4 de dez de 2009

Diálogo pré-natalino


"Celebrando o nascimento" - original pintado
com a boca, por Ruth Christensen
* Pintores com a Boca e os Pés*
- Vem aqui vô, quero te contar uma coisa.
E achegando-se mais ao avô, com ar de mistério e atitude de quem vai revelar um segredo ou dizer algo impróprio para crianças, a menina contou:
- Vô, sabia que o Papai Noel não existe? Quem dá os presentes é a mãe, o pai... Papai Noel é mentira. Foi a minha amiga Luciana que me contou. É tudo mentira!
O avô não teve saída, mas tentou alimentar a conversa:
- Papai Noel é uma lenda, mas você sabe o que é a festa de Natal?
- É uma festa de presentes! – disse a menina com firmeza.
- É a festa de aniversário de Jesus – contestou o avô.
A menina parecia não saber dessa história, e o avô aproveitou para contá-la, desviando dos presentes a atenção da neta:
- Há mais de dois mil anos nasceu um menino muito pobre, tão pobrezinho que nasceu num curral e seu bercinho foi uma manjedoura. Sabe o que é curral e manjedoura? Curral é onde os animais se abrigam e manjedoura é o cocho onde eles comem. Havia no curral uma vaca e um burro...
- Ah, agora eu lembro, já vi esse burrinho e essa vaca na... no presepe do chopen. E tinha o pai do menino e a mamãe do céu, e o Jesus nas palhinhas, e uns homes com roupas de príncipe...
"Além da estrela" - original pintado com a boca, por Triantafillos Iliadis
*Pintores com a Boca e os Pés*
- Esses homens eram os três Reis Magos: Gaspar, Melchior e Baltasar. Eles vieram guiados por uma estrela muito brilhante e deram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra...
- Tá vendo vô, Natal é festa de presentes!
- Mas aqueles presentes... escuta aqui, lindinha do vovô, sabe o que é incenso e mirra? Incenso e mirra são resinas aromáticas para queimar, perfumar o ambiente, as casas - disse o avô, já arrependido de ter dado corda.
- E o menino gostou dos presentes?
- Como podia gostar, se era apenas um bebê? Mas o povo daquela época gostava muito de incensos.
- E de ouro também, né, vô? Eu já tenho um brinco de ouro e essas coisas... mirradas, eu não quero. Só se for um perfume Azarrô, igual ao da vovó.
- Mas como eu dizia...
- Já sei, vô, já sei da história. Vamos combinar: você me dá o perfume ou então a Barbie Fadinha. Tá bom, vô?
O avô optou pela boneca.

Dezembro de 2009

2 de dez de 2009

A lagarta que não virou borboleta




Havia no quintal dos fundos da casa um pé de abacate que, apesar de jovem, projetava uma nesga de sombra suficiente para mitigar o calor a quem nela se refugiasse. Era aí que eu costumava ler o jornal de domingo. Lia recostado em confortável poltrona, enquanto uma brisa suave, vez por outra, vinha farfalhar nas folhas do jornal e nas do abacateiro, aumentando o meu refrigério e trazendo aromas do almoço em preparo. Só as notícias do jornal incomodavam.
Mas a concentração na leitura se desfez quando um barulhinho de mastigação, persistente e guloso, fez-se ouvir acima de mim. Examinei a copa do abacateiro: uma lagarta verde devorava uma folha, depois outra e outra... Como são ligeiras pra comer!
Voltei ao jornal sob o ritmo contínuo e tedioso das mandíbulas da lagarta, porém concentrar-me na leitura já não podia: aquele ruído penetrava-me os ouvidos e me dispersava o pensamento.
Até que o ruído cessou: a lagarta estava no chão.
O que teria acontecido? Que evento ou circunstância interrompera a comilança da lagarta? Um ataque ineficaz de um predador? Uma lufada mais forte da brisa, sacudindo o restaurante da bichinha? Ou a lagarta simplesmente escorregou da folha, com todos aqueles pezinhos? Nesse caso foi uma escorregadela múltipla! Puro azar.
Mas que importa a causa, se a lagarta estava no chão?
Desviei do jornal e fiquei observando o infortúnio da lagarta, em suas tentativas de retornar ao abacateiro.
Havia um pedaço de muro dividindo o quintal, mas aberto onde eu me encontrava; deste modo acessava-se a outra parte do terreno. O abacateiro crescia ali, a cerca de meio metro e mais ou menos parelho ao pilar de concreto que rematava o término do muro. A lagarta caiu perto desse pilar.
Mas não se achou perdida: o instinto lhe dizia que as deliciosas folhinhas estavam acima; era necessário subir, portanto. Rodou a esmo até dar de cara com o pilar de concreto. Se era para subir, subiu. Terminada a vertical, emendou pela horizontal do muro – talvez fosse um galho do abacateiro. Não achou as folhinhas e ao chegar à parte do muro batida pelo sol, retornou. Desceu ao chão. Nova procura pela verticalidade redentora e de novo o pilar à sua frente. Subir, subir, lhe dizia o instinto. Subia, andava pela horizontal do muro, voltava.
Evidentemente que suas vistas não eram grande coisa, o abacateiro estava a meio metro, mas a pobre não o enxergava, só topando com o pilar de concreto. Nem a textura, nem o aroma, nem a temperatura da superfície de concreto combinavam com o que sabia de árvores, galhos e folhas, mas o pilar era a única verticalidade que encontrava, e sabia que tinha de subir...
De visão curta e prisioneira do instinto, a lagarta ficou no sobe-e-desce, no vai-e-volta, indefinidamente, incapaz de variar em suas tentativas.
Adeus lagarta, adeus crisálida, adeus borboleta!
Assim é a vida: nem todas as lagartas viram borboletas, talvez só a minoria o consiga. E a maioria de nós não somos também lagartas, com um sonho lindo de virar borboletas?
Há de haver muito esforço, muito trabalho (e como se esforçam as lagartas!); há de haver talento e oportunidade, e muita sorte, claro. Não há fada madrinha nem varinha de condão para fazer virar.
Virar borboleta é apenas uma possibilidade imponderável. Vivamos pois nossa vidinha de lagartas, honestamente comendo folhas e desejando a beleza das borboletas.
Mas, se cairmos da folha?
Se cairmos da folha temos vantagem sobre as lagartas: temos liberdade e discernimento para variar os rumos, escolher caminhos, perseverar...
Outubro de 2009


1 de nov de 2009

Arroz, feijão, macarrão



Sentado num banco do Passeio Público, eu acabava de ler o que de interessante achara no jornal, sem mais o que fazer além de aproveitar a sombra do arvoredo e olhar o entorno. Fazia hora para assistir à matinê do cine Palácio.
Um mendigo aproximou-se e pediu um cigarro. Dei. Mas considerei de bom alvitre afastar-me dali, movimentar-me, evitando assédios semelhantes ou piores. A matinê ainda demorava.
Transitei pelas ruelas tortuosas do jardim, observando as árvores, as plantas, o lago e as esculturas, e lamentando o péssimo estado de conservação de tudo aquilo. Parei na Fonte dos Amores, obra do Mestre Valentim. A conservação não era melhor (isto foi antes da restauração de 2004).
Perto da fonte, duas meninas pré-adolescentes, magras e andrajosas; uma de pé, a outra agachada lavando trapos nas águas verdes do lago. Mais velhos, mas pouco mais que meninos, dois rapazes conversavam e fumavam. Outro menino, o menor do grupo, mas talvez de idade superior à que permitiria supor o seu corpo miúdo, destacou-se dos parceiros de infortúnio e caminhou para mim.
Tive vontade de sai dali, de fugir ao assédio cujo resultado eu adivinhava.
- Tio, me paga uma quentinha?
- Filho, você não quer um saco de pipoca, uns doces? – tergiversei, na tentativa mesquinha de aliviar o bolso. Que criança não gosta de guloseimas?
- Não, tio. Eu quero comida, uma quentinha bem cheia.
- Está bem, eu pago a quentinha. Vamos.
- Tio, dá pra você pagar uma quentinha pra minha irmã?
Olhei as duas meninas. A que lavava trapos parou de lavar, ergueu a cabeça e olhou-me longamente sem dizer palavra. Nem precisava, seus olhos diziam tudo.
- OK, mais uma quentinha – conformei-me. Vamos buscá-las.
Alguns passos além e gritaram-me pelas costas:
- Tio, trás uma quentinha pra mim também?
Era a outra menina. Concordei - quem paga duas, paga três -, mas que ficassem ali, eu traria as quentinhas. Apressei-me, temendo que os outros pedissem também; nesse caso o meu orçamento ficaria seriamente comprometido, talvez nem desse para ver o filme. Disse-me o menino:
- Tio, a minha eu quero com bastante arroz, feijão e macarrão, tá?
Perguntei-lhe se sabia onde forneciam quentinhas; sabia, claro, e levou-me a um restaurante na Rua das Marrecas. Self Service, a peso. Não era chique, mas também não era popular: a despesa iria além do previsto. Entramos e o funcionário encrencou com o garoto, não o queria ali. Sosseguei o funcionário e orientei o menino para que ficasse junto ao caixa, enquanto eu fazia as quentinhas. Ele ainda advertiu:
- Tio, muito arroz, feijão e macarrão.
Enchi as quentinhas, pesei, paguei e saímos. Já no Passeio, segurando a sua quentinha, o menino falou:
- Tio, a minha eu não vou dividir com ninguém. A minha é só minha, tá?
- Claro. Se houver divisão é com estas duas, das meninas.
Entreguei as quentinhas às meninas, que agradeceram – também os rapazes o fizeram -, enquanto o menino sentava-se na grama para o seu almoço. Afastei-me, deixando-os à vontade na partilha.
Não lembro a que filme assisti no Palácio. Mas até hoje não esqueço daquelas crianças do Passeio Público, especialmente do menino. Não esqueço de sua esperteza recusando os doces e pedindo comida – com muito arroz, feijão e macarrão. Esperteza que lhe ensinou a vida, desde cedo.
Não esqueço aquele menino que há muito deixara de ser menino.

Outubro de 2009

Desassossego


A pequena olhava pela janela do ônibus, o nariz quase colado ao vidro. Descolou-se, parecendo confusa.
- Vô, as coisas lá fora, as casas... assim, é... não sei explicar...
Júlia não sabia explicar ao avô o que os seus olhos viam, ou pareciam ver, e a sua cabecinha não entendia e achava esquisito: o movimento aparente da paisagem, contrário ao deslocamento do ônibus.
- Parece que as coisas estão correndo lá fora, é?
- É...
- As coisas não estão correndo, estão paradas, disse-lhe o avô, mas o ônibus, eu e você, que estamos dentro do ônibus, é que estamos correndo para a frente, e aí as coisas lá fora vão ficando para trás, parece que fogem de nós. É ilusão: parece, mas não é. Entendeu?
- ...
- Olha agora, que o ônibus vai parar; as coisas param também...
- É... Engraçado, né, vô?
A menina voltou a observar através da janela. A viagem chegava ao fim. Vinham da Ilha do Governador, onde residia a menina com sua mãe e a bisavó, para mais um fim de semana na casa do avô, em Marechal Hermes. O ônibus arrastara-se por quase uma hora, sujo e mal cuidado, uma charanga velha chacoalhando metais, parafusos e rebites, num ritmo marcado pelas irregularidades do asfalto, não só desagradável, mas irritante. A menina já reclamara da viagem demorada. O avô explicou-lhe que era necessário aquele itinerário para que ela pudesse viajar de trem. O outro percurso, mais direto e rápido, pela Av. Brasil, não lhe daria chance. Júlia adorava viajar de trem e o avô sempre lhe dava esse gosto, por mais desconfortável que fosse.
- Vô, isto aqui já é Madureira!
- É sim, ali é o Mercadão. Estamos chegando.
Pouco depois saltaram no terminal rodoviário e dirigiram-se à estação ferroviária. Na rampa de acesso, o avô largou a mão da menina, por já não haver perigo.
- Me dá a mão, vô... Minha mãe disse que é pra eu andar sempre na mão dos adultos, porque tem gente má que rouba criança... E tem o Velho do Saco, sabia vô? A minha bisa disse que o Velho do Saco leva criança que não obedece... E criança malcriada... Bota no saco e leva, de noite... Eu morro de medo, cruz, credo!... Mas eu não acredito é em bruxa e lobisome. Isso é fantasia, a minha tia disse. Mas no Velho do Saco eu acredito, ele existe mesmo. Aí eu rezo pra mamãe do céu, que é pra não deixar ele me levar. E quando faço merda, peço desculpa...
O avô ia concordando com a neta, fazendo hum, hum, e lembrando-se de como era falador quando criança; falava pelos cotovelos, mormente se com pessoas de seu íntimo afeto. Agora nem tanto, ouvia mais e observava; mas quando algo o preocupava ou uma ideia o perseguia, e na falta de um interlocutor ou na inconveniência de ocupar o que havia, danava a falar em silêncio, consigo mesmo ou com os seus botões, como se diz; e gesticulava e mexia os lábios, em casa ou na rua, vez por outra causando espanto aos passantes. Em casa já ninguém se espantava.
Chegaram à bilheteria; o avô comprou a passagem.
- Julinha, você quer alguma coisa, um refresco, água?
- Não, vô. Vamo logo.
Foram. O avô introduziu o bilhete na catraca eletrônica, que respondeu com a luz verde. Sendo uma só passagem, teriam de passar juntos no mesmo setor da roleta. A menina pediu:
- Vô, deixa eu passar sozinha?
Diferentemente das do Metrô, modernas e civilizadas, as catracas de acesso às plataformas da ferrovia têm roletas altas e pesadonas, verdadeiros brinquedos para crianças pequenas, que adoram passar empoleirando-se nelas. O velho entendeu o desejo lúdico da neta e, sempre disposto a proporcionar-lhe novas experiências, ou "a fazer-lhe as vontades", como dizem as pessoas que não entendem a alma de um avô, assentiu ao pedido, sem atentar na consequência imediata: ficou bloqueado do lado de fora, separado de sua menina.
Raios! Como pude deixar acontecer? Veterano em catracas e roletas, e deixar-me surpreender assim, como uma criança inocente!
Mas para tudo se dará jeito, e o jeito era comprar rapidinho outra passagem: era sábado, pouco movimento, bilheterias desimpedidas. Trinta segundos, se tanto. E a menina ficaria ali, paradinha, esperando o avô. Disso o velho tinha certeza. E havia o funcionário da ferrovia olhando as catracas, ciente do ocorrido e com a menina em suas vistas; nenhum perigo, portanto.
Mas na catraca ao lado passava uma senhora, que tudo viu e ouviu e, sem que fosse solicitada, ofereceu-se:
- Moço, pode ir comprar a passagem tranquilo, eu tomo conta da menina, disse a mulher, já pegando a mão da criança.
Então o incidente, simples e de fácil resolução, complicou-se: homem e mulher se olharam por instantes, sem que desse olhar resultasse entendimento; pelo contrário, anuviou-se o semblante do velho, de súbito invadido por temores e desconfianças.
- Não, é melhor não, obrigado... Vem, Julinha, vem com o vô, chamou o velho, orientando a neta às roletas de saída.
E a senhora afastou-se, meneando a cabeça, talvez intuindo o que se passara na cabeça do velho.
Ora, onde já se viu! Tomar conta da minha menina, uma pessoa estranha, que nunca vi mais gorda? Nem pensar! É assim que acontece: uma oferta de ajuda, uma distração, e as crianças somem! Comigo não, violão! Vá ajudar a quem lhe peça, ou necessite; eu cá sei dar o meu jeito, não preciso...
Após comprar outra passagem e recolher o troco à carteira, o velho segurou a mão da menina.
- Vamos, Julinha. Agora temos de passar juntos na roleta.
- É. Se não passa junto, dá merda, né, vô?
O pior é que o Velho do Saco existe; ora, se não existe! Pode estar caminhando ao nosso lado em pleno dia, com a cara mais simpática e transpirando bonomia. Pode ser a senhora prestativa e solidária que oferece ajuda, sabe-se lá com que intenções ocultas. O fato é que as crianças somem. São mais de sete mil todos os anos! Crianças e adolescentes. Jamais são achados, jamais retornam a casa. Mais de sete mil! Por que descaminhos vagueiam? Nos sinais de trânsito, jogando malabares ou vendendo balas e não raro explorados por gente ordinária? Ou esmolando, idem. Ou escravizados na prostituição... Ou mortos... Fala-se em tráfico internacional de pessoas e... órgãos! Quanta crueldade! Quanto horror!... Custa-me crer, mas as crianças somem. Fogem de conflitos familiares ou maus tratos, ou se perdem, ou sofrem um sequestro... É possível que muitas sejam roubadas porque alguém se descuidou, porque um avô se distraiu...
Descendo as escadas de acesso à plataforma dos trens paradores, Júlia reclamou:
- Vô, você tá apertando muito a minha mão...
- Hem? Ah, é por causa da escada, é perigoso.
- Mas eu já sou mocinha, vô, já sei descer escada.
Na plataforma, sentados num banco, o avô largou a mão da neta. Os altofalantes transmitiam música ambiente, avisos diversos e o movimento dos trens. A menina abriu a sua bolsa-oncinha de pelúcia e retirou dela um pequeno espelho e um batonzinho de brilho; maquiou os lábios, apertando-os, como fazem as mulheres adultas; olhou-se no espelho e ajeitou os cabelos; guardou os apetrechos na bolsa e fechou-a, pondo-a a tiracolo; finalmente levantou-se e fez pose de modelo.
- Tou bonita, vô?
- Está linda, muito linda, uma princesa.
A neta sorriu, vaidosa; sorriu também o avô, orgulhoso. Quem não quer uma criança assim?
- Tomara que o nosso trem seja aquele novinho, né, vô? Com ar re... refri... refrigerante.
- Ar refrigerado, corrigiu o avô, a esta altura distante dos temores e desconfianças que lhe ocuparam a mente até ali, deliciando-se agora com a graça de sua mocinha de cinco anos.
Por alguns instantes, apenas. Do outro lado, na plataforma dos trens que demandam a Baixada Fluminense, sentada, a senhora que lhe oferecera ajuda. Os olhares cruzaram-se: o da mulher desviou, o do velho fingiu não ver. Mas olhavam-se de través... E a mente do velho inquietou-se de novo, desta vez com preocupações de teor diverso.
Aquela dona parece triste e pensativa, longe da que me ofereceu ajuda, de ar natural e simpática. Teria percebido o meu temor e se magoado? Ou, pior, sentiu-se discriminada por ser negra? Esse preconceito não tenho, porém bem sei que existe, difuso na sociedade como esse clima de insegurança, esse medo... E se fosse realmente uma sequestradora, se fosse uma Velha do Saco, que poderia fazer numa estação ferroviária, cercada por grades, catracas e roletas, escadas para descer ou subir e guardas na plataforma? A única chance seria com a chegada imediata de um trem, correr e lograr enfiar-se nele. Mas a minha menina já é mocinha, ia gritar e espernear, fazer escândalo. O maquinista seria avisado e o trem interceptado na próxima parada, em Deodoro; e a mulher presa e a menina devolvida... Isso se tudo ocorresse com a eficiência desejável. Mas claro está que este não é o melhor lugar para uma ação dessa natureza... E a dona parece respeitável; deve ter filhos e netos como eu. Deve ser uma boa pessoa. Quem vê cara não vê coração, bem sei, mas também ela não enxerga o meu e solidarizou-se comigo... Foi tudo um equívoco, uma desconfiança infundada, um temor precipitado...
- Vô, por que é que você tá mexendo com a boca e as mãos?
- Ãh? É que estou falando com os meus botões...
- Os botões da camisa? Eles ouve, é?
- É maneira de falar. Estou é falando comigo mesmo, entendeu?
- Entendi, mas aquela moça lá tava olhando pra você. Vai ver ela pensa que o meu vô tá doidando...
O velho achou graça no verbo, riu e abraçou a neta, enquanto pensava: doidando é? Pois estou é muito alerta, isto sim! Talvez lendo jornal demasiado, vendo muito TV, deixando-me levar, entrando no clima... Acho que vou é ler romances de agora em diante: me distraio e não me enveneno...
- Vô, o que é que a moça tá falando?
- Que moça? A do altofalante? Está dizendo que saiu um trem parador da estação de Piedade, com destino a Bangu. È o nosso, não demora.
Já calmo e apaziguado, convencido do exagero de seus cuidados e do mal-estar que engendrara, o velho não queria sair dali deixando para trás ressentimentos. Carecia, portanto, desfazer o mal causado. Como? Talvez um gesto cordial e um sorriso à senhora sentada na plataforma à sua frente resultasse no efeito desejado. Talvez lhe pudesse dizer duas palavras: desculpe, senhora. E a senhora talvez retribuísse com idêntico gesto e um sorriso compreensivo, absolvendo-o de culpa por tal situação, quem sabe ela mesma partilhando iguais sentimentos, tanto que se prontificou a tomar conta da menina... Sim, era isso. Mas havia de fazê-lo já, não tardava a chegar o trem.
Fácil pensar...
Com a menina segura na mão esquerda, o velho ficou de pé e voltou-se para a senhora do outro lado, fitando-a; ela percebeu algum propósito naquele olhar franco e direto, ausente de negaças ou desvios; e, sustentando o olhar, esperou...
O velho não tinha dúvida do que fazer: era acenar e sorrir, talvez duas ou três palavras, e ir para casa de coração limpo e leve. Porém, ainda ligeiramente constrangido, embaraçado entre o pensar e o fazer, o corpo não lhe obedeceu de pronto: seu braço e mão direita relutaram em alçar o gesto, e o sorriso não desatou...
E quando, afinal, alevantava-se a mão e a boca abria na promessa de um sorriso, já o trem metia-se entre os dois, vedando-lhes a visão e inibindo o gesto apenas iniciado...
- Vamo logo, vô, o trem chegou!... Tá bobeando, vô!

Setembro de 2009
Prêmio Kairos Poiesis: Uma segunda versão deste conto, com o texto expurgado de excessos e reduzido a quatro laudas, venceu o concurso de contos e poesias promovido pelo blog Kairos Poiesis. blogspot. com - em 1º mugar - recebendo o prêmio Kairos Poiesis, categoria conto. Fará parte de uma antologia a ser editada no próximo mês de outubro/2010. Dia de lançamento ainda não determinado.


16 de out de 2009

Fiscalização


Tomo um remédio diariamente, um complexo vitamínico antioxidante para combater os radicais livres que atuam no meu olho esquerdo (e em outras partes do corpo – são livres, pois não?). É de uso contínuo e fornecido por uma farmácia de manipulação mediante formulação própria. Nenhuma outra o produz. Tomo duas cápsulas ao dia, sessenta ao mês.
Por estes dias liguei para a farmácia encomendando a cota mensal. Fui informado que a receita existente junto ao meu cadastro estava vencida (prazo de um ano), carecia atualizá-la, sem o que não poderiam me fornecer o medicamento, a fiscalização exigia, etc.
No dia seguinte (hoje) fui à oftalmologista com a receita vencida para que me desse outra. Não era a profissional que me dera a receita anterior, mas voltei com a receita nova e passei-a por fax à farmácia. Em seguida telefonei para encomendar o medicamento.
- Senhor, tudo bem, a receita está aqui, com a prescrição médica e data de hoje, com a expressão uso contínuo por um ano, como exige a fiscalização, mas está faltando a formulação, que deve ser indicada pelo médico, como exige a...
- Mas a fórmula é a de vocês, a mesma que está na receita anterior. Além do mais, trata-se de vitaminas, que problema há nisso, por que tanto rigor?
- Problema tem sim, nas dosagens; se o médico não indica, a responsabilidade é nossa, a fiscalização...
- Está bem, minha filha. Hoje não dá mais, mas segunda-feira volto à oftalmologista e mando nova receita pra vocês, como manda o figurino da fiscalização.
Senti-me rigorosamente fiscalizado. Mas tinha razão a atendente, tinha razão a farmácia, e tinha razão a fiscalização! Assim é que tem de ser! Vá que a oftalmologista queira assassinar o meu olho esquerdo, ao invés de preservá-lo!
E que bom saber que a fiscalização fiscaliza com rigor e a empresa cumpre rigorosamente os preceitos da fiscalização!
O que falta neste país é fiscalização.
Ponham os fiscais na rua, fiscalizando. Ponham batalhões de fiscais nas fronteiras, coibindo a entrada de armas, drogas e contrabandos de toda espécie. Inundem a Amazônia com torrentes de fiscais. Que todo madeireiro ilegal, todo incendiário tenha um em seus calcanhares. E os traficantes da biodiversidade idem. E que toda sorte de traficante ou pirata esbarre num fiscal.
Cortem pela metade as vagas de senadores, deputados e vereadores (não fariam falta) e façam deles fiscais. Desatulhem os gabinetes com ar refrigerado e ponham os funcionários excedentes e os aspones de qualquer natureza para fiscalizar os fiscais. E nomeiem fiscais para fiscalizar os fiscais dos fiscais.
Fiscalizem, fiscais, e depois não digam que não sabiam de nada!
16 de Outubro de 2009

5 de out de 2009

Crônica de um Amor Impossível


Nunca gostei de ter animais em casa. Nada contra animais domésticos: não gosto é do trabalho que dão. E animais têm de ser bem tratados, caso contrário é melhor não tê-los.
Mas a minha mulher não pensava exatamente assim, gostava de animais, e pronto. Um dia comprou um pequeno viveiro e um casal de periquitos australianos lindos de morrer. Como eu pensava, sobrou para mim: alimentação, troca de água, limpeza do viveiro, era comigo mesmo. E mais: o viveiro ficava no terraço e não havia um lugarzinho em que os bichinhos ficassem completamente protegidos do sol e do vento, que às vezes soprava forte e, para resguardá-los, eu precisava mudar de lugar o viveiro duas vezes ao dia, de manhã e à tarde. Entenderam por que não gosto de animais em casa?
E como se não bastasse, veio a minha mulher com mais um periquito, que lhe dera a vizinha. Um periquito verde, brasileiríssimo. Dei-lhe por moradia o segundo andar do viveiro.
E assim fiquei, cuidando dos três periquitos. E observando o comportamento deles.
O periquito verde era triste e quieto, conformado ao cativeiro, distante da alegria irrequieta e barulhenta de seus irmãos em liberdade. Os australianos pouco diferiam disto, apenas se movimentavam mais.
Mas uma coisa me intrigava. Periquitos são aves geralmente carinhosas, vivem se tocando, ajeitando as penas um do outro, brincando, aos beijinhos, por assim dizer. E os meus australianos não procediam assim, ficavam juntos, mas era como se estivessem sós ou brigados. Estranho. E sendo um casal, mais estranho ainda. Seriam mesmo macho e fêmea? Como identificar-lhes o sexo?
Recorri a uma enciclopédia. O sexo dos periquitos australianos se identifica pelo bico, ou melhor, pelo nariz: é azul a área ao redor das narinas, no macho; na fêmea, bem clara.
Então eu tinha um casal de periquitos, sem dúvida. Um deles, de um azul celeste lindo, estriados o dorso e as asas, e azul o nariz, era o macho; o outro, todo branco com reflexos amarelo-claro e nariz quase branco, era a fêmea.
Apesar disso permaneciam em atitude de casal brigado; nada rolava entre eles. Será que o macho não era chegado? Ou eram ainda muito jovens?
Abreviando a história desse estranho casal: a periquita fugiu. Escapou quando os meninos mexeram na portinhola do viveiro.
Condoído com a solidão repentina do periquito, resolvi mudá-lo para o compartimento superior, onde estava, também solitário, o periquito verde. Assim ambos teriam, ao menos, companhia.
Mas não é que o periquito australiano mudou completamente de atitude! Achegava-se ao periquito verde, mordiscava-lhe as penas, beijocava, assanhava-se todo! Precisamente o comportamento que eu esperava dele com a periquita fugida.
E mais uma descoberta, esta de outro modo impossível: o periquito verde era fêmea. Não havia o que duvidar, o instinto animal não se engana: uma periquita verde, sim senhor!
Mas ainda havia o que decifrar. Por que não rolara nada com a periquita fugida? Era tão graciosa e delicada, pezinhos rosados e olhinhos vermelhos, um luxo, uma princesa!
Voltei à enciclopédia disposto a desvendar o mistério. Recomecei a leitura do ponto que terminara e já na página seguinte ficava esclarecido: a periquita fujona não era periquita, mas um macho albino! Daí o equívoco. O nariz era quase branco não por ser fêmea, mas por ser albino! E eu que chegara a duvidar da virilidade do periquito australiano!
Mas deixemos o periquito fujão e voltemos aos dois outros.
O assédio era constante. O australiano não sossegava nem dava sossego à brasileira. Empertigava-se todo, mostrando-se belo e elegante em sua casaca estriada, saltitava, rodeava a periquita, cobrindo-a de carinhos e chilrados ao pé do ouvido. Ela nem ligava, impassível e fria. O máximo que fazia era esquivar-se. Ele não desistia. E no auge do assanhamento intentava acasalar, escalava com dificuldade, pois em nada colaborava a periquita; escorregava, tenteava, equilibrava-se, mas a periquita derrubava-o com um derrear de asa.
Eta! periquita difícil!
Ela até que era paciente com o atrevido galanteador, mas tudo tem limite e às vezes se aborrecia, avançava zangada, pondo-o à distância. Acalmava-se o periquito, para voltar à carga mais tarde.
E ao voltar, a periquita inclinava a cabeça e olhava-o de través, como quem diz: "Vê se te enxerga, atrevido! Vai procurar as da tua espécie e me respeita! Seu devasso!".
O periquito nem se abalava com as reprimendas. Vergonha já não tinha, nem brio, se é que algum dia os teve; nem preconceito de cor ou de espécie; tinha urgências a saciar, isto sim, e no cativeiro não havia escolha: não tinha tu, ia tu mesmo.
Era muita cara-de-pau!
A periquita evidentemente não tinha culpa daquela situação aflitiva; não era questão apenas de má vontade ou recato de costumes: é que não havia química entre eles, literalmente falando, os feromônios não combinavam. Ela se comportava conforme aos determinismos naturais da espécie, inscritos no instinto e balizados pela bioquímica. O australiano é que era um degenerado.
E assim passaram-se os dias: o periquito em desespero viril, se lixando para os feromônios; a periquita irredutível, fiel à espécie.
Até que um dia o periquito amanheceu caído, morto. Que teria acontecido? Pensei logo em brigalhada entre os dois, o periquito levando a pior. Ou o seu coraçãozinho não resistiu à tensão que o consumia? Nada disso, creio. Às vezes eu esquecia de protegê-los com uma toalha pendurada na lateral do viveiro. De madrugada ventara muito e a temperatura caíra. Com certeza rajadas de vento frio mataram o periquito galante e algum tempo depois a periquita intransigente amanheceu nas mesmas condições.
Salvou-se o periquito albino, se não sucumbiu à liberdade.
Mais uma razão para não ter animais em casa, se não sabemos ou não podemos cuidar deles como é devido.

 
Agosto de 2009

3 de out de 2009

Aniversário




Fiz 63 anos há dias. Yasmin veio com a mãe e mal chegou entregou-me o presente. Sorriso e olhar de expectativa enquanto eu o desembrulhava: era uma camisa polo.
- Gostou, vô?
- Gostei, é muito linda – disse, mesmo que não fosse diria que sim, mas era de fato.
Depois da chaleirice de sempre e de palrar um bocado, perguntou:
Vô, vai ter bolo?
- Não sei, só se a vó encomendou em segredo, pra fazer surpresa.
Disse por dizer, sabia que não tinha bolo, nem docinhos, nem croquetes; o que havia era um almoço melhorado com dois pratos, lasanha e camarão com chuchu, refrigerante e uma garrafa de vinho, que me dera o meu cunhado Bil. E uma sobremesa caprichada e talvez pastéis.
Convidados também não havia, além da menina e sua mãe.
Nesta altura eu já não ligo para aniversário, se é que algum dia liguei. Nem há por quê: a coluna dói, o joanete incomoda, a vista não dispensa óculos, o topete desapareceu há muito e o vigor diminui a conta-gotas, mas implacável; os anos pesam cada vez mais, os sonhos ficaram longe... Comemorar o quê? Aniversário agora é mero evento contábil - somar um ano aos muitos já passados. Em suma: é diminuir o tempo de validade!
Prefiro gastar dinheiro em coisas mais úteis ou interessantes, como passar um fim de semana em Parati, por exemplo. Ou comprar um bom livro, ou...
Mas como afinal o bolo não apareceu, Yasmin declarou-me, debruçada em meus joelhos, com o indicador apontado em minha cara e ar de censura e decepção:
- Vô, eu não venho mais no teu aniversário, porque não tem bolo nem docinhos. Nem parabéns, nem festa. E não vou mais te dar presente! Nunca mais!
Conheceu, mané? Aniversário tem de ter bolo e apagar de velinhas, parabéns e presentes; tem de ter brigadeiro, cajuzinho e olho de sogra, balas, salgadinhos e refrigerantes.
Aniversário é festa, senão para o aniversariante, para os outros.
Pensarei nisso para os anos vindouros, sob pena de não ganhar presentes da Yasmin.


Setembro de 2009

1 de out de 2009

Por que Vô Tônico?




João Antonio batizado,

Por Toninho conhecido;

Tonho e Tonico por fim,

Mais o Tônico consagrado

Da netinha Yasmin.

Crianças!


Crianças às vezes nos deixam sem graça com as perguntas que fazem. E sem respostas.
Estávamos eu e alguns familiares nas areias de Maricá, sob cobertura improvisada com folhas de coqueiro. Eu molhava o bico e olhava o mar, sem vontade de ler o jornal sobre a mesinha: meus olhos tinham mais com que se deleitar. No horizonte nevoento, uma silhueta imprecisa navegava. Mais ao perto, ondas vigorosas arrebentavam na praia em turbilhões de espuma: era mar aberto, naquele dia impróprio ao banho. Entre banhistas e guardassóis coloridos passeavam meus olhos. E o sol, coando entre as folhagens da cobertura, tecia um rendilhado de luz e sombra nas mesas, nas pessoas, na areia próxima...
A meus pés brincava Yasmin, cavando na areia fantasias. Dois aninhos, pouco mais. Outras crianças se achegaram. Uma menina mais velha, uns cinco anos, por aí, começou a brincar como se Yasmin fosse uma boneca, que realmente parecia, como toda criança na sua idade. Desconhecia o perigo a menina, e eu fiquei de olho. É que a pequena costumava morder quando se via aperreada, e era o que acontecia, com a outra abraçando, apertando, alisando...
A menina ofereceu biscoitos, e Yasmin ocupou seus dentinhos de forma mais civilizada. Sosseguei.
Foi quando a menina, ajoelhada na areia, levantou o olhar, quem sabe reparando nos meus cabelos grisalhos e na barba por fazer, e disparou a pergunta:
- Você é Deus?
- Não, não sou Deus.
- E onde é que está Deus?
Surpreso com as perguntas e sem tempo para refletir, levantei o indicador para o alto e respondi:
- Dizem que está lá em cima...
Descrente no olhar, a menina me fixou por mais alguns instantes, esperando talvez outros esclarecimentos, e nada mais obtendo baixou a cabeça e retomou o brinquedo com Yasmin.
Também, com a resposta idiota que dei, quem haveria de prosseguir a conversa?
E o que sei eu de Deus?
Mas podia ter-lhe dito que Deus está dentro de nós, no amor que sentimos, ou como dizia o poeta*, está "nas árvores e nas flores, nos montes, no sol e no luar", nesse imenso milagre que é a vida... Ou que Deus está onde O queremos ver...
Certamente nem isso contentaria a menina. Ela buscava, pelo visto, um deus concreto e pessoal, com barbas e cabelos brancos e jeito de avô, com o qual haveria de conversar e passear na praia, e a quem pudesse metralhar com um montão de perguntas e ouvir as respostas, sem idiotices e enrolação.
Também eu gostaria de ouvir as respostas. Continue perguntando, menina.
*Fernando Pessoa
Julho de 2009


Louvação





(poema lido em cima do caixote, na praça XV de Novembro, Marechal Hermes, durante o evento Literatura de Segunda, em 22-06-2009 e mencionado na crônica Privilégio)






Meu pai

Não foi herói nem guerreiro;

Foi trabalhador –

Carvoeiro.

D'além- mar veio procurar,

Com esforço, o sonho seu.

O procurado – nunca achou;

E o que achou – perdeu.

Já minha mãe foi camponesa;

Do inverno ao verão

Em campos de trigo e milho

Cavou-nos da terra o pão.

E no descanso fiava,

Rezava,

E contava histórias ao redor da lareira.

Não foi santa nem guerreira.

Minha mãe foi apenas –

Mãe!

28 de set de 2009

Parado à beira do caminho


Cheguei a Guaraí por volta da meia-noite para fazer conexão com o ônibus que vinha de Belém com destino ao Rio de Janeiro, chegada prevista às sete da manhã. Não quis pernoitar num hotelzinho, vá que me não acordassem a tempo, perderia a condução. E até ali a viagem já fora um tanto atribulada, melhor não arriscar mais transtornos.
Eu viera ao sul do Maranhão acompanhando minha sogra, que fora ao Rio em tratamento de saúde. Em Riachão fiquei alguns dias. O sul do Pará era a outra meta, onde visitaria parentes que ainda não conhecia na cidade de Redenção. Entre as duas cidades, o rio Tocantins.
O itinerário mais comum seria ir de Riachão a Carolina, na margem direita do rio, subir a Estreito, onde há ponte, descer pelo outro lado rodando na Belém-Brasília até Araguaína, e daí a Redenção. O ônibus passava às onze horas. Eu quis ganhar tempo e fui para Carolina, de onde um micro-ônibus me levaria a Araguaína, transpondo à balsa o Tocantins. O rio em nada atrapalhou, já o micro...
Demorou a sair o micro e ao fazê-lo retrocedeu à rodoviária, daí atravessou a cidade, chegando ao atracadouro quando a balsa já partia. Esperamos a próxima. Da outra margem (Filadélfia) seguiu célere, paradas poucas, mas nos arrabaldes de Araguaína iniciou-se uma irritante entrega em domicílio, com o micro desembarcando cada passageiro na porta de sua casa. E assim rodou toda a periferia, levou passageiros em restaurante na rodovia, onde fariam conexão e afinal desembarcou-nos na rodoviária, eu e uma senhora, apenas. Eram treze horas!
Perdida a conexão, fui almoçar.
Perdida não estava, atrasada sim, o ônibus quebrara na estrada! Chegou às dezesseis horas e trinta minutos, meia hora depois partia no rumo de Redenção.
Um dos meus interesses era ver o rio Araguaia, lindo e largo como diziam, ainda mais prenhe de águas, naquele verão prolongado. Não o veria na ida, a noite escondia tudo, quem sabe na volta.
Paramos no Posto Fiscal, divisa Tocantins-Pará, com os fiscais fiscalizando os papéis, como se neles estivessem os tráficos e contrabandos. Fiscalizar o ônibus nem vieram, melhor para nós, o atraso foi só de uma hora. A muito custo consegui arranjar comida num restaurante que àquela altura já não esperava clientes.
Além de Conceição do Araguaia e a vinte minutos de Redenção, furou-se um pneu ao ônibus! Mais uma hora perdida, o breu a três palmos do nariz; ai, se aparece um facínora!
Mas valeu bem a pena. Curti os parentes e a cidade, tanto quanto permitiu a chuva, que foi pouca em Redenção, mas torrencial em outras partes, do Pará ao Piauí, do Maranhão ao Ceará: transbordo de rios, cidades alagadas, encostas se derribando, pontes desmoronadas, vias obstruídas. Jesus, que água é essa!
De volta, disponibilidade de horários não havia, passagem só às vinte e duas horas. Novamente deixaria de regalar meus olhos com a visão do Araguaia. Paciência...
E paciência era o que eu precisava. Sem o que fazer, comecei a reparar no movimento da rodoviária.
Apesar de pequena, a rodoviária apresentava um fluxo de trânsito permanente, o que me deixava seguro. Ônibus chegavam de outras praças em demanda de praças outras; linha nenhuma fazia ponto final ou partia dali, todas chegavam de e iam para
Antes das sete perguntei ao funcionário da empresa se o ônibus estava no horário. Nenhum comunicado havia, sequer previsão de chegada. Às oito repeti a pergunta, às nove obtive resposta: rodovia obstruída na altura de Imperatriz, ônibus desviando a rota por Marabá, vai retornar a Imperatriz para embarque e desembarque, chegará às dezesseis horas... Jesus, haja paciência!
Com a esperança de matar o tempo com algum prazer, procurei um jornal na lojinha de bugigangas, mas nem jornal nem jornaleco, só revistas masculinas, de Playboy para baixo, e outras revistinhas safadas, rasteiras, pura pornografia. Que pena não ter trazido um ou dois livros na bagagem!
Chegava um ônibus de Belém para o Rio, de outra empresa e horário posterior ao meu. A estrada já está desobstruída, pensei, mas o meu ônibus dá voltas por Marabá.
Resolvi então dar vistas à cidade, tempo havia de sobra. Nada além de duas ruas paralelas à rodovia, uma de cada lado, mais algumas ortogonais, comércio comum para quem veio do Rio, aos locais nada faltava; vi três agências bancárias, duas brasileiras e uma espanhola; mais além uma construção singular, linhas retas e harmônicas, fumês nas fachadas e jardins ao redor, arquitetura moderna de qualidade, um palácio em lugar tão singelo. Que seria aquilo? Fui à frente ver de perto, era uma agência do Banco da Amazônia!
Comparando, as três agências anteriormente vistas funcionavam em prédios comuns da cidade, de há muito construídos, ora reformados e adaptados para a função bancária, de bancos comerciais e rentáveis. A outra, de fomento oficial, com verbas públicas de impostos sacados dos bolsos dos cidadãos, não podia ser menos que um palácio! Que rei governava ali, na incúria e no desperdício?
Pobre Amazônia! Pobres de nós!
Na rodoviária um pobre aleijado circulava acoplado a um pequeno veículo motorizado: pedia esmolas. Dei-lhe a minha contribuição e fui tomar café. O balconista quis saber de mim, pois me via ali desde a madrugada; disse-lhe do ônibus e do meu azar, respondeu-me que não era azar, era sorte. Que diabos quis ele dizer?
Depois de cochilar num banco após o almoço, o funcionário da empresa me procurou e disse:
- Vai atrasar mais três horas, o ônibus sofreu um assalto, retornou a Marabá para o competente registro policial, está saindo agora de Imperatriz, chega a Araguaína às dezessete, aqui às dezenove.
Chegou eram dezenove e trinta.
Embarquei para o Rio após vinte horas de espera e nunca tinha visto passageiros tão alegres e solidários. O sufoco por que passaram aproximou a todos. Estavam de bolsos vazios, mas vivos e inteiros.

 
Agosto de 2009

 

 

21 de set de 2009

Dias de Tiete


Soube por meu filho Daniel que a Prefeitura estava fazendo melhorias numa rua perto de casa. Fui lá conferir. Em frente a tal rua, tapando a UPA inaugurada nas últimas eleições, um pintor retocava a pintura de um conjunto de casas... Engraçado... Eu não me lembrava dessas casas, e olhem que conheço o lugar há muito! E não eram casas construídas recentemente, tinham aspecto antigo, mais ou menos no mesmo estilo das edificações da Escola Mauá, adjacentes.
Entrei na rua meio desconcertado. Um pedreiro dava os últimos retoques no canteiro central, construído em alvenaria e dividindo a rua larga em duas pistas. Alguns muros já restaurados e outros sendo reformados. Um pintor retocando a fachada de um sobrado e alguns portões aparentando pintura fresca. Um caminhão com mudas de plantas e placas de grama abastecia os jardineiros. Na calçada, uma árvore taluda plantada recente.
Não parecia obra da Prefeitura. É verdade que alguns garis varriam a rua, mas só. Os outros trabalhadores seriam, quando muito, terceirizados a serviço do município. Ou teriam os moradores se organizado em condomínio para realizar melhorias naquelas duas quadras?
Retornei a casa um tanto preocupado. Distraído sou, os que me conhecem não ignoram, mas aquelas casas em frente à UPA, como não me apercebi delas? Que horror estava ficando a minha memória! Ou será que... o Alzheimer...
No dia seguinte, uma segunda-feira, voltei ao local disposto a examinar melhor, mais atento e de espírito prevenido, pois decerto alguma coisa diferente estava acontecendo ali. E estava. O casario que me levou a duvidar de minha memória não passava de um cenário! Na rua, carpinteiros serravam, martelavam, construíam canteiros de madeira, que os pedreiros assentavam nas calçadas e os jardineiros enchiam de terra e plantavam mudas e grama. Outros carpinteiros faziam uma garagem num dos sobrados. Postes antigos eram montados no canteiro central. E a árvore taluda era de plástico, como os postes. Um Cenário! Um set de filmagem! Reparando melhor, vi que as pinturas executadas aparentavam mal feitas, para dar maior realismo.
Não é a primeira vez que Marechal Hermes serve de locação para uma produção cinematográfica ou televisiva. Nem será a última. Isto se deve à presença de muitos casarões e sobrados antigos, de estilo eclético e bem conservados, apesar de uma ou outra descaracterização nas janelas, mas no todo ainda bastante autênticos. Bom cenário para histórias ambientadas na primeira metade do século passado. A sobrevivência de tais prédios decorre, principalmente, da limitação de gabarito, pela proximidade do aeródromo militar do Campo dos Afonsos.
Indaguei de um operário se era novela, disse-me que não, era um filme de Arnaldo Jabor.
Ah! eu não podia perder o espetáculo. E no dia seguinte fui ver o andamento das atividades no set. Caminhões despejavam equipamentos os mais diversos. Os derradeiros toques de pintura. Tendas sendo montadas. Três carros de época lindos trocavam de placa: DF – 1945. Um formigueiro de técnicos invadira o set. Agitação. Um sobradinho improvisado em camarim. No jardim de outro sobradinho, o mais bonito da rua, preparava-se uma cena. Atores caracterizados. E o Jabor já estava lá, circulando, orientando, simulando com as mãos a tomada de câmera. Que lindo era tudo aquilo!
Fui para casa tomar um café e contar as novidades. Mais afastado do set, um gerador pronto para funcionar, cabos estendidos na rua.
De volta, procurei um posto de observação sem estorvar quem trabalhava. Um carro aproximou-se querendo atravessar o set, por entre a parafernália de equipamentos espalhados na rua. Um guarda interveio. O motorista explicou que era morador e precisava passar. Passou e entrou na garagem do último prédio. Poderia tê-lo feito pela outra rua, mas preferiu atravessar o set. Vá entender...
Atores e atrizes em posição, Jabor sentado na cadeira de Diretor, técnicos ao redor. Claquete. Silêncio, por favor! Gravando...
Não dava para entender as falas dos intérpretes, só gritos, risos, gargalhadas, muita alegria... Em meio aos cochichos dos espectadores, soube o título do filme: Suprema Felicidade. Técnicos correm com uma tela enorme e a colocam tapando a cena. Que seria aquilo? Eu não conhecia. Repetem a gravação. Não ficou boa. Montam um refletor por trás da telona. Agora sim, ficava clara a sua função, é um difusor de luz, ilumina a cena suavemente, sem o contraste forte da luz direta. Silêncio! Não se assustem, vai ter tiro, mas é de festim. A guerra acabou! A guerra acabou! Aaaaahhh!!!... E quatro tiros ecoam no ar.
O personagem que dá os tiros é um oficial da FAB comemorando com a família e vizinhos o término da II Guerra Mundial. O ator é conhecido, mas não atino com o nome dele. Será Caco Ciocler? Mais uma vez gravando, a pistola engasga. Atenção, efeitos especiais. Repetem uma, duas, três vezes mais, e finalmente está pronta a cena. Muito bom, vamos almoçar agora.
Fui também. Eram duas horas da tarde.
Suprema Felicidade. Fim da guerra, retorno dos nossos pracinhas, queda do Getúlio, fim da ditadura do Estado Novo. Redemocratização do país. É muita felicidade junta. Para ser maior – suprema – só falta a história terminar com folia carnavalesca, um desfile de bloco ou escola de samba, ou até mesmo uma batalha de confete. Lembram disso?
Para os mais novos eu explico: batalhas de confete eram bailes pré-carnavalescos de rua. A vizinhança se organizava, enfeitava a rua com bandeirinhas e o mais que pudesse, instalava gambiarras de luz, alguns altofalantes e um tocadisco com amplificador e microfone. E o samba rolava noite afora!
Eu chegara, ou melhor, retornara ao Brasil em janeiro de 1957, um pouco antes do carnaval, portanto. Dez anos de idade. Ouvi falar de batalha em nossa rua e pensei logo em violência, brigas, para depois constatar que na tal batalha não havia balas nem canhões, mas pandeiros, cuícas e tamborins, muita alegria, dança e cantoria. Que país bacana aquele, em que uma batalha nada mais era que uma grande farra!
De novo no set. Um grupo de figurantes acabava de ensaiar a sua atuação. Um maquiador dava os últimos retoques nos foliões, que iam festejar o fim da guerra em frente à residência dos personagens da sequência anterior, com direito a espancamento de um Judas de farda e bigodinho de Hitler. Foi preciso repetir a atuação dos personagens principais, incluído aí um beijo apaixonado do casal.
Um senhor acercou-se de mim querendo saber do que se tratava. Disse-lhe o que sabia e o que não sabia:
- Está vendo aquele ator, aquele de túnica azul aberta no peito? É o Caco Ciocler.
A minha fala chegou até um grupo de senhoras que fotografava de longe os artistas e se dispunham a pedir autógrafos, Tietes de verdade, não como eu, tímido e discreto no meu canto. Uma delas olhou-me, espantada com a minha ignorância.
- Moço, não é o Caco, é o Dan Stulbach.
Agradeci o aparte meio vexado e resolvi calar a boca para não dar mancada. Eu não estava ali tietando artistas, ídolos, mas todo o set e o que acontecia nele. Admirava tudo: cavaletes, escadas, tripés, refletores, as telonas, que mais tarde soube terem por nome butterfly, os carrinhos lindos e outras peças cenográficas; e os atores, atrizes, figurantes e suas atuações; e os técnicos de som, de fotografia, os iluminadores, eletricistas e maquinistas; as camareiras, os maquiadores e as meninas do bufê. Tudo. Admirava com olhos embevecidos aquela agitação laboriosa, aquele furdunço organizado e criativo.
Encerradas as gravações, Jabor passou por mim, orientando o Diretor de Fotografia quanto às tomadas de cena do dia seguinte. Vontade de cumprimentá-lo: "Tudo bem, Jabor? Que bom que tenha voltado ao cinema". Mas a timidez não me deixa externar tais manifestações de apreço. Infelizmente.
Manhã do dia seguinte. Ensaio. Cena de rua: um comprador de jornais velhos apregoa o seu trabalho, um carro sai da garagem, um ciclista transita, estudantes vão à escola, pedestres. Fico olhando os adereços amontoados na calçada: vassouras de palha, um par de muletas, um realejo. Há quanto tempo não via um realejo desses! Será que vai ter periquito tirando a sorte? Silêncio! Vai gravar. Ouve-se o pregão do velho comprador de jornais... E algazarra de estudantes chegando ao set por uma rua lateral. Por favor, gente, estamos gravando, falem baixo ou se afastem. Afastaram-se, irrequietos e ruidosos, aparentemente interessados apenas nos seus folguedos.
Nunca é de primeira uma gravação dessas. De uma vez foi o carrinho lindo que engasgou em cena. Felizmente fora uma indisposição passageira. De outra, a bicicleta quebrou. Buscaram a reserva, que a equipe é precavida. A cena em geral ficou boa, mas precisam repetir a sequência em que o velho compra jornais e conversa com a esposa do militar que eu pensei que era Caco e era Dan. Qualquer ruído complica. Barulho de vassoura de piaçava varrendo a calçada áspera e lá vai o técnico de som, por favor, senhora, o microfone é muito sensível, desculpe. Obrigado, senhora. Gravando de novo. Silêncio! Estrila o celular no bolso de uma mocinha! Por favor, meu bem, desliga o celular, o microfone é supersensível e o toque saiu na gravação. A mocinha fica sem graça, sob o olhar de censura da assistência. E eu fico irritado com essas interferências. Ô gente! Ô vassoura! Ô celular! Mas o Jabor é calejado nisso...
Terminada a gravação com sucesso, um senhor se aproximou a puxar conversa comigo. Está impressionadíssimo com a trabalheira para se aprontar uma fração diminuta do filme. Alimentei o papo referindo a pré-produção: dias e dias de planejamento, pesquisas, contratos, requerimentos, autorizações, aquisições, locações; o trabalho de figurinistas, costureiras, cenógrafos... E a pós-produção: laboratório, montagem, sonorização, essas coisas industriais... Muito trabalho e despesa!
- Pois é, e depois vem um qualquer e rouba tudo isso e lança uma cópia pirata no mercado. Eu é que não compro mais – terminou o senhor.
Eu não sairia do set sem ouvir exatamente o mesmo de outro senhor, com o qual concordei plenamente. Piratas, para mim, só aqueles de perna de pau, tapa olho e papagaio no ombro. Os de hoje são um horror. E mais perniciosos.
Fui almoçar. Quando retornei para as gravações da tarde, fui barrado pelos seguranças. Só os moradores tinham acesso... Acabaram com o meu brinquedo.


Julho de 2009

13 de set de 2009

Privilégio

Participei de um evento cultural, – Literatura de Segunda -, promovido pela Ong Laboratório Cultural, na Praça XV de Novembro, em Marechal Hermes. Para os engraçadinhos que já estão fazendo conjecturas sobre a qualidade da literatura ali apresentada, vou logo avisando: o evento aconteceu em 22 de junho do corrente, uma segunda-feira, portanto.

Teve árvores de livros, contadores de histórias, oficina de artes plásticas, uma instalação artística manipulável, literatura de cordel e poesia. Mais de cem poemas abraçando a praça, fixados nas grades que a rodeiam!

De início participei com o meu suor, armando tendas. Prazeroso foi depois: admirar os livros pendurados nas árvores, ler os poemas ao redor da praça, xeretar as oficinas, conhecer pessoas, conversê daqui e dali...

O Severino Honorato eu já conhecia de duas semanas antes, quando fomos clicados para o encarte Zona Norte de O Globo de 21 de junho, em grupo com os ongueiros. Severino é poeta e cordelista. Diz que não domina a arte do cordel, mas só pode ser modéstia. Trocamos nossos livros: Cacos da Memória pra lá, Don Severo em 4 Tempos pra cá.

Na próxima tenda visitada conheci Eduardo Marinho, artista plástico e poeta. Artista-cabeça, como atestam os seus desenhos e o livrinho que me deu, - Palavra &Imagem -, pequeno por fora, mas grande por dentro, todo manuscrito e reproduzido em serigrafia em sua Editora Faisamão, assim também as cópias de seus originais a bico-de-pena. Dele ouvi que vive e sempre viveu de sua arte, com dignidade. Viver de arte já é uma vitória, e com dignidade, nos tempos de hoje, é vitória ao quadrado! Bravo!

Nessa tenda conversei também com Ivon Carlos Bernardo, carpinteiro e poeta com mais de trezentos poemas inéditos!

Mas o maior sucesso do evento foi mesmo o caixote. A proposta era subir nele e declamar ou ler poesias de autoria própria ou de outrem. O Severino brilhou! E uma professorinha, que não lembro o nome. Desculpe, professorinha. Outros poetas se apresentaram. A muito custo subi também e li o meu poeminha, uma louvação a meus pais. Não foi tão difícil quanto pensava e até voltei para recitar alguns versos de Fernando Pessoa que sabia de cor.

Tudo isso fez com que eu quase esquecesse um dos motivos da minha presença ali: distribuir cem cópias de "A menina do guarda-chuva e os meus sapatos de verniz", a história que abre o meu livro Cacos da Memória. Ofertei o meu peixe na praça.

Ao final, vi um homem cortando a praça em minha direção. Seria o próximo a receber a minha Menina do guarda-chuva. Ou não. Reparando melhor, parecia mendigo, em Marechal é o que não falta, certamente a leitura não fazia parte de sua dieta. Preconceito. E se não fosse mendigo, mas um cidadão em penúria de trajes? E mesmo que fosse mendigo, eu estava discriminando, isso não era politicamente correto. E se gostasse de ler, sendo ou não mendigo? Que sei eu das ânsias alheias? Fiquei intimamente constrangido. Sim, vou oferecer-lhe a minha história, se não por outra razão, ao menos para ficar bem comigo mesmo.

- Boa noite, senhor, gosta de ler? Eu tenho aqui uma história...

O homem riu, dentes estragados, mas riso aberto e franco, talvez estranhando a educação com que fora abordado, ou satisfeito por que houvessem reparado nele, ou – o que é mais provável – já antevendo a facada que ia desfechar.

- Gostar de ler eu até gosto, mas é que a minha cabeça...

- Sei, está cansada para leitura, a vista não ajuda...

- Não, é que a minha cabeça só consegue pensar num café bem doce e quente, um pão...

- Bem, eu tenho uma história e o senhor tem fome; vamos fazer o seguinte: eu fico com a história e o senhor vai tomar o seu café – disse, dando-lhe cinco reais. - Vá, vá tomar o seu café bem doce e quente, vá – despedi-me, com tapinhas no ombro.

O mendigo seguiu contente. Eu me senti um privilegiado. Ali, na praça, com as urgências do estômago e outras bem atendidas, curtindo poesia, alimentando o espírito, enquanto há quem sonhe com um simples café bem doce e quente...



Julho de 2009