiga virtual Luma Rosa, desço da estante o primeiro livro para fazê-lo viajar pelos caminhos do bookcrossing blogueiro. O meu primeiro viajante é o Dom Casmurro, de Machado de Assis, obra que gosto demais. Mas não ficarei órfão de Dom Casmurro: tenho outro exemplar. Para quem não conhece, o procedimento é muito simples: fazer o livro chegar a outros leitores, “esquecendo-o” em lugar público e de fácil acesso (ônibus, trem, por exemplo), com o aviso de que o livro não foi esquecido ou abandonado, mas que se destina à leitura de outras pessoas – que devem, por sua vez, “esquecê-lo” também nas mesmas condições, para mais leitores usufruírem dele. Mais esclarecimentos e informações sobre o Bookcrossing Blogueiro veja no Luz de Luma. Ela vai adorar sua visita.




Não fiz uma resenha do Dom Casmurro por ser a obra demasiado conhecida e também, confesso, por não ser fácil resenhar. Mas escrevi uma história de carnaval que envolve o livro de Machado com as folias momescas. Se me dão a honra, confiram.


1 - Viajante: Dom Casmurro, de Machado de Assis
         Início da viagem: 17/03/2014

2 - Viajante: O Melhor do Conto Brasileiro 1 de Aníbal Machado/Josué Montello/
                                                                          Rachel de Queiroz/Orígenes Lessa
         Início da viagem: 24/03/2014

3 - Viajante: Morte na Mesopotâmia, de Agatha Christie
        Início da viagem: 26/03/2014

4 - Viajante: Cacos da memória, de João Antonio Ventura
        Início da viagem: 03/04/2014

5 - Viajante: Movimentos culturais da juventude, de Antonio Carlos Brandão e
                                                                               Milton Fernandes Duarte
         Início da viagem: 12/04/2014

6 - Viajante: Dom Severo em 4 tempos, de Severino Honorato
        Início da viagem: 12/05/2014


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7 de mar de 2014

Uma história de carnaval


Este ano não fui para Maricá, como de hábito, e resolvi reler um livro que gosto muito: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Desde a juventude, é a terceira ou quarta vez que o leio. Desta feita, por andar com veleidades de escritor neófito, li-o com atenção redobrada, cuidando das palavras desconhecidas ou pouco íntimas, dicionário ao lado; e do estilo do autor, de sua técnica narrativa, de como vai construindo a trama, à maneira de um delicado mosaico, peça a peça, sutileza a sutileza, deixando pistas aqui e ali, um argumento acolá, novos indícios e dúvidas mais além.
Trata-se do clássico e sempre recorrente triângulo amoroso: neste caso Bentinho, Capitu e Escobar. Mas é, antes de tudo, o romance da dúvida. Dúvida para o leitor, que ao fim não tem convicção formada: Capitu traiu ou não traiu? Depende do leitor; em verdade ninguém sabe, ninguém viu.
E que mulher, a Capitu! Ah! Bentinho, por que tinhas de ser tão casmurro? Tão melhor seria que fosses mais generoso e menos ciumento, e assim viverias o resto dos teus dias navegando num mar de delícias com a tua Capitu… Mas neste caso também não teríamos esta obra prima do bruxo do Cosme Velho…
…Perdão, leitores. Perdoem o meu envolvimento. Eu pretendia contar uma história de carnaval, se é que não me enganei no título. Pois vamos a ela, sem mais delongas.


Li pra mais da metade do livro na segunda-feira de carnaval. À noite recebi uma ligação da mãe de Yasmin, que voltou a morar com a pequena na vila militar do Galeão, convidando para um churrasco em sua casa, na terça. Fui. Numa sacola levei 1Kg de contra-filé e uma sobremesa preparada por Rita, que não quis ir. Para ler no ônibus, levei o Dom Casmurro. Antes não levasse…
Depois do churrasco que, para desgosto do meu estômago foi servido lá pelas tantas da tarde, fomos todos espairecer no Complexo Recreativo, onde nesses dias sempre rola alguma coisa. As mesas da varanda quase lotadas, crianças fantasiadas dentro do salão, brincando com serpentinas e confetes. Deliciosas marchinhas carnavalescas – dos carnavais antigos – é o que havia de festa momesca. Não que a família militar não seja animada  – já fui a grandes bailes de carnaval em clubes militares – mas há que ter quem os organize e o Complexo serve mais para comemoração de aniversários, batizados, natal e outras datas do tipo, em suma, para a distração, o divertimento e a prática de esportes no dia-a-dia dos moradores da vila.
Sem ânimo momesco nas veias - lembrem-se que estava lendo um livro -, dei uma espiada no salão e dirigi-me discretamente para a varanda dos fundos, onde também há um barzinho, no pressuposto que meus acompanhantes preferissem ficar na frente. Sentei-me e ataquei de Dom Casmurro.
Dentro em pouco estava rodeado por meus convivas e mais além três mesas se juntavam para acomodar uma família, esta sim, com espírito carnavalesco: os dois homens, um mais ou menos da minha idade e de cabelos brancos e o outro mais jovem, que mais tarde vim a saber tratar-se de seu genro, ambos fantasiados de mulher. O senhor de cabelos brancos eu já conhecia desde a matinê de domingo, quando estive no local acompanhado por Rita, Yasmin e seus familiares. Na ocasião, este senhor, enfiado no mesmo vestido e a cara borrada de maquiagem, sapecara-me um beijo no rosto com as graças típicas e caricatas da fantasia. Tudo se deu entre risos e galhofas.


Como os do meu grupo aparentemente não se incomodavam que estivesse lendo, continuei lendo. A certa altura o senhor/senhora de cabelos brancos, dirigindo-se ao banheiro masculino, parou ao meu lado e, com trejeitos afetados e voz de falsete feminil, convidava-me ao banheiro para ajudá-lo num “serviço”. Já meio sem jeito, mas ainda com ferpley, disse-lhe que não fazia serviços desse tipo; rimos e apertamo-nos as mãos. E foi risota geral.
Agora a trama estava chegando ao clímax, atenção redobrada na leitura, foco total na desventura dos dois amantes; eu não estava ali com os meus, estava com Bentinho e Capitu… Então veio o susto e a minha reação automática e incontrolável, como no estouro inesperado de um rojão: levantei-me quase de um pulo, abrindo  os braços e afastando com energia as duas “senhoras” importunas que tentavam beijar-me o rosto, uma de cada lado.
- Não! Não! Brincadeira tem limite, pô!
Não, creio que não disse palavrão, mas não estranharia se tivesse dito. Assustei-me com a surpresa do ataque das “senhoras” num momento de extremo envolvimento literário. Quase fervi de irritação por me terem tirado do enleio em que me achava. Desta vez não houve risos, mas caras espantadas.
Escusado dizer que dali em diante não havia clima para continuar lendo; terminei o livro na quarta–feira de cinzas.
Já calmo, passei na mesa das “senhoras”, expliquei-lhes a minha reação e pedi desculpas; também as recebi, efusivamente, com apertos de mãos e tapinhas nos ombros.
E o riso voltou. Era carnaval. Evoé, Baco!

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23 de fev de 2014

Uma tragédia dentro da tragédia


Dos cerca de vinte livros que salvei do lixo, reservei mais um para mim: o Diário de Anne Frank. Pertenceu à mãe ou à avó de Yasmin, não sei bem; é leitura comum no segundo ciclo do 1º grau ou no 2º grau, creio.
Então por que separá-lo para mim, se já é leitura passada, apreendida e ruminada? Não para mim, caríssimos amigos. O meu ginásio e o meu 2º  grau foram substituídos pela Escola de Especialistas de Aeronáutica, uma escola técnica e militar, portanto o programa de Português não contemplava a literatura, nem tempo havia para leituras consideradas, digamos, supérfluas. Havia os regulamentos, os manuais técnicos e as normas-padrão de ação. Mas não pensem que estou surpreso com o achado. A história de Anne e sua família é bastante conhecida, uma tragédia particular dentre tantas outras no âmbito da grande tragédia que foi a 2ª guerra mundial e o holocausto nazista. Eu mesmo conhecia a história de há muito, só nunca havia lido o famoso diário. Li-o agora, com muitos anos de atraso. Nunca é tarde para se ler um livro.




E que menina excepcional! Acompanhei, pelo diário, o desenvolvimento pessoal dessa menina inteligente, sensível e talentosa durante os três anos de sua adolescência (dos 13 aos 15) em que ficou confinada com sua e mais outra família de amigos num esconderijo (o “anexo secreto”), tentando escapar da sanha genocida nazista. Acompanhei as dificuldades do confinamento, os medos e as angústias, as alegrias e tristezas. E o desabrochar de seu caráter reto e firme, de seu espírito crítico, que não poupava nem a si mesma, de sua fé inabalável e de sua esperança sempre renovada. E de sua imensa vontade de viver, de seu amor à vida.
Apenas Otto Frank, o pai de Anne, sobreviveu ao horror da guerra.
Anne Frank queria ser jornalista e escritora. Escritora ela já era…
Que tesouro se perdeu!

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16 de fev de 2014

A inspiração que não foi, mas poderia ter sido

Fui buscar Yasmin para mais um fim de semana em minha casa. Sua mãe fazia uma faxina nos cacarecos da casa e havia enchido um saco preto com livros destinados ao lixo. Por sugestão da pequena, fui garimpar no saco preto e salvei cerca de vinte livros, a maioria muito bons. Trouxe para casa uma sacola cheia; assim tenho livros para doar nos saraus que por vezes frequento.
Um desses livros reservei para mim: “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Apesar de ter referências da obra e do autor , jamais tinha lido qualquer coisa do José Lins (que vergonha!). O meu interesse por “Menino de Engenho” cresceu a partir do momento que a minha amiga virtual Jussara Neves Rezende, ao resenhar o meu “Cacos da memória”, disse que este é do mesmo gênero daquele. Fiquei curiosíssimo e agora apresentava-se a oportunidade de conhecer a obra que poderia  ter sido inspiração para mim.



Li e reli “Menino de Engenho”. A primeira vez sofregamente, a segunda com mais vagar e melhor apreciação.
É impressionante a similaridade dos dois livros, resguardadas as devidas proporções e diferenças culturais. O de Lins apresenta uma realidade dramática, até mesmo cruel, nas relações da produção açucareira no interior da Paraíba; no meu, apesar das muitas dificuldades, a realidade não é tão dura, eu diria mesmo amena, em relação ao romance de Lins.
Mas o que realmente me impressionou – e aí reside a similaridade – foi o universo das crianças no engenho Santa Rosa. Lendo o livro, pensei com os meus botões: as crianças são mesmo  muito parecidas, qualquer que seja o espaço e o tempo – só mudam de nome e endereço! O mesmo encantamento por ouvir histórias da tradição oral, na Paraíba histórias de Trancoso; a mesma curiosidade por máquinas e ofícios (os meninos); a mesma atração por conversas de adultos, no sentido de conhecer/descobrir o mundo. Até algumas brincadeiras e traquinagens são as mesmas, na essência, variando apenas nos aspectos culturais.




Escrevi “Cacos da memória” na intuição, sem qualquer plano ou modelo a seguir: desejava escrever meia dúzia de histórias da minha infância, por sugestão e incentivo de meus sobrinhos, e acabei escrevendo um livro. A minha inspiração, posso dizer, foi a “Menina do guarda-chuva”, garota anônima que vi passar numa rua da cidade de Cunha – SP. Menina cuja história abre o meu livro e que, juntamente com a “Nota do autor”, funciona como prefácio.


Mas se tivesse lido anteriormente o “Menino de Engenho”, do José Lins do Rego, melhor inspiração não teria. Amei. Obrigado, Jussara.

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4 de fev de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 11

Os Martírios de Goiás
Em crônica postada aqui, referi-me à leitura que fez a delícia da minha pré-adolescência: “Expedição aos Martírios”, que, juntamente com “Volta à Serra Misteriosa” e “O Bugre do Chapéu de Anta”, compõe a trilogia do “Roteiro dos Martírios”, obras infanto-juvenis de Francisco Marins. Cabe agora maior explicação sobre a referência que fiz, até por estarmos no Pará e próximos à região que outrora constituiu o norte de Goiás e hoje é o estado do Tocantins.
Martírios era a lendária serra aonde teria chegado o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva nos idos do século XVI. O bandeirante embrenhou-se pelos sertões do Araguaia e relata que na serra onde estivera o ouro brotava do chão. Em virtude de inscrições antigas encontradas nas rochas em “semelhança com a coroa, lança e cravos da paixão de Cristo”, deu-lhe o nome de Martírios. Voltando em busca do rio Vermelho, encontrou uma aldeia indígena do povo Goiá e engambelou os índios, tocando fogo numa tigela de aguardente e ameaçando queimar todas as águas e fontes, se os goiás não lhe indicassem o caminho do ouro. Os índios chamaram-no de Anhanguera – diabo velho.

Inscrições como estas deram nome à serra
O filho do Anhanguera, de mesmo nome e mesmo apelido, e que teria estado com o pai na serra dos Martírios aos doze anos de idade, por três anos explorou os sertões goianos em busca de Martírios. Não a encontrou. Encontrou, porém, ouro no rio Vermelho, que recebeu este nome em virtude do barro proveniente das lavras, e ali se estabeleceu com mandato real de capitão das minas; fundou o arraial de Santana, mais tarde Vila Boa de Goiás e depois cidade de Goiás – capital do estado – e agora conhecida por Goiás Velho. A história de Martírios rapidamente virou lenda.

Goiás Velho e seus becos

O rio Vermelho e a casa de Cora Coralina, à esquerda.
Atualmente o rio só tem essa coloração em época de
 chuvas fortes. No mais, é cristalino.

Ao tempo em que Francisco Marins escreveu o Roteiro dos Martírios, a serra permanecia uma lenda – jamais alguém a encontrara. O autor trabalhou esse mito e tantos outros do Brasil grande, criando uma obra memorável para a infância e a adolescência.

1º vol. do "Roteiro dos Martírios"
Francisco Marins












Tempos depois o engenheiro e historiador paulista Manoel Rodrigues de Oliveira, baseado nos relatos históricos e exaustivas pesquisas de campo, finalmente localizou Martírios. Trata-se da serra das Andorinhas, no município de São Geraldo do Araguaia, sudeste do Pará. A serra estende-se pela margem esquerda do Araguaia até a confluência deste com o rio Tocantins, região conhecida como bico do papagaio, extremo norte do antigo estado de Goiás. Claro está que ao tempo dos bandeirantes, não havendo fronteiras delimitadas, toda aquela região era “os sertões de Goiás”. Não muito distante de onde estávamos, considerando que são sempre longas as distâncias do Brasil grande.

O rio Araguaia, tendo ao fundo a serra dos Martírios/Andorinhas

Atualmente a serra é tombada e faz parte do Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas.


Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas
A região também foi palco de acontecimentos traumáticos na história recente do país: a guerrilha do Araguaia, de triste memória. Exterminada a guerrilha, o governo promoveu, no final da década de 1970, uma operação limpeza com o intuito de apagar vestígios do conflito. Ossadas foram desenterradas, queimadas, e os restos remanescentes levados à serra dos Martírios/Andorinhas e lá enterrados. Atualmente a Comissão da Verdade executa escavações no local na tentativa de resgatar vestígios que possam identificar guerrilheiros desaparecidos.
A lenda se desfez. Martírios permanece.

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3 de fev de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 10

No caminho das pedras parideiras
Despedimo-nos da Camaçari no dia 02/01 pela manhã, após o café. Voltamos por outro caminho, pela serra, caminho quase impossível em dias de chuva, mas cerca de 30 km mais curto.
Paramos na serra para fotografar as pedras parideiras, das quais já ouvira falar. O povo mais antigo destes lugares acreditava ou ainda acredita que essas pedras dão cria – filhotes que se espalham encosta abaixo e nas várzeas. Mas ninguém nunca explicou como se dá a concepção e o parto dessas pedras magníficas. Ninguém nunca flagrou esse momento, talvez por ser demasiadamente demorado – séculos! – para a curta existência humana. A natureza tem lá os seus mistérios. Mais um não faz diferença.

As pedras parideiras
Singelas e monumentais
Os filhotes, encosta abaixo
Bem mais adiante paramos à beira de um rio. Já estavam lá parados o Neguinho com a esposa. Era a “rodoviária”, segundo me disseram, lugar de parada para aviar as necessidades, refrescar o rosto e seguir em frente. Quem precisava se espalhou procurando moitas, também procurei a minha. Não lavei o rosto nas águas do rio, mas sacudi o pó das roupas e limpei com o lenço os cantos dos olhos. E comi duas colheres de frito com farinha, prato preparado para a ocasião. O único conforto dessa “rodoviária” foi a abertura de uma garrafa de vinho. Dividido pelos adultos, bebi dois goles. E fomos adiante.


Um tatu atravessou a estrada e Diogo deu ré, farejando um almoço diferenciado. O tatu não era besta e sumiu-se no mato. Melhor para ele: se desse bobeira, não haveria IBAMA que o protegesse.

Reparem nos meus cabelos "aloirados"
Chegamos em Redenção beirando a hora do almoço, as minhas cãs aloiradas pelo pó da estrada. Nunca antes desejara tanto um banho!


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