29 de out de 2010

Cumprindo uma assertiva


Quando iniciei este espaço tinha uma proposta, - não para vocês, mas para mim -, qual seja, escrever pelo menos um texto por mês. Neste, já estamos a 29 e ainda não havia escrito uma linha sequer. Mas ainda há tempo, vamos lá.
Estamos a menos de 40 horas do início da votação que irá decidir os rumos do país e o futuro de todos nós, como diz a propaganda eleitoral. Não é pouca responsabilidade, né não? Mas sosseguem, não vou fazer campanha para qualquer dos dois candidatos. Quero apenas dizer-lhes que costumo assistir à propaganda eleitoral gratuita na televisão e desde o início não entendia o que a candidata do PT queria dizer ao referir-se a si própria como "pessoa assertiva". Ontem não resisti e fui ao dicionário; assertiva, s. f. – afirmação, proposição. A candidata quer dizer que é propositiva, que tem propostas. Ah, bom!
Candidata, vamos combinar: seja assertiva o mais que puder, mas use um sinônimo que o povo entenda. Mire-se no exemplo do seu padrinho, de fala simples, mas comunicativa, na medida do povo, ou até no seu opositor, que também é assertivo, porém consegue definir-se sem o uso desses palavrões. Outra coisa: evite tergiversar. Se for de absoluta necessidade, enrole simplesmente. Eu considero que assim a sua fala será mais eficaz.
E quando assumir em Brasília como a primeira Presidenta do Brasil, sucedendo ao Presidento Lula (é o que as pesquisas profetizam), lembre-se: não tergiverse com as suas assertivas – o povo considera isso muito feio!
Bom voto para todos e viva a democracia!

 
29 se outubro se 2010, + ou – 18 horas

1 de set de 2010

A minha casa fazia fumaça...


... e tinha um gato que namorava no telhado. Da fumaça, lembro-me que meu pai contava um "causo" de um amigo seu recentemente chegado de Portugal. Dizia o gajo ao meu pai, na primeira manhã vivida no Rio de Janeiro, espiando espantado as casas do bairro: "- Ó pá, as casas daqui não fazem fumaça?". Além da surpresa, talvez estivesse o patrício preocupado com o desjejum, que na sua aldeia, como na de meu pai e em todas as outras do Portugal de então, era precedido pelo fumaçar das chaminés. Apesar da ausência de chaminés fumarentas, não ficou o amigo de papai sem o café da manhã: àquele tempo, no Rio de Janeiro, se cozinhava em fogareiros a carvão.
Lembro-me da casa da minha infância, com sua chaminé a fumegar aos primeiros raios de sol, pela manhã e ao entardecer, no preparo das refeições; e do nosso gato, enroscado pelos cantos ou chegando de seus longos passeios pelas matas, – terror dos ratos e exímio caçador de perdizes -, e à noite senhor dos telhados.
Saindo dos cacos da memória e voltando aos tempos atuais, tenho agora uma casa que estou reformando e ampliando. Esta também fazia fumaça. Foi construída em 1938.
Nas lides da reforma, ao destelhar uma pequena parte da cobertura, encontrei os vestígios de uma antiga chaminé ainda enegrecida de fumo; o equipamento fora demolido pelo proprietário anterior, restando apenas a boca de saída na laje, além de outros sinais sob os azulejos da cozinha. Algumas casas em Marechal Hermes ainda têm chaminé, mas obviamente não mais fazem fumaça.
Destelhando mais um pouco, meu filho Daniel encontrou uma ossada!
- Pai, não é de sagui (em Marechal há muitos), é maior, parece de um lagarto grande,disse, abrindo os braços.
Fui ver.
Era de um gato.
Ao contrário do nosso gato, deste não sei a história. Não é difícil imaginar, contudo, que teria sido vítima de comida envenenada por "chumbinho", o famigerado e proibido veneno para ratos, que acaba por vitimar, aleatoriamente, animais de outras classes e contaminando o meio-ambiente. Sentindo-se mal, confuso e desamparado da vida, o pobre recolheu-se ao lugar que mais lhe transmitia aconchego e segurança: o telhado. Onde terminou o seu tempo.
Já o nosso gato simplesmente desapareceu, não retornou de suas andanças. Não creio em veneno, mas se a minha imaginação e as circunstâncias de seu desaparecimento não me enganam, foi chumbinho também, não o de ratos, mas chumbinho de chumbo mesmo: um espingardaço à falsa-fé. Fim menos aviltante, mas igualmente inglório.
Encontrei ainda um macaco (mecânico), uma chave de rodas e uma de fenda, tudo em ótimo estado; era caminhoneiro o proprietário anterior, agora viajando nas estrelas. Seu caminhão já não enguiça, não precisa de ferramentas. Vou apropriar-me delas, portanto.
Outra ossada (não, a minha casa não é um cemitério), esta sim, de um filhote de sagui, além de um troféu do IV TORNEIO DA BANDEIRA e mais de três dezenas de medalhas (ouro e prata) de vários esportes olímpicos – fragmentos ou cacos da história de um atleta polivalente anônimo.
Vou guardar estes objetos, inclusive o crânio do gato, como lembrança ou registro arqueológico da reforma da minha casa.
Só não encontrei, lamentavelmente, uma velha arca recheada com dobrões de ouro.

15 de ago de 2010

Pesquisa escolar - 2


Proposta da professora: "Pesquise, recorte e cole 5 figuras de animais úteis e 5 de animais nocivos. Faça uma frase para cada animal.".
Muito bem, eu estava novamente envolvido num trabalho escolar de Yasmin, com ela ao meu lado no sofá, folheando revistas e jornais. As revistas disponíveis eram a Domingo, do JB: moda, culinária e por aí. Nada do que precisávamos. Outras revistas eu não tinha. A muito custo conseguimos as figuras de um cachorrinho de madame, um cavalo gaiato e dois camarões petistas (acho). Tive de descartar a figura de uma galinha por ser muito grande, incompatível com o espaço de colagem (outra dificuldade nessas horas: a escala).
E eu já estava irritado com tanto papel espalhado pelo chão e a impossibilidade de um final feliz na pesquisa. E maldizendo a professora.
Resolvi:
- Se não temos figuras para recortar e colar, vamos desenhá-las.
E Yasmin desenhou.

Foi divertidíssimo, para ela e para mim, inclusive na elaboração das frases correspondentes a cada animal. Ei-las:


"O cão é o melhor amigo do homem". (o pitbul também?)
"O cavalo ajuda o homem" (o gaiato da figura acima, duvido!)
"O camarão é bonito". (então por que alguns homens dizem: camarão é a mãe!?)
"A galinha dá ovo e pintinho". (e uma boa canja!)
"A abelha dá mel e é peluda". (e apesar de trabalhadeira, faz muita cera!)
"O mosquito faz zzzzzzzzzzzz e pica". (eu só não pico)
"A cobra é venenosa". (como certas pessoas)
"O rato traz doença". (alguns levam os nossos pertences!)
"A barata é porca". (mas a porca não é barata)
"A mosca também". (já pensou, uma porca cair na sua sopa?)

Me senti redimido em relação a outra pesquisa da qual participei de modo não adequado e cujo relato pode ser lido neste espaço. Mas continuo de pé atrás com pesquisas para crianças tão pequenas.

Obs: Os comentários entre parênteses não são de autoria de Yasmin e, obviamente, não fizeram parte do trabalho escolar.


Agosto de 2010
(Revisado em 23/04/2011)

1 de ago de 2010

Trabalho e dignidade


Dizem que o trabalho dignifica o homem; eu sempre acreditei nisso e continuo acreditando.
Vou contar-lhes uma história, em resumidas linhas, uma história de trabalho e dignidade. Li-a em alguma publicação que não lembro mais e recentemente relembrei-a assistindo na TV por assinatura ao filme de Geraldo Sarno, de 1978, estrelado por Rubens de Falco: Coronel Delmiro Gouveia.
Não era um "coronel" daqueles da oligarquia nordestina, vinha de baixo e trabalhou muito. Enriqueceu. Pode-se dizer que foi um representante do que se costuma designar por self made man. E pensava grande. Elaborou um plano para construir uma hidrelétrica no rio São Francisco, na altura das cachoeiras de Paulo Afonso, com a qual pretendia eletrificar Pernambuco. Os políticos, que já tinham um pé atrás, desconfiaram de tão ambicioso plano e não lhe deram apoio. Delmiro construiu então uma pequena hidrelétrica, a qual abastecia a fábrica de linhas e a vila operária correspondente, obras suas também. O produto, de ótima qualidade e mais barato que o importado da Inglaterra (linhas Corrente), conquistou o mercado brasileiro e parte da América Latina. Após a guerra, os ingleses mandaram emissários propor sociedade ou a compra da fábrica. Delmiro não cedeu. Morreu a tiros – um assassinato cuja autoria jamais foi esclarecida! Anos mais tarde, seus herdeiros venderam a fábrica aos ingleses, que mandaram destruí-la a marretadas e jogar seus destroços no São Francisco.
A biografia de Delmiro é uma saga de trabalho e realizações e também de responsabilidade social. E por isso mesmo, de perseguições políticas. Ele viveu fora de sua época. Não tenho, porém, a pretensão de contar aqui a sua história. Quem se interessar, procure o filme de Geraldo Sarno.
Quero sim, contar uma história singela, mas emblemática, a ele atribuída e com certeza verdadeira.
Um sertanejo pediu ajuda a Delmiro: queria um emprego. O coronel não tinha vaga para lhe oferecer, mas não o desamparou. Deu-lhe um emprego. O trabalho consistia em juntar todas as pedras encontradas em suas terras, em pequenos montes, para uso posterior; em suma, limpar a fazenda. Delmiro inventara esse "trabalho" para ajudar o sertanejo. Não lhe deu esmola, que avilta, mas trabalho, que dignifica!
O exemplo de Delmiro anda esquecido, mas bem que poderia ser reabilitado. O que fazer neste Brasil é que não falta. E nem precisa recorrer ao expediente extremo de Delmiro. Mas dar esmola é mais fácil e proveitoso!

 
Agosto de 2010

3 de jul de 2010

Para não dizer que não falei de Copa


Dançamos...
Quando era moço ficava muito chateado com as derrotas da nossa seleção nos gramados do mundo. Agora, na maturidade, já não me permito aporrinhações do tipo.
Gosto de ver uma boa partida de futebol, os passes precisos, os dribles desconcertantes, os chutes certeiros (mesmo os que dão na trave), as roubadas de bola (sem violência) e as defesas espetaculares do goleiro. E a bola rolando ou voando, descrevendo curvas e enganando atacantes e defensores. É um espetáculo fantástico e envolvente! Mas não entendo de técnicas e táticas, formações e escalações; não ao ponto de tecer comentários sobre os acontecimentos na África do Sul.
Para nós, a Copa de 2010 já era. Precisamos pensar na de 2014.
Mal comparando, o Dunga é aquele pai ainda moço e sem experiência que pretende educar os filhos evitando erros observados no passado; e aí vem com teorias e princípios, quase sempre exagerados ou radicais, e os aplica sem o equilíbrio necessário, equilíbrio esse que nem a idade nem a experiência lhe permitem ter. Não poucos pais que tiveram esta atitude perceberam mais tarde o erro cometido. Com o dunga não foi diferente.
O Parreira me parece o tio culto, experiente e equilibrado, que, apesar de responsável, não se sente na obrigação de educar os sobrinhos. O resultado pode ser o da Copa de 2006, que o Dunga tentou evitar e exagerou na dose.
O perfil do Maradona, que vimos nesta Copa, também não serve. Ele não é paizão nem tiozão, muito pelo contrário, é o grande astro, companheiro e bonachão, afetuoso com os seus liderados, mas eventualmente passional: veta os desafetos e só entra no grupo quem ele gosta. Não pode ser um bom técnico.
Precisamos para 2014 de um técnico experiente e equilibrado, mestre no seu ofício, disciplinador, mas não impositivo e rabugento, que saiba criar um ambiente afetuoso e responsável entre os atletas e comissão técnica. Precisamos de um avozão, daqueles que não "estragam os netos" permitindo-lhes todas as vontades, mas que também não os apoquente com exigências descabidas ou desnecessárias.
Esse avozão existe: queremos Felipão em 2014!

3 de julho de 2010

1 de jul de 2010

Um Caco esquecido




Recebi de Nélia Oliveira, historiadora portuguesa da Branca, três publicações tratando da história da região de Albergaria-a-Velha, a saber: Auranca e a Vila da Branca, e Cine-Teatro
Alba – 50 anos
, ambas edições da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha; e Ribeira de Fráguas – a sua história, esta em co-autoria com Nuno Jesus e editada por CEDIARA – Centro de Dia para Idosos da Ribeira de Fráguas.
Nem precisa dizer que me deliciei lendo a história de Ribeira de Fráguas; o livro é bem documentado do ponto de vista histórico e apresenta vasta iconografia local – foi um passeio nostálgico pela minha infância!
Mas não podia acreditar no que li na página 144 do livro de Nélia e Nuno: fatídico incêndio destruíra a igreja paroquial de Ribeira de Fráguas, na madrugada de 3 para 4 de Maio de 1953!
Seria possível?! Na minha memória esse incêndio ocorrera mais tarde, pouco depois de nosso retorno ao Brasil em janeiro de 1957, tanto que nem o mencionei nos meus "Cacos da Memória", cujo relato termina com a chegada da família ao Rio de Janeiro. Forçando os arquivos do tempo, constatei que naquela ocasião se dera uma campanha entre os imigrantes para angariar fundos tendo em vista a construção de novo templo em substituição ao que pegara fogo. Minha memória não registrara o sinistro, mas a posterior campanha de doações como se o próprio fora.
Àquela altura do incêndio eu estava com 6 anos e 7 meses e prestes a ingressar na escola primária; que interesse pode haver para uma criança dessa idade, em igrejas e incêndios de igrejas?

A igreja depois do incêndio. Foto enviada recentemente
(mar/2013) por Nuno Jesus, de Telhadela - Portugal
O curioso é que tempos mais tarde estive na igreja incendiada, alegadamente para assistir à missa dominical, e não registrei as consequências do incêndio! O adro, as paredes da nave e a torre sineira estavam com aspecto normal por fora; arderam-se as madeiras – o telhado e o forro, portas e janelas, os altares e retábulos, os bancos. Nélia informa que as missas realizaram-se durante algum tempo naquele templo, precariamente, improvisando-se um telhado de palha. Não vi nada disso! Quando entrei a missa havia acabado, as pessoas estavam de pé e eu no meio delas, pequeno e sem horizonte. Não olhei para cima ou para os lados; naquele dia eu só tinha olhos para os meus lindos sapatos de verniz!
Junho de 2010

1 de jun de 2010

Pesquisa escolar


A tia mandou um bilhete no livro de geografia da menina: "O povo brasileiro formou-se a partir da mistura de três grupos humanos representados pelo branco, pelo negro e pelo índio. (...) fazer cartaz sobre as características e herança cultural que cada grupo deixou para o povo brasileiro.".
A mãe pediu o concurso do avô para a feitura do cartaz; o avô desceu da estante volumes da enciclopédia BARSA (o computador estava ocupado), escolheu gravuras pertinentes e reproduziu-as na impressora; comprou cartolina, muniu-se de tesoura, cola, régua, lápis e canetas e pôs mãos à obra; esquadrejou, margeou, recortou as figuras e colou-as, deixando espaço para o texto; legendou; desenhou um mapa mostrando a origem geográfica dos grupos étnicos envolvidos – tudo encimado por título grandioso: FORMAÇÃO CULTURAL DO POVO BRASILEIRO.
Só então caiu em si, alertado pela mãe da menina: é que a estudante em questão ainda vai completar seis anos e está nos primeiros meses da alfabetização! Não vai parecer que o cartaz teve a sua participação. O velho deixara-se levar por sua boa vontade, pelo senso de ordem e por suas habilidades para o desenho.
Claro! Que grande idiota sou eu! – pensou o velho, admirando sua obra, que apesar de algumas imperfeições resultantes de sua vista cansada e ausência de iluminação adequada, ainda assim apresentava ótimo aspecto gráfico, impossível a uma criança da alfabetização, mais crível para estudantes dos últimos anos do fundamental.
E agora? Trabalho perdido?
Então o avô redigiu o texto, mínimo e simples, escolhendo as palavras, e fez que a neta o copiasse a lápis olhando o seu modelo de letras manuscritas e redondinhas - com toda paciência. Em seguida recortou e colou no cartaz, nos lugares previamente reservados para tal. E encerrou a tarefa.
Já perceberam os meus quatro leitores (talvez mais, porém refiro-me aos quatro cadastrados no blog) que a personagem idiota da história acima é nada mais nada menos que este vosso escrevinhador. Pois é: ninguém se levanta sem cair...
Mas cá entre nós: tem cabimento pedir uma pesquisa sobre esse assunto ou quaisquer outros a uma criança de seis anos que nem sequer se alfabetizou? Tá na cara que a pesquisa será feita pelo irmão mais velho, mãe, pai, avô... A meu ver, a única virtude dessas "pesquisas" é forçar o envolvimento dos pais com as atividades escolares do filho. Mas se o adulto envolvido agir como o avô da historinha acima...
É certo, porém, que a criança dessa idade gosta muito de pegar em tesoura e recortar papel ou figuras, lambuzar de cola e colar, fazer coisas, construir, manipular argila e outros materiais, desenhar; e nisso está realmente pesquisando, a seu modo e espontaneamente. Quanto a outras pesquisas...
E vamos combinar: pra quê uma criança na alfabetização precisa saber noções de história e geografia e de formações culturais? E andar com a sua mochilinha cheia de livros? Até dicionário! Nessa fase o mais importante para ela é a lancheirinha, e o único livro que deveria ter era a cartilha de alfabetização ou algo parecido com isso.
O que uma criança na alfabetização precisa é aprender a ler e escrever e contar. Simples assim – como antigamente! E que o faça o melhor possível, para não virar analfabeto funcional como é comum hoje em dia. Todo o resto virá a seu tempo, e tanto melhor quanto melhor a criança tenha aprendido a ler, escrever e contar.
Estas críticas, no entanto, não as faço às tias professorinhas (o diminutivo é afetivo); elas são grandes em sua dedicação e paciência com as crianças – talvez superadas tão somente pelas próprias mães. E sem o reconhecimento que lhes é devido, como de resto os demais professores.
Mas as professorinhas obedecem a diretrizes e programas vindos de cima e seguem, ou tentam seguir, os livros adotados pelo colégio; o colégio pretende demonstrar aos pais que ministra um ensino de alta qualidade e faz o seu marketing entupindo as criancinhas de conteúdos desnecessários à sua faixa etária; e os autores e editores da indústria de livros didáticos fecham o círculo de pressões; e dentro desse círculo ficam os pais e as crianças... e os avôs idiotas!
Portanto, senhores pedagogos, deixem de firulas pedagógicas modernosas - que apesar delas o ensino só tem piorado -; deixem de geografias e histórias, a menos que sejam da carochinha, e ensinem leitura e escrita aos pequenos. Tanto melhor quanto possível.
E respeitem a idade da criança, para que não venha ela, prematuramente, aborrecer-se com a escola.

Maio de 2010


20 de mai de 2010

A praça que não é praça



Mudando de assunto, mas trocando seis por meia dúzia, continuo a falar de praças.
Desta vez de uma muito próxima e familiar, cá em Marechal Hermes – a praça XV de Novembro.
Não é a mesma que conheci quando nem lhe sabia o nome; aquela se formava por dois semicírculos separados pela Av. General Oswaldo Cordeiro de Farias; num dos semicírculos, um desses coretos do Rio Antigo, como os há ainda hoje em outras praças, que tão bem se harmonizava com a arquitetura do entorno e nos permitia supor – ao menos – um domingo com retreta e algodão doce.
A praça sofreu uma remodelação recente; e o verbo empregado não podia ser mais exato: sofreu!
Uniram-se as duas partes, e isto não foi mau, pois o trânsito passou a fluir em torno da nova praça a velocidade reduzida, sem necessidade de redutores no asfalto. Além disso, ou até mesmo por causa disso, o espaço assim integrado e amplo tornou-se mais seguro e apropriado à função que se imagina deve ter uma praça.
Mas o benefício termina aqui, para começar o sofrimento a que me reportei: demoliram e sumiram com o lindo coreto! Por que não o reconstruíram no centro da nova praça? Mesmo que não se façam mais retretas, havia de servir de palco a animadas fanfarras carnavalescas (como, aliás, vinha servindo), se para mais não servira...Por seu estilo e graça, a par de outros prédios, o coreto atestava a idade anciã do bairro, sua história, e evocava nostalgias de tempos de maior sossego e despreocupação. E sempre havia de ser um atrativo visual...
Outro equipamento que os projetistas deixaram de prover à praça: os bancos! E estes de inquestionável necessidade e pertinência. Onde já se viu uma praça sem bancos, mormente se se trata de praça no centro de um bairro residencial?
Não quero ser leviano ou maldizente, mas ouço dizer que tanto o coreto quanto os bancos foram excluídos do projeto (a pedido dos moradores?) por serem focos de atração de mendigos, moradores de rua, desocupados e outros produtos sociais rejeitados.
Então temos uma praça sem estes flagelos, mas também sem a vida que tal espaço costuma refletir como lugar de encontro, de convívio, de entretenimento, de estar e ficar: uma praça sem gente, sem povo. Não tem os velhinhos aposentados jogando cartas, não tem o avô com o netinho ou a mãe passeando o seu bebê ao cair da tarde; nem algazarra de crianças correndo; não tem arrufos de amor adolescente, não tem namorados, nem beijos e abraços, nem mãos se encontrando, nem choro nem riso...
Os bancos são o DNA das praças, que lhes geram vida própria.
Algumas instituições, escolas ou a prefeitura, eventualmente promovem alguma função em nossa praça, em geral aos sábados; fora disto é um espaço morto: as pessoas atravessam- na, não param, não ficam – pois não há bancos a convidar! De praça converteu-se em caminho, ou vários caminhos que se cruzam, cuja única utilidade, além da viária, é sofrear o ímpeto velocista dos motoristas que trafegam na avenida.
De vida e poesia restam apenas os pássaros, que têm as árvores como coretos, não obedecem aos desígnios dos projetistas nem precisam de bancos.
E os moradores de rua, e os mendigos, gente?! Miseráveis da sorte, despossuídos de tudo, não lhes deixam sequer os bancos da praça?!



Maio de 2010

8 de abr de 2010

O nome da praça



Chove.
Cai a temperatura.
Em dias como este o melhor mesmo é ficar em casa a comer o ganhado, como diziam os antigos, e na minha circunstância de aposentado não há dito mais exato.
Assim, a leitura de um bom livro é sempre um cardápio adequado a esse tempo recolhido, para ser degustado no sofá, enrodilhado o leitor num edredom. Outra opção é assistir a um clássico em DVD. Ou então dar tratos à bola e escrever...
Escrevo.
Nos últimos tempos tenho ouvido, nestas minhas plagas suburbanas, pessoas mais novas dizerem Saens Pena ao se referirem a Sáens Peña, a famosa praça tijucana. No meu tempo de moço não havia dúvida: a pronúncia era Penha. Ao que parece uma boa parte da população hoje não entende aquele til (~) acima do ene (n). Nem é para menos: tal notação gráfica (ñ) não existe no idioma português. O nome do logradouro é uma homenagem aos ex-presidentes argentinos Luís e Roque Sáens Peña, portanto nomes próprios do idioma espanhol.
Nem se pode dizer que tal ignorância é resultado da má qualidade do ensino em nosso país: o espanhol nunca fez parte da grade curricular do ensino fundamental de agora, como também não o era no antigo primário do meu tempo.
Nós, a nosso tempo, também desconhecíamos aquele estranho e indecifrável ñ.
Como então aprendemos a decifrá-lo? Simples. As professorinhas de então, já antes que perguntássemos, desvendavam para nós o mistério. É que elas, quase todas, vinham da Tijuca, àquela época o bairro preferido da classe média ascendente e pródigo celeiro de professorinhas. Na condição de tijucanas, mesmo não sendo versadas em espanhol, sabiam perfeitamente a pronúncia correta do nome de sua principal praça, com certeza orgulho de todas elas.
E agora, o que acontece?
As professorinhas não vêm mais da Tijuca?
E as professoras das professorinhas, não vêm mais da Tijuca?
As professorinhas de hoje vêm de todos os lugares (o que é bom) e a profissão de professor proletarizou-se, não tem o mesmo prestígio de outrora, nem a Tijuca permanece o que foi.
Seja o que for, vamos torcer para que um jovem repórter da TV não venha a dizer Saens Pena e a Tijuca, que já perdeu tanto do seu antigo glamour, não venha a perder também a pronúncia histórica do nome de sua praça.

Abril de 2010

7 de abr de 2010

Eles conseguiram...


Fecho o parêntesis político e retorno aos temas habituais. Alguns deles vou buscá-los no passado, recente ou remoto, vasculhando os escaninhos empoeirados da memória; sempre encontro algo por lá, mesmo que não passe de mera banalidade. Mas a crônica se faz de banalidades e a vida, quase sempre, também.
Encontro um nome: Gildásio.
E associada ao nome uma história, nem aventuresca nem romântica, nem cômica ou dramática – uma história banal, mas que ainda assim merece ser contada, quando mais não seja por falta de melhor assunto.
Gildásio foi meu companheiro de trabalho, soldado a cumprir seu tempo de serviço militar obrigatório. Nordestino com sotaque carregado. Trabalhador, honesto e leal. Creio que guardou boas lembranças de mim e do quartel, pois muito tempo depois de dar baixa ainda telefonava querendo notícias.
Pois bem. Um dia o Gildásio me convidou para a festa de aniversário de sua irmã, com a qual morava, em Áustin. Endereço anotado, consultei o GuiaRex: era em Austin, bairro de Nova Iguaçu. Eu não conhecia o lugar, mas conhecia o nome: Austin, com pronúncia oxítona.
Fui a Austin no meu fusquinha.
Durante a festa, entre um copo de cerveja e um naco de linguiça, muita conversa rolava. Notei que outras pessoas se referiam a Austin pronunciando Áustin. Perguntei ao Gildásio:
- Afinal, qual é mesmo o nome do bairro, Áustin ou Austin?
- Austin, respondeu-me o soldado.
- Então, se é Austin, por que vocês dizem Áustin?
Nem o Gildásio nem os demais a quem perguntei souberam-me dizer a razão da mudança prosódica do nome do bairro. Fiquei a imaginar que talvez a pronúncia paroxítona, para aquele povo morador de Austin, agregasse valor – uma certa sofisticação ou charme – por semelhança com a prosódia do idioma inglês. Não sei e nunca saberei.
Mas eles conseguiram...
Há pouco tempo, estava eu assistindo a um jornal da TV que denunciava problemas num bairro da Baixada Fluminense, ruas esburacadas, vazamento de esgoto, essas coisas, quando o jovem repórter assim terminou a matéria: "- Fulano de tal, diretamente de Áustin para o RJ TV".
Danou-se! A televisão falou Áustin, está homologado - agora é Áustin para sempre!

Abril de 2010

3 de abr de 2010

Vô Tônico quer saber...


Está em tramitação no Congresso uma nova legislação acerca da exploração do petróleo: é o chamado Novo Marco Regulatório do Petróleo. Já passou pela Câmara, onde foi aprovada a polêmica emenda Ibsen Pinheiro, causando repulsa unânime nos estados e municípios produtores de petróleo. No Senado negocia-se um substitutivo que leve em conta o direito constitucional dos produtores, aquinhoando também os não produtores, devolvendo assim a harmonia aos entes federados, seriamente arranhada com a emenda aprovada na Câmara.
Muito bem. Pelo que nos traz a mídia, discute-se uma nova distribuição dos royalties provenientes da extração do óleo do pré-sal, um detalhe apenas da nova legislação, que poderia até ser tratado mais além, uma vez que tais recursos ainda demoram a jorrar.
E o Novo Marco Regulatório do Petróleo?
Ao que parece está sendo aprovado de roldão, em meio à discussão dos royalties, sem debate, sem transparência. E no entanto esta é a questão essencial, por tratar da exploração de jazidas que aparentam vultosas e de extrema importância para o futuro do país.
A legislação atual tem funcionado bem; em sua vigência atraiu empresas e capitais externos, a Petrobras só fez crescer, cresceu o parque industrial fornecedor de insumos para o setor, e o Brasil alcançou a auto-suficiência em petróleo. Em que essa legislação é defeituosa ou insuficiente para justificar sua substituição?
Indo mais fundo nas indagações: quais as preocupações do governo - certamente legítimas - em relação à riqueza do pré-sal que a legislação atual não poderia atender? Qual a vantagem do regime de partilha, ora proposto ao Congresso, em relação ao regime de concessão da legislação atual?
Pergunto mais: qual a real necessidade de uma nova estatal petroleira, a chamada Petro-sal, já que temos a eficiente Petrobrás? Qual será sua função? Ela irá prospectar jazidas, furar poços, extrair gás e petróleo, comercializar os produtos obtidos?
E a Petrobras, como fica nesse novo cenário? Ouço falar em capitalização da empresa por meio de certa quantidade de petróleo que ainda está lá no fundo, no pré-sal. Que capitalização é essa, onde não entra um centavo em dinheiro?
Estas e possivelmente outras que não atino, são perguntas que gostaria de ver respondidas. O governo demorou um ano preparando o projeto que ora submete ao Congresso, sem transparência ou debate prévio. O Congresso debate a distribuição dos royalties. E eu fico a ver navios.

Sábado, 3 de abril de 2010

21 de mar de 2010

Chupa essa manga, companheiro


Quinta-feira li uma crônica de um escritor gaúcho que admiro muito, onde ele dizia não entender o cálculo das perdas dos estados produtores no caso do pré-sal. Dizia haver uma sutil diferença entre perder e deixar de ganhar. Os recursos do pré-sal ainda estão lá no fundo, pertencem ao futuro. Portanto, seja lá como for a partilha desses recursos, os produtores não perdem, apenas deixam de ganhar.
Desculpe-me caríssimo cronista, sou seu fã incondicional, mas creio que está mal informado. A atual polêmica em torno da Emenda Ibsen decorre, não dos royalties do pré-sal, que podem sim ser repartidos pelos demais entes federados, mas da inclusão na mesma emenda dos campos em produção, já licitados e contratados e cujos recursos já fazem parte dos orçamentos de estados e municípios produtores. A Emenda Ibsen estanca de imediato esses recursos, para serem distribuídos entre todos. Os produtores perdem sim, caríssimo cronista, não apenas deixam de ganhar.
A propósito, o Estado do Rio, para atender a exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal, renegociou sua dívida com a União em 99 dando como garantia de pagamento parte da renda dos royalties da produção futura de petróleo até 2019. Uma grande parte dos recursos recebidos pelo Rio retorna à União e se cessarem só resta o calote. Nesse caso a União pode e deve confiscar receitas de ICMS do estado. Olhem só a encrenca que o Senhor Ibsen e senhores deputados armaram. Agora acenam com outra emenda, atribuindo à União o ressarcimento das perdas dos produtores. Temos então que, se as duas emendas forem aprovadas, o Rio perde recursos, dá calote na União e esta manda recursos para o caloteiro pagar sua dívida. Seria cômico, se não fosse trágico!
Leio também que o governo federal está preocupado com o novo marco regulatório da mineração, a ser apresentado brevemente ao Congresso. Vá que resolvam fazer o mesmo que estão fazendo com o petróleo! Parlamentares do Rio, do Espírito Santo e de São Paulo já se preparam para apresentar emenda semelhante, em retaliação, caso a emenda do Ibsen não seja derrubada no Senado. O líder do governo na Câmara dos Deputados diz que a base aliada não pretende, com os minérios, repetir o mesmo erro cometido no pré-sal. O que aparecer será vetado, diz.
Então havia algo que se podia fazer para evitar a insanidade da emenda Ibsen? Por que não se fez? Faltou liderança, dizem alguns. Eu digo que sobrou irresponsabilidade e ganância por dividendos eleitorais! A começar pelo regime de urgência requerido ao Congresso pelo companheiro-presidente e sua candidata.
E o companheiro-governador, ein? Fez tudo bonitinho na passeata, até evitou constrangimentos ao companheiro-mor e agora ele declara que o problema é do Congresso. Logo com você, que inaugurou hospital construído inteiramente com recursos do estado – nada a ver com o PAC – e convidou o companheiro-presidente e sua candidata para a festa eleitoreira! Chupa essa, governador, mas não se preocupe, o companheiro-presidente não podia mesmo prometer em público, para milhões de eleitores Brasil afora, o que lhe prometeu a quatro paredes. Não seria ético com o Congresso. Nem seria eleitoreiro. O homem não é bobo!
Mas cuidado, companheiro-presidente; isso que Vossa Excelência fez tem outro nome na cabeça do autor daquelas duas frases censuradas na Candelária: o companheiro amarelou!

Domingo, 21 de março de 2010
P. S.: Contra as minhas expectativas, nesta madrugada do dia 10 de junho de 2010, o Senado acabou de perpetrar a covardia iniciada na Câmara contra o Rio de Janeiro e Espírito Santo e seus municípios produtores, aprovando a Emenda Ibsen com modificações.
E agora, companheiro-presidente? Deixaram Vossa Excelência numa sinuca-de-bico, mas não foi a oposição e sim a sua própria base parlamentar! E agora, repito, vai vetar ou amarelar? - não esqueça aquelas duas frases que eu li na Candelária e foram censuradas pelo nosso companheiro-governador! (vejam a crônica "Da Candelária à Cinelândia").
Sei que não é assim, porém; o projeto sofreu modificações, voltará à Câmara para aprovação final, enquanto isso ganha-se tempo e depois Vossa Excelência enrolará mais um pouco - até o fim das eleições - e então vetará ou não - dependendo talvez dos humores da hora ou da performance eleitoral de sua candidata no Rio de Janeiro. Para tal não lhe faltará esperteza e tino político, mas espero que prevaleça em Vossa Excelência o estadista.
Um último comentário se faz necessário: a modificação ou "aperfeiçoamento", como diz o senador Simon, implica que a União ressarcirá os prejuízos causados aos produtores. Assim ficam o Rio e os demais sujeitados econômica e politicamente ao governo federal (seja ele qual for) - já que a emenda não prevê a origem dos recursos para esse ressarcimento - e dependentes de seus humores e boa vontade, de pires na mão, esmolando o que tinham por direito constitucional. Assim é fácil fazer "aperfeiçoamentos", Sr. Simon!
E tem ainda o caso do ICMS sobre petróleo e derivados e energia elétrica, acordado na Constituição de 88 - a Redentora do Sr. Ulisses Guimarães! (vejam a crônica "Chupa essa manga , candidato").
Como veem, pela segunda vez o Rio está sendo...; mas eu não vou relaxar nem revirar os olhinhos... E mais não digo para não faltar com o respeito aos meus eleitores.
O Rio não pode se conformar com tamanha vilania! Convoque outra passeata, governador, depois da copa e bem no início da campanha eleitoral (se for capaz). Desta vez levarei os meus filhos.
Manhã do dia 10 se junho de 2010
P. S. 2: O Sr. Ibsen Pinheiro continua repetindo o mesmo argumento esfarrapado de que os produtores só teriam direito aos royalties se o petróleo fosse extraído em seus próprios territórios; a plataforma continental pertence à União, portanto de todos. Assim é, mas não quanto aos royalties, pois não é o que diz a Constituição.
O ilustre parlamentar e tantos outros do mesmo pensamento parecem ignorar o que ocorre no Golfo do México: desastre ecológico sem precedentes nas praias e costas americanas, provocado por vazamento ocorrido em alto mar, a quilômetros e quilômetros de distância!
Tarde do dia 10 de junho de 2010
P.S. 3: Palhaçada!
O deputado estadual Jorge Picciani, representando o Rio de Janeiro na Convenção Nacional do PMDB, juntamente com o prefeito Eduardo Paes e o vice-governador - já que o próprio não compareceu - proferiu veemente discurso contra a emenda aprovada no Senado, dizendo:
- Não aceitaremos de forma alguma esse crime. Iremos às ruas, à luta, à morte.
Que belo discurso, deputado! Mas carece isso tudo não; bastava que todo parlamentar, todo dirigente deste país tivesse vergonha na cara! Mas pensando bem, talvez seja mais fácil a guerra que Vossa Excelência propõe!
Domingo, 13 de junho de 2010

20 de mar de 2010

Chupa essa manga, candidato


O Serra falou, gente!
Falou e disse que é correta a preocupação de beneficiar todo o país com os recursos do petróleo, mas não se pode arruinar os Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. O projeto é inaceitável, portanto, do jeito que está. Disse ainda que não foram os constituintes paulistas que aprovaram o ICMS do petróleo e derivados no destino, bem como o da energia elétrica, até porque São Paulo importava muito petróleo de fora e transformava-o em derivados com alto valor agregado, vendendo esses derivados para os outros estados, faturando alto com o ICMS na origem. Perfeito. O candidato (ou quase) parece estar treinando para os questionamentos de campanha, e é bom que treine mesmo.
E eu acrescentaria: os constituintes paulistas não conseguiriam, sozinhos, aprovar tal proposta. Só o lograram por ser uma proposta oportunista, como a atual Emenda Ibsen, já que os demais estados não produtores de petróleo teriam de pagar o imposto na origem, igual a todos os outros produtos, como era a proposta do presidente da Comissão de Assuntos Tributários, constituinte Francisco Dornelles. Com a proposta do relator Serra, esses estados passaram de pagadores a cobradores de ICMS sobre petróleo e derivados e energia elétrica. A aprovação era certa, independente dos constituintes paulistas ou dos fluminenses.
Não coincidentemente, São Paulo era e é o maior consumidor de petróleo e derivados e de energia elétrica!
Eu pergunto ainda: por que não foi incluído o álcool sob o mesmo critério, já que também é energia e eventual substituto da gasolina? Neste caso a esperteza não funcionaria a pleno, pois há vários estados produtores de cana, principalmente os estados do Nordeste. E não coincidentemente, São Paulo era e é o maior produtor de cana e álcool combustível!
Os ex-constituintes fluminenses dizem agora que não lutaram contra a proposta do relator por acreditarem no consenso de aprovação de compensações financeiras na exploração do petróleo, o que realmente se deu com a aprovação do parágrafo 1º do artigo 20 da Constituição. Tratou-se de um acordo federativo no bojo da constituinte, que agora fica ferido com a emenda do Ibsen Pinheiro.
Se prepara, Serra, para chupar essa manga durante a campanha eleitoral, se é que vai mesmo ser candidato!

 
Sábado, 20 de março de 2010

Da Candelária à Cinelândia


Apesar do tempo ruim, fui à Candelária na última quarta-feira. No trem um camelô vendia guarda-chuvas a oito reais. Não comprei. Chegando à estação Central a chuva apertou e me vi obrigado a comprar o mesmo tipo de guarda-chuva por dez reais. Agora não posso mais dizer que não tenho guarda-chuva.
Na Candelária a animação era grande, vários carros de som ou trios elétricos, grandes e pequenos, o do Governo do Estado o maior de todos, já pronto para iniciar a passeata, embicado na Rio Branco. Gente de todos os lugares, de Campos dos Goytacazes a Piraí, com bandeiras e bandeirolas, faixas e camisetas com o mote da manifestação: Contra a covardia, em defesa do Rio. E muitos cidadãos e cidadãs, de todas as idades, sem qualquer vínculo com torcidas ou claques organizadas ou quaisquer outras instituições sociais: homens e mulheres cumprindo um dever de cidadania.
E que bonito era: o Rio levantava a cabeça, protestava!
Circulei entre as gentes, observando as faixas, procurando alguma pilhéria, gracejo ou picardia, bem ao gosto do espírito carioca. O que encontrei foi referências a petróleo, royalties, Ibsen Pinheiro e covardia, todas objetivas e bem comportadas. Ainda na Presidente Vargas, aguardando sua vez de adentrar a Rio Branco, um carro de porte médio identificado como Trio Arrudão (cruzes!) exibia duas faixas em letras pretas mal traçadas. Uma dizia: Ô LULA, SE VOCÊ NÃO COMPRAR ESTA BRIGA VAI FICAR QUEIMADO PARA SEMPRE; a outra: Ô LULA, AGORA QUERO VER SE VOCÊ É MESMO O CARA. Aí estava o espírito carioca!
O Trio do Governo iniciava o desfile deslocando-se lentamente, e eu me dirigi à Cinelândia, beirando a calçada. Um jornaleiro distribuía gratuitamente uma Edição Extra do JB sobre o evento. Grupos de policiais, viaturas de polícia, ambulâncias. Entrei numa banca de jornais e comprei dois chocolates. Quase ia lá deixando o guarda-chuva. Ainda bem que não o perdi desta feita, pois ao chegar à Cinelândia a chuva engrossou. A praça já estava cheia e as pessoas sem capa ou guarda-chuva dispersaram-se pelas ruas laterais, procurando abrigo nas marquises dos edifícios. Meti-me num beco formado por tapumes de obras e andaimes em frente ao Bola Preta. Rapidamente o lugar ficou atulhado, inclusive com policiais, e eu considerei melhor sair dali, caso houvesse um estouro de boiada eu seria esmagado contra as vidraças da portaria fechada. Contornei pelas ruas laterais buscando um acesso à Praça Floriano que não estivesse atulhado de equipamento eletrônico, barracas e palanques. A chuva diminuiu e a praça encheu-se novamente. Após três horas do início da passeata, os trios elétricos chegavam finalmente à Cinelândia. O do Governo parou por largos minutos deitando falas e música. No palanque oficial, artistas e outros personagens da cena carioca se posicionavam em defesa do Rio e Espírito Santo. Um fato me chamou a atenção: o Trio Arrudão (cruzes!) passava à minha frente. Mas onde estavam as faixas com letras pretas mal traçadas? Sumiram! Reparando melhor, vi por debaixo de outra faixa as duas primeiras letras da faixa anterior: Ô L... Não havia dúvida – censuraram o espírito carioca para não melindrar o companheiro-presidente!
Como continuasse chovendo não podia sentar e os meus pés já doíam. Os discursos dos políticos ainda demoravam. Fechei o guarda-chuva e desci as escadas do Metrô convicto de haver cumprido um dever.

 
Sexta-feira, 19 de Março de 2010

14 de mar de 2010

Vô Tônico indignado - 2


Desde as "Diretas já" que não saio de casa para assistir a comícios e outras manifestações públicas coletivas. Naquele tempo havia políticos e bandeiras que nos motivavam a sair às ruas; agora os políticos são pequenos e grandes os escândalos. Que saudades daquele tempo!
Contudo, me permito agora interromper o longo período de abstinência para comparecer ao movimento "Contra a covardia, em defesa do Rio", convocado pelo governador Sérgio Cabral. Não vou pelas lágrimas do governador, não vou pelo prefeito do Rio ou pela prefeita de Campos dos Goytacazes: irei pelo Rio de Janeiro e seus 16 milhões de habitantes.
Estou indignado!
Alegando uma pretensa justiça distributiva, a Câmara dos Deputados acaba de aprovar modificação na distribuição dos royalties do petróleo, deixando à míngua os estados e municípios produtores. Não se trata nem de descobrir um santo para cobrir outros; trata-se de decretar a falência de estados e municípios produtores! Onde está a justiça, senhor Ibsen Pinheiro, senhores deputados? Já não basta o ICMS do petróleo, cobrado nos estados consumidores ao invés de o ser nos estados produtores, como acontece com todos os outros produtos – uma aberração fiscal tramada no bojo da constituição de 88 pelos constituintes paulistas? O que têm contra o Rio de janeiro?
Ou por outra, qual a culpa do Rio de Janeiro? A de ter deixado de ser capital da República? A de ter engolido goela abaixo uma fusão de interesse político, imposta por um regime de força? Ou a de ter o seu litoral abençoado?
O que têm contra o Rio de Janeiro, repito? Inveja acumulada por séculos?
E os deputados cariocas que não estavam presentes na hora crucial da votação? Vamos continuar elegendo esses caras e essas caras? E o deputado presente que votou contra o Rio e depois se justificou, dizendo que o fez a pedido de seu tio pastor? Os interesses do tio foram mais importantes que os dos eleitores que lhe conferiram o mandato! Pulha!
Eu sei que meia dúzia de votos não modificaria o quadro final da votação. Eu sei, mas se votassem a favor do Rio estariam dignificando o mandato que o povo lhes deu. Sei também que o projeto ainda vai passar pelo Senado e pelo presidente, que pode vetar. Mas é inconcebível que tal insensatez tenha chegado aonde chegou.
Os royalties compensam eventuais impactos negativos com a exploração do petróleo e de outros bens minerais. Na cidade do Rio de Janeiro tivemos um exemplo disso quando a baía de Guanabara ficou repleta de óleo vazado de um petroleiro; Campos e Macaé, além de outros municípios, há muito sofrem o impacto da presença das petroleiras. Será que os senhores deputados não viram isso? Será que não entendem o que são os royalties? A seguirmos a lógica dos senhores deputados, temos de fazer o mesmo com a exploração de outros recursos, como os minérios, por exemplo. E foi o que disse o senhor vice-presidente, o único que tocou no assunto, em passagem pelo Rio, tentando minorar a burrada feita em Brasília. Pergunte o senhor vice-presidente ao seu conterrâneo – governador de Minas – o que acha disso. Pergunte à governadora do Pará. Me desculpe senhor vice-presidente, simpatizo com o senhor, mas a sua fala não resolve a questão, apenas chama a atenção sobre ela. Minas Gerais e o Pará necessitam dos royalties do minério pelo impacto ambiental e social que sofrem, assim como o Rio de Janeiro e o Espírito Santo pelo impacto do petróleo.
Gostaria de ouvir o que tem a dizer o governador de São Paulo e possível candidato à presidência da República, pois que o pré-sal vai até o litoral de Santa Catarina, sendo São Paulo um dos prejudicados, senão agora, no futuro. Fala, Serra! Falem Aécio e Júlia Carepa sobre o que acham do projeto aprovado na Câmara e da fala do vice-presidente. Não fiquem atrás do muro!
Não sou ingênuo, porém, embora pareça em virtude dos temas que abordo neste espaço. Sei que existem interesses e jogo político por trás disso, já que estamos num ano eleitoral. Sei que a grande maioria dos senhores deputados viu neste projeto absurdo uma ótima oportunidade para fazer demagogia com o seu eleitorado e financiadores de campanha. Eu mesmo vi pela televisão o senhor presidente da Câmara refestelado numa poltrona tomando cafezinho, aparentemente satisfeito com o resultado da votação. Era para estar angustiado, se decente fosse. Mas o que quer é demonstrar alto cacife político, dele e do partido, para pleitear a vaga de candidato a vice-presidente e/ou barganhar cada vez mais cargos no governo. Este senhor deve pensar que o eleitor é idiota e não percebe seus movimentos políticos.
Demagogia, empulhação, é o que é este projeto dos senhores deputados, que se já não fosse absurdo, injusto ou covarde, como diz o governador, seria uma tremenda palhaçada! Mas eu fico com os circos de verdade, com os palhaços autênticos, os malabaristas e ilusionistas idem.
Ai, que saudades do Arrelia e do Carequinha!
Quarta-feira, na Candelária, a partir das 16 horas, contra a covardia e em defesa do Rio. Sigam-me os bons!

1 de mar de 2010

Vô Tônico indignado



Quem já deu uma espiadinha no meu perfil sabe que não tenho guarda-chuva nem celular. Do celular eu disse que não preciso. Agora digo mais: sou aposentado, não faço "bicos", portanto não tenho que atender patrão nem clientes, tenho vida social pacata, quase não saio de casa, não tenho namorada nem amante. De que me serve o celular, então? Além disto, sempre desconfiei que esses aparelhos modernos, maravilhosos e úteis, são também uma fonte inesgotável de transtornos e aporrinhação. Enquanto puder viver sem eles...
O caso é que não tenho celular, fujo deles, mas minha mulher tem, meus filhos têm, meu cunhado tem; vivo cercado de toques os mais bizarros possíveis, deixo-os tocar, não atendo, ignoro-os. Mas eles, os celulares, não me ignoram – até parece praga!
Há tempos comprei um celular que deu no maior imbróglio: perda de chip bloqueado, desbloqueio por meio fraudulento, processo na justiça contra a operadora - ainda não resolvido.
Mas vamos ao caso que me fez escrever estas mal traçadas linhas.
Experimentando com uma amiga o celular novo, minha mulher ativou um serviço diário de horóscopo. Muitos dias depois, ao perceber a burrada, quis cancelar o serviço inútil. Ligou para a operadora solicitando o cancelamento e lhe informaram que deveria telefonar para o jornal que disponibiliza o horóscopo. Sou assinante desse jornal, o JT, e minha mulher pediu-me o número do telefone da central de atendimento ao assinante. Ligou, não resolveu o problema e pediu-me que interferisse. Antes mesmo de saber qual seria exatamente a minha participação, encrespei-me: a minha assinatura do JT nada tinha a ver com o celular dela, eu não estava nem aí... Ela encrespou-se também... Estresse.
Então soube que deveríamos acessar o site do JT Online; lá seria desativado o serviço.
Danou-se! Agora é que ficou complicado: entra no site, clica daqui, clica dali, entra num link, vai para outro link... Mais estresse, com certeza. Ericei-me novamente, quase viro um porco-espinho...
Pausa para esfriar e baixar os espinhos...
Mas se eu não ajudar minha mulher, quem poderá ajudá-la? O Chapolin Colorado? O Colorado dela sou eu, devo pois entrar na briga. Já calmo, fui ao telefone e falei ao atendente:
- Quer dizer que tenho de acessar a Internet para cancelar o serviço?
- Perfeitamente, senhor.
- E se eu não tiver computador, tenho de ir a uma lan house?
- Perfeitamente, senhor...
- Olhe aqui, eu sei que você não tem culpa de nada, mas quero lhe dizer que isso é um absurdo e a prova da total incompetência do JT. Me desculpe, bom dia. Disse isto veementemente, mas com calma e civilidade (aleluia!).
O meu filho acessou o JT Online, nada encontrou na página que levasse ao que queríamos. Desistiu. Sentei-me eu em frente ao computador; do mesmo modo nada encontrei. Liguei mais uma vez para o jornal e pedi ajuda, ignorante que sou em questões de Internet. A atendente orientou o ignorante: clique em MÓBILE, lá em cima, depois abre uma janela, então indique o canal, a operadora e o número do celular. Obrigado, minha filha, agora vai ser fácil! Alguns cliques e toques mais tarde, tudo conforme a mocinha indicou, noto que o próximo clique será no botão de assinatura. Mas eu não quero assinar, eu quero cancelar uma assinatura! Ainda não seria desta vez, porém.
Rastreio toda a página e encontro o título OUTROS SERVIÇOS. Arrá! Não contavam com a minha astúcia!
Animado, cliquei no primeiro item: oferta de serviços; cliquei no segundo item: mais ofertas de serviços. Porra!!! Eu não quero comprar, quero cancelar um serviço!
De volta ao jornal (acho que era outra atendente): um minuto, senhor, vou acessar a página pra tentar lhe ajudar... de fato, mas olha só, à direita tem vários logotipos de operadoras, clique no da sua e abrirá outra janela, nessa janela tem o serviço de cancelamento de assinatura, no final... Cliquei várias vezes no logotipo e nada aconteceu: agora era o computador que estava me sacaneando, ou já estressava também. Aproveitei para desativar várias páginas e programas minimizados que poderiam estar sobrecarregando o coitado. Fui beber um copo d'água...
De volta, cliquei no logotipo da operadora, abriu a janela, e ao final o recado: para cancelar a assinatura de um canal, você precisa enviar um torpedo SMS para o número XXXXX com a mensagem DESL seguida do código do canal.
Ah! já suspeitava desde o princípio! Quem desativa o serviço não é o jornal, mas a operadora. Claro! Claríssimo! E a bandida nos fez dar uma volta imensa, nos ouriçarmos, eu e a minha mulher, para no final tudo se resolver com um simples torpedo para a própria! Cafajestada! E eu ainda chamei o JT de incompetente, um jornal que eu gosto tanto e leio desde os anos 70!
Finalmente tudo agora está claro e conforme a lógica... da operadora, claro: para acionar o serviço foi quase por descuido, já para cancelar...
E para encerrar esta pequena saga da modernidade e expressar a indignação que sinto, quero dizer apenas uma palavra: putaqueopariu!!!*

*Desculpem, não é o meu jeito habitual.

Fevereiro de 2010

10 de fev de 2010

Fantasias


A menina se esbaldou o dia inteiro, está cansada, mas briga com o sono. A televisão despeja imagens e palavrório, a que ninguém liga, nem ela nem o avô, sentado ao seu lado no sofá. O velho tenta ler o jornal que não pode ler durante o dia, sempre solicitado como coadjuvante nas brincadeiras da neta.
- Vô, qual história você quer que eu leia pra você? Escolhe uma – propôs a menina, com vários livretos nas mãos.
O avô espichou os olhos do jornal para os livretos, escolheu logo o primeiro, tanto fazia, queria era ler o jornal e além do mais já conhecia por demais aquela brincadeira. A menina se ajeitou no sofá, abriu o livreto e apontou com o fura-bolos o título da história. Começou a "ler": O Mar de Mariana*.
O velho continuou sua leitura, desligado da "leitura" da neta. A menina bronqueou:
- Presta atenção vô, estou lendo pra você!


Onda vai, onda vem. Mariana coloca o rosto na areia seca e vê uma concha muito diferente, muito linda e bela. Ela apanha o brinquedo e vai para casa e fica vendo até anoitecer... Primeiro sai da concha os borbulhantes, depois as águas por dentro e por fora, depois sai os bichos. Depois ela olha e vê o fundo do mar encantado. Aí ela abre a porta e vê os peixes e sai nadando. Aí vê o príncipe Neturno com o tritão na sua mão...
- É tritão, vô?
- Não, é tridente, aquele garfo grandão, com três dentes.
A menina ainda não é alfabetizada, não sabe ler, portanto. Mas sabe muito bem fingir, ou representar, como diz o avô, que já lhe vislumbra um futuro de atriz (ser avô é ser tiete dos netos!). Sua "leitura" consiste em folhear o livro e seguir as ilustrações, que lhe trazem à lembrança a historia já conhecida. E assim vai "lendo": truncando, omitindo ou acrescentando, ao sabor da memória e da fantasia.
...com o tridente na sua mão. O príncipe fala: - Mariana, eu quero falar com você. Ela se assusta e sai nadando, o Neturno vai com ela, com o tritão... com o tridente na mão. Mariana pula nas costas de um golfinho abanando o seu rabinho bem brilhoso. O príncipe diz: - Espere, Mariana. Ela vê uma luzinha bem pequena, aumentando, aumentando, e vê sua casa lá longe. Aí ela dorme um sono profundo. E o mar, chuá, chuá... E quando ela acorda vê um papel preso embaixo da janela: A concha é um lindo presente que a tia Iemanjá me deu. Por favor, devolva, jogue a concha no mar. Neturno...


E quando o avô comenta com alguém que a neta "lê de mentirinha", é logo contestado: - De mentirinha não, vô. Eu leio de verdade mesmo!...
O velho sorri da fantasia da pequena.
Mas o que é fantasia e o que é realidade na cabeça de uma criança de cinco anos? É tudo misturado, uma coisa só, a bem dizer. As coisas acontecem porque algo faz que aconteçam. Mas esse algo, a causa ou conjunto de causas, para a criança nada tem a ver com lógica, pode ser qualquer coisa: o vovô morreu porque Jesus quis transformá-lo em estrelinha no céu; o seu dente caiu porque a Fada dos Dentinhos quis levá-lo, mas deixou em troca umas moedinhas; causas podem ser a Cuca, a Velha do Saco, uma bruxa malvada ou qualquer outra fantasia.
E com os adultos não é muito diferente: vivemos fantasiando a realidade que não conhecemos (ou preferimos ignorar). Assim é desde as cavernas! Fantasiando nossos remotos ancestrais criaram deuses e demônios para explicar os mistérios da natureza. Assim também os Magos orientais, em busca da Fonte da Eterna Juventude e da Pedra Filosofal, e traçando mapas astrológicos, inventaram a ciência. E a arte, de onde vem? Assim é que grande parte de tudo que o homem criou, até hoje, foi um dia fantasia.
Ah! fantasia, como te quero real!...
Mas deixemos de lero-lero de narrador, que a menina quer acabar de ler a história para o seu avô sonolento.
...Onda vai, onda vem. Mariana joga a concha lá longe no meio do mar. Muito bem! O tridente está na areia com a foto do príncipe Neturno, que é muito lindo.
O avô está com o jornal arriado sobre os joelhos, cabeça encostada no espaldar do sofá, olhos parados no ventilador de teto.
- Gostou da história, vô?
- Ãh... gostei, você conta muito bem.
- Eu não conto história, vô, eu leio. Quer que eu leia outra?
-Está ficando tarde... é melhor dormir...
- Boa noite, vô.
- Boa noite.
Se essa menina continuar gostando de livros como parece gostar, há de ser grande – pensa o avô, enquanto afasta o jornal e desliga a televisão. E quando aprender a ler, então? Quando descobrir o mistério, a mágica que faz os livros contarem histórias; a grande mágica, a maior de todas, a que nos leva aos lugares mais distantes da Terra, às estrelas ou às profundezas do oceano, e nos permite montar num "golfinho abanando o seu rabinho bem brilhoso", – sem varinha de condão, abracadabra ou pó de pirlimpimpim.

*O mar de Mariana, texto e ilustrações de Rogério Borges, Coleção Imaginário, Editora Scipione.
Fevereiro de 2010

30 de jan de 2010

Espelho, espelho meu


De uns tempos para cá tem-me ocorrido situações para as quais eu não estava preparado. Durante largos anos adotei por hábito, nas conduções cheias, oferecer meu lugar às pessoas idosas, senhoras com crianças, gestantes, enfim, a quem mais necessitava de descanso e conforto, se é que se pode falar em conforto em nossos transportes públicos. Pois agora chegou a minha vez de aceitar tais gentilezas.
Mas eu não estava preparado, repito. Não me sinto velho, embora meus cabelos brancos denunciem o meu tempo. Da primeira vez que me ofereceram um assento, recusei: "Não, obrigado, minha filha, estou bem". A mocinha insistiu: "Sente, senhor, faço questão". Agradeci com um sorriso amarelo e sentei-me sem olhar para os lados, temeroso de cruzar com algum olhar de censura por aquela regalia indevida. Mas os meus cabelos brancos atestam o merecimento e me absolvem. Outro fato que me denuncia é esse meu jeito de tratar por filhos as crianças e os jovens. Quando tratamos por filhos os filhos de outrem, é porque já somos avós (ou temos idade para tanto).
Há que se louvar os jovens, porém: nem tudo se perdeu na corrida do tempo. Se bem que há os que sentam nas cadeiras reservadas aos idosos e fingem dormir. Devem ter lá suas razões para tal atitude: ou estão deveras cansados, ou envelheceram precocemente...
Mas eu nem ligo, não me sinto velho...
Agora já estou acostumado com a eventual gentileza no ônibus lotado, mas numa das últimas vezes que me ofereceram assento, ao chegar a casa fui direto ao espelho. Olhei-me de frente, de perfil, de três quartos. Nada estranhei. Parecia que sempre fora assim, nada mudara. É verdade que no alto da testa já não existem cabelos, mas os que restam – brancos! – me dão um certo charme, um ar de dignidade e respeito... E a testa larga em conjunto com os óculos de aro fino me dão aspecto de intelectual, que evidentemente não sou, mas pareço... "O Tempo não deixa que percebas os estragos que ele próprio inflige às suas criaturas" – disse-me o espelho, filosoficamente, olhando-me nos olhos. "É a barba por fazer, outrora me apresentava melhor, barbeava-me diariamente" – respondi ao intrometido espelho. "Por que não vais ao fundo do baú buscar aquela foto de quando eras jovem, ao invés de ficares me inquirindo sobre o que não posso omitir?".
Fingi não escutar a última insolência do espelho e rapidamente espalhei creme no rosto e lancei à barba a gilete. Usei loção-após-barba. "Vês como remocei? Que idade me dás, agora?". O espelho balbuciou com enfado e pausadamente, como se falasse consigo mesmo: "Expressão vincada... pés-de-galinha... pele flácida embaixo do queixo... no pescoço... essa barriguinha...".
Não pude deixar de sentir uma certa irritação e resolvi partir para o ataque, pois que o ataque é a melhor defesa: "Olha só quem fala, com as bordas já oxidando! Não te enxergas não, estraga-prazer?". "Oxidação é um processo natural de envelhecimento, e já que tocaste no assunto, tu bem sabes o quão amiga ela é de ti." – revidou sarcasticamente o espelho.
"Ok, ok, ok! Basta! Afinal estou convencido: vou mudar de espelho.".

Janeiro de 2010

18 de jan de 2010

Cacos da Memória – o livro




Venturas e desventuras de uma família de imigrantes – texto fragmentado em episódios curtos e de fácil leitura, não obstante interligados pelo histórico familiar. O dia-a-dia numa aldeia portuguesa (Palhal - Ribeira de Fráguas); a escassez de empregos e as lavouras de subsistência; emigração; histórias da tradição oral, festas religiosas e eventos pitorescos; a vizinhança; trapalhadas e brincadeiras da infância e as fantasias e descobertas de um menino e o seu desempenho escolar. O Brasil aos olhos dos que ficam. O sonho nunca alcançado. O retorno.


***************************************************************************************************************






Divulgação de "Cacos da Memória" no evento cultural Literatura de Segunda, promovido pela ONG
Laboratório Cultural
*****************************************************************************************************************************************
Depoimentos
Caro Ventura. Li o seu livro... A questão de não decorar a tabuada é insignificante. Até hoje ainda tem uns professores que reprimem os alunos por causa disso. Felizmente não fui vítima da palmatória. Gostei da estória do gato caçador. Sua mãe defendendo o gato foi muito legal...
Lourival Gomes de Oliveira (VAVÁ) - professor e jornalista
... estou lendo o seu livro e é fascinante...
Daiane Brasil - universitária e coordenadora da ONG Laboratório Cultural
... Já dei uma espiadinha no seu blog e, vendo a foto de "Cacos da Memória" me lembrei de quanto foi prazeroso lê-lo. Todos aqui em casa leram o livro e sempre comentávamos as histórias depois, pedindo à minha avó que contasse mais alguns detalhes. Rimos, choramos, enfim, nos comovemos muito.
Luciana Carvalho - arquiteta e sobrinha linda
Muito obrigada uma vez mais pela oferta do livro. Para já está a ser uma grande aventura a leitura. Muitos parabéns. Seguem hoje duas publicações de minha autoria...
Nélia Oliveira - historiadora (Branca/Portugal)
Olá bom dia, eu sou a filha mais nova da Guilhermina Nunes. Eu tive o prazer de ler o livro que o senhor escreveu, gostei muito, pois tem lá partes da sua infância que tb são muito parecidas com a minha. O meu muito obrigada pelo seu maravilhoso livro... Beijinhos. Tita.
Tita Martins - (Portugal/Alemanha)
"...Não imaginas a ansiedade com que esperei a recepção do teu livro! Recebi-o só anteontem e "devorei-o", em pouco tempo! Contribuiste para que me tornasse menino outra vez! Lembraste-me algumas peripécias que os meus neurónios já haviam apagado. Mais uma vez te estou reconhcidamente agradecido..."
Ismael Coutinho - bancário e amigo de infância, personagem de Cacos da Memória- Aveiro/Portugal
"Hoje eu peguei no teu livro, livro lindo linda história, e resolvi emprestar..."
Ivon Carlos Bernardo - marceneiro e poeta - Rio de Janeiro

(...) "Estou pasmado com a capacidade de memorização deste homem, é claramente um dom que nos une, a memorização. (...) Cerca de meio século depois de o autor João Ventura ter vivido entre as freguesias da Branca e Ribeira de Fráguas, os registros que estão no livro são incrivelmente precisos, e estou à vontade para afirmar isto, pois como todos sabem, tenho duas monografias publicadas sobre lugares da freguesia, além de uma amiga comum, que escreveu um trabalho sobre a freguesia da Branca.
Com este fantástico título, "Cacos da Memória", este livro deveria fazer parte da atividade pedagógica do Agrupamento de Escolas da Branca, não que eu seja saudosista, mas os jovens ribeirofraguenses e branquenses iriam aprender bastante sobre as vivências de outrora.
A vantagem deste trabalho literário é que está escrito na primeira pessoa, ou seja é um "diário de bordo" entre dois continentes. Como homem profundamente ligado à etnografia, sociologia e antropologia, cada vez mais (...) avanço com a ideia de que o passado não é vergonha, mas orgulho.
Parabéns João. Abraço.

(...) Naturalmente, já li o seu livro. O português é fantástico. Sei que os brasileiros cultos (...) escrevem quase de igual modo ao português Pt/Pt...

Nuno Jesus - autor de "Telhadela - Perspectiva Histórica e Etnográfica" e coautor com Nélia Oliveira de "Ribeira de Fráguas - a sua história" - Portugal

Clic no link abaixo e leia uma resenha de Cacos da memória, escrita por Jussara Neves Rezende, Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa e dona do blog Minas de mim. Leia também mais comentários sobre a obra.
http://minasdemim.blogspot.com.br/2013/05/cacos-da-memoria-de-joao-antonio.html

"...O rigor sociológico, diria, etnográfico, estampado neste livro é deveras incomum, particularmente para quem nunca mais visitou a aldeia na qual passou parte da sua mocidade e que, nota-se na fluidez da leitura, o marcou de forma indelével"
(Excerto do comentário de Nuno Jesus em Minas de mim)

Estou na faculdade estudando um pouco sobre metodologia científica, e a professora fala muito sobre o rigor sociológico e etnografia tb. Achei bacana esse comentário de um especialista sobre seu livro. Vou relê-lo agora nessa ótica, para tentar pegar essas nuanças que passaram-me despercebidas.

Rafael Coelho Ventura - biólogo, meu filho

Bom dia.
Passei os meus tempos livres destes últimos dias a ler o seu blog, adorei as suas histórias de infância, são viciantes, fiquei ainda com mais vontade de ler o livro. Se não lhe der muito trabalho gostava de saber quanto custaria enviar o livro para Portugal com portes, caso esteja dentro das minhas possibilidades combinamos a transferência e envio.
Cumprimentos,

Daniela Lapas - Aveiro, Portugal

**************************************************************************************************************

A quem interessar: ainda existem exemplares disponíveis
Se desejar, envie e-mail para antoniorodrigues25@superig.com.br juntando comprovante de depósito bancário no Banco do Brasil, ag. 3992-6, conta 5327-9. O valor total é de R$ 20,00 (15,00 + 5,00 para correio no Brasil. Para o exterior fica bem mais caro). Eu lhe enviarei o livro.

5 de jan de 2010

A menina do guarda-chuva e os meus sapatos de verniz

Naqueles poucos dias que estive em Cunha, passei-os na casa de meu amigo Vavá, a quem visitava após mais de vinte anos sem contato. Levei um de meus filhos, Daniel, e ficamos confortavelmente instalados em suíte construída abaixo do pavimento principal da casa, no "porão", como dizia o meu amigo. Em frente havia girassóis e uma piscina, da qual não pude usufruir em virtude do clima de inverno. Bastaram-me os girassóis.
Levantava cedo e, com todos ainda recolhidos e ausência de café à mesa, saía andando pelos arredores, exercitando os músculos e aproveitando o ar fresco da manhã.
No dia em que retornaríamos ao Rio de Janeiro, um domingo, não foi diferente. Subi pela rua até onde terminava o asfalto e parei no cruzamento com a rua de barro, sem vontade de prosseguir: fazia frio, garoava, e o risco de escorregar no barro era grande, já que o relevo dali em diante apresentava aclives e declives acentuados. Um velhinho passou por mim expelindo vapores ao falar:
- Bons dias!
- Bom dia! – respondi.
As pessoas do interior, mormente as mais velhas, cumprimentam até quem nunca viram. Já nas cidades grandes...
Mas eu fiquei ali, encolhido no meu casaco de veludo, último remanescente de um passado em que frequentei a cidade e outras do Vale do Paraíba. Acendi um cigarro e olhei ao redor. Em frente, o caminho de barro continuava até subir um pequeno morro, entre casas modestíssimas e esparsas. Nada que se comparasse às favelas do Rio, porém ali moravam, com certeza, pessoas de precária condição econômica. À esquerda, um pequeno lago, assoreado e sujo, produto menos de nascente potável que de águas pluviais e talvez esgoto. Uma paisagem nada admirável.
Apaisagem nada admirável 5 anos depois: as ruas estão asfaltadas e o lago desassoreado e limpo. Ao fundo, o casario menos esparso e de melhor aspecto.

Olhei mais uma vez o sopé daquele morro. Uma figura, de guarda-chuva, caminhava em minha direção. Parecia uma menina. E muito bem trajada, o que me pareceu impróprio, vinda daquele lugar tão singelo. Caminhava com determinação e os seus sapatos, pisando o barro batido – úmido, mas firme – soavam nos meus ouvidos. Em dado momento, a menina (agora já era perceptível) diminuiu o passo, perdeu a determinação, parecendo-me indecisa ou receosa. Pensei: "já reparou em mim, reconheceu-me estranho ao lugar e intimidou-se com minha presença em seu caminho, já que sou a única pessoa na rua, além dela mesma". Resolvi afastar-me então, deixando o caminho à menina. Entrei na casa de meu amigo e postei-me na varanda, olhando a rua, curioso com aquela garota que descera do morro.

Os sapatos da menina agora soavam mais forte. Ela parou a conversar rapidamente com a vizinha e prosseguiu com o seu toc toc no asfalto. Passou.


Não tinha mais de onze, doze anos. O vestido preto, de tecido fino e bom caimento, um pouco acima dos joelhos, combinava com o guarda-chuva e os sapatos também pretos. Brancas, uma faixa prendendo os cabelos fartos, ligeiramente crespos e aloirados, e as meias de renda, compridas. Passos firmes e atitude de modelo desfilando moda na passarela. E ciente de sua elegância.
Do conjunto harmonioso destacavam-se os sapatos, com fivela e saltinho, estalando de novos e brilhando! Destacavam-se menos pelo que eram, mas pelo que diziam. Sim, os sapatos falavam, não com o asfalto, mas às pessoas: anunciavam a passagem da menina. Pareciam dizer: "olhem como está linda e elegante, olhem!".
Ao passar, a menina do guarda-chuva olhou discretamente para mim, e se foi
Seus sapatos falaram-me dela e de muitas coisas mais, de outros sapatos já esquecidos na minha infância longínqua...
Naquele tempo, eu queria porque queria sapatos de homem, não sandálias de menino. Já usava calças compridas, mas faltavam os sapatos. Mamãe comprou-me um par, a serem usados na minha 1ª comunhão. Sapatos de verniz, reluzentes! Não eram de cromo ou qualquer outro material nobre, mas tinham o acabamento "vitrificado", simulando verniz. Quando envelheceram, o "verniz" desmanchou-se em craquelê, pior que rugas em rosto de ancião, mas enquanto novos eram de causar inveja. Lindos!
Eu não podia esperar a 1ª comunhão. Sendo domingo, pedi à mamãe que me deixasse ir à missa em Ribeira de Fráguas, calçando os sapatos novos. Iria com a minha irmã Carmem. Autorizado, comecei a produzir-me: banho de bacia (resumia-se a lavar o rosto, orelhas e pescoço, braços e pernas); depois vestir calça, camisa e calçar meias e sapatos... Ah, os sapatos! Que complicado, eu mal sabia fazer o laço nos cadarços! Em vista de tudo isso, demorei muito e minha irmã não quis esperar-me, pois havia combinado ir com as amigas. Pois eu iria sozinho à missa, ainda que chegasse atrasado! Sozinho não: eu e os meus sapatos!
Chegamos já nos ritos finais da missa, mas valeu bem a pena: durante o longo trajeto e ali, no adro da igreja, tive a ilusão de que todos admiravam os meus sapatos de verniz!
Doce ilusão!...
Mas o que eu não sabia é que sapatos novos costumam magoar os pés e os meus ficaram magoadinhos: voltei para casa mancando!
Embora os sapatos da menina do guarda-chuva não me tenham dito aonde iam, eu não tinha mais dúvidas: dirigiam-se a um culto dominical. Mas pouco importa aonde ia a menina ou fazer o quê. Sua intenção, verdadeiramente, foi mostrar a toda gente os seus sapatos novos, seu vestido, sua elegância e a sua beleza pré-adolescente!
Aromas do café da manhã inundaram minhas narinas. Entrei.

Transcrito do livro "Cacos da Memória"
Autor: João Antonio Rodrigues Ventura
antoniorodrigues25@superig.com.br