8 de abr de 2010

O nome da praça



Chove.
Cai a temperatura.
Em dias como este o melhor mesmo é ficar em casa a comer o ganhado, como diziam os antigos, e na minha circunstância de aposentado não há dito mais exato.
Assim, a leitura de um bom livro é sempre um cardápio adequado a esse tempo recolhido, para ser degustado no sofá, enrodilhado o leitor num edredom. Outra opção é assistir a um clássico em DVD. Ou então dar tratos à bola e escrever...
Escrevo.
Nos últimos tempos tenho ouvido, nestas minhas plagas suburbanas, pessoas mais novas dizerem Saens Pena ao se referirem a Sáens Peña, a famosa praça tijucana. No meu tempo de moço não havia dúvida: a pronúncia era Penha. Ao que parece uma boa parte da população hoje não entende aquele til (~) acima do ene (n). Nem é para menos: tal notação gráfica (ñ) não existe no idioma português. O nome do logradouro é uma homenagem aos ex-presidentes argentinos Luís e Roque Sáens Peña, portanto nomes próprios do idioma espanhol.
Nem se pode dizer que tal ignorância é resultado da má qualidade do ensino em nosso país: o espanhol nunca fez parte da grade curricular do ensino fundamental de agora, como também não o era no antigo primário do meu tempo.
Nós, a nosso tempo, também desconhecíamos aquele estranho e indecifrável ñ.
Como então aprendemos a decifrá-lo? Simples. As professorinhas de então, já antes que perguntássemos, desvendavam para nós o mistério. É que elas, quase todas, vinham da Tijuca, àquela época o bairro preferido da classe média ascendente e pródigo celeiro de professorinhas. Na condição de tijucanas, mesmo não sendo versadas em espanhol, sabiam perfeitamente a pronúncia correta do nome de sua principal praça, com certeza orgulho de todas elas.
E agora, o que acontece?
As professorinhas não vêm mais da Tijuca?
E as professoras das professorinhas, não vêm mais da Tijuca?
As professorinhas de hoje vêm de todos os lugares (o que é bom) e a profissão de professor proletarizou-se, não tem o mesmo prestígio de outrora, nem a Tijuca permanece o que foi.
Seja o que for, vamos torcer para que um jovem repórter da TV não venha a dizer Saens Pena e a Tijuca, que já perdeu tanto do seu antigo glamour, não venha a perder também a pronúncia histórica do nome de sua praça.

Abril de 2010

7 de abr de 2010

Eles conseguiram...


Fecho o parêntesis político e retorno aos temas habituais. Alguns deles vou buscá-los no passado, recente ou remoto, vasculhando os escaninhos empoeirados da memória; sempre encontro algo por lá, mesmo que não passe de mera banalidade. Mas a crônica se faz de banalidades e a vida, quase sempre, também.
Encontro um nome: Gildásio.
E associada ao nome uma história, nem aventuresca nem romântica, nem cômica ou dramática – uma história banal, mas que ainda assim merece ser contada, quando mais não seja por falta de melhor assunto.
Gildásio foi meu companheiro de trabalho, soldado a cumprir seu tempo de serviço militar obrigatório. Nordestino com sotaque carregado. Trabalhador, honesto e leal. Creio que guardou boas lembranças de mim e do quartel, pois muito tempo depois de dar baixa ainda telefonava querendo notícias.
Pois bem. Um dia o Gildásio me convidou para a festa de aniversário de sua irmã, com a qual morava, em Áustin. Endereço anotado, consultei o GuiaRex: era em Austin, bairro de Nova Iguaçu. Eu não conhecia o lugar, mas conhecia o nome: Austin, com pronúncia oxítona.
Fui a Austin no meu fusquinha.
Durante a festa, entre um copo de cerveja e um naco de linguiça, muita conversa rolava. Notei que outras pessoas se referiam a Austin pronunciando Áustin. Perguntei ao Gildásio:
- Afinal, qual é mesmo o nome do bairro, Áustin ou Austin?
- Austin, respondeu-me o soldado.
- Então, se é Austin, por que vocês dizem Áustin?
Nem o Gildásio nem os demais a quem perguntei souberam-me dizer a razão da mudança prosódica do nome do bairro. Fiquei a imaginar que talvez a pronúncia paroxítona, para aquele povo morador de Austin, agregasse valor – uma certa sofisticação ou charme – por semelhança com a prosódia do idioma inglês. Não sei e nunca saberei.
Mas eles conseguiram...
Há pouco tempo, estava eu assistindo a um jornal da TV que denunciava problemas num bairro da Baixada Fluminense, ruas esburacadas, vazamento de esgoto, essas coisas, quando o jovem repórter assim terminou a matéria: "- Fulano de tal, diretamente de Áustin para o RJ TV".
Danou-se! A televisão falou Áustin, está homologado - agora é Áustin para sempre!

Abril de 2010

3 de abr de 2010

Vô Tônico quer saber...


Está em tramitação no Congresso uma nova legislação acerca da exploração do petróleo: é o chamado Novo Marco Regulatório do Petróleo. Já passou pela Câmara, onde foi aprovada a polêmica emenda Ibsen Pinheiro, causando repulsa unânime nos estados e municípios produtores de petróleo. No Senado negocia-se um substitutivo que leve em conta o direito constitucional dos produtores, aquinhoando também os não produtores, devolvendo assim a harmonia aos entes federados, seriamente arranhada com a emenda aprovada na Câmara.
Muito bem. Pelo que nos traz a mídia, discute-se uma nova distribuição dos royalties provenientes da extração do óleo do pré-sal, um detalhe apenas da nova legislação, que poderia até ser tratado mais além, uma vez que tais recursos ainda demoram a jorrar.
E o Novo Marco Regulatório do Petróleo?
Ao que parece está sendo aprovado de roldão, em meio à discussão dos royalties, sem debate, sem transparência. E no entanto esta é a questão essencial, por tratar da exploração de jazidas que aparentam vultosas e de extrema importância para o futuro do país.
A legislação atual tem funcionado bem; em sua vigência atraiu empresas e capitais externos, a Petrobras só fez crescer, cresceu o parque industrial fornecedor de insumos para o setor, e o Brasil alcançou a auto-suficiência em petróleo. Em que essa legislação é defeituosa ou insuficiente para justificar sua substituição?
Indo mais fundo nas indagações: quais as preocupações do governo - certamente legítimas - em relação à riqueza do pré-sal que a legislação atual não poderia atender? Qual a vantagem do regime de partilha, ora proposto ao Congresso, em relação ao regime de concessão da legislação atual?
Pergunto mais: qual a real necessidade de uma nova estatal petroleira, a chamada Petro-sal, já que temos a eficiente Petrobrás? Qual será sua função? Ela irá prospectar jazidas, furar poços, extrair gás e petróleo, comercializar os produtos obtidos?
E a Petrobras, como fica nesse novo cenário? Ouço falar em capitalização da empresa por meio de certa quantidade de petróleo que ainda está lá no fundo, no pré-sal. Que capitalização é essa, onde não entra um centavo em dinheiro?
Estas e possivelmente outras que não atino, são perguntas que gostaria de ver respondidas. O governo demorou um ano preparando o projeto que ora submete ao Congresso, sem transparência ou debate prévio. O Congresso debate a distribuição dos royalties. E eu fico a ver navios.

Sábado, 3 de abril de 2010