4 de dez de 2013

Vô Tônico perfumado

"Árvore das Nações"- original pintado com a boca por
 José Henrique Breda, dos Pintores  com a boca e os pés. 
Yasmin passou um fim de semana comigo. Fui buscá-la à porta do trabalho de sua mãe, em São Cristóvão. Já em casa, não demorou muito e vasou:
- Vô, era pra ser segredo mas eu não aguento, vou falar: comprei um presente de Natal pra você – um perfume.
A mãe de Yasmin, para garantir um dindim extra, está vendendo cosméticos e perfumarias. A menina tinha uns dinheirinhos, pacientemente poupados para ocasião de mor importância, e resolveu gastá-los presenteando o avô. O que tinha não era suficiente, a mãe concedeu-lhe um desconto abrindo mão de parte da sua comissão e a conta fechou. Escolheu e encomendou o perfume, que me daria quando, no domingo, fosse levá-la em São Gonçalo, onde mora  agora (só até o fim do ano, quando volta para o Rio).
Na volta, depois do trem, do ônibus e da barca, paramos perto do Terminal  Rodoviário de Niterói, onde embarcaríamos para São Gonçalo. Frente a nós havia uma tenda de lona, uma espécie de mini-circo que não costumava estar ali. Era uma livraria. Entramos. Encontrei, numa das bancas, uma linda edição da “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes, que há muito desejava dar a Yasmin. Comprei-a e dei-lha, como presente de Natal.
Já em sua casa, e dando-me o perfume, disse-me ela:
- Vô, eu sei que você não costuma usar perfume mas este você tem de usar, foi dado com muito carinho e eu quero você cheirosinho. É assim, bota um pouquinho nos pulsos, no pescoço e atrás das orelhas, tá?
Confesso que nunca desenvolvi o hábito de usar perfumes, nem quando saía para namorar (e já lá vão muitos anos). Até desodorante raramente usava. Agora não tem jeito, tenho que usar o perfume que Yasmin me deu com tanto gosto e à custa da dilapidação de seu pequeno (grande!) tesouro. Mal sabe ela que o meu perfume é ela mesma, os meus filhos e a minha Rita, e o fato de, ao longo da vida, não ter feito inimigos nem  alimentado ressentimentos e rancores. Isto é o meu perfume.
Mas, caríssimos, se me encontrarem por aí exalando um discreto perfume, não estranhem. Estarei cumprindo uma determinação de Yasmin.

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17 de nov de 2013

Mais minas de Jussara

http://minasdemim.blogspot.com.br/



Barroquismo

Uma música barroca
mistura a minha indecisão
à do outono.
Dividida
pelos anseios da minha alma
e da minha carne
também sou barroca.
Meio anjo bom,
meio mau,
olho a noite,
incerta.
A própria mornidão do outono,
nem frio nem calor – barroca.
O século de Matos se esparrama
inteiro
- barro e sopro -
sobre a noite…
Metade de mim
                                        quer fugir.

Astrolábio

Quem medirá a distância exata
entre as estrelas,
entre a flor e o perfume,
entre o pensamento e a palavra,
a palavra e o gesto,
o gesto e o olhar?

Quem poderá medir a distância
entre o olhar e o desejo,
o desejo e o sonho,
o sonho e a loucura,
a loucura e a paixão,
a paixão e a vida?

Quem poderá,
ao medir o caminho de Sírius,
dizer não ou dizer sim
e ter certeza?

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Um domingo feliz

No último domingo (10/11) visitei a minha irmã caçula, a Nei. Almoçamos filé de Congro ao molho de camarão, muito bem preparado pelo “chef” Bill dos Santos, meu cunhado. Presentes também D. Morena, mãe do chef, e minha sobrinha Flávia, a diagramadora de “Cacos da memória” e agora de “Galo, galinha e pinto e outras histórias”, meu livrinho infantil em gestação.
Uma das finalidades da visita era justamente levar à minha sobrinha as ilustrações do livro e conversar sobre detalhes do trabalho a ser feito.
Mas como, senhor Vô Tônico? Neste mundo tecnológico o senhor ainda realiza trabalhos de estafeta, entregando pessoalmente o que pode ser entregue virtualmente?
Confesso que sou um tanto defasado, mas garanto a vocês que nada pode substituir o contato direto entre pessoas, nem a internet poderia proporcionar-me o domingo que tive. É claro que o texto do livro já havia seguido por e-mail, procedimento que não foi possível com as ilustrações, pois anda meio desarranjada a função scanner da minha impressora. A solução foi ir pessoalmente. E foi muito bom. O almoço e o que veio depois.
À tardinha fomos bater perna e tomar um café no Shopping Carioca, ali pertinho.

Malabares e pernas-de-pau
Fanfarra e bicicleta-de-uma-roda-só










Havia festa no Shopping. Uma trupe de saltimbancos fantasiados de duendes percorria os corredores anunciando a próxima chegada de Papai Noel. Malabares, bicicleta-de-uma-roda-só, pernas-de-pau ou andolas, como se dizia na minha infância. E uma fanfarra de palhaços-duendes, uma bandinha semelhante àquelas dos pequenos circos da minha adolescência. Crianças, adultos e velhos seguiam a trupe. E enchi-me de lembranças e marejaram-se-me os olhos. Do fundo da minha memória vieram os circos, os palhaços, os mágicos e a menininha que andava na corda bamba, da qual comprei um retratinho que não guardei. E mais do fundo vieram o arraial da Senhora do Socorro e o Zé Pereira com sua música simples, gaita-de-fole e bumbo, ele e sua mulher. Música que encantava a minha alma de menino e me arrastou pelo arraial até que me descobrisse perdido! Música que não estava ali, no Shopping, mas em mim.


D. Morena em primeiro plano
Minha careca
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
E novamente me descobri menino, seguindo aquela fanfarra, aquela gente, aquela alegria…
Porém desta vez não me perdi. O shopping não é tão grande que possa perder alguém, e a minha irmã Nei me vigiava, ciente do que se passava comigo. Rimos muito nós dois, cúmplices no mesmo sentimento nostálgico e pueril.
Ah! como estou ficando boboca!
Mas como foi bom!

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1 de ago de 2013

Minas de Jussara



Minas de mim
Autora: Jussara Neves Rezende

“Doutora em literatura por amor aos livros mesmo antes de saber ler; pesquisadora para ir além da escrita e escritora para reinventar a vida”.




Minas de mim

Me desço e me subo
ladeira que eu sou,
me dispo, me busco,
mineira – eu vou.





Descubro histórias
de minas de mim.
Minérios,  explosivos
segredos me fazem assim.





De altos e baixos,
de sim e de não,
sou toda relevos
e casarões.


Jussara é uma das coisas boas que me aconteceram na Internet. Não fui eu quem a descobriu, mas ela é que descobriu a mim: um dia (07/01/2013) acessei o Vô Tônico e lá estava a carinha dela no Google Friend Connect e comentários na minha crônica “O início da idade da razão”. Daí em diante passamos a nos visitar virtualmente, eu no seu maravilhoso blog, o “Minas de mim”, trocamos livros e alguns e-mails. Sem que eu pedisse ou sequer insinuasse, Jussara produziu uma resenha do meu “Cacos da memória” que me deixou de queixo caído*.
Além da poesia, descobri em seus versos uma pessoa profundamente humana e sensível. Agora ofereço a vocês uma pequena amostra do talento poético de Jussara, nestes três poemas, ou "minas", publicados no seu livro “Minas de mim”. Encantem-se como eu me encantei.


Romantismo

Para os românticos, se a dor era tanta,
viravam lágrimas estrelas do céu,
bosques gemiam nas noites de lua,
cascatas e soluços sinônimos eram.

Para mim, que não sou romântica,
tudo tem sua exata dimensão:
cascatas, bosques e estrelas
não são senão o que são.

Por isso, se a dor minha é muita,
mergulho fundo no fundo de mim:
não há paisagem que melhor entenda
as mágoas dos sonhos que me fizeram assim.

E assim vou levando a minha dor,
romântica, sem dúvida, a seu modo.
Pobre dor romântica que não encontra
nem uma estrela disposta a chorar!…


Perdidos dias

Desmaiam os dias, malbaratados
que são por destroçados gestos,
por palavras vacilantes, abissais,
insuficientes como a própria vida.

Inexoràvel é o tempo que os consome
pondo rachaduras nas paredes,
nas faces e nos corações dos homens,
dissipando qualquer esperança.

Nada deixam se não deixam ternura
e as horas inutilmente alongam-se
se é imensurável a solidão e o desalento.

Esta a grande insensatez do tempo:
dispersa os momentos mais felizes,
faz longos demais os que não se quer viver…


Veja aqui mais minas de Jussara


*http://minasdemim.blogspot.com.br/2013/05/cacos-da-memoria-de-joao-antonio.html

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24 de jun de 2013

A Vênus de barro


 Viajava conosco e sob a responsabilidade de papai, um rapaz da aldeia por nome Manuel e apelido Neca. Na 3ª classe. Fomos visitá-lo. O camarote, coletivo, estava vazio; bisbilhotamos ao redor de seu beliche e descobrimos, sob o seu travesseiro, um objeto deveras estranho: uma estatueta de barro representando uma mulher nua. Imaginem... nua! Além disso, não tinha pernas - só coxas – e um dos braços decepado na altura do ombro! O outro braço sustentava uma bola na mão, ao nível do umbigo. Não tinha cabeça. Que coisa mais esquisita! E sob o travesseiro do Neca...
O rapaz confirmou: não era dele, alguém colocara aquela coisa sob o seu travesseiro. Com que intuito?
O alarme soou, não sei pela boca de quem: “Bruxedo! Só pode ser bruxedo!”. Sim, bruxaria, coisa feita contra o coitado do Neca...
Assim entendidos e no pressuposto de resguardar o amigo Neca, pegamos aquela coisa, fomos todos ao convés e a lançamos ao mar. Assim, nas profundezas, nenhum mal poderia causar.
Mais tarde queixou-se ao Neca, consternado, um companheiro de camarote:
- Desapareceu a minha Vênus, que eu mesmo fiz e levava com todo o cuidado para mostrar ao meu irmão, no Brasil. Guardei-a sob o meu travesseiro e sumiu. Quem poderia ter feito isso? Era uma obra de arte, tinha muito valor para mim, só para mim...
Ouvimos, mudos, as lamentações do infortunado artista...

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17 de jun de 2013

Noutro Reino


Autor: Carlos Pais
Carlos Alberto Coutinho Pais nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 30 de janeiro de 1974.  Filho de Manuel Marques Pais e Teresa de Jesus da Costa Coutinho Pais, imigrantes portugueses. Ensino médio profissionalizante no CEFET-RJ, graduado em Engenharia de Telecomunicações e mestre em Engenharia de Produção pela UFF. Busca inspiração nos relacionamentos, na realidade cotidiana e na música. Apaixonado pela cultura.
Publicado na antologia SINGULAR – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com

          Em questões de tamanhos e números,
me liguei nas formas.
Dito rei, trono outrora,
destruí os castelos,
me embolei com embrulhos,
festejando enterros,
ruínas dos muros.

Ri para as pedras, em trilhas sumo.
Simbá provou êxtase,
João bebeu suco,
trovando violetas
sem rimas, nem rumos.

Levantei bandeiras, entre becos e vielas,
bocas e pernas, alcance despedida
morro acima, glamour na avenida
multidão multicor multiplica
os nós que não se encaixam, mas explicam.

Pedido: que vá, escorra
desgraça, não traga fumaça,
socorro.

São colares tirados da crua e viva teta
comédia, a tragédia, balança a rédea,
publica: esgotos e sangue,
poder, a política; mentira.

Num gol de cabeça, pensante, ativa
me disse: sabor de vitória;
tarefa cumprida.


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12 de jun de 2013

PPP – Partido da Política Poética


Autora: Aline leite
É filha de uma das “Mães de Acari”. Sua irmã foi um dos onze jovens que desapareceram em 1990, mais uma vítima entre tantos de algumas tantas páginas negras de nossa história. Hoje, a funcionária pública, bacharel em Letras e autora do livro “Toque de Letra”, que não se deixou abater (ou mesmo, esconder) por conta do sofrimento da perda, nos mostra toda a força de sua sensibilidade, inquietação e comprometimento com as suas origens.

Publicado no livro Toque de Letra, da autora.


As minhas palavras serão sempre as do povo
E eu sou uma espécie de rodo, que puxa, limpa!
Uma espécie de esponja que absorve, suga
Os sentimentos de uma gente poeta
Que tem poema nos problemas,
Poesia na renda familiar,
Que rende frutos ao poeta
E frutas à fonte de inspiração.
Estou sempre de bem com esse povo
Que junta palavras pequenas, formando palavrões.
Sou deputada e meu partido eleva a importância das palavras,
faço política com elas!
Prometo ao povo ensiná-los a ver o mundo,
Mostro o seu ópio
E cumpro com palavras a produção de um mundo diferente,
Melhor para toda essa gente,
Mesmo que em poesia e imaginário.

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8 de jun de 2013

Virginia

Autora: Dayse Castro
É estudante de Letras (UFRJ) e leciona Literatura Brasileira no Pré-vestibular de Nova Iguaçu – RJ.

Publicado na antologia SINGULAR – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com

Virginia levando a breve vida
Vivendo vícios, vendo vultos,
A favor de um vintém.
Na avenida, ela, Virginia, vigia
Os varões cheios de volúpias
Vantajosos na vida
Varejando jovens virgens.
Os varões encontram Virginia
Não virginia, a virgem
Mas Virginia que faz vida
E que convida todos para a Vila.

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5 de jun de 2013

Banco de Dados

Autora: Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis/RJ – Poeta com diversos textos publicados em antologias nacionais e internacionais. Amante das letras e defensora da natureza.
www.rozelenefurtadodelima.com.br
Publicado na antologia SINGULAR – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com

Esquecer os fatos
Olvidar a história
Apagar a memória
Destruir os retratos
Nunca!
Estrelas piscando no dedo anel
Sambando na ponta do morro
Descendo cantando socorro
Grau colado na favela do céu
Chorei!
Por isso eu escrevo
Anoto nas agendas
Preencho as fendas
Desenho em relevo
Revivo!
Sabor temperado da amargura
Vencida luta do primeiro desejo
Os sonhos seguiram em cortejo
À custa de açoites e cultura
Desfiz!
O laço da miséria imposta
O molde tatuado no chocolate
A bala perdida no resgate
O medo selado na resposta
Bendigo!
O poder da mão do Criador
Fez a esperança companheira
E encaminhou minha carreira
Canto a favela onde eu for

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1 de jun de 2013

A revolta da palmatória


Outono, início do ano letivo. Em virtude da adoção do regime misto, eu e outros tantos meninos fomos transferidos para a escola velha, na qual já estudavam as minhas irmãs Silvina e Rosa. Apresentei-me com os demais no período da tarde, após o jantar. Nós tínhamos uma hora e meia para a refeição, das 11:30 às 13, e, malgrado a distância entre nossa casa e a escola, ainda nos sobrava um tempinho para brincar no pátio. Antes de entrar na sala de aula eu já sabia da novidade: a palmatória sumira e a nova professora queria o instrumento de volta! Não se falava noutra coisa, mas eu e o Quim fomos brincar de rapa-tudo sobre o largo muro de arrimo que envolvia a escola pela lateral esquerda e aos fundos. A brincadeira consistia em rolar um dado e ganhar, ou perder, pontas de lápis de ardósia, com os quais praticávamos as quatro operações sobre pequenas lousas individuais do mesmo material. O dado, feito por nós mesmos (todo menino tinha um no bolso), não era cúbico, mas da forma de um paralelepípedo. Em suas faces principais lia-se: RAPA TUDO, PÕE 1, TIRA 1, PÕE 2. Todo jogo tem por natureza prender os jogadores envolvidos na disputa, de modo que deixamos entrar em aula toda a criançada e seguimos por último, já com algum atraso. Talvez por isso a professora nos incumbiu de resgatar a palmatória. Não só, mas também porque o Quim morava no Vale da Sapa, onde fora parar a palmatória, segundo apuração da mestra.
A palmatória sumira no final do período letivo anterior, quando já se sabia da substituição da professora. Ótima oportunidade para dar sumiço àquele instrumento abominável! Por idéia própria ou coletiva, uma aluna do último ano levara a dita para sua casa, talvez encorajada pelo fato de não retornar no período seguinte. As meninas exultaram – estavam livres daquele terror! A nova professora, contudo, não engoliu o fato consumado, inquiriu as meninas e soube da estória.
E lá fomos nós, eu e o Quim, à casa da garota que escondia a palmatória, devolvida sem dificuldades. De nada adiantara o seu feito. Tudo voltaria a ser como antes (E não é assim com a maioria das revoltas?).
No regresso resolvemos, espertinhos que éramos, retardar a chegada e assim ganharmos a tarde a vadiar: encurtamos o passo, paramos, colhemos morangos, bebemos água fresca e deitamos na relva a olhar os desenhos que as nuvens formavam no céu. Aquilo é que era vida! Por fim, molhamos o rosto para fingir suor e voltamos à escola ao final da tarde. Por certo a professora acreditaria em nossa simulação, já que nada sabia das lonjuras daquele lugar onde viera lecionar. Entregamos a palmatória à professora, que assim ficou devidamente aparelhada para exercer sua função pedagógica. Isto feito, sentamos numa carteira esperando o término da aula. Mas, pelo visto, a professora também era espertinha e não acreditou no suor dos nossos rostos, prolongando a aula o quanto pode. Nunca saímos tão tarde da escola!

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24 de mai de 2013

O boné amarelo

Autora: Suelene Barroso
Atualmente cursa Biblioteconomia pela UFCE e Letras pela UECE. Aos 17 ingressou no curso de Filosofia pela UECE, o qual cursou apenas dois anos, o suficiente para amadurecer uma mente recém-saída da escola e do colo protetor da mãe. Com a carga recebida diariamente, tanto em casa como nas Universidades e nos bares, tem o auxílio das palavras para aliviar a rotina dessa vida incoerente e traduzir  inspirações do difícil, porém encantador, convívio social.
www.contradizeres.blogspot.com 

Publicado na antologia Singular – O país dos invisíveis, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora
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          Tirou o boné e olhou as nuvens que cobriam o sol naquele instante. Pode sentir o vento penetrar nos cabelos e acariciá-los num gesto de ternura matinal. Pedro olhou para o chão e viu o calor que lhe invadia os calçados, mesmo assim caminhou devagar; queria perceber os detalhes do caminho que percorria todos os dias até à escola. Nunca reparava. Mas hoje… Hoje ele queria ver cada pedacinho de terra que seus sapatos gastos pisavam toda manhã. – Amarelo! Do jeito que você gosta, filho. Agora o pai vai viajar, mas volta logo. Loguinho! Dentro de um mês tô de volta e aí a gente vai praquela praia que você quer tanto ir com o Luquinhas. Cuida bem da mãe, viu? – saiu pela porta deixando-a entreaberta e sumiu pela estrada. E ele adorou aquele boné. Amarelo! Era realmente a cor preferida. E seu pai sabia disto. Mas já haviam se passado dois meses além do prazo dado e nenhuma notícia do seu Elias. Pedro não queria pensar no que podia ter acontecido. Algum contratempo talvez?! Talvez. Não queria pensar.

          Parou diante de um cacto seco que invadia parte da ruazinha de terra, havia uma flor. Mirou aquela flor e reparou no quanto era bonita, pensou em arrancá-la e tirá-la daquele vazio cacto que a sustentava. Pois a flor era bonita, o cacto, deserto. No entanto, Pedro percebeu que faziam parte um do outro; o deserto era belo por causa daquela flor e ela precisava manter em sua vã beleza um vazio que a equilibrasse. Pedro olhou mais uma vez a flor, o cacto e continuou a caminhar sozinho.
          O tempo parecia correr entre os grãos de areia que batiam em sua face. O sol, agora iluminando com temor, talvez por não querer perder o seu lugar na aurora e no crepúsculo, queimava o rosto moreno de Pedro e esquentava o caminho que parecia sem fim. Sem medo, pois Pedro era menino de coragem, como o pai sempre dizia, olhou para o sol como se o enfrentasse. Ficaram por alguns instantes encarando um ao outro. Com a visão meio embaçada, Pedro olhou para trás como se esperasse por alguém, mas viu apenas  uma imensidão vertiginosa. Olhou para o boné pendurado na mochila, agora mais amarelo como se o sol refletisse nele, e o pegou. Analisou as linhas que o mantinham inteiro, algumas brancas, outras pretas. Voltou-se para o caminho de terra seca que ainda teria que percorrer até à escola, colocou o boné para se proteger e continuou, sozinho.

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22 de mai de 2013

Ecos d’África

Desceu o estreito caminho de acesso à casa de D. Maria e veio andar na estrada, em frente à venda do Grandela, olhando a paisagem e causando grande admiração aos passantes. Os menos discretos chegavam a olhar para trás - nunca tinham visto uma pessoa assim! Muito menos eu, que não tirava os olhos dela.
Nem mulher nem menina, negra, num vestido muito branco, ainda mais branco pelo contraste com sua pele; cabelos ao natural, enroladinhos, curtinhos; brincos de argola nas orelhas, lábios grossos e os olhos como dois luzeiros na escuridão. Parecia não dar importância ao espanto das pessoas.
Aos meus olhos de menino era uma imagem maravilhosa, comparável àquelas personagens das estórias ao pé do lume – uma princesa negra!
A rapariga viera de Angola, acompanhando a filha, genro e netos de D. Maria do Porto, imigrados lá e de visita à terra natal. A princesa era a criada da família.


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18 de mai de 2013

O pirulito

Autor: João Antonio Ventura

Publicado na antologia SINGULAR - O país dos invisíveis, coordenada por Adriana  Kairos, da ALEPA - A Literatura dos Espaços Populares Agora
www.aliteraturapopular.blogspot.com


Umas vão, outras voltam; umas entram, outras saem. Algumas param e olham, depois seguem no mesmo ritmo frenético do formigueiro. A maioria delas carrega algo, um embrulho, pacote ou sacola. Formigueiro de gente. Aqui, uma fanfarra toca marchinhas carnavalescas à porta de uma loja; ali, um locutor anuncia pechinchas imperdíveis, enquanto mãos nervosas vasculham a bancada à procura das melhores peças. Barulho, confusão, cotoveladas e esbarrões, com pedidos apressados de desculpas - que todos são civilizados, caramba!
Formigueiro de gente, sem a ordem e a disciplina das formigas.
Estamos em Madureira, maior centro comercial da zona norte, reduto tradicional do samba e ponto de convergência e passagem para todos os lugares suburbanos. E nos horários de pico, um verdadeiro nó-cego no trânsito.
É sábado, poucos dias antes do carnaval. Nesta época (e também antes do Natal) o cuidado deve ser redobrado. Cuidado, senhora! Tem malandro na sua cola. É... Esse que dissimula, fingindo olhar a vitrine... Cuidado, senhorinha! Ah, melhor assim: bolsa fechada e apertadinha contra o sovaco.
D. Ruth já está advertida, por experiência própria, dos riscos que corre o consumidor incauto nestes dias tumultuosos do bairro. Por isso mesmo, quando vem a Madureira, nem bolsa traz; os documentos e o dinheiro guarda-os no sutiã ou no cós da calcinha. E já está de volta, depois de quitar o carnê da Leader, e o da Riachuelo, e o da Renner, e o da...
Bem, voltemos ao destino de D. Ruth. Já no ponto de ônibus, a mulher topa com três adolescentes modestamente vestidas, uma delas com um bebê ao colo.
- Moça, ajuda nóis, não temos nada de comer em casa.
Perplexa por alguns momentos, incomodada, não com a cena ou o pedido, que já não lhe causam qualquer espanto ou dor, mas porque está sem dinheiro, - tem apenas o do ônibus -, D. Ruth pensa numa desculpa...
Espere aí, D. Ruth... E aquele troco, aquelas moedinhas no sutiã...
- É mesmo, tenho aqui umas moedinhas. Esperem aí, meninas.
E D. Ruth compra num camelô próximo, um saquinho de balas e um pirulito.
- Olha o que a titia trouxe pro neném, olha, diz D. Ruth, balançando o pirulito aos olhos atentos do bebê, que estende ligeiro a mãozinha e o agarra, levando-o à boca e sugando-o com sofreguidão, apesar do invólucro da guloseima.
- Deixa a titia tirar o papelzinho, deixa, diz D. Ruth, tentando desembalar o pirulito. Mas a mãozinha do bebê o segura como se fosse uma possante tenaz, e o pirulito a sua tábua de salvação. E só com muito jeito a mãe da criança consegue retirar o invólucro. Então o bebê suga com prazer e seus olhos brilham! D. Ruth pergunta à mãe adolescente:
- Essa criança está com muita fome. Você não lhe dá o peito?
- Peito? Não tenho leite, estou seca... e o leite Ninho acabou.
- E o pai, não ajuda?
- O pai... mataram o pai dele...
D. Ruth emudece, acaricia a face magra do bebê, entrega o saquinho de balas às meninas, - que logo ocupam suas bocas -, e se afasta, de olho em seu ônibus que vem chegando. Sentada num banco do coletivo, olhar vago e pensativa, D. Ruth não sabe dizer o que sente - um certo desconforto moral, uma opressão no peito, uma angústia indefinida que mareja seus olhos... D. Ruth não sabe dizer, mas sente. Lá fora um molecote atravessa a rua correndo perigosamente entre os veículos. Alguém grita:
- Pega ladrão! Pega ladrão! Levou a minha bolsa, aquele lá ó...
Ahhh, senhorinha... bem que o narrador lhe avisou.

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16 de mai de 2013

A história do batizado

Guiados por minha tia Maria e o Galrão na rabiça (1), os bois forcejavam à charrua (2), que ia desnudando a terra em sulcos profundos de ponta a ponta da leira; depois voltavam rasgando outro sulco, e repetiam essa lida num vai-vém vagaroso mas consistente, até que terminassem toda a lavra. As beiras, onde a charrua não alcançava, amanhavam-se à enxada, por minha mãe e por quem mais se dispusesse. Uma aragem fresca começava a soprar, aliviando gentes e animais. Mas ainda faltava a gradagem, procedimento de destorroamento e uniformização do lavrado, feita com uma pesada grade de madeira com dentes de ferro. O Galrão desatrelou os bois e levou-os à sombra das oliveiras. Chegava a merenda.
Sentamos todos no chão, ao redor do prato de rijões (3) e broa de milho postos sobre uma toalha. O ti’Galrão, marido da tia Maria, viera, como sempre, lavrar as nossas terras do Mortal, pois tinha bois e arado, preparando-as para a semeadura. Comíamos em silêncio (é feio falar com a boca cheia). O ti’Galrão, após engolir um naco de carne , falou:
— Ó cunhado, sabes aquele batizado que eu fui, o do menino que ia chamar-se Andúbio?
— Pois...
— Foi um grande sarilho (4) o batizado do menino: o padrinho queria dar-lhe por nome Andúbio, mas o pai queria porque queria Andubinho. O padre ficou a esperar uma decisão e os dois a discutir em frente à pia batismal e na presença dos convidados, se o menino seria Andúbio ou Andubinho...
Meu pai parou de comer, aparentemente interessado naquela trapalhada que o Galrão contava e, esboçando um ligeiro sorriso, perguntou:
— E a mãe da criança, que dizia?
— Nada, coitadinha! Estava envergonhada com os dois a discutir. Para ela tanto fazia, se Andúbio ou Andubinho.
— E afinal, que nome recebeu o menino? – perguntou papai.
— Andubinho. O pai do menino não deixou por menos: An-du-bi-nho!
— Pois seja – disse papai, passando um garrafão de cinco litros ao meu tio.
— Ora, viva! – exclamou o ti’ Galrão satisfeito, sorvendo em seguida uns goles de vinho diretamente do gargalo, como era o hábito em situações de improviso como aquela.
Só então compreendi a história do batizado.
Ouvi essa história outras vezes. Era uma brincadeira geralmente feita por convidados de um jantar ou ceia, para alertar o anfitrião quanto à oportunidade de começar a servir o vinho (“Anda o vinho!”). Longe de desconhecer o momento oportuno, o anfitrião até participava da pilhéria, como se fora um ritual preparatório à degustação.
(1) rabiça – braço do arado, empunhado pelo lavrador.
(2) charrua – tipo de arado.
(3) rijões – fritos de carne de porco.
(4) sarilho – complicação, confusão.

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9 de mai de 2013

Continho das empadas


Autor: Élcio Alves
“Minha vida é repleta de sutilezas. Comecei nascendo, continuei me desenvolvendo, na vida estou crescendo,  só não sei a hora de dizer: Estou morrendo. Estudo para aprender. Ensino para trocar, vivo para realizar”.
www.psicoland.zip.net
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Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com

As propagandas na televisão sempre nos mostram famílias felizes e sorridentes, as quais possuem bens materiais como fonte da felicidade. Porém, em uma grande dimensão da realidade real, crianças trabalham como se fossem gente grande. A infância é uma prisioneira que nunca terá liberdade condicional.
Narinho produzia e vendia empadas durante a noite, na comunidade do Salgadão, com o objetivo de ajudar nas despesas da casa e em seus anseios de consumo. Ele tinha 10 anos e já sabia ser um bom negociador.
Por onde passava, Narinho oferecia suas mercadorias. Em uma lanchonete, ao ver um grupo de amigos degustando uma pizza de quatro queijos, ofereceu cordialmente suas empadas, nos sabores: queijo, presunto e carne moída. Mas logo foi repudiado por um dos integrantes daquela turma:
- Sai fora, remelento! Acha que eu vou te dar dinheiro para você cheirar cola?
- Cheirar cola nada. Ele vai é comprar uma pedrinha, seu cracudinho! Disse um dos rapazes.
- Qual foi? Tô vendendo umas empadas na dignidade, na social, e vocês estão querendo me esculachar? Vou lá na boca agora… Vocês vão ver só…
Narinho contactou um de seus maiores fregueses: Arisco, gerente da boca local. O mesmo limpava uma arma e falava em um rádio-transmissor.
- Arisco! Disse o menino quase chorando de raiva.
- Fala tu, pentelho. Quanto tá a empada de frango?
- Tá um real, mas não vim aqui te vender não! Queria te dar um papo reto.
- Qual foi então, Narinho?
- Tem uns feladaputas ali na lanchonete que me esculacharam só porque eu ofereci a eles as minhas empadas.
- Quem são? Dá o papo aí.
- Aqueles lá, ó…
- Valeu…
- Trucuta, Valentão… Bora ali…
- Bora patrão!
- O rapá! Então vocês gostam de pizza, né?
- Que isso cara, eu falei com ele brincando.
- Brincando é o caralho! Zezim, manda a maior pizza que tu tem aí. Esses arrombados vão comer no seco para vocês aprenderem a não esculachar o menor humilde.
- Aí, Arisco! Eu ia entregar  essa pizza ultra-gigante de pimenta mexicana com sardinha. Mas pega aí…
- Serve esses dois aí, Zezim…
- Trucuta, Valentão, fica aí na escolta para ver se eles vão comer tudinho. Se vomitarem, faça eles comerem o próprio vômito.
- Já é, Patrão. Bora, seus viados. Come essa porra logo!
- Não aguento mais, Arisco…
- Nem eu…Tá foda para engolir…
- Foda-se, se não der pela boca enfia pelo rabo a dentro… E vocês aguentam sim… Trucuta, Valentão, se eles ficarem nessa pode passar eles…
Não precisa passar eles não, Arisco. Ele já está todo surrado. Já tiveram o que mereciam.
- Já é Menó. Qualquer coisa é só falar. Valentão, dá um pau neles e solta eles por aí.
- Valeu, Arisco.
Depois de fato, Narinho continuou a vender suas empadinhas. Já mais velho, saiu da comunidade para ir a um evento. Reencontrou os fregueses da lanchonete. Foi sequestrado. Encontraram-no morto em uma rua no bairro de Guadalupe. Ninguém mais experimentou as suas empadas. Não há mais sabor na vida dos familiares e amigos.O rapaz não chegou a fazer sua propaganda na mídia. Fez momentaneamente a propaganda de sua vida.

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4 de mai de 2013

O dia em que o céu rachou


Naquele sábado não fui com as minhas irmãs levar as ovelhas ao pasto. Nem com papai e mamãe, que tinham ido à feira de Santo Amaro comprar leitões. Fiquei em casa por um só motivo: Aniceto e seus homens trabalhavam na reforma da nossa casa. Curioso, gostava de observá-los preparando argamassa, rebocando, queimando a cal virgem, caiando, elaborando as tintas (naquele tempo não havia tintas já prontas) ou pintando. Eu não perdia nada dessa lida. Foi quando ecoaram os primeiros gritos:
- Acalderrei! É o fim do mundo! Acalderrei! (1)
Fui na amurada do jardim espiar; uma velha ajoelhada no meio da rua (se não me engano, a avó dos Carriços) com as mãos estendidas para o céu, aos prantos, suplicava desesperada:
- Ai, Jesus! Perdoai os nossos pecados, Senhor Jesus!...
Olhei o céu, estava azul e límpido como raramente se vê, a não ser por um diminuto ponto brilhante (uma estrela?) cruzando o firmamento de ponta a ponta, deixando atrás de si um risco branco e fino, semelhante a uma trinca ou rachadura; outro ponto brilhante começava a riscar o céu em sentido transversal ao primeiro; e mais outro e outro mais... O céu ficou todo riscado, parecendo uma casca de ovo rachada!
Estrelas à luz do dia, deslocando-se velozmente (não eram estrelas cadentes, disso eu tinha certeza) e rasgando o céu em muitos pedaços! Algo de sobrenatural parecia estar acontecendo! Seria o fim do mundo? “De mil passarás, a dois mil não chegarás”, teria dito Nossa Senhora, segundo minha mãe. E a largura das rachaduras aumentando! E o céu aos cacos, prestes a desabar!
A aldeia estava em polvorosa! A velha ajoelhada levantou-se e correu ladeira abaixo, sempre a gritar “ai, Jesus... ai, Jesus”. Mulheres e crianças corriam em direção a suas casas: se o mundo ia acabar, melhor seria estar perto dos seus. As minhas irmãs chegaram tangendo as ovelhas em correria. Assustadas, me contaram que estavam brincando de santinha e pensaram ser castigo por estarem a brincar com as coisas do céu.
A barafunda atingiu outros lugares e até a feira de Santo Amaro virou um caos: correria para todo lado, barracas desabando, gritaria, choro... E para piorar a confusão, os animais à venda soltaram-se e os aproveitadores saquearam a não poder mais. Um inferno!
Eu não entendia nada do que estava ocorrendo no céu, todavia permaneci tranqüilo durante aqueles momentos extraordinários. E a razão era simples: quando tudo começou, o Aniceto olhou o céu, esboçou um ligeiro sorriso e retornou ao trabalho. Se ele permaneceu calmo, por que eu iria afligir-me?
Não durou muito, porém, aquela ameaça do céu: as rachaduras, alargando-se, diluíram-se no azul celeste e desapareceram. Sumiram também as estrelas que as provocaram. Teria Jesus ouvido as preces dos aflitos e desesperados? Teria Deus lhes perdoado os pecados? Eu não sabia, mas o céu estava novamente azul e límpido como dantes e a aldeia sossegada.
Alguns dias depois ouvi um comentário na loja do Grandela:
- Foram os aviões-a-jato de Figueira da Foz. Está no jornal do Aives...
João Aives era o homem mais bem informado da aldeia: recebia semanalmente um jornal pelo correio. Morava do outro lado do Caima, em frente à ponte, aparecia pouco, falava menos ainda, mas sabia de tudo. Estava no jornal...
E foi isso. As tais rachaduras nada mais eram que os rastros de gases deixados pelos aviões-a-jato voando em grande altitude. A fuselagem metálica dos aviões e os gases refletiam a luz solar, tornando-os brilhantes e dando a impressão de estrelas rasgando o céu. A ignorância e a desinformação fizeram o resto...
(1) Acalderrei! – corruptela da expressão “Acá, El Rei”; pedido de ajuda; socorro.

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1 de mai de 2013

A moça e a mosca


Autora: Adriana Kairos
É professora, escritora e coordenadora do projeto cultural ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora, que tem por objetivo estimular e apresentar a produção poética e ficcional de autores de periferias. Neste projeto organizou as antologias Marginal – contos de periferia, Poesia Suburbana – entre trilhos e versos (dezembro/10), Singular – o país dos invisíveis (agosto/11) e Vozes (agosto/2012). Moradora do Complexo de favelas da Maré – Rio de Janeiro, RJ, AKairos cursa Letras na UFRJ. Em 2009, publicou Claraboia, livro de poesia e prosa, que tenta retratar o olhar dos marginalizados de uma maneira poética e reflexiva. No final de 2011 lançou Anjos, ventos e quimeras, livro de contos, prefaciado pelo Prof. Juliano Carrupt – UFF e revisado pelo Prof.Tiago Cavalcante – UFRJ. Outros textos seus já foram publicados em várias antologias e em sites na Internet. Além disso, a autora se debruça sobre a questão do fazer literário nos/dos espaços populares e a sua ascensão, as culturas marginalizadas e o “bum” da cultura digital.

Publicado na antologia VOZES, coordenada pela autora.
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Ela era daquele tipo de pessoa, que de tão desprovida, só tinha uma mosquinha-de-guarda. Moça anônima, moça qualquer. Um número numa ficha de entrada de um hospital, de um abrigo, de um lugar qualquer que a acolha, que mate sua fome por algumas horas,  que lhe empreste um sabonete para um banho eventual. Um número fora das pesquisas (nunca respondeu ao IBGE), dentro das estatísticas. Quando morre, um indigente a mais, um Brasil a menos.
Dois quaiquer a deixaram na porta de um outro qualquer-hospital. Ela grunhia segurando a barriga inchada, pequena, parecia um calo. Foi socorrida por outros anônimos-enfermeiros e levada ao centro cirúrgico. Era caso de urgência. Era caso de fome ou morte.
Tinha mesmo mais fome que dor. Deu a luz a um bebê tão faminto quanto ela. A mosca entrou pela janela da enfermaria e observou a tudo e a todos de um canto da parede. A tudo: seu sofrer, seu chorar, seu medo, sua desilusão, seu abandono, sua tristeza infinita… A todos os olhares, de horror, de preconceito, de julgamento, de maldade, de descompaixão cristã.
A mosca só a observava, não se metia, não interferia em nada. Nada. Observava apenas. Outra coisa também não podia fazer o guardião diminuto, sempre correndo o constante e eminente risco de uma palmada mortal de algum desavisado. Uma mosca com status de anjo. Foi o que sobrara para ela, para a moça com o corpo e a idade que a rua lhe dera.
A mosca também a acompanhou na sala de parto e seguiu velando-a por toda a noite. Ela se sentia impotente. Que raios de guardião eu sou. Aproximou-se da moça e passou a observá-la da cabeceira da cama. Sempre tinha alguém tentando espantá-la de seu posto. Sobrevoava para salvar-se e voltava, sempre, para o mesmo lugar.
Uma enfermeira quis mostrar a moça sua cria. Ela respirou fundo, fechou os olhos, estendeu os braços para afastar qualquer tentativa de aproximação e disse não. Deitou e fingiu dormir. Despertou com o som do carrinho que trazia a ceia noturna. Sentou-se na beira da cama e devorou os biscoitos, as geleinhas em potinhos descartáveis e o suco. Ávida como nunca, pediu o que sobrara das outras internas da maternidade.
Quer ver sua filha? Enfermeira insistente.
O seu olhar vazio chocou as outras mães da enfermaria, mas ninguém disse nada. Todos ficaram mudos diante do que acontecia. Diante da miséria-ferida aberta e sem médicos para suturá-la. O que dizer ou o que fazer? Perguntaram-se todos sem palavras.
Ela pensava em não-sei-o-quê. A mosca jurou que ela sonhava. Contudo, a moça sabia que esse privilégio sua origem não lhe dava.
Não quero vê-la. Quero que a levem para um outro destino.
A encaminharemos ao concelho tutelar.
O tempo passou nas gotas cansadas do soro sobre o suporte. A moça, saciada de sua fome e de seu desejo materno, admirava calmamente sua mosquinha guardiã. Cansada de velá-la, a mosca sobrevoou um pouco mais o seu leito, sabia que a moça também cansara.
A mosca pousou dormida sobre o ventre da moça dormente. A moça descansou seus olhos e suas mãos sobre a mosca. A mosca não a velou mais, nem a moça sentiu fome outra vez.

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28 de abr de 2013

Nas matas de São Pedro

 
Outras estórias que eu gostava muito eram as que falavam de coisas do Brasil, a terra onde eu nascera e para a qual muitos queriam ir. O que eu sabia do Brasil, soube ao pé do lume...
Papai explorava as matas de São Pedro, (1) produzindo carvão, o combustível então usado no cotidiano doméstico da cidade do Rio de Janeiro. A madeira era derrubada a machado e cortada em tamanho adequado para a formação dos balões, método de queima bastante primitivo, mas não muito diferente do usado até hoje pelos carvoeiros. Eu ficava imaginando como seriam esses balões, a partir da descrição de minha mãe: a lenha era juntada cuidadosamente em montes, mais ou menos no formato das medas (2) de trigo; depois se revestia tudo com grossa camada de barro, deixando em cima um furo ou chaminé e na base alguns outros furos para entrada de ar e por onde se tocava o fogo. Depois da queima, desmanchava-se o balão, deixava-se arrefecer e ensacava-se o carvão, que era carregado em lombo de burro até à estação de São Pedro, para posterior embarque nos vagões da Estrada de Ferro Rio D’Ouro. (3)
Barro, fuligem, cinza. E suor, muito suor!
Mas nem só de carvão se ocupavam os empregados de papai: também plantavam abóboras nas terras desmatadas, como contrapartida à concessão carvoeira. Exigia-se o plantio de qualquer coisa e papai optou por abóboras, creio, por ser uma cultura pouco exigente em cuidados. Afinal, era carvoeiro, não agricultor. E bastava que chovesse para as plantas crescerem e frutificarem. Bastava que chovesse... Mas São Pedro, o santo, tinha lá as suas esquisitices e mandara chuva à farta sobre a gleba do carvoeiro vizinho e nem uma gota na sua. “Que falta de sorte, carago!” – pensava papai, olhando a sua plantação já então de futuro incerto. Todavia, a terra era generosa, ainda com o humo da cobertura florestal e a falta de chuva em sua gleba fora apenas episódica. Por conseguinte, os vagões da Rio D’Ouro carregaram grandes quantidades de suas abóboras e também de laranjas e melancias que ele contratava com agricultores locais para serem comercializadas na própria estação ferroviária de Coelho Neto, por meus irmãos Esmeralda e Benjamin.
O carvão destinava-se à carvoaria de papai, no mesmo subúrbio, onde morava com a família; ia a São Pedro uma a duas vezes por mês verificar o andamento dos trabalhos e pagar o salário de seus carvoeiros. Pernoitava com os trabalhadores em casa de pau-a-pique à beira da mata e, durante a noite, dizia ele, era comum serem visitados por uma onça pintada; a bicha rondava a casa, rosnava e arranhava a taipa onde o barro se desmanchara, afastando-se depois. Papai viu-lhe as unhas, os bigodes e pouco mais. Nem mais queria ver: não era caçador. E apesar de precária, a casa de taipa sempre o protegeu e a seus trabalhadores.
Sobre essas matas papai contava outra estória... Um dia, após o almoço, intrometeu-se na mata em busca de sombra e frescor, sentou-se distraído num tronco caído no chão e acendeu um cigarro. Já na primeira tragada sentiu o tronco embaixo de si mover-se, rabear! Quase que por instinto, levantou-se de um salto, sem saber o que acontecia e, ao voltar-se, constatou com espanto que o assento em que repousara não era um tronco, era uma cobra! E bem criada! Imensa! Devia ser uma sucuri em repouso após uma farta refeição. Papai viu a bicha afastar-se entre as folhagens, ondulante e pesadona. Ainda bem. Meu pai tampouco era caçador de cobras.


(1) São Pedro – Atual Jaceruba, bairro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense; faz parte da Reserva Ecológica de Tinguá e limita com Japeri.
(2) meda – agrupamento de feixes de trigo, palha, etc., a que se dá forma geralmente cônica e que os ceifadores elevam nos campos.
(3) Estrada de Ferro Rio d’Ouro - Extinta em 1970, a ferrovia iniciava na ponta do Caju e chegava a São Pedro, Tinguá e Xerém. Em parte de seu antigo leito trafegam hoje os trens metropolitanos da linha 2.

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25 de abr de 2013

Meu drama


Autora: Maria do Socorro da Silva
76 anos, é poeta e faz repentes. Nasceu em Pernanbuco, mas vive no Rio de Janeiro des 1976. Moradora de uma ocupação na antiga fábrica da CCPL, em Manguinhos, ela vive temporariamente na região da Embratel. Enquanto aguarda uma nova moradia, recebe o aluguel social.
Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com


Meus senhores e senhoras
Desculpem assim me expressar
Pois não tenho cultura
Não sei como falar
Estou contando o meu drama
Para me desabafar
Fui uma criança pobre
Sem carinho de meus pais
E bolando pelo mundo
Meu sofre já é demais
Agora estou aqui
Em uma favela morando
Em pobreza profunda
Cada vez vai piorando
Não tenho emprego fixo
Pro meu futuro “melhorá”
Muitas vezes fico pensando
Começo logo a chorar
A criança pede o sapato
A outra pede também
E eu fico como louca
Só Deus sabe e
Mais ninguém…

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13 de abr de 2013

A copa é deles e a conta é nossa

 Autor: DL Ventura
Só mais um jovem suburbano. Morador de Marechal Hermes. Desde cedo inserido na música, aprendendo a tocar alguns instrumentos. Hoje está à frente do grupo de Rap Conexão Marginal, enfatizando em suas letras: protesto, denúncia e informação. Em outras atuações é colaborador do fanzine Visão Suburbana.

Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA - A Literatura dos Espaços Populares Agora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com


A copa do mundo é nossa com os brasileiro não há quem possa
Pais do futebol, do samba, funk e da bossa (É terra nossa).
Berço cultural de tantas riqueza mil
Cultura da corrupção oh meu Brasil varonil

Já vejo a nossa grana escorrendo no funil
Construções desnecessárias se instalam no Brasil
Estádios, elefante branco, propagandas na tv
Essa melhoria não foi feita pra você

Mas vai ser bom pro empresário e feito pra gringo ver
Falta de transparência serve pra você não ver
Superfaturamento desenrolados para quê?
A copa no seu país cê vai ver pela TV

Esse filme tá errado tô vendo tudo de novo
O que é mais engraçado só quem é lesado é o povo
Desde Panamericano à copa da corrupção
Tudo isso pro Brasil ser hexacampeão

Licitações cruzadas que é pra não dar bandeira
Pode acreditar eu não tô de brincadeira
Por debaixo dos panos é que rola a sujeira
Obrigado à CBF, os  governante e às empreiteira

Com aquela velha estória de ordem e progresso
Com direito ao ingresso essa copa é um sucesso
Lesando a pátria com muita comemoração
Hey, Trick Ricky você é um brincalhão

Sem falar que no Brasil quem comanda é comandado
Se preciso até choram pra entreter o eleitorado
Aqui no Rio de Janeiro tem uma dupla de engraçados
O menino prodígio e o homem mascarado

Pra mim tá tudo errado pra ter copa eu sou roubado
Seu Orlando da pamonha dessa vez tá encrencado
População amontoada na fila do CTI
Não se preocupe, pois em 14 a copa vai ser aqui

Nosso povo é tão feliz, então filma nóis Galvão
E faz a comemoração do João idiotão
A pergunta é feita há 20 e a resposta é hostil.
Que país é esse? É a porra do brasil

A taça do mundo é nossa com os brasileiro não há quem possa
Porque a copa é deles e a conta é nossa.

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12 de abr de 2013

A grade de ouro

AO PÉ DO LUME
Ceávamos todos à roda de um alguidar: (1) batatas, couve ou repolho e peixe salgado – carapau ou sardinhas – e às vezes até bacalhau (naquela época não era tão caro como hoje). Em seguida rezávamos o terço. Por fim vinham as estórias ao pé do lume. Estórias da tradição oral, que mamãe repetiu muitas e muitas vezes, sempre com o mesmo sabor de novidade. De sua boca para a nossa imaginação desfilaram reis e rainhas, príncipes, princesas, filhos exemplares e outros nem tanto, heróis valorosos, madrastas e vilões, fadas, bruxas, lobisomens...
Impressionantes também eram as estórias de encantamentos: tesouros fabulosos encantados (4) pelos mouros, (5) que eu não sabia bem quem eram, mas deviam ser gente muito rica e muito esperta e poderosa, pois ninguém conseguia pôr as mãos em tais riquezas. Sempre acontecia alguma coisa para impedir o desencanto. A minha mente de menino não se conformava com tamanha falta de sorte daquelas pessoas que estiveram muito perto de conseguir.
(1) alguidar – vasilha de barro que alarga do fundo para as bordas.
(4) encantados – protegidos por meio de encantamento ou magia.
(5) mouros – árabes invasores da península Ibérica. Sendo banidos para o sul durante as Guerras de Reconquista, foram definitivamente expulsos do Algarve, último foco de resistência, em 1252. A tradição oral lhes atribui o encantamento de suas riquezas abandonadas ao partirem.

A GRADE DE OURO
Ali mesmo na aldeia havia um desses tesouros, no Caima, ao lado da ponte; nesse lugar o rio se estreitava entre os lajedos que sustentavam o arco maior da ponte e as águas pareciam negras e o fundo não se via. Foi aí que os mouros encantaram uma grade, dessas usadas na lavoura, porém de ouro maciço!
Um morador da aldeia, já falecido, tentou quebrar o encantamento da grade. Não era uma pessoa igual às outras: sabia ler e escrever e conhecia muita sabedoria, até o livro de São Cipriano. (1) Ele sabia que para retirar a grade era preciso ler o tal livro em sexta-feira de lua cheia, à meia noite, ocasião em que a grade costumava aparecer. No dia certo, próximo à meia noite, levou para lá, além do livro do santo, uma junta de bois, correntes e ganchos para puxar a grade. Tudo preparado, iniciou a leitura...
À meia noite em ponto um clarão iluminou as águas: era a grade aparecendo no fundo. E ela veio subindo, devagarinho, até à superfície. Ouro maciço, reluzente, de encher os olhos de qualquer cristão! Correntes e ganchos na grade, era só tanger os animais e ficar rico! Era... mas... desgraça! A grade teimava em não sair. O homem, confuso, aguilhoava os bois:
- Força, Marrão! Avante, Mimoso! Ficaremos ricos, carago!
Tudo em vão: a grade começou a afundar, devagarinho, tal e qual viera à tona. E arrastava os bois consigo! Só houve tempo para desatrelar as correntes e salvar os bois. A grade, essa, desapareceu no fundo para nunca mais ser vista!
O homem ficou olhando fixamente as águas, negras como dantes, na esperança que a grade ressurgisse, mas nada. O que dera errado, se fizera tudo o que o livro...? O livro! Para atrelar os bois à grade, parou de ler o livro! Santo Deus!
Ainda a olhar as águas, o infeliz sentou-se no lajedo e chorou...
(1) São Cipriano – O feiticeiro – homem dedicado ao estudo das forças ocultas durante parte de sua vida, converteu-se ao catolicismo após o encontro com a jovem (Santa) Justina, sendo com ela martirizado e canonizado. Sua popularidade excedeu a fé cristã devido ao famoso Livro de São Cipriano, uma compilação de rituais de magia. Homônimo e contemporâneo de outro santo católico – o Papa Africano – sua vida, por vezes, confunde-se com a deste e vice-versa.

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4 de abr de 2013

Sou igual a você

Autor: Damião Alfredo de Paula dos Santos
44 anos, morador de Vila Isabel, estudante de letras (Português/Russo) da UFRJ. Amante da literatura, deseja escrever um livro com compilações de sua obra poética. Faz estágio junto à Prefeitura do Rio de      Janeiro, ministrando aulas de reforço em Língua Portuguesa num CIEP e participa de trabalhos em diversas ONGs. “A poesia fala em sonhos e se torna real na vida de cada um”.

Publicado na antologia VOZES coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com


Ser
Não ser
Querer
Não querer
Sorrir pra quê?

Vou
Não vou.
Chegarei…
Não sei.
Se me deixarem
Sim

A porta não abre
Espero em vão
Sem fila
Nem desconfiei
A sociedade implica com a minha chegada
Por isso, não sei
Não sei.

Entro
Espero o movimento
Não sou aceito
Volto pra casa
Na igualdade social
Não somos iguais

Não caí na real
Ainda sonho que
Sou igual a você

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3 de abr de 2013


          A GREVE

          Pá no cavaco, cavaco na vagonete; empurra a vagonete, despeja na boca da caldeira, retorna. Mais pá no cavaco, cavaco na vagonete, empurra... O trabalho era árduo: encher de cavacos de pinheiro ou eucalipto as grandes caldeiras, nas quais se preparava a pasta de celulose, matéria-prima do papel. Cada turno tinha por tarefa encher uma caldeira, custasse o que custasse. Não se podia perder tempo, portanto. No inverno era ainda pior: o frio enregelava o nariz, as orelhas, os dedos... E se ao menos o salário compensasse...
       Os operários já pensavam nisso fazia tempo: muito trabalho e pouco salário!  Pensavam, mas raramente comentavam entre si – o capataz estava sempre de olho! E os empregos eram escassos, carecia preservá-los.
          De volta para casa, longe do capataz, um homem falou para outro:
-          Ó pá, não achas que estamos trabalhando muito e recebendo pouco?
-          É evidente, mas que fazer se o gringo não dá aumento? Se ao menos o capataz...
 -   Que capataz, pá! O gajo nunca vai nos ajudar. Não quer se indispor com o patrão, receia perder o posto.
          -          Então só nos resta esperar a boa vontade do gringo – conformou-se o outro.
          -   Se depender de boa vontade, só vamos ter aumento quando as galinhas criarem dentes – disse um terceiro trabalhador. Precisamos fazer alguma coisa, carago! (1)
          -    Uma greve – sugeriu, com voz baixa, o quarto homem do grupo.
          Sim, uma greve, por que não? E os quatro foram conversando sobre essa possibilidade enquanto caminhavam pela estrada que separa a fábrica da aldeia. Outros trabalhadores se interessaram pelo assunto e aderiram ao grupo. Quando chegaram à loja do Grandela já estava tudo decidido: iriam deflagrar uma greve para reivindicar aumento salarial. Selaram o acordo com um quarteirão (2) de vinho para cada um. Saíram depois, cada qual encarregado de avisar outros companheiros que não participaram do concerto.
          Domingo, início de turno. Só a cavaqueira continuava zunindo, mas sem que a abastecessem com toras de eucalipto, parara de cuspir cavaco. As pás num canto, as vagonetes paradas, os operários de braços cruzados... 
          -   Mexam-se, homens! O turno já começou – dizia o capataz, sem entender o que acontecia.
          -  Estamos em greve – disse o que parecia liderar o grupo. Sem aumento não trabalhamos!
          -    Aumento? Estão doidos? Que posso eu fazer, se sou apenas...
          -    Queremos falar com o mister, nos entendemos com ele...     
          -          Pois vão falar, vão falar, eu cá não posso nada! – encerrou o capataz, irritado.
          O que liderava tirou uma comissão para negociar com o inglês administrador geral da fábrica:
          -          José, Manoel, também tu Benjamin, vamos ao gringo.
          O inglês administrador residia nos arredores da fábrica, em casa grande e confortável, em meio a pinheiros e eucaliptos. Foi avisado da presença dos trabalhadores. Não tardou em atendê-los, porquanto lhe pareceu tratar-se de assunto sério, já que não era comum ser procurado por operários:
           -          Que trabalhadores querrer? – perguntou o administrador, após cumprimentá-los.
        -    Estamos em greve. Só voltamos ao trabalho com aumento de salário – respondeu o líder dos grevistas.
       - Grreve? Aumenta? Quanto trabalhadores querrer de aumenta? – inquiriu o inglês, preocupado e coçando o cavanhaque.
          - Um tostão a mais por hora de trabalho. Nem mais nem menos – disse o líder com firmeza.
O inglês desanuviou e não pode conter uma gargalhada. E, recobrando a compostura:
          - Uma toston? Trabalhadores parrar trabalha por uma toston? Orra bolas! Eu dar toston de aumenta, eu dar! Ao trabalha, homens, ao trabalha, ao trabalha! 
          Depois destes fatos o meu futuro pai decidiu tentar a sorte no Brasil. Lá, com certeza, havia emprego à farta para quem se dispusesse ao trabalho. E vontade de trabalhar não lhe faltava...

(1)   carago – alcunha pejorativa dada aos galegos; espanhol. Era usada sem qualquer sentido referente a galegos ou espanhóis; expressava irritação, raiva, contrariedade, espanto, etc.
(2)   quarteirão – ¼ do quartilho, antiga medida para líquidos, equivalente a 665 ml.

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27 de mar de 2013


A realidade do reality


Autora: Luciana Pitanga
Assistente de faturamento. Ensino Médio Completo. Publicações no site Recanto das Letras (até o momento): Espelho, Vendaval e É tempo!   

Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos do projeto ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.  


Estava voltando para casa após um exame admissional, tranquila por saber que em breve inicio em um novo emprego, e com isso, terei a oportunidade de garantir o meu sustento e o de minha família com o meu digno dinheirinho suado. Dentro do ônibus eu cultivava minha nova mania: ouvir música no celular. Enquanto me deixava embalar pelas melodias da minha rádio favorita, refletia a respeito da fama repentina e principalmente do enriquecimento repentino de algumas, digamos, novas "celebridades". Imediatamente me veio a lembrança de um comentário que escutei na porta da escola do meu filho, a respeito da grande final de um "reality show". Duas mães comentavam  empolgadas que foram dormir mais tarde para ver quem seria o grande vencedor. Eu só escutei, afinal, não gosto desse tipo de programa e na noite anterior tinha algo muito mais importante para fazer: dormir e não escutar o festival de baboseiras que são ditas nessas ocasiões. É claro que não conseguimos, e não podemos, ficar alheios a essas informações. Vencedores de realitys são novos milionários que ocuparão os (outros) programas de TV, as páginas dos jornais, as revistas, a internet, nosso tempo, nossos ouvidos, nossas cabeças, enfim, "deuses" que estarão em todas as partes, em todos os lugares. Estarão famosos e endinheirados. Até mesmo os míseros participantes, que não foram contemplados com o grande prêmio, aumentam o grupo dessa nova "elite". Realmente é muito triste todo esse espetáculo, mas infelizmente as pessoas assistem por diversos motivos, que na minha opinião, não são capazes de explicar o estranho gosto por contemplar exibições febris e absurdamente ridículas dos participantes. Fico imaginando a que as pessoas se submetem para aparecer, alcançar status e ganhar muito dinheiro tão rapidamente. Há quem tenha pena quando os vê em provas que testam o limite de suas forças físicas e psicológicas. Pensando bem, até entendo (um pouquinho só) o porquê de tamanho sucesso dessas atrações. Talvez seja o desejo lá do subconsciente humano de dormir pobre e acordar rico. De chegar na cara do patrão e dizer uma dúzia de nomes feios, que até então paravam na garganta e voltavam em forma de sapo. De curtir o não fazer nada e ainda assim ser bem visto. É...talvez por esse ângulo...
O grande problema é que as pessoas dão atenção demais para esses novos “gente fina” e não enxergam que os realitys estão bem distantes da nossa realidade. Será que alguém consegue imaginar um reality bem real? Que tal colocarmos uma câmera na roupa surrada do pai ou da mãe de família que sai de casa ainda de madrugada e tem de enfrentar vários desafios até chegar ao seu trabalho, como o trem, ou o ônibus, ou o metrô lotados. Tomar muito cuidado para não ser assaltado. Superar o nervosismo do engarrafamento. Legal, né! Cheio de emoções. O grande vencedor é aquele que consegue superar esses transtornos e muito mais. O grande vencedor leva o salário, a comida na mesa e garante mais um mês de emprego. Show! Isso sim é um Reality Show, assim mesmo com as iniciais em maiúsculo. Mas tenho a impressão de que não faria muito sucesso. A cara da pobreza não fotografa bem. Pode até ser que saia um discurso inflamado seguido da mudança do canal de TV indigesto que veio nos esbofetear com imagens tão duras. É...bom, voltando ao ônibus que me trouxe para casa, pois bem, entrou um homem vendendo aquelas gominhas de menta que aliviam a garganta e combatem a rouquidão. Apesar dos fones em meus ouvidos pude apreciar a propaganda do produto simples e atrativo, mas o que sempre me chama a atenção é o apelo desses vendedores. Pedem para aqueles que sentirem no coração que devem ajudá-lo que o ajudem. Eu devo ser mesmo coração de manteiga, pois sempre compro, mesmo que o produto não tenha serventia para mim. Gente, é o apelo de um trabalhador querendo levar o pão de cada dia para sua família! Ele está certo, poderia estar matando, roubando, ou participando de um reality qualquer...
Vocês devem estar se perguntando por que não termino os benditos parágrafos com um ponto final, mas sim com três pontos como se tivesse algo mais a dizer? Porque não tem fim mesmo. Enquanto o homem vendia suas balas no ônibus, passava o rapaz descalço na calçada, alguém morria na fila do hospital público, outro perdia o emprego, lá longe ou talvez bem perto, ou quem sabe as duas coisas ao mesmo tempo possam ter um ser humano morrendo de fome, e este morrendo no sentido literal da palavra. Mas deixemos esta conversa melancólica  de lado, afinal, temos gente bonita e rica para ver na TV, nos jornais... ah, sim! E por falar em jornais, quem disse que essa gente poderosa não tem utilidade e valor? Os jornais nos quais desfilam sua ascensão podem estar servindo neste momento de cama e cobertor para alguém que vive nas ruas, ou então, podem estar desempenhando a nobre tarefa de limpar a humilde bunda das nossas mazelas sociais.

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13 de mar de 2013

Maria, Maria


- Ó Maria... anda mulher, se não nos atrasamos.
- Já vou, já vou...
Margarida esperou um bocadito, Maria saiu com o cesto à mão, fechou por dentro o ferrolho da portaria e desceram a estrada a conversar. Iam à feira de Albergaria-a-Velha, sede do concelho. Fizeram o sinal da cruz ao passarem por São Pedro em nicho na parede da casa dos Carriços e entraram na ponte sobre o Caima.
- Acreditas, Maria, que esta ponte foi mesmo construída pelos mouros?
- Sei lá... Se vós que sois de cá tendes dúvidas, que sei eu, que sou de outras bandas? 
- E dizem que já tiravam minérios...
- Pode ser... Essas minas abandonadas, tão antigas...
- E os tesouros, acreditas? Aqui mesmo, embaixo desta ponte, há uma grade de ouro encantada pelos mouros, dizem...
- Tesouros... Mouros... Nem sei bem quem foram esses... Mas não deviam ser grande coisa, sempre metidos em bruxedos, encantamentos, essas coisas... E tesouros são a minha casa que me abriga, minhas terras que me dão o sustento, meu gado, minha família, os filhos...
Maria estremeceu ao dizer a palavra "filhos" e por instantes perdeu-se em pensamentos de aflições íntimas pressentidas. Acordou-a a mulher do Rambóia, a cumprimentá-las da janela do sobrado:
- Passou bem, Maria? Passou bem, Margarida?
Responderam e seguiram. Havia uma pequena trilha entre a quinta do Rambóia e a casa da Grila, num barranco íngreme e pedregoso que dava na estrada do Carvalhal; em geral todos subiam por ali; Maria preferiu ir um pouco além e acessar a estrada com menos desconforto. Margarida prosseguiu na conversa.
- Não sabia que te davas bem com os Rambóia. O teu marido e ele não se dão...
- Isso são coisas lá do Agostinho e do irmão. Eu sou de Vila Nova, não tenho por que me meter nessas desavenças de família. E além do mais, não estando cá o Agostinho...
- Muito acertado – concordou Margarida.
As duas passavam em frente ao velho e imenso carvalho, que da beira da estrada vigiava a parte baixa da aldeia por sobre a quinta do Rambóia. Da estrada enegrecida pela sombra emanava um frescor que envolvia os pés das caminhantes e lhes subia entre as saias. Maria olhou o tronco da árvore: bem que lhe apetecia sentar-se recostada nele e descansar protegida por aquele imenso e generoso guarda-sol! 
- Não vais hoje à feira, Rosa? – perguntou Margarida à esposa do Grandela.
- Não. Tenho umas costuras a fazer. Vão com Deus.
Depois passaram a levada (1) da Central Elétrica e alcançaram a fábrica do Carvalhal. Um cheiro forte de carvão de pedra empestava o ar. Maria incomodava-se, urgia afastar-se dali... Seguiram em silêncio e um pouco mais além deixaram a estrada para enveredar por caminho entre as matas. O frescor do arvoredo e o ar puro afastaram de Maria o mal-estar. Passaram o casal (2) de moradia dos administradores e funcionários graduados da fábrica. Maria, que até ali só respondia, perguntou:
- E o Joaquim, já conseguiu arranjar-se na fábrica?
- Está por conseguir – respondeu Margarida num tom esperançoso. Mas não é fácil, há muita procura e a fábrica é uma só... Se tivéssemos por cá umas três ou quatro fábricas dessas, aí sim, estes lugares seriam uma festa só...
Festa. A festa da Senhora do Socorro, ali bem perto de onde passavam e cujo arraial se transformava anualmente no centro da fé e do divertimento daqueles povos ao redor. Maria pensou na santinha. Bem que precisaria de sua ajuda, e da Senhora do Bom Parto, e de todas as Senhoras. Estava pelos últimos dias, bem que precisaria de ajuda...
- E tu, quando vais parir? – indagou Margarida.
- Só Deus sabe a minha hora, mas sei que não tarda... Pode ser daqui a pouco...
- Cruz, credo, Maria! Nestes ermos, longe de casa?! Nem penses...
- Vamos... Vamos logo fazer o que de casa saímos a fazer...
Na feira, Maria nem comprara tudo que desejava; sentia dores na bacia e a sua hora por chegar. Voltou-se para a Margarida:
- Olhe, eu já comprei tudo, sinto-me cansada e é melhor que me vá. Fica com Deus...
Nem parou na pensão onde costumavam merendar uma tigela de caldo ou pão-trigo com queijo: não havia tempo a perder nem fome sentia – só dor. Ajeitou o cesto à cabeça e enlaçou as mãos por baixo da barriga como a querer sustentá-la ou retardar sua função. Esticou o passo. Rezou em silêncio. E já nos termos de Albergaria o líquido viscoso e quente desceu-lhe pernas abaixo, ensopando as alpercatas! O suor tomou-lhe as frontes e o corpo todo afogueou-se! Mas talvez ainda houvesse tempo: apertou mais o passo e apegou-se às suas santinhas.
- Ai, minha mãe, valei-me nesta hora! Vós, que estais aqui tão pertinho, socorrei-me! Ave, Maria, cheia de graça, o senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre...
A reza já não era meramente pensada ou murmurada, mas saía de sua boca quase aos gritos! Dir-se-ia iminente o desenlace daquele drama entre os dois seres: um teimando alcançar o conforto do lar; o outro negando-lhe o tempo necessário, na ânsia de vir à luz.
No ventre de Maria a vida convulsionava-se, metendo-se a caminho.
Uma touceira de mato à sombra de um carvalho: chegara a hora e aquele era o lugar. Maria arriou o cesto e estendeu o xale sobre a relva; acocorou-se nele e deixou fluir de si a vida. Aos primeiros vagidos da cria, serenada a carne, uma paz grande invadiu a alma da mãe!
Só então as lágrimas desceram...
Segurando o cordão umbilical, cortou-o com uma lasca de pedra contra um calhau, livrando-se da placenta. Depois deu um nó no cordão, limpou-se como pode e embrulhou no xale o bebê. Agachou-se, pôs na cabeça o cesto e a criança no avental, segurando-lhe as pontas, como alças de uma bolsa. E seguiu. Marcava-lhe a boca um discreto sorriso de contentamento agradecido.
Na fábrica do Carvalhal, um rapazola lidava num monturo de carvão.
- Boas tardes, ti' Maria!
Maria não respondeu, porque não ouviu. Nem cheirou o ar fétido de sempre; seu olfato só captava os aromas do embrulhinho que levava ao regaço. Mais dois sentidos guiavam Maria: o olhar na estrada, em cada curva, em cada reta, avaliando as distâncias a percorrer; e o tato, sentindo o ritmo do caminhar sereno e firme e ligando-a ao que tinha no avental, junto ao ventre esvaziado.



Margarida voltava da feira.
- Ó Micas, viste a Maria?
- Qual Maria?
- A do Agostinho, pois que Maria havia de ser? Foi comigo à feira e voltou mais cedo.
- Vi-a passar agorinha mesmo com um cântaro de água à cabeça.
Margarida subiu a estrada, desaferrolhou a portaria, entrou, arriou a canastra no quinteiro. As crianças brincavam ali.
- Onde está vossa mãe? – perguntou-lhes.
- No quarto – disseram.
Margarida subiu as escadas. A porta da cozinha aberta, entrou, o lume aceso na lareira. Atravessou a sala e espiou pela porta entreaberta do quarto.
- Maria...
E Maria, sem interromper o que fazia:
- Vem, vem ver...
E continuou a lavar em água morna o seu bebê.



PS: Não pude apurar com certeza, mas tudo indica que esta foi a última gravidez de vovó Maria. O bebê veio a falecer seis meses após de causa não relacionada com as circunstâncias do parto.

  1. levada – canal de água captada num rio, geralmente para irrigação. Neste caso era para produção de energia elétrica.
  2. casal – grupo de casas.

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