1 de out de 2009

Crianças!


Crianças às vezes nos deixam sem graça com as perguntas que fazem. E sem respostas.
Estávamos eu e alguns familiares nas areias de Maricá, sob cobertura improvisada com folhas de coqueiro. Eu molhava o bico e olhava o mar, sem vontade de ler o jornal sobre a mesinha: meus olhos tinham mais com que se deleitar. No horizonte nevoento, uma silhueta imprecisa navegava. Mais ao perto, ondas vigorosas arrebentavam na praia em turbilhões de espuma: era mar aberto, naquele dia impróprio ao banho. Entre banhistas e guardassóis coloridos passeavam meus olhos. E o sol, coando entre as folhagens da cobertura, tecia um rendilhado de luz e sombra nas mesas, nas pessoas, na areia próxima...
A meus pés brincava Yasmin, cavando na areia fantasias. Dois aninhos, pouco mais. Outras crianças se achegaram. Uma menina mais velha, uns cinco anos, por aí, começou a brincar como se Yasmin fosse uma boneca, que realmente parecia, como toda criança na sua idade. Desconhecia o perigo a menina, e eu fiquei de olho. É que a pequena costumava morder quando se via aperreada, e era o que acontecia, com a outra abraçando, apertando, alisando...
A menina ofereceu biscoitos, e Yasmin ocupou seus dentinhos de forma mais civilizada. Sosseguei.
Foi quando a menina, ajoelhada na areia, levantou o olhar, quem sabe reparando nos meus cabelos grisalhos e na barba por fazer, e disparou a pergunta:
- Você é Deus?
- Não, não sou Deus.
- E onde é que está Deus?
Surpreso com as perguntas e sem tempo para refletir, levantei o indicador para o alto e respondi:
- Dizem que está lá em cima...
Descrente no olhar, a menina me fixou por mais alguns instantes, esperando talvez outros esclarecimentos, e nada mais obtendo baixou a cabeça e retomou o brinquedo com Yasmin.
Também, com a resposta idiota que dei, quem haveria de prosseguir a conversa?
E o que sei eu de Deus?
Mas podia ter-lhe dito que Deus está dentro de nós, no amor que sentimos, ou como dizia o poeta*, está "nas árvores e nas flores, nos montes, no sol e no luar", nesse imenso milagre que é a vida... Ou que Deus está onde O queremos ver...
Certamente nem isso contentaria a menina. Ela buscava, pelo visto, um deus concreto e pessoal, com barbas e cabelos brancos e jeito de avô, com o qual haveria de conversar e passear na praia, e a quem pudesse metralhar com um montão de perguntas e ouvir as respostas, sem idiotices e enrolação.
Também eu gostaria de ouvir as respostas. Continue perguntando, menina.
*Fernando Pessoa
Julho de 2009


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