4 de dez de 2013

Vô Tônico perfumado

"Árvore das Nações"- original pintado com a boca por
 José Henrique Breda, dos Pintores  com a boca e os pés. 
Yasmin passou um fim de semana comigo. Fui buscá-la à porta do trabalho de sua mãe, em São Cristóvão. Já em casa, não demorou muito e vasou:
- Vô, era pra ser segredo mas eu não aguento, vou falar: comprei um presente de Natal pra você – um perfume.
A mãe de Yasmin, para garantir um dindim extra, está vendendo cosméticos e perfumarias. A menina tinha uns dinheirinhos, pacientemente poupados para ocasião de mor importância, e resolveu gastá-los presenteando o avô. O que tinha não era suficiente, a mãe concedeu-lhe um desconto abrindo mão de parte da sua comissão e a conta fechou. Escolheu e encomendou o perfume, que me daria quando, no domingo, fosse levá-la em São Gonçalo, onde mora  agora (só até o fim do ano, quando volta para o Rio).
Na volta, depois do trem, do ônibus e da barca, paramos perto do Terminal  Rodoviário de Niterói, onde embarcaríamos para São Gonçalo. Frente a nós havia uma tenda de lona, uma espécie de mini-circo que não costumava estar ali. Era uma livraria. Entramos. Encontrei, numa das bancas, uma linda edição da “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes, que há muito desejava dar a Yasmin. Comprei-a e dei-lha, como presente de Natal.
Já em sua casa, e dando-me o perfume, disse-me ela:
- Vô, eu sei que você não costuma usar perfume mas este você tem de usar, foi dado com muito carinho e eu quero você cheirosinho. É assim, bota um pouquinho nos pulsos, no pescoço e atrás das orelhas, tá?
Confesso que nunca desenvolvi o hábito de usar perfumes, nem quando saía para namorar (e já lá vão muitos anos). Até desodorante raramente usava. Agora não tem jeito, tenho que usar o perfume que Yasmin me deu com tanto gosto e à custa da dilapidação de seu pequeno (grande!) tesouro. Mal sabe ela que o meu perfume é ela mesma, os meus filhos e a minha Rita, e o fato de, ao longo da vida, não ter feito inimigos nem  alimentado ressentimentos e rancores. Isto é o meu perfume.
Mas, caríssimos, se me encontrarem por aí exalando um discreto perfume, não estranhem. Estarei cumprindo uma determinação de Yasmin.

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Me faça esse carinho

5 comentários:

Jussara Neves Rezende disse...

Que crônica deliciosa, João Antônio! A pequena Yasmin deve ser mesmo um perfume a inspirar um texto tão doce. Amei!
E confesso: sou como a Yasmin e não consigo esperar a hora certa de entregar o presente. Vou logo contando... rs
Abraço, lindo e santo Natal junto de seus queridos. Obrigada pela companhia ao longo do ano... e pela amizade!

Joao Antonio Ventura disse...

Agradeço muito também a sua presença no Vô Tônico. Desejo-lhe um Natal muito feliz, extensivo à sua família, e um 2014 repleto de realizações. Abraços.

Joao Antonio Ventura disse...

"Olá João. Amei o texto, conversa gostosa com o leitor tendo como protagonista essa doce menina. Linda. Parabéns! Feliz Natal, bom ano novo. Abraço"

O comentário acima é de autoria de Mariza Cardoso, de Criciúma - SC, amiga e frequentadora deste blog. Não pôde ser originalmente publicado em virtude de acidente técnico perpetrado por mim.

mariza disse...

Oi, postei um comentário mas acho que deu erro técnico.

Joao Antonio Ventura disse...

O erro foi meu, querida. Abraços

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