15 de jan de 2014

Onde o vento faz a volta e mais além


Segunda etapa da viagem

Íamos passar o réveillon numa fazenda de amigos a 130 km de Redenção. Em estrada de barro. Nada menos de quatro horas de viagem na boleia de uma F 1000 – o nosso pau-de-arara. Acordamos cedo para reunir a tropa e ajeitar a bagagem: barracas, colchões infláveis, churrasqueira, carvão, um razoável estoque de cervejas e refrigerantes, gelo, caixas e mesa de som, um pequeno gerador a diesel, lanternas e muitas outras miudezas necessárias, além de roupas e utilidades de uso pessoal. Era tanta a bagagem e tão pouca  a F 1000, que mal pudemos nos acomodar; éramos mais de quinze, entre crianças e adultos, e ainda o Nick, um cachorrinho poodle. Rafael quis ficar na cidade arrastando a asa às moças.

Preparando a viagem
E roda rolando na estrada.
Primeira surpresa: paramos numa cancela com guarita e funcionário a cobrar pedágio. Estou acostumado a pedágios, mas aquele não era cobrado pelo governo ou empresa legalmente constituída e licitada para tal, mas por particulares, donos das terras pelas quais enveredava a estrada. Fizemos uma “vaquinha”, pagamos o leite e seguimos. Não obstante, a estrada, dali em diante, só piorava. Na boleia, alegria.

A festa na boleia
E a paisagem, cheia de buritis e vegetação variada e viçosa, foi dando lugar a pastos cercados, entremeados por campos aparentemente livres, ou desprovidos de cercas. Enquanto passávamos, tranquila ema desfilava no campo. Mais à frente, matacões de granito (?) afloravam da terra entre o verde da vegetação rasteira; de variados tamanhos e formas arredondadas, alguns semelhavam ovos de algum ser gigante e desconhecido. Dali em diante estes seres insólitos e inesperados para mim, e que pareciam vigiar a estrada e a quem nela se aventura, se tornaram uma constante na paisagem.
Sobranceiro à estrada, na encosta de um pequeno outeiro, um desses insólitos matacões de granito. Pousadas nele, duas corujas arregalam os olhos. E um par de araras, no cimo de um pau de árvore, nos vigiam em silêncio. E o nosso pau-de-arara parado na estrada. Mais um pedágio!, fantasio eu.

O registro da nossa passagem
Não era pedágio, nem estávamos escangalhados, não. Era para pichar  no matacão uma inscrição assinalando a passagem da nossa comitiva. Diogo e Pedro, que para tal traziam spray branco na bagagem, providenciaram a inscrição: PAPIMARARIO 2013. Pará, Piauí, Maranhão e Rio. Nossa comitiva tinha representantes de grande parte do Brasil.
Rita saiu da cabine e subiu na boleia, ajeitando-se ao meu lado e misturando os seus pés aos vinte e quatro que disputavam, uns por cima outros por baixo, meio metro quadrado de espaço. Mas a boleia era mais animada! 
E roda rolando novamente.
Eu sabia que íamos para um lugar que não tinha luz elétrica, por isso observava a rede ao longo da estrada; antes completa, ativa, agora só os postes apontavam para o alto – uma esperança para as gentes daqueles lugares. E para mim sinal que não demorávamos a chegar.Mas ainda demorava!
Uma construção abarracada à beira da estrada, encimada por uma placa de madeira rústica onde se lia, em letras abertas a fogo: Bar risca a faca. Propaganda ou advertência? Desejei parar e tomar uma cerveja geladinha, mas em face da informação da placa, era melhor não. E mais agora, que a vontade  de chegar estava estampada na cara de todos. Urgia chegar.  Mais além, um bando de urubus cercava uma carcaça bovina e um odor putrefato encheu o ar. A viagem estava ficando sinistra! Urgia chegar! O pó da estrada já fazia lama no canto dos meus olhos!

Urgia chegar
Finalmente a vila agrária de Serra Azul, com três ruas em cruz e duas ou três dezenas de construções.
Mais 2 km de estrada cada vez pior e o nosso pau-de-arara traspôs a porteira da fazenda Camaçari. Os homens da casa construíam um prolongamento da varanda, com lona e folhas de palmeira, para maior conforto dos convidados. Era hora do almoço: ensopado de galinha caipira.

Forró na varanda
Pela tarde montamos o nosso acampamento e ao anoitecer roncou o gerador a diesel. E os equipamentos eletrônicos soltaram o som. E o forró foi noite a dentro.


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Me faça esse carinho  

1 comentários:

Jussara Neves Rezende disse...

Eita! Mas que aventura, heim? E essa do pedágio rural? Se a moda pega... rs
Fez bem a sua Rita em ficar no lado animado da viagem!

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