20 de jan de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além - 6

Expedição ao milho verde
Último dia de 2013.  A manhã chegou envolta em névoa baixa. Francisquinho disse: “Névoa baixa é sol que racha”. E foi. Logo depois a névoa se dissipou e o sol veio rachando.
Iam matar uma novilha para a churrascada da passagem de ano. Não me apetecia o espetáculo e preferi ir com o José Barbeiro visitar o córrego e o tanque para piscicultura. Para tal calcei um par de galochas, gentilmente cedido pelo anfitrião. Quando voltamos a novilha já era descourada e havia outra missão em preparo: buscar milho verde para fazer pamonha e curau. Eu já havia ajudado a minha cunhada Neuza a fazer o doce de leite, mas apenas pegando a colher de pau e mexendo o leite no tacho. Nem mais podia fazer. Eu queria participar de alguma coisa, de algum procedimento na fazenda. Se por mais não fosse, ao menos para ter uma história pra contar. Quem ia cumprir a tarefa era a Juliana, acompanhada por um menino. Ninguém mais se dispunha? Tanta gente e Juliana vai quase sozinha?
Neguinho procurava voluntários. Apresentei-me. Em seguida também minhas duas sobrinhas, Gabriela e Daniela se dispuseram. O marido desta última, o Rafael, ia ao volante da F 1000, nosso pau-de-arara. Nem cogitava a necessidade de tanto aparato para ir ali, numa rocinha de milho… Vai ser moleza. Juliana ia na cabine, mas de última hora resolveu subir  à boleia. Melhor para mim.
E roda rolando na estrada. Perto da vila de Serra Azul bifurcamos noutra estrada, e mais além, noutra. Para quem, como eu, imaginava uma rocinha de milho ali adiante, já estava demasiado longe. Fui pensando no caso: em terras de pecuária, uma rocinha de milho e outros produtos corriqueiros é difícil e quase sempre longe. A pecuária extensiva também estava por trás do que veio a seguir: a primeira porteira. Gabriela desceu da boleia e abriu-a. Depois a segunda, Gabriela idem. Dali em diante compreendi a função do carona na cabine e passei a descer rapidamente para abrir porteiras e colchetes. E foram muitas porteiras e colchetes!
Já no sítio dos pais de Juliana, que estavam viajando, largamos o pau-de-arara e seguimos rumo ao milharal. Juliana no comando da expedição, a cavalo,  e eu atrás, brincando de cabo cerra-fila, cuidando da retaguarda da tropa, não vá um soldado se dispersar ou perder.
Próximo ao destino, a comandante apeou e amarrou o cavalo à sombra de um arbusto. Seguimos mais uns cinquenta metros a pé, embrenhamo-nos no milharal, onde preferi encher um saco com as espigas colhidas pelos outros. O sol rachava e rachava o meu entusiasmo! E eu não gostava de pamonha tanto assim! Mas restava o brio. Com as meninas, arrastei dois sacos de espigas até as proximidades do cavalo e sentei-me a descansar. Abelhas tiúbas (creio) entravam e saíam da fenda de um matacão chamuscado, o que indicava que elas refaziam a colmeia destruída anteriormente a fogo. Neguinho já me contara a história da expedição ao milho do ano anterior, quando foram atacados por um enxame de abelhas europa. Esconderam-se dentro do carro, mas os vidros não fechavam e o jeito foi sair correndo, para o lado que calhava, cada um por si e Deus por todos. Foi a salvação, pois as abelhas dividiram-se em perseguição aos fugitivos e, assim, não tiveram poder ofensivo suficiente para fazer vítimas. Afastei-me das tiúbas, apesar de parecerem pacíficas.
Quatro sacos de espigas. Juliana orientou a amarração dos sacos e o ajuste da carga ao cavalo. Iniciamos a volta. Mais à frente dois sacos foram ao chão, justamente aqueles que eu amarrara. Recomposta a carga, continuei na retaguarda da tropa, agora não só pela função de cerra-fila, mas a pedido do corpo. Próximo ao sítio, na estrada, deixei a soldado Gabi descansando sob uma árvore e segui no encalço do grupo. O cavalo e todos sumiram de repente. Segui pela estrada no intuito de descobrir a trilha de aceso ao sítio. Nada. Já pensava seguir até uma elevação da estrada para olhar o entorno, quando notei, à esquerda, a cúpula de um arvoredo conhecido: era o sítio. Que maçada! Logo eu, o cabo cerra-fila! Perdido! Desgarrado da tropa! Retornei, acessei a trilha e juntei-me aos companheiros, bem a tempo de beber água de coco providenciada por Juliana. Oh! delícia! A comandante ainda recolheu cocos verdes, abacates e ovos para levar á Camaçari.
Retornando, a maratona dos colchetes e porteiras! Por duas vezes abri colchetes e me fechei do outro lado. As meninas riam na boleia!
A esta altura os leitores já perceberam porque não apareceram voluntários para a expedição. E não só pelas abelhas europa do ano anterior.
Chegamos à Camaçari após o almoço. Não parei até que a carga estivesse na dispensa, eu mesmo carregando dois sacos no lombo.
Banhei-me e almocei. Estava moído. Prepararam-me uma rede à sombra do tamarindeiro. Deitei, procurando evitar uma réstia de sol no rosto. Desajeitei-me e fui ao chão, sob o  riso geral. Foi o último mico do dia.  

PS: A expedição não levou fotógrafo, por isso não há ilustrações.

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Me faça esse carinho

2 comentários:

Jussara Neves Rezende disse...

Mas, João Antônio, você escreve! Estava de antemão desobrigado de ajudar... rs

Anônimo disse...

Que furada em tio.Mais fiquei com vontade de passar por essa experiência. Se caso vc um dia voltar como me fala, que eu gosto dessas viagens.

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