Há trinta e três ou trinta e quatro anos, não sei precisar exatamente, passei por Paranaguá voltando de uma viagem que fiz ao Sul em companhia de Rita, minha irmã mais velha e duas sobrinhas; dirigia uma Brasília e subi a Serra do Mar, entre o litoral e Curitiba, por uma estrada encantadora, florzitas à beira, entre a exuberância da mata atlântica. A estrada, uma das antigas trilhas abertas pelos índios que iam do litoral ao planalto colher pinhões, melhorada posteriormente pelos colonizadores, creio que fosse a Estrada da Graciosa, naquela época ainda com trechos em paralelepípedos e outros em terra batida. Agora a terra batida virou asfalto, mas a graça da estrada perdura, não mais com singelas florzitas, mas touceiras e touceiras de hortências azuis à beira. Embora, a meu gosto, preferisse as florzitas.
Porém o que mais me encantou naquela travessia foi a vista de um trenzinho maria-fumaça parado numa estação em meio à floresta. Àquela época, de há muito trafegavam as locomotivas a diesel, mas ali estava uma a vapor, a maria-fumaça da minha infância. Não pude parar para apreciá-la melhor e bisbilhotar-lhe a presença longeva e sua vida pregressa naquele mundo verde. Mas não a esqueci, sua imagem permaneceu em mim.
De lá para cá tenho visto muitas fotos de litorinas ou trens de tração diesel atravessando pontes ou viadutos da estrada de ferro Paranaguá-Curitiba. E sempre com a imagem daquele trenzinho maria-fumaça na mente, alimentei o desejo de um dia viajar naqueles trilhos, não só pelo trem, mas pelo grandioso cenário em que ele trafega.
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Passando pelos mananciais de Piraquara |
Desejo saciado. O trem, com dezoito carros e duas locomotivas, partiu lentamente de Curitiba apitando nas passagens de nível, enquanto a guia turística resumia fatos da história da ferrovia e distribuía o kit lanche. Em Piraquara, antes da descida, uma parada técnica para dar passagem a um trem de carga que subia. Depois sucederam-se as emoções: o Túnel do Diabo com quinhentos metros de escuridão, a cascata Véu da Noiva, mais túneis, a arrojada ponte São João, sobre o rio de mesmo nome, e o ápice da viagem, o Viaduto do Carvalho contornando as escarpas do Desfiladeiro do Diabo, onde o trem parece flutuar no espaço; no alto, quase furando as nuvens, o Pico do Diabo que, segundo a guia turística, visto de certo ângulo semelha um cão sentado de costas. Cenário grandioso! Se alguns topônimos são do diabo, a paisagem é divina!
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Rumo à descida |
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Um dos muitos túneis. O braço em primeiro plano é do
meu filho Daniel |
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A exuberante mata atlântica |
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Cascata Véu da Noiva |
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A arrojada ponte São João, principal dificuldade técnica
na construção da ferrovia |
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O rio São João |
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Ao fundo, a ponte São João
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Ao fundo, o início do trem
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O Pico do Diabo, coroando o desfiladeiro do mesmo nome |
E mais túneis, o Santuário do Cadeado e uma cruz à beira da ferrovia. Neste ponto, durante a revolta do Contestado, foram assassinados um tal Sr. Barão e seus asseclas, que iam presos de Paranaguá a Curitiba. Outra parada na estação do Parque Estadual de Marumbi, única em operação no trajeto, onde alguns aventureiros saltam para acampar.
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Estação do Parque Estadual de Marumbi |
Em Morretes, fim da viagem de trem (os de carga seguem até Paranaguá), almoçamos o prato típico da região, o barreado. Até Yasmin gostou.
Pela tarde fizemos um breve tour pela cidade de Antonina, antiga cidade portuária, para a qual a ferrovia estendeu um ramal, ora desativado (e creio que de há muito). Vi a estação ainda preservada e a caixa d'água elevada, com mangueira para abastecer as locomotivas a vapor - verdadeiro museu a céu aberto. Compreendi que aquela maria-fumaça que vi há mais de trinta anos estaria parada em alguma estação deste ramal, àquela época teimosamente ainda operando com tecnologia a vapor. Voltamos de ônibus pela Estrada da Graciosa, que inicia justamente em Antonina.
Os amigos que tiveram paciência de me ler até aqui devem estar pensando: Que gosto esse do Vô Tônico! Trens, locomotivas, maria-fumaça, que coisa mais antiga e atrasada! Que gosto mais sem jeito!
Digo-vos, meus queridos, gosto de trens porque eles fazem parte da minha vida desde o início (vejam Cacos da Memória). E como diz o meu amigo virtual mineiro Sylvio Bazote: "Gosto de trem porque trem é um trem bão, uai!".