5 de out de 2009

Crônica de um Amor Impossível


Nunca gostei de ter animais em casa. Nada contra animais domésticos: não gosto é do trabalho que dão. E animais têm de ser bem tratados, caso contrário é melhor não tê-los.
Mas a minha mulher não pensava exatamente assim, gostava de animais, e pronto. Um dia comprou um pequeno viveiro e um casal de periquitos australianos lindos de morrer. Como eu pensava, sobrou para mim: alimentação, troca de água, limpeza do viveiro, era comigo mesmo. E mais: o viveiro ficava no terraço e não havia um lugarzinho em que os bichinhos ficassem completamente protegidos do sol e do vento, que às vezes soprava forte e, para resguardá-los, eu precisava mudar de lugar o viveiro duas vezes ao dia, de manhã e à tarde. Entenderam por que não gosto de animais em casa?
E como se não bastasse, veio a minha mulher com mais um periquito, que lhe dera a vizinha. Um periquito verde, brasileiríssimo. Dei-lhe por moradia o segundo andar do viveiro.
E assim fiquei, cuidando dos três periquitos. E observando o comportamento deles.
O periquito verde era triste e quieto, conformado ao cativeiro, distante da alegria irrequieta e barulhenta de seus irmãos em liberdade. Os australianos pouco diferiam disto, apenas se movimentavam mais.
Mas uma coisa me intrigava. Periquitos são aves geralmente carinhosas, vivem se tocando, ajeitando as penas um do outro, brincando, aos beijinhos, por assim dizer. E os meus australianos não procediam assim, ficavam juntos, mas era como se estivessem sós ou brigados. Estranho. E sendo um casal, mais estranho ainda. Seriam mesmo macho e fêmea? Como identificar-lhes o sexo?
Recorri a uma enciclopédia. O sexo dos periquitos australianos se identifica pelo bico, ou melhor, pelo nariz: é azul a área ao redor das narinas, no macho; na fêmea, bem clara.
Então eu tinha um casal de periquitos, sem dúvida. Um deles, de um azul celeste lindo, estriados o dorso e as asas, e azul o nariz, era o macho; o outro, todo branco com reflexos amarelo-claro e nariz quase branco, era a fêmea.
Apesar disso permaneciam em atitude de casal brigado; nada rolava entre eles. Será que o macho não era chegado? Ou eram ainda muito jovens?
Abreviando a história desse estranho casal: a periquita fugiu. Escapou quando os meninos mexeram na portinhola do viveiro.
Condoído com a solidão repentina do periquito, resolvi mudá-lo para o compartimento superior, onde estava, também solitário, o periquito verde. Assim ambos teriam, ao menos, companhia.
Mas não é que o periquito australiano mudou completamente de atitude! Achegava-se ao periquito verde, mordiscava-lhe as penas, beijocava, assanhava-se todo! Precisamente o comportamento que eu esperava dele com a periquita fugida.
E mais uma descoberta, esta de outro modo impossível: o periquito verde era fêmea. Não havia o que duvidar, o instinto animal não se engana: uma periquita verde, sim senhor!
Mas ainda havia o que decifrar. Por que não rolara nada com a periquita fugida? Era tão graciosa e delicada, pezinhos rosados e olhinhos vermelhos, um luxo, uma princesa!
Voltei à enciclopédia disposto a desvendar o mistério. Recomecei a leitura do ponto que terminara e já na página seguinte ficava esclarecido: a periquita fujona não era periquita, mas um macho albino! Daí o equívoco. O nariz era quase branco não por ser fêmea, mas por ser albino! E eu que chegara a duvidar da virilidade do periquito australiano!
Mas deixemos o periquito fujão e voltemos aos dois outros.
O assédio era constante. O australiano não sossegava nem dava sossego à brasileira. Empertigava-se todo, mostrando-se belo e elegante em sua casaca estriada, saltitava, rodeava a periquita, cobrindo-a de carinhos e chilrados ao pé do ouvido. Ela nem ligava, impassível e fria. O máximo que fazia era esquivar-se. Ele não desistia. E no auge do assanhamento intentava acasalar, escalava com dificuldade, pois em nada colaborava a periquita; escorregava, tenteava, equilibrava-se, mas a periquita derrubava-o com um derrear de asa.
Eta! periquita difícil!
Ela até que era paciente com o atrevido galanteador, mas tudo tem limite e às vezes se aborrecia, avançava zangada, pondo-o à distância. Acalmava-se o periquito, para voltar à carga mais tarde.
E ao voltar, a periquita inclinava a cabeça e olhava-o de través, como quem diz: "Vê se te enxerga, atrevido! Vai procurar as da tua espécie e me respeita! Seu devasso!".
O periquito nem se abalava com as reprimendas. Vergonha já não tinha, nem brio, se é que algum dia os teve; nem preconceito de cor ou de espécie; tinha urgências a saciar, isto sim, e no cativeiro não havia escolha: não tinha tu, ia tu mesmo.
Era muita cara-de-pau!
A periquita evidentemente não tinha culpa daquela situação aflitiva; não era questão apenas de má vontade ou recato de costumes: é que não havia química entre eles, literalmente falando, os feromônios não combinavam. Ela se comportava conforme aos determinismos naturais da espécie, inscritos no instinto e balizados pela bioquímica. O australiano é que era um degenerado.
E assim passaram-se os dias: o periquito em desespero viril, se lixando para os feromônios; a periquita irredutível, fiel à espécie.
Até que um dia o periquito amanheceu caído, morto. Que teria acontecido? Pensei logo em brigalhada entre os dois, o periquito levando a pior. Ou o seu coraçãozinho não resistiu à tensão que o consumia? Nada disso, creio. Às vezes eu esquecia de protegê-los com uma toalha pendurada na lateral do viveiro. De madrugada ventara muito e a temperatura caíra. Com certeza rajadas de vento frio mataram o periquito galante e algum tempo depois a periquita intransigente amanheceu nas mesmas condições.
Salvou-se o periquito albino, se não sucumbiu à liberdade.
Mais uma razão para não ter animais em casa, se não sabemos ou não podemos cuidar deles como é devido.

 
Agosto de 2009

2 comentários:

Teresa Ventura de Andrade disse...

Adorei essa história de amor impossível.
Vou ficar esperando as próximas.

Anônimo disse...

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