3 de abr de 2013


          A GREVE

          Pá no cavaco, cavaco na vagonete; empurra a vagonete, despeja na boca da caldeira, retorna. Mais pá no cavaco, cavaco na vagonete, empurra... O trabalho era árduo: encher de cavacos de pinheiro ou eucalipto as grandes caldeiras, nas quais se preparava a pasta de celulose, matéria-prima do papel. Cada turno tinha por tarefa encher uma caldeira, custasse o que custasse. Não se podia perder tempo, portanto. No inverno era ainda pior: o frio enregelava o nariz, as orelhas, os dedos... E se ao menos o salário compensasse...
       Os operários já pensavam nisso fazia tempo: muito trabalho e pouco salário!  Pensavam, mas raramente comentavam entre si – o capataz estava sempre de olho! E os empregos eram escassos, carecia preservá-los.
          De volta para casa, longe do capataz, um homem falou para outro:
-          Ó pá, não achas que estamos trabalhando muito e recebendo pouco?
-          É evidente, mas que fazer se o gringo não dá aumento? Se ao menos o capataz...
 -   Que capataz, pá! O gajo nunca vai nos ajudar. Não quer se indispor com o patrão, receia perder o posto.
          -          Então só nos resta esperar a boa vontade do gringo – conformou-se o outro.
          -   Se depender de boa vontade, só vamos ter aumento quando as galinhas criarem dentes – disse um terceiro trabalhador. Precisamos fazer alguma coisa, carago! (1)
          -    Uma greve – sugeriu, com voz baixa, o quarto homem do grupo.
          Sim, uma greve, por que não? E os quatro foram conversando sobre essa possibilidade enquanto caminhavam pela estrada que separa a fábrica da aldeia. Outros trabalhadores se interessaram pelo assunto e aderiram ao grupo. Quando chegaram à loja do Grandela já estava tudo decidido: iriam deflagrar uma greve para reivindicar aumento salarial. Selaram o acordo com um quarteirão (2) de vinho para cada um. Saíram depois, cada qual encarregado de avisar outros companheiros que não participaram do concerto.
          Domingo, início de turno. Só a cavaqueira continuava zunindo, mas sem que a abastecessem com toras de eucalipto, parara de cuspir cavaco. As pás num canto, as vagonetes paradas, os operários de braços cruzados... 
          -   Mexam-se, homens! O turno já começou – dizia o capataz, sem entender o que acontecia.
          -  Estamos em greve – disse o que parecia liderar o grupo. Sem aumento não trabalhamos!
          -    Aumento? Estão doidos? Que posso eu fazer, se sou apenas...
          -    Queremos falar com o mister, nos entendemos com ele...     
          -          Pois vão falar, vão falar, eu cá não posso nada! – encerrou o capataz, irritado.
          O que liderava tirou uma comissão para negociar com o inglês administrador geral da fábrica:
          -          José, Manoel, também tu Benjamin, vamos ao gringo.
          O inglês administrador residia nos arredores da fábrica, em casa grande e confortável, em meio a pinheiros e eucaliptos. Foi avisado da presença dos trabalhadores. Não tardou em atendê-los, porquanto lhe pareceu tratar-se de assunto sério, já que não era comum ser procurado por operários:
           -          Que trabalhadores querrer? – perguntou o administrador, após cumprimentá-los.
        -    Estamos em greve. Só voltamos ao trabalho com aumento de salário – respondeu o líder dos grevistas.
       - Grreve? Aumenta? Quanto trabalhadores querrer de aumenta? – inquiriu o inglês, preocupado e coçando o cavanhaque.
          - Um tostão a mais por hora de trabalho. Nem mais nem menos – disse o líder com firmeza.
O inglês desanuviou e não pode conter uma gargalhada. E, recobrando a compostura:
          - Uma toston? Trabalhadores parrar trabalha por uma toston? Orra bolas! Eu dar toston de aumenta, eu dar! Ao trabalha, homens, ao trabalha, ao trabalha! 
          Depois destes fatos o meu futuro pai decidiu tentar a sorte no Brasil. Lá, com certeza, havia emprego à farta para quem se dispusesse ao trabalho. E vontade de trabalhar não lhe faltava...

(1)   carago – alcunha pejorativa dada aos galegos; espanhol. Era usada sem qualquer sentido referente a galegos ou espanhóis; expressava irritação, raiva, contrariedade, espanto, etc.
(2)   quarteirão – ¼ do quartilho, antiga medida para líquidos, equivalente a 665 ml.

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