1 de set de 2010

A minha casa fazia fumaça...


... e tinha um gato que namorava no telhado. Da fumaça, lembro-me que meu pai contava um "causo" de um amigo seu recentemente chegado de Portugal. Dizia o gajo ao meu pai, na primeira manhã vivida no Rio de Janeiro, espiando espantado as casas do bairro: "- Ó pá, as casas daqui não fazem fumaça?". Além da surpresa, talvez estivesse o patrício preocupado com o desjejum, que na sua aldeia, como na de meu pai e em todas as outras do Portugal de então, era precedido pelo fumaçar das chaminés. Apesar da ausência de chaminés fumarentas, não ficou o amigo de papai sem o café da manhã: àquele tempo, no Rio de Janeiro, se cozinhava em fogareiros a carvão.
Lembro-me da casa da minha infância, com sua chaminé a fumegar aos primeiros raios de sol, pela manhã e ao entardecer, no preparo das refeições; e do nosso gato, enroscado pelos cantos ou chegando de seus longos passeios pelas matas, – terror dos ratos e exímio caçador de perdizes -, e à noite senhor dos telhados.
Saindo dos cacos da memória e voltando aos tempos atuais, tenho agora uma casa que estou reformando e ampliando. Esta também fazia fumaça. Foi construída em 1938.
Nas lides da reforma, ao destelhar uma pequena parte da cobertura, encontrei os vestígios de uma antiga chaminé ainda enegrecida de fumo; o equipamento fora demolido pelo proprietário anterior, restando apenas a boca de saída na laje, além de outros sinais sob os azulejos da cozinha. Algumas casas em Marechal Hermes ainda têm chaminé, mas obviamente não mais fazem fumaça.
Destelhando mais um pouco, meu filho Daniel encontrou uma ossada!
- Pai, não é de sagui (em Marechal há muitos), é maior, parece de um lagarto grande,disse, abrindo os braços.
Fui ver.
Era de um gato.
Ao contrário do nosso gato, deste não sei a história. Não é difícil imaginar, contudo, que teria sido vítima de comida envenenada por "chumbinho", o famigerado e proibido veneno para ratos, que acaba por vitimar, aleatoriamente, animais de outras classes e contaminando o meio-ambiente. Sentindo-se mal, confuso e desamparado da vida, o pobre recolheu-se ao lugar que mais lhe transmitia aconchego e segurança: o telhado. Onde terminou o seu tempo.
Já o nosso gato simplesmente desapareceu, não retornou de suas andanças. Não creio em veneno, mas se a minha imaginação e as circunstâncias de seu desaparecimento não me enganam, foi chumbinho também, não o de ratos, mas chumbinho de chumbo mesmo: um espingardaço à falsa-fé. Fim menos aviltante, mas igualmente inglório.
Encontrei ainda um macaco (mecânico), uma chave de rodas e uma de fenda, tudo em ótimo estado; era caminhoneiro o proprietário anterior, agora viajando nas estrelas. Seu caminhão já não enguiça, não precisa de ferramentas. Vou apropriar-me delas, portanto.
Outra ossada (não, a minha casa não é um cemitério), esta sim, de um filhote de sagui, além de um troféu do IV TORNEIO DA BANDEIRA e mais de três dezenas de medalhas (ouro e prata) de vários esportes olímpicos – fragmentos ou cacos da história de um atleta polivalente anônimo.
Vou guardar estes objetos, inclusive o crânio do gato, como lembrança ou registro arqueológico da reforma da minha casa.
Só não encontrei, lamentavelmente, uma velha arca recheada com dobrões de ouro.

2 comentários:

Gledson Vinícius disse...

Quero mais palavras suas. Pare de escondê-las atrás das cortinas do cotidiano. Traga-as para ca! Seus leitores querem te ler!!!
Abraços amigo!

Joao Antonio Ventura disse...

Pela primeira vez falhei no meu intento de esvrever ao menos um texto por mês; outubro está chegando ao fim e, nada... Mas ainda há tempo, vamos ver, depois da concretagem da laje.

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