Autora: Adriana Kairos
É professora, escritora e coordenadora do projeto cultural ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora, que tem por objetivo estimular e apresentar a produção poética e ficcional de autores de periferias. Neste projeto organizou as antologias Marginal – contos de periferia, Poesia Suburbana – entre trilhos e versos (dezembro/10), Singular – o país dos invisíveis (agosto/11) e Vozes (agosto/2012). Moradora do Complexo de favelas da Maré – Rio de Janeiro, RJ, AKairos cursa Letras na UFRJ. Em 2009, publicou Claraboia, livro de poesia e prosa, que tenta retratar o olhar dos marginalizados de uma maneira poética e reflexiva. No final de 2011 lançou Anjos, ventos e quimeras, livro de contos, prefaciado pelo Prof. Juliano Carrupt – UFF e revisado pelo Prof.Tiago Cavalcante – UFRJ. Outros textos seus já foram publicados em várias antologias e em sites na Internet. Além disso, a autora se debruça sobre a questão do fazer literário nos/dos espaços populares e a sua ascensão, as culturas marginalizadas e o “bum” da cultura digital.
Publicado na antologia VOZES, coordenada pela autora.
www.aliteraturapopular.blogspot.com
www.cartografianalma.blogspot.com.br
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Dois quaiquer a deixaram na porta de um outro qualquer-hospital. Ela grunhia segurando a barriga inchada, pequena, parecia um calo. Foi socorrida por outros anônimos-enfermeiros e levada ao centro cirúrgico. Era caso de urgência. Era caso de fome ou morte.
Tinha mesmo mais fome que dor. Deu a luz a um bebê tão faminto quanto ela. A mosca entrou pela janela da enfermaria e observou a tudo e a todos de um canto da parede. A tudo: seu sofrer, seu chorar, seu medo, sua desilusão, seu abandono, sua tristeza infinita… A todos os olhares, de horror, de preconceito, de julgamento, de maldade, de descompaixão cristã.
A mosca só a observava, não se metia, não interferia em nada. Nada. Observava apenas. Outra coisa também não podia fazer o guardião diminuto, sempre correndo o constante e eminente risco de uma palmada mortal de algum desavisado. Uma mosca com status de anjo. Foi o que sobrara para ela, para a moça com o corpo e a idade que a rua lhe dera.
A mosca também a acompanhou na sala de parto e seguiu velando-a por toda a noite. Ela se sentia impotente. Que raios de guardião eu sou. Aproximou-se da moça e passou a observá-la da cabeceira da cama. Sempre tinha alguém tentando espantá-la de seu posto. Sobrevoava para salvar-se e voltava, sempre, para o mesmo lugar.
Uma enfermeira quis mostrar a moça sua cria. Ela respirou fundo, fechou os olhos, estendeu os braços para afastar qualquer tentativa de aproximação e disse não. Deitou e fingiu dormir. Despertou com o som do carrinho que trazia a ceia noturna. Sentou-se na beira da cama e devorou os biscoitos, as geleinhas em potinhos descartáveis e o suco. Ávida como nunca, pediu o que sobrara das outras internas da maternidade.
Quer ver sua filha? Enfermeira insistente.
O seu olhar vazio chocou as outras mães da enfermaria, mas ninguém disse nada. Todos ficaram mudos diante do que acontecia. Diante da miséria-ferida aberta e sem médicos para suturá-la. O que dizer ou o que fazer? Perguntaram-se todos sem palavras.
Ela pensava em não-sei-o-quê. A mosca jurou que ela sonhava. Contudo, a moça sabia que esse privilégio sua origem não lhe dava.
Não quero vê-la. Quero que a levem para um outro destino.
A encaminharemos ao concelho tutelar.
O tempo passou nas gotas cansadas do soro sobre o suporte. A moça, saciada de sua fome e de seu desejo materno, admirava calmamente sua mosquinha guardiã. Cansada de velá-la, a mosca sobrevoou um pouco mais o seu leito, sabia que a moça também cansara.
A mosca pousou dormida sobre o ventre da moça dormente. A moça descansou seus olhos e suas mãos sobre a mosca. A mosca não a velou mais, nem a moça sentiu fome outra vez.
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