15 de jun de 2011

DUAS HISTÓRIAS E UM ENREDO


Eram duas mulheres: uma de idade avançada, a outra novinha. Apresentaram-se como representantes de empresa conhecidíssima na praça e desejavam fazer pesquisa de mercado.
- Tem alguma coisa contra pesquisas? – perguntou-me a moça, com airoso sorriso.
Não tinha.
- Podemos entrar? Assim falamos mais à vontade, e não vai demorar, é ligeirinho.
Eu estava sozinho na manhã daquele sábado, sem nada a fazer senão ler o jornal, hábito que me acompanhava desde há muito. Alguns minutos perdidos com a pesquisa não me fariam falta. Considerei ainda não haver perigo algum, eram mulheres aparentemente inofensivas, e uma delas idosa. Além do mais, não tinha em meu modesto apartamento nada que chamasse a atenção ou despertasse a cobiça alheia, só trecos comuns e baratos, nada que qualquer vizinho não tivesse igual ou melhor. E aqueles eram outros tempos, de mais sossego e menos desconfiança. Mas que não tentassem vender-me qualquer coisa, contra isso estava alerta e prevenido. Convidei-as, pois, a entrar, e indiquei-lhes que sentassem.
- O Senhor já conhece o nosso produto? – indagou a senhora idosa.
Conhecia. E nem podia deixar de conhecer, já que o dito invadia os nossos lares pela tela da televisão, patrocinando entretenimento e prometendo mil vantagens, fazendo sorteios e distribuindo prêmios, enfim, trazendo a felicidade aos tele-espectadores. Tratava-se de um carnê de prestações mensais, cujo valor total, ao final, era trocado por mercadoria nas lojas da empresa emissora, geralmente eletrodomésticos e outras utilidades do lar. Compras a prazo ao contrário - com pagamento antecipado! Minha mãe tinha dois ou três deles e nem de longe eu pensava em comprar mais, se a pesquisa das senhoras enveredasse para esse fim, como já suspeitava. Se confirmado, usaria esses carnês como justificativa para desvencilhar-me das pesquisadoras, já então vendedoras.
A senhora idosa iniciou a venda do seu peixe, enquanto a moça apenas ouvia, mas de olhar atento e simpático.
O tal Carnê da Felicidade era muito popular e vendia bem – dizia-me a senhora – mas ocorria que, em alguns bairros, sem razão aparente, as vendas andavam mal. No intuito de transformar esse malogro comercial localizado em sucesso de vendas, a empresa titular do produto teria elaborado um plano de vendas, uma promoção especial para os tais bairros, e só para esses. E por isso estavam ali as pesquisadoras, em Irajá, um dos bairros visados, dando início ao plano.
Temi que o discurso da senhora descambasse pura e simplesmente para a venda de carnês, e questionei:
- E a pesquisa?
É o que faziam naquele momento. Sondavam possíveis clientes com perfil adequado que pudessem participar da promoção da empresa. O plano consistia em premiar alguns poucos clientes nesses bairros e fazer publicidade intensiva do sorteio, aumentando as vendas, portanto. Qualquer pessoa que visse premiado alguém do seu bairro, talvez o seu vizinho, haveria de querer comprar também. Era simples.
- O Senhor já viu os programas na televisão, os sorteios...
- Sim...
- Gostaria de participar?
- E como seria isso? – indaguei, curioso.
- Veja bem, como o objetivo da empresa é aumentar as vendas...
Claro, eu teria de comprar alguns carnês. Mas – assegurou a mulher – os meus carnês seriam cartas marcadas no sorteio. Prêmio garantido. Fazia parte do plano. Dez mil cruzeiros novos! Nada mau, convenhamos. Se não chegava a ser uma quantia exorbitante, não era também uma ninharia: dava para comprar um Fusca zerinho! E tudo ficaria "só entre nós", no mais absoluto sigilo.
Evidentemente era uma desonestidade – pensei –, mas naquele momento julguei não ser de todo inverossímil que a empresa admitisse fraudar um sorteio, privilegiando uns poucos clientes em detrimento de milhares de outros. Tudo pela promoção de vendas! Até porque tais produtos, sendo novidade, achavam-se livres de maior regulação estatal e carentes de fiscalização mais acurada. E, de mais a mais, a desonestidade partira de outrem, apenas transitava por mim, e a minha culpa, já de si tão pequena, como que ficava diluída por milhares de prestamistas enganados. Diferente de quando se trapaceia diretamente com uma única pessoa, cuja imagem concentra e relembra toda a imoralidade do ato e a culpa do trapaceiro. E, claro, tudo incógnito, eu não teria vergonha do meu vizinho, de ninguém.
- Mas tem um porém – continuou a senhora que vendia o peixe, a esta altura já palatável e também eu mais inclinado a degustá-lo.
- Sempre há um porém. Diga lá...
- É que esta promoção é só para clientes especiais, uma meia dúzia se tanto, nos bairros com problemas, não para clientes miúdos. O Senhor compreende, é uma operação melindrosa, se abrirmos a muitos periga entrar na boca do povo – Deus nos livre! Quantos carnês o Senhor acha que poderia adquirir?
A mulher dizia isto e me olhava nos olhos, observando minhas reações e tentando perceber-me o ânimo e adivinhar o meu poder de fogo. E ainda mexia com os meus brios: cliente miúdo, né? – pois vamos ver!
- Uns quatro ou cinco – arrisquei.
Era pouco. Só a partir de oito, informou a senhora, que a esta altura já não era pesquisadora, mas vendedora, o que me era também já indiferente. E havia mais um porém, este felizmente fácil de cumprir: a empresa exigia uma fotografia, após o sorteio, para ilustrar a propaganda na televisão e impressionar a vizinhança do cliente felizardo. Além de tudo eu ainda teria alguns segundos de fama na telinha, sem quaisquer transtornos adicionais, sem precisar viajar, sem participar do programa na televisão, apenas cedendo uma foto. Tudo muito conveniente.
- O Senhor... posso tratá-lo de você, posso? – interferiu a jovem, enquanto ajeitava a saia sobre as pernas cruzadas ao descuido e abrindo um discreto sorriso, a principio um tanto atrapalhado e depois franco e algo malicioso, a ponto de me deixar desconcertado.
- Você... assim fica melhor... você já imaginou o que poderia fazer com dez mil? Sim, porque um de seus carnês será premiado, na certa. E só o que você tem a fazer é um pequeno esforço agora... E regalar-se depois...
Regalar-se... O verbo não era comum na boca do povo e, talvez por isso mesmo, entrou-me pelos ouvidos e foi direto à imaginação, campo fértil a todo e qualquer devaneio, do mais simples e infantil, como o regalar-se com os quindins e queijadinhas da vitrine da padaria, aos mais complexos e secretos regalos de homem adulto. Regalar-me depois?... Ah, como gostaria! Não só com os dez mil...
- Dez. Dez carnês é o que posso – disse, cortando as fantasias que me invadiam a mente.
- Parabéns! O Senhor acaba de ganhar dez mil. Lindinha, minha filha, vá preenchendo os carnês, vá.
Fui ao quarto buscar a quantia referente à comissão das vendedoras, enquanto estas preparavam a burocracia final.
Os meus queridos leitores já perceberam que eu acabara de cair no conto do carnê premiado, uma variante do famoso conto do vigário. Não tive maiores prejuízos, a não ser o brio ferido, já que os carnês quitados foram trocados por mercadoria. Mas o fato me lembra outro, este bem mais antigo, na minha adolescência.
Fui ao Banco sacar um dinheirinho na Poupança de mamãe para me matricular num curso preparatório à Escola de Especialistas de Aeronáutica. Saído da agência, topei com um matuto muito atrapalhado, que me indagou de um endereço no bairro. Não lhe soube informar. Nisto chegou um senhor bem apessoado, trajando terno e chapéu-coco e com a Bíblia debaixo do braço. Interessou-se pelo caso do caipira. Este procurava um mascate que tempos atrás passara no seu arrabalde e lhe vendera um bilhete da loteria; tempos mais tarde retornou desejando comprar o bilhete que lhe vendera, fornecendo-lhe aquele endereço para que o procurasse, caso quisesse fechar o negócio. Perspicaz, o senhor da Bíblia percebeu o enredo por trás da história do matuto: "- Se o mascate quer o bilhete de volta, com certeza está premiado". E propondo-se a resolver a questão:
- Naquele botequim tem um prospecto da Loteria Federal, vamos lá conferir o bilhete.
O matuto não quis ir, rogou que fôssemos nós, tinha medo até de atravessar a rua. Eu já estava um tanto impaciente com o prolongar daquela história, ia meio constrangido, inquieto, e no trajeto até o botequim disparou-me um alarme na mente: se estiver premiado é golpe, só pode ser golpe! E não deu outra: o bilhete (adulterado, evidentemente) fora premiado! Primeiro prêmio! Uma grana assombrosa!
Fiquei aflito, confuso, o coração batendo forte, e o senhor da Bíblia iniciou a etapa seguinte de sua vigarice:
- O matuto é um palerma, nós podíamos...
Deixei-o a falar sozinho. O mais da conversa que não aconteceu o leitor pode bem imaginar... Passava um ônibus, peguei-o sem olhar pra onde ia, não era a minha condução, desci mais à frente e peguei outra. Livrei-me dos vigaristas!
Nestas duas histórias que acabo de contar, a mesma psicologia de usar a ambição e a desonestidade da própria vítima. Isso é que é malandragem! Há uma diferença, porém, a qual determinou finais diversos: naquele tempo da minha adolescência eu ainda era idealista... e possivelmente honesto.

9 de jun de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 5)

Afinal, o bicho costureiro


Um piscar de olhos e Tonico já estava no bosque em que encontrara a moça da melancia: viagem mais impressionante que o mais impressionante dos sonhos! À sua frente, pairando no ar, a bola de fogo, que não era de fogo, mas resplandecia como o vestido de Morgana.

- Então, querias conhecer-me?

- O bicho costureiro, uma bola de luz?

- Sim, mas na verdade sou invisível. A luz que vês é por causa do vestido que fiz para a princesa Morgana, costurando milhares e milhares de vaga-lumes. Impregnei-me com a fosforescência deles. Cavacos do ofício...

- Mas disseram-me que foi uma velha...

- Pois foi...

E dizendo isto, a bola encolheu-se ao tamanho de um vaga-lume de luz intensíssima; depois cresceu, transformando-se numa árvore fosforescente; em seguida alongou-se como corda e evoluiu no ar em graciosos volteios, para finalmente descer em forma de balão.

- Entendes agora? Posso transformar-me no que quiser, não tenho forma definida. Virei-me numa velha e apresentei-me como costureira às princesas...

- E os vestidos, por que se desmancharam?

- Ah, que terríveis são aquelas meninas, que gênio! Os vestidos, costurei-os com uma linha mágica muito delicada, porém eficiente e apropriada a costuras igualmente delicadas, mas que não resiste a estados emocionais intensos: sentimentos negativos como ciúme, inveja, raiva, destroem a linha, desfazendo as costuras. Foi isso... Eu quis fazer os dois vestidos com pétalas, apenas variando a cor, mas a princesa Morgana insistiu em querer algo mais deslumbrante...

- E a masmorra?

- Ora, é impossível prender um espírito. Deixei-me trancafiar para não chamar a atenção, mas posso fugir até pelo buraco de uma fechadura.

- E como soube que eu queria conhecê-lo?

- Uma pombinha me contou...

- O Senhor...

- Você, se me faz o favor.

- Você também não gosta de meninos curiosos?

- Não há por quê! A curiosidade é mãe da ciência. Viva a curiosidade!

- E agora, ainda pretende correr mundo?

- Não, prefiro o sossego da minha máquina de costura. O mundo dos homens é muito complicado! Mas antes de voltar preciso livrar-me deste brilho, não vá tia Rosinha assustar-se, pensando que sua máquina pega fogo por dentro.

E dizendo isto, o bicho costureiro começou a sacudir-se no ar, fazendo movimentos rápidos de vai-e-vem para livrar-se da fosforescência. Propôs-lhe então o menino:

- Por que não se esfrega em minhas roupas, passando-me o brilho?

E assim fez o bicho, até ficar novamente invisível.

- Até mais ver. Cuida-te.

Tonico olhou a noite: breu puro, mas suas roupas iluminavam a mata ao redor. E das bandas do Reino das Princesas Vaidosas chegava ao bosque uma nuvem de alegres vaga-lumes


Epílogo


- Tonico! Tonico! Responde, meu filho!

Tiana procurava o filho na mata, aflita, pois de há muito o sol se apagara. Não era a primeira vez que o filho lhe aprontava uma dessas: vivia espionando as formigas, os grilos, as lagartas, os vaga-lumes e tudo o mais, e às vezes adormecia na mata. Como achá-lo naquela escuridão, pensou Tiana, que nem uma lanterna levava, tão apressada saíra de casa.

Um clarão entre as moitas conduziu Tiana ao filho adormecido na relva.

Ora, essa! As roupas a brilhar! Com certeza estava brincando com os vaga-lumes, pois nunca se viu tantos na mata, deduziu a mãe ao recolher o filho nos braços.

No dia seguinte Tonico dormiu até mais tarde e ao levantar-se, antes mesmo de tomar café, correu ao ateliê de costura da tia Rosinha. Estava lá o Elias mecânico.

- Ó tia Rosinha, a sua máquina está boa, não lhe encontrei nada de errado.

- Mas, como, se ontem não funcionava?

- Mas está ótima, experimente.

A costureira sentou-se com os pés na pedaleira, ajeitou um retalho sob a agulha e tic tic, tic tic, tic tic, a costura fez-se perfeita como nunca!

- Não entendo... não entendo... – balbuciou tia Rosinha. E quanto lhe devo seu Elias?

- Ora, não é nada. O que fiz foi só aplicar um tiquinho de óleo para lubrificar os mecanismos.

O tio Jaime observava tudo com expressão preocupada. Disse ao mecânico:

- Aceite ao menos merendar...

- Ah, pois claro, com muito gosto.

A costureira foi preparar a merenda enquanto seu marido chegava-se ao Elias e confidenciava:

- Não sei não, Elias, mas acho que a Rosa está caducando...

Tonico, que tudo observava, olhou a máquina de costura e sorriu. Depois saiu, sem pressa, chutando as pedrinhas do chão. Um bando de pombas passou voando e o menino acenou-lhes com as duas mãos: quem sabe não estaria entre elas a pombinha falante... ou a moça da melancia.

FIM


Perguntas que o leitor está fazendo agora

E a pombinha, encontrou o seu amor?

Encontrou. E o seu amo já era rei e a Moura Torta sua rainha!

A pombinha apareceu nos jardins do palácio dizendo: "Onde andará meu amo e a sua Moura Torta?". O jardineiro ficou intrigado com a fala e contou ao rei, que mais intrigado ficou. O rei mandou então que o jardineiro prendesse a pombinha e a levasse até ele. Logo se afeiçoaram. Mas a rainha, percebendo de quem se tratava, caiu de desejos por uma sopa de pombinha e nada a fez desistir de seu intento, até que o rei cedeu. Antes de dar a ave para a cozinheira real, porém, o rei acariciou-lhe a cabecinha e descobriu o alfinete que lhe cravara a Moura Torta. Então retirou o alfinete e o encantamento se desfez, virando pombinha em moça da melancia. A Moura Torta foi duramente castigada e expulsa do palácio. E o rei viveu feliz para sempre com sua nova rainha.

Cabe ainda outra pergunta: como um moço pobrezinho, que no início da história só tinha uma melancia, no final vira rei de um reino?

Não sei. Minha mãe não me contou. Nem contaram pra ela. Ao que tudo indica, a história da Moura Torta – da tradição oral – chegou truncada até nós, faltando um pedaço. Ninguém sabe, ninguém saberá...


PS: Li recentemente em "Contos Tradicionais do Brasil", de Câmara Cascudo, uma versão recolhida no Nordeste brasileiro na qual o moço não é pobrezinho, mas filho de rei, príncipe portanto, e filho único. Ao sair pelo mundo, encontra uma velhinha carregando um feixe de lenha e oferece-lhe ajuda; em agradecimento a velha lhe dá três laranjas (encantadas, claro). No mais a história segue como acima. A variante que contei foi-me passada por minha mãe e coincide com a de Monteiro Lobato em "Histórias de Tia Nastácia".

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5 de jun de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 4)


As princesas vaidosas
Em torno do rei, cortesãos e convidados divertiam-se com as piadas e pantominas de Sete Palmos, o maior anão do mundo ou anão gigante, como ele próprio gostava de se definir. Aguardavam as gêmeas aniversariantes. Em geral, como autoridade mor, o rei é sempre o último a chegar, mas não no Reino das Princesas Vaidosas; estas sim, chegavam quando queriam, faziam e desfaziam na corte como verdadeiras rainhas, mimadas e vaidosas ao extremo, mandonas e cheias de vontades, sob o olhar amoroso do velho monarca.
Nas paredes, entre janelas estreitas, tapetes coloridos davam um tom festivo e tochas acesas cediam luz e calor ao ambiente. Serviçais abasteciam de iguarias a grande mesa no salão enorme.
Tonico encostou-se à parede, semi-encoberto por um dos tapetes decorativos; a pombinha esvoaçou no salão.
Em dado momento, Sete Palmos deu uma cambalhota e rodopiou tilintando os guizos de seu uniforme, parando ao pé da escada para anunciar:
- Sua Alteza, a princesa Ramona...
Todos os olhares voltaram-se para a princesa, que desceu devagar e circulou no salão, deliciando-se com as caras de espanto e admiração dos cortesãos e convidados: para além de sua beleza natural, trajava um belíssimo vestido nunca dantes visto igual em parte alguma, todo confeccionado com pétalas de rosa em variados tons de vermelho, dos rosas mais suaves ao vinho mais profundo. Sucesso! Ramona não cabia em si de feliz!
- Sua Alteza, a princesa Morgana - anunciou o bobo.
Os olhares desviaram-se de Ramona para fixarem-se – deslumbrados! – em Morgana. Um "oh!" de surpresa e encantamento ecoou no salão: a princesa resplandecia num vestido composto por um sem número de pequeninas luzes piscantes, de tons amarelo-esverdeados, que formavam à sua volta um halo luminoso contrastante com a luz mortiça das tochas! A corte aplaudiu entusiasticamente a princesa! O rei embobeceu de orgulho!
Que prodigiosa costureira teria criado aquelas jóias sem par?
Retornada de suas avoanças, a pombinha arrulhou aos ouvidos de Tonico:
- Fiquei sabendo por aí que uma velha costureira, chegada há pouco, trabalhou em segredo para as princesas, pois elas queriam fazer surpresa e sensação na festa de 15 anos. E fizeram, pois não? E como estão lindas! Ai, ai, quem me dera estar dentro de um vestido como esses... Ah, sabes o que são aquelas luzinhas no vestido da Morgana, sabes? São vaga-lumes, todos costuradinhos uns nos outros...
- E soubeste alguma coisa do bicho costureiro? Cheguei a pensar que era coisa dele, mas se foi uma velha...
- Não, nada de bicho costureiro...
- E o teu amo, anda por cá?
- Também não, infelizmente.
O menino pensou em ir-se dali, mas quis apreciar um pouco mais da festa. A pombinha foi assuntar mais novidades.
Um final infeliz
Morgana passeou por todo o salão recebendo cumprimentos e elogios, sorridente e feliz, e parou em frente a Ramona, envolvendo a irmã em seu halo de luz.
Ramona já não sorria, suas faces avermelhavam e seus olhos pareciam disparar dardos contra a irmã.
- Falsa! – acusou Ramona, cerrando os punhos.
- Invejosa! – retrucou Morgana, retesando-se toda.
A corte emudeceu; o rei, escorando-se no ombro de Sete Palmos, empalideceu: sabia o soberano de muitas outras situações em que as princesas enfrentaram-se a unhas e dentes. Sempre perdoava e esquecia tudo, mas ali, em público, perante a corte e convidados e talvez até pretendentes – era demais!
- Que gênio! Que falta de modos! – comentou uma cortesã, discretamente.
- Mas também, criadas sem mãe, é nisso que dá! – cochichou a outra.
- E o rei nunca teve pulso sobre essas meninas, isso é que é – rematou uma terceira.
As princesas já levantavam as mãos para se engalfinharem, mas retiveram o gesto: o vestido de Ramona despetalava-se todo enquanto as luzinhas de Morgana desprendiam-se e voavam pisca-piscando no salão. Em instantes as duas estavam em roupas de baixo, de corpetes e calçolas!
A corte desabou em risos e galhofas! O rei, enfurecido, ordenou:
- Guardas! Prendam a costureira, à masmorra com ela!
As princesas, envergonhadas e aos prantos, correram escadas acima seguidas por suas damas de companhia, e Sete Palmos, tentando restabelecer a ordem, subiu numa cadeira e convidou os presentes a tomarem seus lugares à mesa.
E a nobreza, animadamente, caiu de queixo nas iguarias!
Um pouco depois, no intuito de alegrar o rei e divertir os presentes, Sete Palmos mandou que os jograis atacassem com suas cantigas. Ninguém entendeu por que um dos jograis deixou de lado o seu repertório e iniciou um improviso:
Vim de longe a este Reino
Pra jograr numa festança
E afinal o mais que fiz
Foi rir muito e encher a pança...
Pra quê?!!! Ao som da gargalhada geral, o rei desequilibrou de vez e ordenou, aos berros:
- Guardas! Prendam o jogral, prendam o bobo, prendam todo mundo! Na masmorra! Baixem a grade e prendam todos na masmorra!
Seguiu-se tamanha confusão, tamanha correria, que Tonico só foi dar por si já no pátio do castelo, com a grade do portal interno baixada e sem a menor possibilidade de fugir dali - pior que nos piores pesadelos! Um guarda reconheceu o menino.
- Olha o pirralho mentiroso! Anda cá, pirralho, vais para a masmorra com os outros!
Tonico só desejava acordar, se é que era pesadelo! Pensava já em beliscar-se quando da masmorra veio uma bola de fogo que o envolveu e elevou-o no ar e riscou o céu sobre as muralhas do castelo. O menino ainda viu, por instantes, voando a seu lado a pombinha.
- Adeus, menino da fonte. Vou em busca do meu amor. Adeus.
(continua no próximo post)

2 de jun de 2011

O BICHO COSTUREIRO (Parte 3)


O marrão e a pombinha falante

Tonico caminhava entre campos de trigo; em sentido contrário um pastor conduzia suas ovelhas, que tomavam toda a largura do tosco e estreito caminho. O menino colocou-se à margem e esperou que passassem os animais. Dos últimos do rebanho, um carneiro parou a olhar fixamente para ele. Conhecendo o significado desse olhar, Tonico disparou pelo caminho o mais rápido que pôde, enquanto o carneiro seguia na sua cola, focinho baixo e cornos à frente, em posição de ataque. Tonico corria e corria! Viu passar os trigais, a ponte, casas e pessoas, muitas pessoas rindo a não poder mais, nenhuma que tentasse barrar o marrão, e algumas até incentivando aquela doidice, como se fora uma competição: "Eia! marrão! Coragem, garoto, e prepara o traseiro!".
Quanta crueldade dessas pessoas, pensou Tonico. Mas o menino não tinha tempo a perder nem com pensamentos: a marrada era questão de instantes! Dirigiu-se então a uma grande árvore à beira do caminho e rodopiou ligeiro para detrás dela. O carneiro marrão não teve tempo nem tino para corrigir a rota e esborrachou-se no tronco da árvore, afastando-se meio estropiado e zonzo, sem entender nada do que acontecera.
Com o choque a árvore estremeceu e afugentou os pássaros que nela se abrigavam. E Tonico, ainda ofegante, ouviu, entre arrulhos, uma vós meiga e suave:
- Ora, se não é o menino da fonte!
E uma pombinha branca veio pousar-lhe no ombro. Tonico pegou-a e passou o dedo em sua cabecinha, sentindo sob as penas o alfinete que lhe havia cravado a Moura Torta.
- Olá! Que prazer revê-la! E o que faz a moça da melancia por estas bandas?
- Ainda não sei bem. Estou desnorteada... Saiba o menino que a velha, depois de fazer isto comigo, escondeu-se entre as folhagens – no meu lugar! – e quando meu amo chegou disse-lhe que, por ter demorado muito, o sol havia-lhe queimado a pele, deixando-a feia daquele jeito... E o bobinho acreditou!
- E como é homem correto, prometeu-lhe casamento – completou o menino.
- Pois é, pois é... Tenho vontade até de chorar!
- Deves é procurar por teu amo; ao fim, tudo dará certo.
- Achas?
- Tenho certeza.
- Assim até fico mais animada. E por onde devo começar?
A conversa foi interrompida pelo tropel de três cavaleiros bem trajados e portando alaúdes a tiracolo. Tratava-se de um grupo de jograis – trovadores do povo – e um deles dizia:
- Vamos, vamos, não podemos chegar atrasados à festa. Nem o rei tolera retardatários. Além do mais, eu não vejo a hora de rever o meu amigo Sete Palmos. Vosmicês vão gostar dele, é muito divertido.
- Agora já sabes por onde começar – respondeu Tonico à pombinha. Vamos.

Um convidado do rei

Elevando-se no topo de um outeiro, as torres e muralhas ameiadas do castelo. Só então, após livrar-se do marrão e refazer-se da estafa conversando com a meiga pombinha, Tonico percebeu que havia chegado ao Reino das Princesas Vaidosas. A pombinha perguntou ao menino:
- Como hás de entrar no castelo, se há guardas no portal da muralha? Para mim, que vôo, é fácil, mas tu?!
- Tenho uma idéia. Vamos...
Depois de atravessar a ponte levadiça sobre o fosso que contornava as muralhas, Tonico apresentou-se à guarda do portal.
- Que queres, pirralho? – perguntou-lhe um guarda.
- Alto lá, senhor guarda, e veja como fala! Sou D. Antonio Fernando e vim a convite de Sua Majestade por indicação do meu amigo Sete Palmos, para abrilhantar a festa na corte.
O guarda riu e tomou ares de zombeteiro.
- E como D. Antonio pensa em abrilhantar a festa?
- Apresentando a minha pombinha falante, uma raridade – respondeu o menino.
- Pomba falante? Essa é boa! Conta outra, garoto! – caçoou o guarda.
A pombinha, que até ali não entendera o plano do menino, interferiu com seu jeito manso.
- Pois saiba o senhor guarda que falo sim e falarei diretamente a Sua Majestade se insistir em não nos dar passagem...
O guarda encheu-se de espanto.
- Pombinha falando... Vê-se cada coisa neste mundo de Deus!
- E preciso que me faça um favor, senhor guarda – disse o menino. A minha mula empacou na subida do outeiro, à custa do peso que carrega. Que alguém vá aliviá-la. E me tragam o baú com as minhas roupas. Tenho de aprontar-me ligeiro para o espetáculo.
- Sim, sim, sim... - concordou o guarda, indicando a entrada e fazendo mesura, meio abobalhado, enquanto considerava poder tratar-se de outro anão gigante, já que era amigo de Sete Palmos, embora tivesse cara de menino.
Tonico, com a pombinha no ombro, seguiu entre dois muros altos até o portal da muralha interna. Á sua frente, afinal, o castelo.

(continua no próximo post)