9 de nov de 2011

No que dá frequentar sebos


Faz poucos dias comprei um livro (que novidade!) numa feira de sebos na Rua da Alfândega: Estilística da Língua Portuguesa, de M. Rodrigues Lapa, Livraria Acadêmica, 4ª edição, 1965. Paguei R$ 1,00!
O autor, creio ser português e não sei se ainda vive. O conteúdo, como o título indica, trata do estilo ao escrever, dos processos da linguagem, dos arranjos das palavras e da expressividade maior ou menor dos vocábulos, dependendo do arranjo que se faça. Tenho certeza que o livro será bem mais valioso, para mim, que agora vivo metido a escrever, do que o preço pago.
Mas não quero falar-lhes de estilo, cada um tem o seu, embora seja sempre possível e desejável melhorá-lo. Quero falar-lhes de outra coisa, ao final estilo também, senão literário, estilo político. Quero falar-lhes do estilo do politicamente correto, quando envolve o uso de palavras.
De uns tempos para cá tenho ouvido pessoas dizerem comunidade em substituição ao antigo e expressivo favela. O que é comunidade? Numa de suas acepções, conjunto de habitações e seus habitantes num determinado espaço geográfico. Neste sentido Marechal Hermes é uma comunidade, assim como Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz, São Gonçalo, Icaraí, Rocinha, Mangueira, Vila Kenedy, Cidade de Deus... Tudo é comunidade! O termo é por demais amplo, geral, abstrato e intelectual. E por dizer tudo, nada diz, ou quase nada! É um substantivo pouco ou nada expressivo.
favela é quase um adjetivo. Quando penso ou falo o substantivo favela, embutidos no termo vêm vários qualificativos: favela é um lugar de habitações precárias, carente de saneamento básico, de serviços e equipamentos públicos, de segurança...; reduto de bandos criminosos e, por conseguinte lugar de violência e medo; e traz em si, até, um pouco da história do nosso Nordeste, que meus esclarecidos leitores conhecem bem, e que só vou aqui mencionar em favor dos meus leitores de além-mar.
Favela é uma leguminosa silvestre, abundante outrora no Morro da Favela, lugar onde o beato Antonio Conselheiro ergueu o seu Arraial de Canudos, no sertão baiano, e contra o qual foram três expedições militares a combatê-lo, no final do século XIX. A saga é narrada por Euclides da Cunha em "Os Sertões". Após o conflito, os soldados retornados não tinham onde morar e para tal subiram o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, e construíram lá os seus barracos. O morro passou a ser conhecido por Morro da Favela, uma referência a Canudos, e daí por diante todo aglomerado de construções precárias nos morros cariocas designou-se por favela.
Quando digo favela, digo tudo isto sem precisar dizer! É, como disse, um substantivo-adjetivo, prenhe de significados e estourando de expressividade, por tudo quanto evoca à nossa imaginação.
Outra palavra em voga nos últimos tempos: afro-descendente. Trata-se de um adjetivo gentílico para designar negros, mulatos, etc, no lugar dos adjetivos negros, mulatos, etc. Outra invenção dos ideólogos do politicamente correto que desaconselham o uso de tais adjetivos por serem pejorativos ou até mesmo ofensivos. E o que diz o gentílico afro-descendente? Apenas indica a origem remota da pessoa. Só. Não tem nenhum outro qualificativo para o objeto a que se refere. E se ampliarmos para trás a perspectiva do tempo, veremos que o homo-sapiens surgiu na África e se espalhou pelo mundo; portanto é afro-descendente o japonês e o chinês, tanto quanto o europeu e o africano. Somos todos afro-descendentes: África é a Grande Mãe de todos nós!
E o adjetivo negro, o que nos diz? Não obstante ser também abstrato, nos traz de imediato um qualificativo absolutamente concreto – porque visível – a cor da pessoa. E ainda evoca, neste nosso Brasil, aspectos culturais, tais como a música popular, a culinária, danças e ritos religiosos, entre outros. Mas espera aí, senhor; a palavra afro-descendente também evoca esses aspectos culturais, não acha? Não! Não acho. O negro e a palavra negro é que sempre estiveram ligados à formação da nossa cultura. O uso de afro-descendente é recente e, apesar disso, a palavra já nasceu fraca e descorada. Não tem expressividade.
Não sou ingênuo, porém; sei que palavras como favela e negro/negra são usadas (mais no passado que agora) para desqualificar, discriminar, xingar e ofender. Sei disto muito bem. Justamente por serem palavras expressivas trazem também o preconceito como qualificativo. Mas as palavras não têm culpa; de nada adianta trocá-las. O que discrimina e ofende são os sentimentos que pegam carona nas palavras e se manifestam por outras linguagens, pela entoação da voz, pela expressão facial e trejeitos de corpo do ofensor. As pessoas que ofendem continuarão ofendendo e amanhã as novas palavras (comunidade e afro-descendente) estarão já estigmatizadas pelo preconceito.
Aos ofensores: denúncia e punição! Às palavras: liberdade!
E por já me ter alongado bastante, peço licença aos meus compatriotas, favelados ou não, dentre eles os ideólogos do politicamente correto, para dizer as derradeiras palavras desta crônica, que faz tempo estão a me coçar a garganta:
Afro-descendente é o c*!!! Somos todos negros, brancos, mulatos, mamelucos e cafuzos; somos mestiços de todas as cores e tons; somos BRASILEIROS, com todo respeito!

*Isso mesmo que o leitor pensou.


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