9 de mai de 2013

Continho das empadas


Autor: Élcio Alves
“Minha vida é repleta de sutilezas. Comecei nascendo, continuei me desenvolvendo, na vida estou crescendo,  só não sei a hora de dizer: Estou morrendo. Estudo para aprender. Ensino para trocar, vivo para realizar”.
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Publicado na antologia VOZES, coordenada por Adriana Kairos, da ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora.
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As propagandas na televisão sempre nos mostram famílias felizes e sorridentes, as quais possuem bens materiais como fonte da felicidade. Porém, em uma grande dimensão da realidade real, crianças trabalham como se fossem gente grande. A infância é uma prisioneira que nunca terá liberdade condicional.
Narinho produzia e vendia empadas durante a noite, na comunidade do Salgadão, com o objetivo de ajudar nas despesas da casa e em seus anseios de consumo. Ele tinha 10 anos e já sabia ser um bom negociador.
Por onde passava, Narinho oferecia suas mercadorias. Em uma lanchonete, ao ver um grupo de amigos degustando uma pizza de quatro queijos, ofereceu cordialmente suas empadas, nos sabores: queijo, presunto e carne moída. Mas logo foi repudiado por um dos integrantes daquela turma:
- Sai fora, remelento! Acha que eu vou te dar dinheiro para você cheirar cola?
- Cheirar cola nada. Ele vai é comprar uma pedrinha, seu cracudinho! Disse um dos rapazes.
- Qual foi? Tô vendendo umas empadas na dignidade, na social, e vocês estão querendo me esculachar? Vou lá na boca agora… Vocês vão ver só…
Narinho contactou um de seus maiores fregueses: Arisco, gerente da boca local. O mesmo limpava uma arma e falava em um rádio-transmissor.
- Arisco! Disse o menino quase chorando de raiva.
- Fala tu, pentelho. Quanto tá a empada de frango?
- Tá um real, mas não vim aqui te vender não! Queria te dar um papo reto.
- Qual foi então, Narinho?
- Tem uns feladaputas ali na lanchonete que me esculacharam só porque eu ofereci a eles as minhas empadas.
- Quem são? Dá o papo aí.
- Aqueles lá, ó…
- Valeu…
- Trucuta, Valentão… Bora ali…
- Bora patrão!
- O rapá! Então vocês gostam de pizza, né?
- Que isso cara, eu falei com ele brincando.
- Brincando é o caralho! Zezim, manda a maior pizza que tu tem aí. Esses arrombados vão comer no seco para vocês aprenderem a não esculachar o menor humilde.
- Aí, Arisco! Eu ia entregar  essa pizza ultra-gigante de pimenta mexicana com sardinha. Mas pega aí…
- Serve esses dois aí, Zezim…
- Trucuta, Valentão, fica aí na escolta para ver se eles vão comer tudinho. Se vomitarem, faça eles comerem o próprio vômito.
- Já é, Patrão. Bora, seus viados. Come essa porra logo!
- Não aguento mais, Arisco…
- Nem eu…Tá foda para engolir…
- Foda-se, se não der pela boca enfia pelo rabo a dentro… E vocês aguentam sim… Trucuta, Valentão, se eles ficarem nessa pode passar eles…
Não precisa passar eles não, Arisco. Ele já está todo surrado. Já tiveram o que mereciam.
- Já é Menó. Qualquer coisa é só falar. Valentão, dá um pau neles e solta eles por aí.
- Valeu, Arisco.
Depois de fato, Narinho continuou a vender suas empadinhas. Já mais velho, saiu da comunidade para ir a um evento. Reencontrou os fregueses da lanchonete. Foi sequestrado. Encontraram-no morto em uma rua no bairro de Guadalupe. Ninguém mais experimentou as suas empadas. Não há mais sabor na vida dos familiares e amigos.O rapaz não chegou a fazer sua propaganda na mídia. Fez momentaneamente a propaganda de sua vida.

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